Os aspectos considerados nesse tópico 4 são de certa forma todos intrincados na cosmovisão melanésia
Segundo Darrel Whiteman, a cosmovisão dos melanésios é dividida em duas partes: 1) A empírica; que inclui o habitat natural, seus recursos econômicos, animais e seres humanos e tudo o que se pode tocar e ver e, 2) A não empírica; que inclui os espíritos, as forças ocultas impessoais e os totens. No entanto, segundo o autor essas categorias ‘empírica’ e ‘não empírica’, são imprecisas, pois para os
melanésios o sobrenatural e o natural se entrelaçavam.47
Assim, segundo Franco Zocca, na Melanésia é difícil ou impossível
separar religião de culturas; isso, diz ele, se considerarmos ‘religião’ as crenças e
práticas direcionadas a seres ‘fora’ das experiências humanas comuns. Dessa
46 DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares de Vida Religiosa. São Paulo:
Paulinas, 1989. p. 495
47 Cf. WITHEMAN, Darrel. “Melanesian Religions: An overview”. In: WHITEMAN, Darrell L. (Editor). An Introduction to Melanesian Religions. “Point Series N°. 6”. (3ª Ed.). Goroka: The Melanesian Institute, 1995. p. 88
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forma, a religião na Melanésia era ‘cósmica, pois nela o mundo era acolhido em sua
vitalidade total; holisticamente.48
Um dos aspectos mais notáveis da vida social na melanésia era sua complexa rede de trocas, que dinamizava todas as relações sociais na lógica da reciprocidade. Todos eram incluídos nessa rede da qual ninguém escapava. Todos estavam obrigados uns para com os outros por débitos contraídos. As trocas podiam
ser de bens, mulheres (casamentos) ou pessoas.49
Os melanésios não tinham um sistema de escrita e nenhum especialista tradicional em cultura oral. A religião nesse contexto era mantida por mitos, danças e outras cerimônias e expressa em práticas. Os elementos secretos eram importantes na dimensão religiosa desses povos. Histórias míticas, crenças e outras práticas eram mantidas em segredo e reveladas eventualmente para os
membros do clã no rito de iniciação.50
Com sua visão de mundo encantada, tudo era cheio de mistérios, espíritos e divindades. Seus sonhos eram interpretados como experiências fora do corpo ou a invasão de seus corpos por um espírito; a fim de transmitir mensagens vindas ‘da outra esfera’, do ‘alto’. Essas mensagens podiam ser intermediadas também por pássaros ou outros animais; que podiam ser os ancestrais
materializados para protegerem os seus.51
As pessoas com ‘mentalidade mágica’52 não aceitam a noção de
‘acidente’. Assim, diante de um acontecimento a maioria dos melanésios primeiro
perguntava sobre ‘quem’ (humano ou espírito) o teria causado.53
Crenças em alguma forma de espírito supremo ou deus poderia estar presente, mas não era central. A maioria dos mitos coletados na Melanésia tematizava a origem do clã. Os ancestrais eram a fonte das tradições e costumes; frequentemente um par de irmãos que depois de uma briga se vão. Ficava em
48
Cf. ZOCCA, Franco. “My Work as a Research Missionary.” In.: Verbum SVD. Fasciculus 4. Vol. 52. Netherlands: The Steyl Press, 1994. p. 495
49 Idem. 50 Idem. 51 Ibid., p. 496
52 Lévi-Strauss cita um caso em que essa mentalidade surte consequências. Uma jovem é atacada
por uma crise nervosa logo após um adolescente lhe pegar pela mão. Foi o bastante para que o garoto fosse acusado de feitiçaria. Cf. LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. Rio de janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p. 199-202
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aberto a possibilidade do retorno ancestral trazendo bens para seus descendentes.
Eram mitos sempre reinterpretados, de acordo com as circunstâncias.54
De acordo com Zocca, há em toda Melanésia um grupo de ancestrais míticos conhecidos coletivamente como divindades ‘Dema’. Um ‘Dema’ seria um ancestral que foi morto violentamente ou que escolheu morrer. E do seu corpo, mal enterrado, brotam plantas ou surgem animais, importantes para o sustento da
comunidade.55
Os espíritos, habitantes no mesmo ‘cosmos’ eram ambivalentes; capazes de fazer o bem e o mal. Por isso, era preciso manter boas relações com eles e não perturbá-los. Os antepassados também precisavam ser apaziguados, pois vigiavam o clã para certificarem se os costumes e tradições estavam sendo respeitados. Os mais distantes ancestrais eram lembrados como ‘reis e protetores’,
os mais recentes eram temidos.56
Os melanésios também acreditavam em poderes ocultos não personificáveis, separados; como o ‘numen’ antigo. Espíritos e almas tinham esses poderes, mas também o tinham lugares e coisas. Segundo Franco Zocca, o termo polinésio ‘mana’ foi modificado pelos antropólogos para explicarem essa força. O ‘mana’ era adquirido por herança ou por meio de fórmulas mágicas. Sucessos incomuns, na caça pesca ou guerra eram sinais da posse do ‘mana’. Acreditavam que quem possuía ‘mana’ tinha poderes de multilocação, de controlar as forças da natureza e de causar infortúnios. Os homens que possuíam ‘mana’ eram especialmente venerados depois que morriam. Mulheres geralmente não tinham
esse poder.57
Eram muitos os tabus nas sociedades melanésias, ligados a situações tais como nascimento, gravidez, guerras tribais, iniciação e a morte de parentes. Infringir tabus era atrair desastres. E, frente a desastres, as causas suspeitas eram: os espíritos, feitiçaria, ou possíveis ofensas aos ancestrais. A solução estava na busca pela possível reconciliação com os ofendidos; espíritos, ancestrais ou
54 Idem. 55 Ibid., p. 497 56 Idem. 57 Ibid., p. 498
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pessoas vivas. No caso de feitiçaria a solução era matar o ‘bruxo’58; que muito
frequentemente era uma mulher. 59
A maioria das sociedades melanésias não possuía templos ou locais especiais de culto. Ritos mágicos eram realizados na ‘casa dos homens’, nas hortas, nos túmulos, ou um lugar importante. Algumas sociedades tinham ‘casas tradicionais’ para culto aos ancestrais, como na região do Rio Sepik, no norte da Papua Nova Guiné. Nessas casas eles guardavam objetos sagrados, como flautas,
máscaras, crânios e ossos dos ancestrais.60
A religião na Melanésia era profundamente pragmática. O ritual servia para controlar os eventos cósmicos; controlar fenômenos naturais ou fazer crescer plantas e animais, bem como favorecer a caça, pesca, fazer alguém se apaixonar, ou servia para matar ou curar. Por isso, a maioria dos antropólogos tem descrito as religiões melanésias, não como um instrumento de salvação, mas muito mais como
um ‘apanhado’ de técnicas para obter resultados.61
Havia muitos rituais. Muitos deles privados. Os de caráter público eram anuais, ou repetiam-se depois de um ciclo de anos. Durante os rituais, grandes quantidades de porcos, peixes e tubérculos eram consumidas. Eram ritos de renovação cósmica e autênticas celebrações da vida; com símbolos (e práticas) da fecundidade. Nesses ritos os mitos dos fundadores eram renovados em estória e dança. Clãs amigos podiam ser convidados e com isso eram firmadas alianças,
projetados casamentos e o prestígio do clã aumentado.62
As sociedades melanésias eram ricas em ritos de iniciação, que eram privados. Os mais marcantes eram os de puberdade, com cortes na pele, circuncisão e a revelação dos segredos do clã aos candidatos. Estes ritos preservavam a continuidade entre os espíritos ancestrais e os vivos, entre o totem e os membros do clã. Tudo isso contribuía para o senso de pertença e lealdade, como resultados do processo de iniciação. Nessas sociedades os homens ascendiam de
status por meio de ritos que eram seguidos de várias prestações (ofertas).63
58 Em seu trabalho entre os Azande, Pritchard descreve a feitiçaria como causa dos acontecimentos
‘acidentais. Cf. EVANS-PRITCHARD, E. E. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2005. p. 57-71
59
Cf. ZOCCA, Franco. “My Work as a Research Missionary”. Loc. cit.
60 idem 61 Ibid., p. 499 62 Idem. 63 Ibid., p. 500
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Em algumas partes da Melanésia, outros ritos estavam associados à introdução de novos chefes ou à entrada em alguma sociedade secreta. O ‘segredo’ ou ‘sigilo’ era um valor especial nas religiões Melanésias. Os mitos de fundação, ritos, cerimônias de iniciação, tabus, etc., eram todos mantidos em segredo e revelados somente aos iniciados. Acreditava-se que os mitos e ritos podiam perder o
seu poder se revelados a ‘outros’ ou podiam ser usados pelos inimigos.64
É claro que além dessas fortes características comuns, as religiões melanésias eram especificas em cada clã: com diferentes fundadores, mitos, ritos,
ancestrais, espíritos da natureza, objetos sagrados e fórmulas mágicas, etc.65 Mas
mesmo em sua diversidade, segundo Franco Zocca, elas partilham um núcleo de
crenças e práticas, que nos permitem olhá-las desde um ânglo mais amplo.66