Em vias de conclusão deste capítulo, cabe enfim uma análise do atual contexto museológico algarvio e de uma importante ferramenta territorial para o desenvolvimento da atividade na região, a Rede de Museus do Algarve (RMA).
O Guia de Museus do Algarve, realizado pela RMA este ano, traz um panorama geral da realidade dos museus algarvios. Iniciando com uma análise histórica, o Guia coloca que na origem da criação da RMA está o lançamento de um relatório da UNESCO intitulado “Museus Regionais e Locais” lançado no final da década de 1970 que, unido ao contexto de reestabelecimento da República no país, conforme exposto anteriormente, criou um ambiente favorável para a discussão sobre a atividade museológica na região que, apesar de ser turística por excelência, sofria com a falta de profissionais de museus. A partir desse diagnóstico por parte do novo poder democrático estabelecido e com as aceleradas mudanças económicas e sociais que ocorrem na época, o Guia ressalta
que houve uma verdadeira “corrida” à salvaguarda da identidade e das memórias coletivas o que culminou, no final da década de 1990 e início dos anos 2000, o surgimento de diversas unidades de carácter museológico no Algarve. Paulo (2011) destaca outros factores que estão no cerne dessa “explosão” de museus algarvios, como os Encontros de Museologia e Autarquias, promovidos pela Universidade Lusófona, realizados no Seixal (1996) e em Portimão (1997), a criação da Rede Portuguesa de Museus (2000) e a publicação da Lei Quadro de Museus Portugueses (2004).
Dos cinco museus que são alvo desta investigação, por exemplo, quatro surgiram durante esse período (Museus Municipais de Albufeira, Loulé, Portimão e Tavira). A exceção ocorre apenas com o Museu Municipal de Faro, cuja abertura data do final do século XIX. Informações mais detalhadas de cada um desses museus serão analisadas no próximo capítulo, além de constarem nos Apêndices.
Após o surgimento da RPM, quatro museus algarvios obtiveram a sua credenciação: Museu de Portimão e Museu Municipal de Tavira (2001), Museu Municipal de Faro (2002) e Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira (2003). O Museu de Loulé foi o último a integrar a RPM em 2017.
Essa integração em rede, ainda que à nível nacional, acabou por suscitar o debate regional acerca da museologia algarvia, sendo um importante passo para a criação da RMA, cuja realidade traduz-se em 2007. De acordo com o Guia dos Museus do Algarve (2019), outros factores estão na origem da RMA, como o forte papel das autarquias locais e a ausência de uma articulação regional que expressasse as específicas condições do setor à nível local.
Entretanto, para Paulo (2011, p.269) “A transformação de um estado de isolamento e gueto dos museus algarvios para um patamar de diálogo e de partilha é um caminho que foi sendo percorrido lenta e timidamente [...]”. Segundo a autora, a construção de uma plataforma comum dos museus algarvios tem na sua base, para citar alguns exemplos, a criação da revista de museologia MUSEAL produzida pela Museu Municipal de Faro em 2006, que suscitava reflexões acerca da realidade museológica da região. Além disso, a obrigatoriedade dos museus algarvios que integraram a RPM no início dos anos 2000 de elaborarem documentos para sua credenciação também acabou por os aproximar, fazendo com que partilhassem dúvidas e experiências entre si.
A partir disso, a RMA caracteriza-se por ser um espaço informal de partilha de experiências e conhecimentos entre os museus e outras instituições da área cultural que compõem a rede, cuja missão é dinamizar e promover o património cultural e a atividade museológica da região, além de potenciar o turismo cultural algarvio (RMA, 2019).
Segundo o sítio oficial da Rede de Museus do Algarve13, para além dessa troca, existem ações concretas que acontecem no âmbito da rede, como a cedência de profissionais entre os museus, atividades de qualificação programadas entre os seus integrantes, grupos de trabalho, encontros e conferências. Dentre os seus integrantes estão os museus que compõem a RPM citados acima, outros museus municipais e do Estado, entidades museológicas privadas e projetos de museus em construção, espalhados por todos os Conselhos do Algarve, conforme segue: Câmara Municipal de Vila do Bispo; Museu Municipal de Loulé; Museu Municipal Dr. José Formosinho; Museu do Trajo de São Brás de Alportel; Museu de Portimão; Museu da Cidade de Olhão; Câmara Municipal de Lagoa; Museu Municipal de Tavira; Museu Municipal de Arqueologia de Silves; Museu Municipal de Alcoutim; Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira; Câmara Municipal de Castro Marim; Museu Marítimo Almirante Ramalho Ortigão; Museu Municipal de Vila Real de Santo António; Museu Municipal de Faro; Centro de Ciência Viva de Tavira; Centro de Ciência Viva do Algarve; Parque Natural da Ria Formosa; Câmara Municipal de Aljezur; e Direção Regional de Cultura do Algarve.
Ainda de acordo com o seu sítio oficial, a RMA possui um tipo de gestão horizontal, cuja coordenação é feita de forma alternada composta por um grupo de cinco entidades integrantes com periodicidade anual e eleita em votação entre os membros. A RMA se orienta pela sua “Carta de Princípios”, dentre os quais destacam-se a liberdade de adesão, a cooperação em rede ea ética profissional. A entrada de novos museus ou entidades museológicas é livre e implica a aceitação da “Carta de Princípios” pela sua tutela e também exige a presença de um responsável técnico.
Paulo (2011) enquadra a RMA no tipo de rede mista, ou seja, aquela que engloba diferentes tutelas (administração central, municipal, privada, fundação, associação) e áreas geográficas que se distribuem por toda a região do Algarve. A ideia-chave de uma rede mista, segundo a autora, é a complementaridade territorial.
Por fim, de acordo com o Guia dos Museus do Algarve (2019), atualmente existem oitenta e duas unidades de carácter museológico na região (trinta e sete museus, trinta e nove pólos museológicos e sete coleções visitáveis), distribuídos pelos dezesseis Conselhos algarvios e que na grande maioria dispõem de coleções de etnografia, arte sacra e arqueologia. Dessas unidades, 65% estão sob a tutela do poder público local, assim como todos os museus que serão aqui entrevistados.