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5. ANALYSIS OF THE TEACHING SEQUENCE

5.1. The novel

Entre os muitos aspectos de um quadro melancólico observados nessa clínica, a insatisfação com o próprio ego é uma característica marcante. Pacientes com anorexia apresentam uma profunda insatisfação com a sua vida e principalmente com o seu corpo, ressaltando ainda o quanto fazem sofrer aqueles com quem convivem. Essa seria uma característica marcante da melancolia, pois, como afirma Freud (1917), no melancólico “uma parte do ego se contrapõe à outra, avalia-a criticamente, como que tomando-a por objeto” (p.57). Se observarmos com atenção um paciente nestas condições, veremos que as depreciações e críticas que faz contra si não se aplicam verdadeiramente a ele, mas a alguém que ele “ama, amou ou deveria amar”. Isso porque esse objeto foi escolhido sobre bases narcísicas e houve uma identificação do ego com o objeto. Sendo o ego igual ao objeto, há uma recusa do melancólico em perdê-lo. O vínculo que ele tinha com o objeto, passa a ter com seu ideal. Portanto uma parte do ego, dividido, pode atacar a outra parte,

identificada com o objeto. Daí ser possível dizer do melancólico que ele não está atacando a si mesmo, mas ao objeto com o qual está identificado.

O melancólico ama e odeia simultaneamente esse objeto perdido. Refugiando-se na identificação narcisista, "o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo, insultando-o, humilhando-o, fazendo-o sofrer e ganhando nesse sofrimento uma satisfação sádica." (FREUD, 1917, p.67). Se há uma autotortura na melancolia, há também uma necessidade de, "por meio do rodeio da autopunição, vingar-se dos objetos originários e atormentar seus seres amados através da condição de doente” (idem). Por isso outro aspecto característico do sujeito melancólico é o sadismo, decorrente dos sentimentos ambivalentes para com o objeto. É esse sadismo que explica, para Freud, a tendência do melancólico ao suicídio: como esse ego trata a si mesmo como objeto, pode dirigir tamanha hostilidade contra si mesmo. Essa ambivalência, na clínica, é encenada na transferência pelos movimentos de aproximação e afastamento, amor e hostilidade. E o sadismo, pelo lugar de impotência em que o clínico é lançado através do “não há nada que você possa fazer por mim...”.

Também chama a atenção na clínica a necessidade de controle que pacientes com anorexia apresentam: controlam a fome e outras necessidades corporais, a família – que fica impotente frente a uma vontade férrea –, e tentam controlar os profissionais que conduzem o tratamento. Muitas das pacientes atendidas exigem, de seu corpo, uma submissão total às suas determinações: atingir um determinado peso que decidiram ser o ideal. Tais manifestações, que poderiam ser entendidas como um sintoma obsessivo nos parece, aqui, ser uma forma de controlar o objeto para não perdê-lo (WEINBERG, 2012).

Outro importante aspecto da melancolia, a negação, aparece no modo como as necessidades corporais são negadas: a sexualidade, a sede, a fome, os riscos decorrentes do

tipo de vida que levam, lembrando-nos, muitas vezes, da Síndrome de Cotard, uma forma extrema de melancolia delirante em que os órgãos são submetidos a transformações fantásticas10. Pacientes com anorexia afirmam, por exemplo, saber que uma pessoa pesando 30kg é magra, mas mesmo com esse peso, afirmam estar gordas. A negação do tempo, por sua vez, é ilustrada pelo fato de lamentarem não entrarem mais nas calças que usavam aos dez anos de idade e não poderem mais comprar roupas em lojas infantis.

Queixa comum na clínica, o desejo de morte não aparece, porém, como um desejo de morrer. Se questionadas, essas pacientes dizem que sua vontade é a de não sentir nada: almejam um estado de apatia total (a = ausência de/patia = pathos), um desejo de não desejar nada. Dizem, com frequência, que não sabem como é estar no mundo. São palavras de uma paciente: "Sabe como é chegar de bico numa festa? Assim eu me sinto no mundo… E me pergunto: o que é que eu estou fazendo aqui?" O que aponta, também, para uma falta de lugar, um sentir-se estrangeiro no mundo. Não por acaso, esse fato nos remete ao modo como Binswanger (1957) se refere a Ellen West no início da descrição do seu caso: “A estrangeira Ellen West...”, para depois abordar a questão da sua depressão e recusa alimentar.

O ideal impossível de ter um corpo descarnado – de "ser tão leve que possa ser levada pelo vento", como muitas vezes se ouve na clínica –, mostra o quanto esse ideal se opõe à vida e à natureza. Um ideal que exclui a vida demonstra a impossibilidade de articulação entre um e outra e aponta para um importante processo de cisão. Além disso, sugere um conflito entre o ego (corporal) e o superego (ideal), que leva à mortificação do corpo: porque não atende às exigências de um ideal, o corpo precisa ser sacrificado e torturado. O sacrifício

      

10 Ver mais sobre esse delírio de negação no artigo de J. COTARD, “Do delírio hipocondríaco em uma forma

grave da melancolia ansiosa” publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. I, n. 4, p. 151-155, dez/1998.  

do corpo é exigido em prol de um ideal distante daquilo que ele é. E porque o corpo demanda – e as demandas o afastam do ideal –, ele é tão odiado.

Também facilmente observável na clínica, a euforia (ou comportamento maníaco) – descrito nos compêndios médicos como hiperatividade –, já havia sido observada por Lasègue em seus estudos publicados em 1873. Segundo suas observações, “a doente, longe de enfraquecer, de entristecer-se, desenvolve uma espécie de alacridade (entusiasmo, alegria, vivacidade) que não lhe era costumeira” (LASÈGUE, 1873/1998, p. 162) e que “em vez de diminuir as forças musculares, a redução de comida tende a aumentar a aptidão ao movimento” (p. 163). Meninas com anorexia, pesando muito menos do esperado para a idade, são capazes de fazer em um dia o que outros precisariam de três: são as melhores alunas da escola, fazem horas de academia, ajudam nos afazeres domésticos e dormem apenas algumas horas por noite.

Segundo Isabel Fortes (2011), a obstinação, um dos traços mais marcantes dessa clínica,

... não subentende somente uma posição desafiante ante o outro, mas é também elemento revelador de quanto o sujeito em questão encontra-se profundamente amarrado ao ideal, encontrando-se aí a serviço do cumprimento de regras impostas por um superego tirânico que exige que se alcance o ideal a qualquer custo. (p.84)

Para concluir, pensamos que, ainda que concordemos com a afirmação de Philippe Jeammet (1999) de que “nenhuma referência nosográfica pode bastar para caracterizar os transtornos das condutas alimentares” (p.35), os sintomas que temos visto desfilar na clínica da anorexia nos levam a pensar que, nela, a melancolia se apresenta soberana, em toda a sua expressão.