Martha Batalha é uma escritora brasileira cuja obra de estreia, antes de ter sido acolhida por uma editora no Brasil, despertou o interesse de editores estrangeiros. O romance A vida invisível de Eurídice Gusmão, lançado no Brasil em 2016, foi levado para a Feira do Livro de Frankfurt, em 2015, depois de ter sido rejeitado por várias editoras brasileiras e, instantaneamente, os direitos da obra foram comprados primeiro por uma editora alemã e, em seguida, por editoras de países como França, Itália, Portugal, Holanda e Espanha. Essa obra ganhou espaço primeiramente na Europa; foi traduzida para nove idiomas; seus direitos foram vendidos para um produtor de cinema e culminou no filme homônimo, dirigido Karim Aïnouz, que foi exibido no Festival de Cannes e ganhou o prêmio principal da Mostra Um Certo Olhar, nesse mesmo festival, em 2019. Nesse sentido, considerando-se o papel da crítica literária e da literatura enquanto mecanismos que pensam as margens e os processos sociais e políticos que privilegiam as relações de dominação masculina tanto na esfera privada, por meio de instâncias de manutenção de poder e controle das mulheres, como a família nuclear, quanto na esfera pública, por meio do controle do campo literário, como o alijamento de mulheres escritoras do cânone nacional, é que nessas reflexões objetivo pensar nas questões que estão imbricadas, por exemplo, na dificuldade de as escritoras e suas obras conseguirem ocupar o mesmo espaço que seus colegas homens e as suas obras ocupam no campo literário brasileiro, compreendido aqui a partir das concepções de Pierre Bourdieu, conforme apresentado na introdução desta tese.
No caso de Batalha, após as negativas que levaram sua agente literária a buscar o mercado editorial internacional, a obra foi publicada pela Companhia das Letras, uma das editoras mais centrais do campo literário brasileiro. Os rumos que tomou o destino de A vida invisível de Eurídice Gusmão contrariaram, nesse sentido, as regras desse campo que, no caso do Brasil, é um espaço da esfera pública que vêm sendo controlado ao longo dos séculos de modo a garantir, por exemplo, o alijamento de mulheres escritoras do cânone. No que se refere a essa afirmação, são relevantes os dados da pesquisa “A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1994-2004”, na qual se investigou 258 romances publicados entre 1990 e 2004 pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco e que foi desenvolvida na UnB. A coordenadora da pesquisa, a professora Regina Dalcastagnè, afirmou que “os números indicam, com clareza, o perfil do escritor brasileiro. Ele é homem, branco, aproximando-se ou já entrado na meia idade, com diploma superior, morando no eixo Rio-São Paulo” (Dalcastagnè, 2005, p. 33).
Esse “perfil médio dos escritores” também está próximo da representação das suas personagens nos romances brasileiros contemporâneos, já que, de acordo com a pesquisa, essas personagens são predominantemente do sexo masculino (entre as personagens estudadas, 773 (62,1%) são do sexo masculino, contra apenas 471 (37,8%) do sexo feminino). As mulheres, além de serem minoritárias nos romances, têm menos acesso à “voz” — isto é, à posição de narradoras — e ocupam menos as posições de maior importância. Ademais, o espaço ocupado pelas personagens mulheres representadas no romance brasileiro contemporâneo é, sobretudo, o espaço doméstico. Com relação à cor, observou-se que a personagem do romance brasileiro contemporâneo é branca, já que os brancos somam quase quatro quintos das personagens, com uma frequência mais de dez vezes maior do que a categoria seguinte (negros). E, por fim, a orientação sexual das personagens dos romances também mostra uma clara preponderância, com uma ampla maioria heterossexual — mais de 90% das personagens são heterossexuais.
Nessa perspectiva, sabendo que estar centralizado no campo literário tem sido um privilégio dos homens que, ainda atuando como cânones críticos e teóricos, tradicionais, masculinos e brancos na construção da historiografia social e literária brasileira invizibilizaram muitas produções teóricas e literárias de autoria feminina produzidas antes do século XIX, pretendo discutir, neste tópico, como determinadas questões, a exemplo de gênero, classe, raça, lugar de origem, relacionam-se à rejeição/recepção da literatura de autoria feminina no campo literário brasileiro. Por isso, partindo do exemplo da referida escritora que ganhou espaço no cenário internacional em detrimento do nacional por meio da legitimação de sua escrita por agentes do campo, como os editores e as práticas discursivas, que incluem os discursos da mídia, a ideia é expandir a reflexão para abranger outras escritoras que, diferentemente de Martha Batalha e a despeito da qualidade da sua produção literária, ainda não conseguiram que suas obras fossem publicadas por uma grande editora — Conceição Evaristo, por exemplo, é uma escritora, poeta e crítica literária que, já idosa, é quem também trabalha com a venda de seus próprios livros, tanto negociando pelas plataformas digitais quanto puxando uma mala com exemplares pelos eventos em que figura, na maior parte das vezes, como principal conferencista.
Antes de discutir as tensões de gênero e suas interseccionalidades no campo literário, esclareço que, nesta tese, um dos conceitos de gênero que balizarão as discussões é o desenvolvido por Iris Young, que concebe gênero como serialidade. Em seu texto
“Gênero como serialidade”, ao discutir as dificuldades de as teorias feministas descreverem as mulheres como um grupo sem normalizar ou essencializar, essa pesquisadora sugere que esse dilema seja resolvido por meio do uso do conceito de serialidade, desenvolvido por Sartre em sua Crítica da Razão Dialética. Para a autora, as vantagens em se compreender gênero como serialidade incluem pensar as mulheres como um coletivo social sem exigir que todas elas tenham atributos comuns ou uma situação comum. Young desenvolve a sua argumentação em torno de problemas que vão desde a questão da busca pelas características comuns das mulheres, que, por sua vez, conduz a normalizações e exclusões, até a crítica ao discurso do individualismo liberal que, de acordo com a autora, ao negar a realidade dos grupos, obscurece a opressão. Young afirma que se não for possível conceituar as mulheres como grupo, também não será possível conceituar a opressão como um processo sistemático, estrutural e institucional. Conforme argumenta a autora:
a tentativa de nomear as mulheres como um coletivo social específico e distinto é um objetivo difícil, que dá ao feminismo a sua especificidade enquanto movimento político. Raramente se põe a possibilidade de, por exemplo, conceituar grupos étnicos, religiosos, culturais ou nacionais, porque a sua própria existência social envolve em norma algumas tradições — linguagem, rituais, canções e histórias ou habitações. As mulheres, contudo, estão dispersas por todos esses grupos. O funcionamento da maioria dos casamentos e das formas de parentesco coloca as mulheres sob a identidade dos homens em cada um destes grupos, na privacidade do lar ou da cama. As exclusões, as opressões e as desvantagens que as mulheres sofrem dificilmente podem ser pensadas sem uma concepção estrutural das mulheres enquanto posição coletiva. (YOUNG, 2004, p.119)
A autora defende, então, que o primeiro passo para a resistência feminina a essas opressões é a afirmação das mulheres como um grupo de modo que elas não se sintam divididas bem como não acreditem que os seus sofrimentos sejam pessoais ou naturais. Portanto, para Young, a política feminista só permanecerá consistente com uma concepção de mulheres como coletivo social. Assim, para superar as dificuldades lógicas e políticas inerentes à tentativa de conceituar as mulheres como um único grupo, a autora propõe que o gênero seja entendido como “referindo-se a uma série social, um tipo específico de coletividade social que Sartre distingue de grupos” (YOUNG, 2004, p.123). A autora explica que Sartre distingue, em seu trabalho, diversos níveis de coletividade social, mas, para abordar a questão das mulheres enquanto coletivo social, ela irá priorizar a distinção que o teórico faz entre grupo ― considerado um conjunto de pessoas que se reconhecem mutuamente e tem um objetivo comum ― e série ― um grupo que emerge
de uma unidade coletiva que não é consciente nem organizada. Assim, “uma série é uma coletividade social cujos membros são unidos passivamente pelos objetos para os quais as suas ações estão orientadas, e/ou pelos resultados objetificados dos efeitos materiais das ações dos outros” (YOUNG, 2004, p. 125). Nesse contexto, Young explica que:
Na conceituação de Sartre [...] um grupo é uma coleção de pessoas que se identificam mutuamente; que se reconhecem mutuamente umas às outras como pertencendo em conjunto, a um grupo, grupo esse que possui um projeto comum que define a sua ação coletiva. Uma série, por outro lado, não é uma identidade mutuamente reconhecida, não tendo qualquer projeto comum ou experiência partilhada. As mulheres não precisam de ter nada em comum nas suas vidas individuais para serem serializadas como mulheres. (YOUNG, 2004, p. 135)
Portanto, a autora considera que conceituar o gênero como serialidade evita tanto o problema de tentar identificar atributos específicos que todas as mulheres possuam quanto o problema da identidade. No entanto, salienta também que o fato de a mulher ser entendida como um coletivo serial que não é definido por um conjunto de atributos comuns que todos os outros indivíduos na série partilham também não impede que as mulheres se unam caso tenham um objetivo comum e específico. E conclui explicando que, inevitavelmente, o gênero acaba serializando, de modo específico, mesmo aquelas mulheres que não se identificam com outras mulheres, ou seja, mesmo pertencendo a diferentes contextos sociais ou estando em momentos de vida diferentes, pelo fato de sermos mulheres acabamos serializadas no gênero.
conceito de serialidade torna-se útil para abordar a questão da relação entre a pessoa individual e a raça, a classe, o gênero e outras estruturas coletivas. Se todas essas estruturas materiais são formas de serialidade, então não definem necessariamente a identidade dos indivíduos, nem nomeiam necessariamente atributos que partilham com outros. São estruturas materiais que emergem das ações e expectativas institucionalizadas e historicamente conservadas, que colocam e limitam os indivíduos em alguns aspectos, com os quais tem de lidar. A posição do indivíduo em cada uma das séries significa que elas diferem em experiências e percepções de outras que estejam situadas de modo diferente; mas a mesma pessoa pode relacionar-se com elas de modo diferentes, em diferentes contextos sociais ou em diferentes momentos da sua vida. (YOUNG, 2004, p. 133)
Esse conceito é relevante para pensar as relações entre as escritoras e o campo literário tendo em vista que, conforme informa a pesquisadora Virgínia Maria Vasconcelos Leal, em seu trabalho As escritoras contemporâneas e o campo literário brasileiro: uma relação de gênero, as mulheres “têm que lidar com o seu gênero, seja pela negação ou apropriação” (LEAL, 2008, p. 5). Para ela, serializadas como mulheres
e, mais especificamente, serializadas como mulheres escritoras elas têm de lidar com elementos que marcam a própria história da inserção das mulheres no campo literário: “as negociações a serem feitas com as editoras que as publicam, as estratégias de difusão de suas obras, que ora as destacam como vozes femininas ora não, a fotografia na orelha do livro, os critérios de avaliação da crítica, acadêmica ou não, entre outras” (LEAL, 2008, p. 5). Virgínia Maria Vasconcelos Leal (2008, p. 5) se ocupou em entender como as escritoras contemporâneas posicionam-se e são posicionadas no campo literário e, ainda, como se dão as condições para o exercício da literatura por parte das mulheres para concluir que “a atuação das mulheres no espaço público ⎯ e podemos considerar a literatura assim ⎯ é marcada pelo movimento feminista, em suas diversas lutas pela emancipação feminina e pelo questionamento das hierarquias entre os gêneros” (LEAL, 2008, p. 216-217), ou seja, na perspectiva da pesquisadora, os feminismos, como movimento social, atuam sobre o campo literário na medida em que vem possibilitando mudanças externas a ele, como as que vêm ampliando as possibilidades de acesso a outros sujeitos, no caso, às mulheres a esses espaços de poder.
Nesse sentido, tendo em vista essa relação mulheres e campo literário inclui marcas e demandas que envolvem questões de gênero, nesse caso específico, marcam as trajetórias dessas escritoras, esclareço que a minha ideia, nesta discussão, não é desenhar no imaginário das(os) leitoras(es) uma luta simbólica entre duas escritoras, pelo contrário. A ideia é denotar como, além de serem serializadas no gênero, nos termos de Iris Young, essas mulheres escritoras são marcadas por outras intersecções, como a de raça e de classe, que ainda tornam mais invisíveis as eurídices, sobretudo aos que são negras, no campo literário brasileiro, como é o caso de Conceição Evaristo, que vem produzindo literatura ininterruptamente há mais de 30 anos. Essa escritora que herdou dos seus ancestrais o interesse pela palavra, falada e escrita, e que, segundo seus relatos, tomou, ainda na infância, consciência sobre as intersecções de classe, raça e gênero que perpassavam as suas vivências, quando se tornou adulta, encarou, em seus próprios termos, a pobreza como um lugar fundamental de aprendizado, ressignificou sua experiência de mulher, negra e pobre, e transformou-a em palavra-resistência, tornando- se uma escritora que não se esquiva em declarar em textos e entrevistas que sua condição de mulher negra marca a sua escrita de forma consciente. Embora escreva há mais de três décadas, foi somente há 15 anos que as suas obras começaram a ser publicadas
individualmente e se tornaram, além de objeto de leitura, foco da crítica literária que se constrói, sobretudo no Brasil, nas academias mais progressistas.
A trajetória literária da escritora iniciou-se em meados dos anos de 1980 quando escreveu seu primeiro romance, Becos da memória, o qual só foi publicado anos depois, e de seis poemas, em 1990, nos Cadernos Negros, organizado pelo grupo Quilombhoje, idealizado e coordenado por um grupo de escritoras e escritores negros. Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestra em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), sua primeira publicação independente ocorreu somente em 2003, com o romance Ponciá Vicêncio, cuja primeira edição, pela Mazza, foi custeada pela própria escritora. Na esteira desse primeiro romance, reeditado pela Pallas em 2017, veio Becos da Memória, o livro que havia ficado engavetado durante 20 anos e que, em 2006, também foi publicado pela Mazza. Esse romance ganhou duas reedições: a primeira, em 2013, pela Editora Mulheres, e a outra em 2017, pela editora Pallas. A autora ainda publicou as coletâneas Poemas da recordação e outros movimentos, pela Nandyala, 2008, e Malê, 2017; Insubmissas lágrimas de mulheres, Nandyala, 2011, e Malê, 2016; Olhos d'água, pela Pallas, 2014; e o livro de contos e novela, Histórias de leves enganos e parecenças, Malê, 2016, e Malê, 2017.
Nesse sentido, não é um acaso o fato de a literatura de Conceição Evaristo, diferentemente de outras escritoras contemporâneas como a própria Martha Batalha, ou Socorro Aciolli ou Cíntia Moscovich — que são publicadas por editora centrais, como a já mencionada Companhia das Letras —, encontrar-se restrita a editoras que, a despeito da qualidade e do projeto político, também estão às margens do campo literário nacional. Se, na lógica canônica, as editoras se interessam por uma escritora/or a partir da atuação de outros agentes do campo literário, como as práticas discursivas, que incluem ainda os júris de concursos literários, por que Conceição Evaristo, cuja literatura vem sendo legitimada, por exemplo, pelos juris desses concursos, já que a autora ganhou o seu primeiro prêmio literário Jabuti 2015, na categoria Contos e Crônicas, com a coletânea Olhos D’água, ainda encontra tanta resistência para ser publicada por grandes editoras, a exemplo da Record, Rocco e Companhia das Letras? Por que ela integra o rol de escritoras que, desde as suas primeiras publicações, conta com o apoio de coletivos literários ou de editoras politicamente engajadas para legitimar sua escrita? Por que seus livros, ao contrário de outras mulheres escritoras contemporâneas que começaram a publicar nos
últimos cinco anos, como, por exemplo, a própria Martha Batalha, ainda não podem ser encontrados nas estantes das grandes livrarias do país? Todas as editoras que publicaram e continuam publicando os livros de Conceição Evaristo são editoras com um projeto político muito claro: com exceção da extinta Editora Mulheres, que embora também seja politicamente engajada e se centre principalmente nas questões de gênero, as editoras Mazza, Nandyala, Pallas e Malê têm em comum o fato de, além de abrirem seu espaço para mulheres escritoras, se dedicam à publicação de autoras/es negra/os e de livros que abordam temas afrodescendentes e os diversos aspectos da cultura afro-brasileira. Nesse caso, o fato de Conceição Evaristo publicar por editoras que também estão às margens do campo excede uma opção pessoal e política e denota como ainda é significativo o esforço que há no Brasil para que o campo literário brasileiro continue sendo dominado pelos cânones críticos e teóricos, tradicionais, masculinos e brancos, que construíram a historiografia social e literária.
A trajetória literária de Conceição Evaristo levanta uma das questões mais importantes relativas ao lugar das mulheres escritoras, como Martha Batalha, mas, principalmente, ao das mulheres negras, no campo literário brasileiro. Conceição Evaristo, por exemplo, a despeito da qualidade artística e literária da sua obra, se considera a “canônica das margens76”. Para além das margens que Conceição Evaristo orgulha-se de pertencer — já que, segundo ela, toda sua inspiração literária vem das margens, e é desse lugar de onde fala —, a expressão, pensada pela escritora como uma ironia para provocar o próprio cânone, denota, sob outro viés, como o campo literário brasileiro ainda compactua, nos termos de Rita Terezinha Schmidt, “com a política das exclusões que sustenta a lógica canônica” (SCHMIDT, 1996, p. 117). Em seu texto “Cânone/ Contra - Cânone: Nem aquele que é o mesmo nem este que é o outro”, além de afirmar que o discurso crítico sempre esteve atrelado à herança de uma identidade cultural ocidental europeia na medida em que compactuou com essa política das exclusões mencionada anteriormente, Schmidt argumenta, ainda, que todo processo do cânone é
76 Conceição Evaristo, em uma entrevista para o Nexo Jornal, ao ser indagada sobre o fato de já ter sido chamada de “canônica das margens” ela explicou que “Essa expressão é de uma pesquisadora da Universidade Federal de Juiz de Fora. Como há muitas pesquisas sobre os meus trabalhos, normalmente os pesquisadores dessa literatura não canônica dizem que eu seria a canônica da margem. E como alguns que também estão produzindo nessa “margem” citam meus textos, já me têm como referência, ela me intitula assim. Acho que é muito mais uma expressão irônica, até para fazer quem define esse cânone pensar: a margem cria os seus modelos, a gente também sobrevive, vive sem estar atrelada a esse modelo que os canônicos querem nos impor. Nós criamos os nossos modelos a partir das nossas experiências. Temos também nossos paradigmas, que não são necessariamente aqueles que querem nos impor [...].”
excludente porque, geralmente, a sua constituição está pautada em seu processo de reprodução, que, por sua vez, tem uma força homogeneizadora que atua sobre a seleção e reafirma as identidades, excluindo, portanto, as diferenças. Se, conforme argumenta Schmidt, os padrões estéticos de excelência querem um todo uniforme e coerente, incompatível com o diferente, o descrédito atribuído à literatura de autoria feminina, e mais especificamente à literatura de autoria feminina negra, deve ser entendido como a forma encontrada pelos segmentos sociais em posições de privilégio de dominar o campo literário e preservar os interesses de um determinado grupo que se mantém, nesses círculos, ainda dominante.
O fato é que, como mulheres artistas, escritoras, críticas literárias, se as mulheres quiserem que seus textos não sejam invisibilizados por um sistema que ainda privilegia, em sua estrutura, homens, brancos, heterossexuais, ainda terão de lutar em várias frentes para não ser limitadas em suas potencialidades e relegadas às margens do campo. No caso de escritoras que são negras, que estão fora do eixo Rio-São Paulo e não que pertencem às classes mais favorecidas, há empecilhos ainda maiores para que a produção literária