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The Politics of Historical Representation

1 The Book of Daniel

1.1 The Politics of Historical Representation

Falk, Gächter e Kovács (1999: 12) levantam a hipótese de que os níveis de cooperação são crescentes (em experiências de gift giving) à medida que se transita de uma situação de estrangeiro (interacções anónimas e não repetidas) para uma situação de parceiro (interacções anónimas, mas repetidas) e para um enquadramento de aprovação (interacções não anónimas e repetidas). Na situação de estrangeiro só teriam lugar considerações de reciprocidade intrínseca (o que vale por dizer que não se está efectivamente na presença de reciprocidade, mas de uma predisposição naturalizada para responder em espécie à oferta de um outro desconhecido), enquanto que na situação de parceria, dar-se-ia conta da reciprocidade intrínseca acrescida de efeitos reputacionais (resultantes da interacção repetida e da aprendizagem social). Por seu lado, a situação de aprovação seria mais complexa, uma vez que levaria em linha de conta as duas dimensões anteriores (reciprocidade intrínseca e reputação), mas com a adição da aprovação/ desaprovação social (o que permitiria avaliar o efeito de incentivos extrínsecos não resultantes da mera repetição da interacção).

Será de realçar que estes autores possuem a consciência clara da alteração que é introduzida pelas variáveis repetição do encontro social, reputação dos agentes, efeitos de aprendizagem, incentivos e desincentivos de aprovação, controlo social e redução ou eliminação do anonimato, mas limitam-se a postular uma única direcção evolutiva do adensar da reciprocidade, ou seja, testam apenas a hipótese do acréscimo de cooperação pela

alteração das variáveis anteriormente listadas, fugindo-lhes a dimensão de reciprocidade

negativa que pode estar subjacente. No limite, testam mais uma hipótese de equidade (teste de uma cauda) do que uma hipótese de reciprocidade (teste de duas caudas). Escapa a estes autores, o que aliás acontece à maior parte dos economistas experimentais que conduzem testes à reciprocidade, que a intensificação relacional e o adensar emocional são uma faca de dois gumes. A conclusão experimentalmente testada de que a reciprocidade aumentou pode esconder situações completamente distintas. Na verdade, a reciprocidade acrescida tanto pode funcionar positivamente como negativamente.

Afirmar que o aumento da reciprocidade corresponde a aumentos de cooperação é não entender o que identifica e define o fenómeno da reciprocidade. O aumento do anonimato nas relações sociais não só reduz o potencial de cooperação directa dos indivíduos, como também tende a baixar os níveis de vingança e de retaliação, ou seja, as

86 Note-se que, em todo o caso, os principals colhem mais benefícios numa situação de incentivos do

que numa situação de reciprocação, mas à custa de perdas de eficiência. O somatório dos ganhos do

principal e do agent é sempre maior em contextos de reciprocidade (cf. Fehr e Gächter, 2000: 18),

embora haja aí um enviesamento dos ganhos na direcção do agent. Esta situação parece configurar o já conhecido dilema do curto e do longo-prazos. As vantagens da reciprocidade parecem ser mais nítidas quando o horizonte temporal se alarga.

sociedades de reciprocidade são necessariamente mais quentes do que as sociedades dominadas por princípios mercantis. Esta não é, bem entendido, uma afirmação nova. Basta lembrar a tese do comércio como adoçante dos costumes e elemento civilizacional de capital importância para perceber até que ponto a reciprocidade está longe de ser apenas o fautor dos paraísos terrenos. O carácter idílico da reciprocidade corresponde a uma leitura unilateral do fenómeno. Reciprocar significa intensificar e adensar uma relação nos dois extremos do espectro de distribuições comportamentais. Se é um facto que a reciprocidade incrementa a cooperação, ela também faz variar positivamente a dimensão agonística e competitiva. Neste quadro, cooperação e conflito não devem ser vistos como duas facetas contraditórias, antes sendo o resultado do mesmo processo social - aquilo a que chamamos um acelerador social. Na ausência de sistemas de reciprocação, o adensar da cooperação ou do agonismo não dependem mais das características internas da relação social, antes implicando a mobilização de factores de controlo e coerção (sejam eles morais ou jurídicos). A eliminação sistemática das formas relacionais inteiramente dominadas pela reciprocação (formas essas que se circunscrevem a quadros residuais ou sobrevivem em situações liminares) tem a característica notável de produzir sobretudo efeitos na redução das espirais de vingança e de retaliação, deixando praticamente intocável o potencial de cooperação. Por outro lado, a relação de anonimato tende a aproximar as escolhas comportamentais de um quadro de racionalidade estrita, ou seja, quanto menor for a presença do outro e a influência da sua presença, mais próximos estaremos de acções postuladas por um modelo de homo

œconomicus.

As diferenças encontradas em situações experimentais sempre que é levantada a condição restritiva do anonimato (seja entre jogadores, seja entre os jogadores e o(s) condutor(es) da experiência) revelam bem até que ponto o desenvolvimento das interacções e das trocas sociais caminha na direcção da emergência espontânea de normas sociais associadas à reciprocação e afastadas da hipótese simples da maximização da utilidade. A ausência de anonimato prefigura situações de controlo social e de ajustamento comportamental, bem como a construção de expectativas moldadas aos condicionalismos impostos pela interacção personalizada. A reciprocação pressupõe um fenómeno de identificação e de reconhecimento que obriga a que as condições de oferta e de aceitação não sejam necessariamente iguais às de outros encontros. A simples presença física do outro pode ser suficiente para induzir um resultado diferenciado. No que respeita à contribuição que cada elemento dá, não basta a existência de coesão ou de identificação, torna-se necessário o incentivo do reconhecimento. A visibilidade e a identificação favorecem a emergência de comportamentos de reciprocidade.

Bohnet e Frey (1999b) introduzem uma nuance interessante relativamente aos jogos de ditador e de dilema do prisioneiro, salientando que a interacção verbal nem sempre é necessária como factor indutor da cooperação, sendo, por vezes, suficiente o mero reconhecimento e identificação do outro. Desta forma, o silêncio não corresponde necessariamente a uma comunicação vazia, podendo a reciprocação e a confiança

estabelecerem-se em vazios verbais, mas prenhes de sentido. O simples facto de se passar de uma relação anónima para uma relação de conhecimento/reconhecimento/identificação é suficiente para aumentar os níveis expressos de solidariedade. A identificação decresce a distância social e permite o estabelecimento de uma relação de empatia, dado que contraria a relevância das experiências laboratoriais expressamente conduzidas num contexto de anonimato, por forma a evitar as presumíveis contaminações introduzidas pelo inter- conhecimento ou pelo estabelecimento de uma relação. O problema reside no facto de essas experiências se assumirem claramente como formas de testar a evolução da interacção ao longo de etapas sucessivas e de repetições de encontros sociais. A tentativa de preservação de uma relação não contaminada pelo reconhecimento/identificação do outro, mais não é do que o reconhecimento implícito de que não se está a testar a reciprocidade.

O comportamento de dádiva ou a indução da reciprocidade são tanto mais fáceis quanto mais o outro for visto como uma pessoa próxima e não como uma estatística ou um número com o qual não podemos estabelecer uma relação social. A própria indução de um comportamento orientado para o outro, como seria o caso da doação de sangue, será tanto mais fácil quanto se consiga estabelecer uma relação de causalidade previsível entre um acto específico de doação e um resultado palpável de melhoria ou de cura. A nomeação da vítima ou do carenciado (mesmo que tal seja feito com o recurso a um pseudónimo) garante o desencadear de poderosos mecanismos de identificação que criam uma relação silenciosa e à distância de simpatia entre doador e potencial receptor. Embora Bohnet e Frey não o salientem, será de realçar que o silêncio pode mesmo ter a virtude de garantir doações que não seriam possíveis com uma identificação perfeita do outro, ou seja, o silêncio garante uma empatia que idealiza o outro e forja uma reciprocação virtual. A total revelação do outro poderia provocar efeitos de desilusão que anulariam as intenções iniciais de doação. A reciprocidade indirecta, com as concomitantes cadeias de dom, seria assim facilitada, ou tornar-se-ia possível, graças à construção de um sistema de identificações parciais. Chamamos sistema de identificação parcial a um mecanismo social que garante que o receptor não seja uma figura anónima ou um dado estatístico, mas que, ao mesmo tempo, não garante uma interacção viva com a figura que se ajuda. Da mesma forma, o agradecimento ou o retorno do dom na cadeia de reciprocidade, processa-se da mesma forma e a gratidão expressa-se de um modo que não envolve uma interacção face a face.

Em contextos de jogo de dilema do prisioneiro, Bohnet e Frey (1999b: 49) concluem que a transição do anonimato para a identificação mútua acresce a solidariedade (definida pela escolha de uma estratégia cooperativa) e que esta é aumentada ainda mais com a transição da simples identificação para a comunicação. Em contexto de jogo de ditador, a solidariedade aumenta com a passagem do anonimato para a identificação mútua, mas baixa um pouco quando nos movemos para a comunicação entre participantes. Em contextos onde a escolha estratégica é mais relevante, a comunicação aumenta os níveis de solidariedade, mas em situações em que existe uma forte assimetria entre os participantes, a identificação garante de forma mais nítida a solidariedade do que a comunicação. Quanto mais

assimétrica for a relação mais negligenciável será o papel da comunicação aberta entre os participantes. A doação e o comportamento solidário serão fortemente induzidos pela identificação parcial.

Em palavras simples, a comunicação aumenta a solidariedade em contextos de reciprocidade simétrica que liga pares e possui um efeito negligenciável ou mesmo negativo em contextos de forte assimetria relacional. No entanto, as experiências discutidas por Bohnet e Frey também parecem indiciar que a simples identificação gera menos solidariedade do que a identificação acrescida de informação suplementar sobre o outro (dado que é contrariado pelo estudo de Jenni e Loewenstein, 1997). A este nível, a explicação também não será difícil. O ditador (do jogo) tenderá a identificar-se fortemente com aqueles sobre os quais recebe uma informação que vai ao encontro dos seus gostos e preferências, aumentando o seu nível de empatia e levando-o a uma contribuição acrescida. Neste caso, não se pode falar do efeito de uma norma de equidade, mas simplesmente do resultado da evolução de um padrão de interacção, ainda que estabelecido à distância (cf. Bohnet e Frey, op. cit. 51).87

Proposição 26: A intensidade emocional e a lógica de excesso associadas à reciprocidade, tanto podem gerar efeitos de escalada de doação como de escalada de retaliação. A resposta deve ser encontrada no tipo de relação social estabelecida e nas molduras que estruturam o encontro social. As sociedades de reciprocidade podem ser definidas como sociedades quentes que necessitam da identificação e reconhecimento do outro. Em contextos mercantis, a reciprocidade indirecta resulta, sobretudo, de sistemas de identificação parcial.