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O rotulo do diagnóstico psiquiátrico estigmatizante contribui como um dos fatores que levam ao fracasso na abordagem aos doentes mentais. O interesse da equipe em determinar um diagnóstico empobrece a eficácia da assistência, pois impede o profissional, que trabalha voltado ao modelo organicista, obter informações a respeito do contexto da Cida real do individuo.

crítica sobre o diagnóstico:

[...] deve nos ajudar a compreender que as „informações‟ (as variáveis) que o paciente carrega consigo e que é o que nós podemos efetivamente considerar como patrimônio (de risco ou de proteção), estão na realidade mais conectadas à vida do paciente do que à sua doença, cuja identidade autônoma da vida é um artefato da clínica.

O modelo organicista, centrado na doença, elimina o contexto social e familiar em que vive o paciente; dessa forma, o processo saúde doença mental contamina-se pelos preconceitos que concebem a doença como o resultado do desequilíbrio orgânico.

Os profissionais entrevistados apontam que o exercício de suas práticas está baseado no diagnóstico psiquiátrico, com alusão às causas biológicas da doença mental.

A prática desses profissionais está contaminada pelo modelo tradicional, que busca a causa da doença, primariamente, na dimensão biológica e a cura por meio da intervenção medicamentosa. Isso tudo ainda é reforçado pela atitude e pelo comportamento dos usuários, que procuram o serviço com queixas específicas (sintomas) e buscam um alívio imediato para essa queixa (remédio que cura). A resistência às práticas terapêuticas mais demoradas, que envolvem uma atuação na dimensão emocional e social do paciente, é quase sempre muito grande.

E14 Ela vem sempre com questões clinicas e é engraçado que ela vem sempre de

meia e de chinelo porque ela tem transtorno de TOC, e aí ela acha que o tempo todo os pés dela estão sujos, que está com a roupa suja, então, ela vem pedindo luvas para estar fazendo os serviços.

M112 [...] mudar a medicação que ela já usava, pois ela começou a desenvolver de uma maneira desfavorável, começou a ter alguns achados novos que sugerem que ela tem esquizofrenia.

Caçapava e Colvero(159) referem que estudos que tiveram como o foco a Saúde Mental na Atenção Básica mostram :

[...] que, embora os trabalhadores das Unidades Básicas de Saúde (UBS) reconheçam os fatores sociais como determinantes do processo saúde doença da população, observa-se que o objeto do trabalho é a doença mental, e, a partir deste objeto, o estabelecimento de diagnósticos e a prescrição de medicamentos é o

meio ou instrumento de trabalho mais valorizado para a intervenção junto às pessoas com necessidades no campo da saúde mental.

Para Mendes(160), o modo de se fazer saúde, que provém da biomedicina, teve seu início no século XX, com a publicação do Relatório Flexner, em 1910. O documento expressava o entendimento do mecanismo de funcionamento do corpo humano tal como uma máquina, disponível para montagem e desmontagem, consertos etc.; o reconhecimento da natureza biológica das doenças; a saúde entendida como um objeto individual; a percepção parcial do sujeito e o incentivo ao conhecimento especializado, proveniente da divisão técnica de trabalho; a técnica mediando as relações entre médico e paciente; e a ênfase nos aspectos curativos, em que predominam o diagnóstico e a terapêutica em detrimento da causa.

Os conceitos alienação/doença mental, isolamento terapêutico, degeneração, normalidade/anormalidade, terapêutica e cura, dentre outros, por muito tempo, vêm sustentando toda uma prática centrada no diagnóstico da doença mental, em que a singularidade do sujeito era ou é excluída. Desse modo, faz-se necessária a desconstrução desses saberes e a sua substituição por um olhar biopsicossocial do sujeito implicado por questões que afetam e constituem a sua singularidade(161).

4.1.6 A Integralidade

O Ministério da Saúde refere que as equipes de Saúde da Família têm como objetivo identificar, diagnosticar, tratar e acompanhar corretamente os usuários e estes devem, necessariamente, obter o apoio do NASF, pensando “na capacitação (educação permanente) quanto nas intervenções conjuntas para elaboração de propostas assistenciais adequadas,” [...] “e não apenas no tratamento medicamentoso.” Outros procedimentos, como o acolhimento e a escuta qualificada dos “problemas psicossociais da população durante todo o processo de trabalho das equipes de saúde” constituem “importante ferramenta para a melhora da relação equipe-usuário/ família”(162).

A assistência prestada na área de saúde deve ser uma atitude de desvelo, de solicitude e de atenção para com o outro, nos termos postulados por Boff, e não como produção de um ato ou procedimento. A forma de como o profissional se apropria da integralidade no cuidado e na atenção à saúde, também, compõe uma característica comum partilhada entre as políticas de saúde mental e de atenção básica, em que o processo saúde doença está presente, incrustado da territorialidade das ações.

A integralidade tem seu inicio nos EUA e está relacionada com o movimento da chamada medicina integral, que questionava a atitude reducionista dos médicos frente aos pacientes(163). A integralidade toma como base nova concepção do ser humano em suas relações, de modo que está relacionada com a mudança de paradigma no campo da saúde.

O processo de descentralização do Sistema Único de Saúde (SUS) exige que se empregue a lógica da integralidade, permitindo, assim, o entrelaçamento de diversos programas, no reconhecimento dos aspectos biológicos, psicológicos e sociais relativos à saúde da população(164).

A ESF obedece aos princípios da integralidade em saúde, como proposto pelo SUS, prevenindo doenças e promovendo a saúde, apresentando resultados importantes na saúde coletiva. A equipe de Saúde da família, por estar constantemente no campo, relacionando-se com as famílias e com as pessoas da comunidade bem como com o ambiente, depara-se, constantemente, com problemas de saúde mental(165,166).

Pelos discursos dos profissionais entrevistados, evidenciamos a produção de uma síntese espontânea entre a lógica de funcionamento e de concepção da ESF e a lógica da inclusão da saúde mental na mesma. Essa síntese situa-se no campo da integralidade quando, embora de maneira incipiente, percebe-se uma busca por parte de alguns profissionais em reduzir a distância existente entre problemas da mente e problemas do corpo, como vemos nas seguintes frases:

M110 Com essa moça, particularmente, ela tinha algumas queixas estranhas, o que eu

fiz, da minha parte, foi investigar bem por parte física dela para ver se tinha alguma doença, para não dizer que seria só por causa da doença mental.

AC74 Realizamos todos os exames nessa criança/menina (20 anos), fizemos

M220 [...] o que nós temos de mais forte é a vantagem que, com a ESF, você vai na casa. Você vai buscar e conhecer as deficiências daquele local.

Os discursos demonstram um afunilamento dessa relação com o ambiente, à mente e o corpo, indicando certa mudança na visão de mundo associada ao processo saúde doença mental, no campo das práticas desses profissionais. Apresentam, nesses discursos, o que, para Cecílio(167), seria uma “integralidade focalizada”.

Essa mudança de visão de mundo, mesmo que de maneira tímida, pode ser observada no estudo realizado por Caçapava e demais autores(168), em que observaram conexões entre os trabalhadores, assim como entre estes e os usuários, sendo que produzem e se proliferam vários e distintos espaços coletivos de trocas, que possibilitam ações de saúde alinhadas à perspectiva da integralidade, por meio de uma compreensão ampliada do processo saúde doença mental, construída pela valorização das relações humanas e das subjetividades envolvidas no espaço do trabalho em saúde.

A integralidade também sinaliza para a construção das políticas governamentais de enfrentamento de certos problemas de saúde e necessidades de grupos específicos, que subentende a captação das várias nuanças que envolvem a atenção à saúde. Dessa forma, a integralidade é tomada como ampliação do horizonte de intervenção sobre problemas. A busca da integralidade nos serviços de saúde deve ser, portanto, um processo em construção, sendo a equipe de Saúde da Família (SF) um fértil campo ao fomento da atenção integral(165).