Chapter 4. Methods, methodology and empirical material
3. The research process
3.2 The interview process
A ansiedade é considerada como um distúrbio emocional, um estado angustiante
que gera sentimentos de tensão interna, insegurança e perigo iminente174. É vista como
um sinal de alerta face a uma ameaça de perigo175.
De uma forma geral, é caracterizada como uma emoção que provoca níveis elevados de actividade no sistema nervoso, reflectindo-se num aumento do batimento cardíaco, pressão arterial, e tónus muscular. É algo comum em cada indivíduo, contudo, terá de ser distinguida a ansiedade normal da ansiedade patológica. Essa ansiedade caracteriza- se pela forma como interfere ao nível de funcionamento do indivíduo, influenciando a sua resposta a questões complexas do dia-a-dia. Os sintomas gerais da ansiedade são: palpitações, dispneia, boca seca, náuseas, tonturas, tremores, fadiga face a pequenos estímulos, dificuldade de concentração, tensão muscular e, alterações de sono. Na
173 FERREIRA, Maria Leonor, “Atraso de crescimento intra-uterino e depressividade materna”, Lisboa,
Instituto Superior de Psicologia Aplicada, 2004, Dissertação de mestrado não publicada, pp. 6-8.
174 BOLEIA, Miguel, “Coexistência de ansiedade e depressão na gravidez em casais cujas mulheres são
primíparas”, Porto, Instituto Superior de Ciências da Saúde – Norte, 2012, Dissertação de mestrado não publicada, p. 12.
175 FREGONENSE, Adriana, “Gestantes de Alto Risco com e sem histórico de óbito fetal ou neonatal:
sintomas de ansiedade e depressão, capacidade para o relacionamento com o feto e estratégias de enfrentamento”, São Paulo, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, 2014, Dissertação de curso de pós-graduação não publicada, p. 16.
54 vertente psicológica, o indivíduo sente-se tenso, agitado, nervoso, apreensivo e
preocupado, experienciando o pânico, o medo, ou a ameaça176.
Na gravidez, os níveis de ansiedade encontram-se particularmente elevados. Essa ansiedade, considerada normal, está relacionada com dois factores: a expectativa que a grávida faz do bebé e da futura experiência de parto; e a aprendizagem ao longo do
período de gravidez177.
O que caracteriza a ansiedade durante este período, são os sentimentos de insatisfação, intranquilidade, insegurança, incerteza, medo da experiência desconhecida
e, incompetência178.
Durante a gestação, os níveis de ansiedade não se mantêm os mesmos ao longo de todo esse período. Assim, o 1º e o 3º trimestre são apontados como os trimestres que
geram mais ansiedade, sendo o 2º, regra geral, o trimestre mais calmo179.
A ansiedade no 1º trimestre prende-se com a aceitação, ou não, da gravidez e respectiva adaptação. Aquando a aceitação da mesma, ainda que não tenha sido planeada, surgem alguns receios relativos à probabilidade de ocorrência de aborto. O 2º trimestre apresenta níveis de ansiedade menos elevados, contudo, esta não desaparece por completo, continuando a manifestar-se devido às movimentações fetais. A ansiedade no 3º trimestre ocorre devido à antecipação do momento do parto, que se
encontra cada vez mais perto180. Neste último trimestre, a ansiedade vai aumentando a
cada dia à medida que se aproxima a data prevista do parto, aumentando ainda mais caso essa data seja ultrapassada. Podem dar-se alguns sentimentos negativos em relação
à gravidez, disfarçados com o desconforto físico181. Aumenta também o receio que a
176 FONSECA, Sara, “Ansiedade nas grávidas: prevalência e factores associados”, Covilhã, Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior, 2012, Dissertação de mestrado não publicada, p. 18.
177 Ibid., p. 19
178 SILVA, Mônica, “Avaliação da ansiedade e depressão na gravidez”, Alfenas/ MG, Universidade
Federal de Alfenas, 2014, Dissertação de pós-graduação não publicada, p. 43.
179 ZEOTI, Fernanda, “Apego materno-fetal e indicadores emocionais em gestantes de baixo e alto risco:
um estudo comparativo”, Ribeirão Preto, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 2011, Tese de doutoramento não publicada, p. 25.
180 MELO, Fátima, “Tabagismo na Ggravidez: A relação entre a Ansiedade, Cessação Tabágica e Coping”, Lisboa, Instituto Superior de Psicologia Aplicada, 2009, Dissertação de mestrado não publicada,
p. 26.
181 RATO, Paula Isabel, “Ansiedades perinatais em mulheres com gravidez de risco e em mulheres com
55 gestante tem de não conseguir desempenhar adequadamente o papel de mãe após o nascimento182.
Na gestação, os sintomas da ansiedade são divididos em 3 dimensões – a dimensão fisiológica, gerando um aumento da frequência cardíaca, taquipneia, alterações na pressão arterial, relaxamento de músculos da bexiga e intestinos, pele húmida, calafrios, cefaleia, dilatação de pupilas, inquietação motora, insónias, sudorese, boca seca, náuseas, vómitos, diarreia, tremor e, inquietação -, a dimensão emocional, manifestada em sentimentos de impotência, choro, nervosismo, perda de controlo, irritabilidade e impaciência, tensão e, falta de confiança - e, a dimensão cognitiva, traduzida na
incapacidade de concentração, esquecimento e, falta de atenção183. A grávida ansiosa
mostra-se, geralmente, com mudanças bruscas de humor, introvertida, passiva, inquietada e, irritada184.
Alguns sintomas da ansiedade são facilmente confundíveis com os sintomas da gravidez. Contudo, há que tomar particular atenção ao factor “insónias”, pois numa gravidez normal surge o sintoma da “hipersónia” – a necessidade de dormir mais do que o habitual. Assim, sempre que a mulher grávida apresente insónias – revelando-se logo
no 1º trimestre -, deverão ser tidas como um sintoma de ansiedade185.
Os factores que mais influenciam a ansiedade na fase de gestação são as antecipações feitas quanto à experiência do parto – a representação dos medos e da preparação e acompanhamento dos profissionais de saúde e familiares, bem como, o da morte da gestante ao dar à luz -, contudo, está também relacionada com o medo de ter um filho com malformações genéticas, a angústia sentida devido à alteração corporal, o
receio de que o seu parceiro mantenha uma relação extraconjugal186, a futura relação
com o filho e, o medo de sofrer um aborto ou de deixar que o feto venha a falecer,
sendo este o medo mais comum durante a gravidez187.
Os níveis de ansiedade durante a gravidez, ainda que particularmente elevados, são considerados normais, tendo em conta as mudanças que se dão durante este período.
182 FONSECA, Sara, op. cit., p. 21. 183 BOLEIA, Miguel, op. cit., p. 13.
184 FREGONESE, Adriana, op. cit., pp. 18-19. 185 RATO, Paula Isabel, op. cit., p. 406. 186 FONSECA, Sara, op. cit., pp. 19-21.
187 NAZARÉ, Bárbara, FONSECA, Ana, CANAVARRO, Maria Cristina, “Avaliação das preocupações
sentidas durante a gravidez: Estudos psicométricos da versão portuguesa da Cambridge Worry Scale (CWS)”, in Laboratório de Psicologia, 10,1, Lisboa, 2012, p. 82 (81-95).
56 Contudo, pode acontecer que a ansiedade ultrapasse o normal nesta fase. Assim, quando os níveis de ansiedade estão mais altos do que os expectáveis, tal pode levar a
complicações obstétricas, influenciando a gravidez e o parto188.
Quando a ansiedade é tão intensa considera-se estar perante uma ansiedade patológica. Na gestação, essa ansiedade manifesta-se em preocupações exageradas ou infundadas que passam a tomar conta da maior parte do tempo da mulher grávida,
podendo prejudicar a relação 189 . Esses níveis elevados de ansiedade vão,
consequentemente, afectar o investimento da grávida na maternidade190.
Para que seja feito o diagnóstico da ansiedade, enquanto distúrbio emocional, é necessário que esses sintomas sejam frequentes e duradouros e que causem um sofrimento significativo e, afectem, com isso, o funcionamento social e ocupacional do indivíduo. Os sintomas não poderão também estar associados a outros diagnósticos,
nem ser uma consequência de abuso de substâncias191.
Os factores que têm sido apontados como constituindo as causas de elevados níveis de ansiedade na gravidez são as complicações obstétricas e o feto de baixo peso – ambas podem ser tidas também como consequências – e problemas emocionais e de
comportamento192. Outros motivos associados são, também, o histórico de aborto, de
malformações ou de nado-morto193.
Nas gestantes com uma gravidez de alto risco são apontados maiores níveis de ansiedade, pois o medo de perda do feto ou do nascimento com malformações, aumenta
nestas situações194. O aumento da ansiedade relaciona-se, também, com o sentimento de
culpa associado a esse risco195.
A ansiedade normal na gravidez é considerada um factor positivo na adaptação à maternidade, mas, para que tal aconteça será necessário que a gestante tenha uma
188 ZEOTI, Fernando, op. cit., p. 25. 189 Ibid., p. 26.
190 SANTOS, Pedro Lopes, “Reacções Ansiosas na Gravidez e Comportamento Interactivo das Mães
Durante o Período Neonatal dos Filhos”, in Análise Psicológica, 4, XI, 1993, p. 493 (485-495).
191 SILVA, Mônica, op. cit., p. 43. 192 BOLEIA, Miguel, op. cit., p. 14.
193 FREGONENSE, Adriana, op. cit., pp. 18-19. 194 ZEOTI, Fernanda, op. cit., p. 51.
57 “plasticidade psicológica”, de forma a que se consiga adaptar a todas as mudanças
sintomáticas que se dão no corpo e na mente196.
A ansiedade, quando muito intensa, pode vir a prolongar-se até ao pós-parto,
acontecendo com maior frequência quando estamos perante uma gravidez de risco197.
Nas gestações normais prende-se com as crises enfrentadas quanto ao papel de mãe, que
já vêm desde o período da gravidez198. Contudo, numa ansiedade normal, os níveis
tendem a diminuir após o nascimento199, tendo sido demonstrado que a ansiedade é
mais recorrente no tempo da gestação do que no pós-parto200.
Na maioria das gestações em que as grávidas experienciam sintomas de ansiedade mais elevados do que o normal, não costuma ser feito o diagnóstico pela vergonha que sentem ao manifestar as suas queixas e, pelo facto de que esses sintomas são, muitas vezes, confundidos com os sintomas da gravidez. É também um factor de risco para a
depressão pós-parto201.