3. Research questions and predictions
4.2 The participants
Como visto nos capítulos anteriores, as referências ao campo da Linguística, do discurso e da linguagem são constantes nos seminários e nos escritos de Lacan. Um percurso pela sua obra permite ao leitor identificar vastos e constantes empréstimos de noções da Linguística Saussureana e um constante diálogo com diversos linguistas, principalmente, Benveniste e Jakobson. Sabemos que o diálogo mais direto e frutífero de Lacan com a Linguística Saussureana ocupa o primeiro momento de seu ensino na década de cinquenta, conhecido como o retorno a Freud, época em que as contribuições de Benveniste mostraram-se fundamentais e decisivas para o pensamento de Lacan. A partir do início da década de sessenta, assiste-se ao progressivo afastamento do campo da Linguística Estrutural e a uma aproximação da Topologia e da Lógica. Em contrapartida, sua preocupação com os fenômenos da linguagem permanece viva até o último momento de sua obra, não sendo possível, do ponto de vista de Lacan, desvincular a Psicanálise de um interesse sobre a linguagem.
202
ROUDINESCO, E. (1993) Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de
Além desses fatos, há ainda na trajetória lacaniana relativa às questões sobre a linguagem, um ponto de menor ênfase, raramente abordado pelos seus leitores e, da mesma forma, abordado pelo próprio Lacan de maneira esparsa e opaca: a gramática. As referências e empréstimos lacanianos retirados do pensamento gramatical, não muito esclarecidos em sua obra, centram-se, fundamentalmente, no vasto compêndio de gramática apresentado na seção anterior, intitulado Des mots à la pensée: Essai de grammaire de la langue française, da dupla autoria de Jacques Damourette e Edouard Pichon, publicado no período entre 1911 e 1940.
Precisar os pontos de seus textos e seminários em que alusões explícitas a esses gramáticos aparecem não constitui tarefa fácil, dado a sua relativa raridade. Essa dita raridade não retira o peso e a importância que os gramáticos têm para o ensino e o
pensamento de Lacan, tal como destaca Miller (2005, p. 95)203 na seguinte passagem:
“O próprio Lacan localiza o ponto de partida de seu ensino quando investe sua reflexão em uma repartitória – termo emprestado de autores muito praticados por Lacan,
Damourette e Pichon – do simbólico, do imaginário e do real.” (Grifo meu)
Algumas das referências mais diretas à gramática de Damourette e Pichon podem ser encontradas no seminário 6 O desejo e sua interpretação, do biênio de 1958-59 e de forma mais tímida, mas não menos crucial, no seminário 3 As psicoses, do biênio de 1955-56. A dupla de gramáticos constitui referência fundamental para problematizar uma questão crucial posta por Lacan, porém constantemente eclipsada pelas questões da ordem da linguagem e do discurso, essas mais evidentes em seu pensamento: como pensar o inconsciente a partir da gramática? É importante destacar que Damourette e Pichon publicaram em 1925 um artigo na revista L´Evolution psychiatrique que, como esclarece o título, ocupa-se diretamente dessa questão: La grammaire en tant que mode d’éxploration de l’inconscient.
203
Miller, J.A. (1994-95) Silet- Os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
Em uma conferência proferida no Hospital Saint-Anne, em 4 de novembro de 1971,
essa questão aparece com destaque no discurso de Lacan (2011, p. 19)204, em uma
afirmativa pouco usual em sua obra: “Ao contrário do que pensa a massa dos ouvintes, o inconsciente tem a ver, em primeiro lugar, com a gramática.” Após afirmar, durante grande parte de seu ensino, que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, Lacan surpreende seu ouvinte, ao dizer que o inconsciente tem a ver, em primeiro lugar, com a gramática. Ainda que essa afirmativa seja subversiva, Lacan sempre pensou a lógica da fantasia como uma construção gramatical, essa extraída do texto freudiano de 1919 Bate-se numa criança. No Seminário 15 O ato psicanalítico, do biênio de 1967- 68, ele enuncia: “Essa dimensão própria à gramática que fazia com que a fantasia pudesse ser literalmente dominada por uma frase que não se sustenta, não se concebe de outra forma que não seja pela dimensão gramatical: ein Kind wird geschlagen, bate- se numa criança.” (Lacan, s/d, p. 94)
Antes de me deter com mais acuidade sobre essa questão, proponho apresentar esses dois gramáticos pouco conhecidos, principalmente do público brasileiro, com o objetivo de localizar a sua importância para o pensamento de Lacan. Primeiramente, de acordo
com a pesquisa levantada por Arrivé (1999)205, é relevante a informação de que Lacan e
Pichon se conheceram e se relacionaram, sendo o segundo um mestre a ser respeitado pelo primeiro. O fato também é comentado por Miller, ao falar da expressão dizência lacaniana:
Eu disse dizência. Esta não é uma palavra que eu tenha forjado, mas sim um termo introduzido por Damourette e Édouard Pichon em seu Essai de grammaire de la langue française, do qual Lacan o tomou. Aliás, ele teve um relacionamento pessoal com Édouard Pichon, que além de gramático, era psicanalista e acolheu favoravelmente o jovem Lacan nesse meio,
204
LACAN, J. (1971) Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011. 205
ARRIVÉ, M. (1994) Linguagem e Psicanálise, Lingüística e Inconsciente: Freud, Saussure, Pichon,
dedicando-lhe um artigo em que deplorava, já naquela época, seu caráter incompreensível. (Miller, 2010, p. 9)206
Tal afirmação atribui uma tonalidade e peso diferentes na relação de Lacan com o eminente gramático, se comparada com a relação do mesmo Lacan com Freud, inteiramente mediada pela obra do pai da Psicanálise. De acordo com o que se sabe e se tem registrado, Freud e Lacan jamais se encontraram pessoalmente. A influência de Pichon no pensamento lacaniano é tão decisiva que Lacan passou primeiro pelo gramático antes de chegar ao Curso de Linguística Geral de Saussure, obra de peso e importância única na edificação de sua teoria. O contato com Pichon foi crucial para Lacan se iniciar e descobrir a obra saussureana. Na ocasião da defesa de sua tese de
doutorado A psicose paranóica e suas relações com a personalidade (2011)207, Lacan
registra seu reconhecimento e admiração por Pichon na dedicatória onde aparece a
seguinte frase: “A que se acrescenta menção aos mais velhos que honro, dentre os quais
Édouard Pichon.” É relevante o fato de que, dentre todos os mestres, Lacan, em sua dedicatória, cita exclusivamente o nome de Pichon. Essa diferenciada admiração por Pichon é demonstrada na seguinte passagem extraída da biografia de Lacan redigida por Roudinesco:
Quanto aos pioneiros do movimento psicanalítico francês, ignorava-os soberbamente, salvo por interesse de carreira. Com exceção de Édouard Pichon, a quem recorria com fervor, não tinha muita simpatia pelos outros mais velhos, que, verdade seja dita, não eram verdadeiros inovadores.
(Roudinesco, 2001, p. 84)208
206
MILLER, J. A. (2010) Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.
207
LACAN, J. (1932) Da psicose paranóica e suas relações com a personalidade. São Paulo: Forense Universitária, 2011.
208
ROUDINESCO, E. (1993) Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de
No entanto, ainda de acordo com a pesquisa historiográfica levantada por Roudinesco (2001), a tese de Lacan sofreu uma progressiva rejeição no início dos anos trinta e foi ignorada pela primeira geração psicanalítica francesa: nem mesmo Pichon fez qualquer alusão ou referência a seu respeito ou conhecimento.
No que se refere especificamente à longa gramática redigida pela dupla de autores, ela consiste em sete extensos volumes que, ainda segundo as informações de Arrivé
(1999)209, formam um compêndio gramatical de uma amplitude que nenhuma outra
língua, além do francês, jamais motivou. Cada volume é divido em partes dedicadas a um tema, cada uma delas chamada de Livro (Livre). Cada livro, por sua vez, é composto por capítulos que dissecam um aspecto específico da estrutura gramatical da língua francesa. No total, a gramática conta com seis livros em seus sete volumes. Cada um desses sete volumes está repleto de exemplos retirados do cotidiano, da literatura, de libretos de ópera, de diversos momentos diacrônicos da língua francesa, ainda exemplos retirados da correspondência pessoal e da instrução de uso de aparelhos domésticos.
Esse estilo carnavalesco e heterogêneo é coroado com um glossário dos termos
específicos. Segundo Arrivé (1999, p. 122)210, “...um estilo inimitável, ao mesmo tempo
irônico e apaixonado, de uma elegância intencionalmente antiquada, às vezes altiva, às vezes ligeiramente familiar...” Damourette e Pichon trabalharam intensamente nos volumes da gramática a partir de 1911, sendo que ambos viveram até a publicação do quinto volume. No contexto desta tese, faço o seguinte recorte: no primeiro volume, utilizo o capítulo VII La négation, pertecente ao livro II; o capítulo primeiro do terceiro livro, role de la phonétique en grammaire; e o quarto capítulo do quarto livro, Sexuisemblance du substantif nominal. No quarto volume, utilizo o capítulo dezessete do quinto livro, La personne et la blocalité dans le verbe. No sexto volume, utilizo os capítulos quatro a oito do sexto livro, que se denominam, respectivamente: Le
209
ARRIVÉ, M. (1994) Linguagem e Psicanálise, Lingüística e Inconsciente: Freud, Saussure, Pichon,
Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
210
ARRIVÉ, M. (1994) Linguagem e Psicanálise, Lingüística e Inconsciente: Freud, Saussure, Pichon,
discordantiel, Les instruments d´abornement: forclusifs et uniceptifs, Expression instrumental de la personne, La personne tênue e La personne étoffé. Por fim, no sétimo volume, utilizo o capítulo dezesseis do sexto livro, Expression instrumentale du temps.
No que se refere aos aspectos da gramática de Damourette e Pichon adotados por Lacan, é possível destacar a teoria da pessoa gramatical e a análise da negação em francês, sendo dessa última que Lacan buscará o conceito de forclusão para traduzir o termo freudiano Verwerfung e especificar o funcionamento do inconsciente na psicose. Esses dois aspectos da gramática de Damourette e Pichon incidem em Lacan sobre o mesmo ponto, como atesta Arrivé (1999) e a leitura do seminário 6, O desejo e sua interpretação, do biênio de 1958-59, esclarece e evidencia: a questão e a problemática sobre o sujeito da enunciação.