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The
hotel
in
Norway
and
the
three
departments

4.
 POSITIONS
AND
STRUCTURES
IN
THE
TWO
HOTELS

4.1
 The
hotel
in
Norway
and
the
three
departments

4.2.3.1. Objetivos laborais

Há uma nítida clarificação nos relatos de Marlene e Raymond, quando referem que os seus percursos para o Algarve não tiveram objetivos laborais. Marlene conta-nos que foi persuadida pelo sol e por uma qualidade de vida familiar, enquanto Raymond, delatado pelo cansaço, elegeu o gozo de férias, preferindo a praia e o descanso.

A minha vinda para o Algarve não tinha objetivos laborais; como já referi, foi o sol que nos convenceu. (Marlene)

No primeiro momento, gostei só de fazer férias, porque tive tanto trabalho nos últimos anos, estive tão cansado, que só queria ir à praia, fazer um pouco festas e férias. (Raymond)

Os resultados comprovam que os inquiridos não tiveram objetivos laborais em Portugal. Porém, com o passar do tempo dão conta de realização de projetos pessoais. O próximo relato é ilustrativo do projeto de vida do Raymond.

Logicamente que, depois de 6 meses, precisava já de alguma coisa. A primeira ideia foi comprar uma quinta, porque queria fazer um pouco de agricultura, mais natural…. Não me interessava o trabalho pelo lado económico, mas sim de fazer uma coisa do lado natural. Tive a fortuna de “trovar” um terreno em Porches. Isso foi o início do projeto, a ideia de construir esse sítio… agricultura com turismo, agroturismo…. (…) fizemos a empresa e agora tenho já três projetos todos na direção da saúde e da natureza. No centro de Portugal tenho o outro negócio, ao lado do rio Zêzere, na floresta que tem ao lado a grande barragem do Cabril, em Oleiras, Pedrogo, é desse lado. É um pouco uma

92 vantagem a crise, porque temos a possibilidade de praticar bons preços, boa mão de obra e bom material. (Raymond)

4.2.3.2. Horários de trabalho

Os dois relatos que a seguir se apresentam elucidam a semelhança/diferença da quantidade de horas trabalhadas no Algarve e no Luxemburgo. Marlene refere não trabalhar nem mais nem menos, mas antes de forma distinta, clarificando a importância de ser “independente” no Algarve e de no Luxemburgo ser “empregada”. Por outro lado, Raymond utiliza a palavra “atividade” para designar o trabalho. A contextualização da resposta permite-nos compreender que, de facto, se trata de trabalho. Refere trabalhar menos e fazer mais atividade, considera o “trabalho vida” (nas palavras do próprio), sente paixão pelo que faz e, apesar de trabalhar mais horas, não sente que trabalha.

Não trabalho nem mais nem menos no Algarve ou no Luxemburgo, mas de maneira diferente, antes empregada, depois independente e não dá para comparar sempre com o "melhor e pior". (Marlene)

Falar de trabalho, posso dizer que trabalho menos, mas de atividade, posso dizer que faço mais. Não se pode ver isso como trabalho. Não é trabalho, é vida! Aqui, estou conformado do que faço e não tenho a impressão de que trabalho. Gosto de fazer. Faço muitas horas, mas não sinto que trabalho. As horas trabalhadas aqui e lá no Luxemburgo são quase iguais, mas aqui faço com mais prazer. (Raymond) [risos]!

4.2.3.3. Preconceito / Discriminação no local de trabalho

As respostas às questões relativas ao preconceito e à discriminação no local de trabalho foram analisadas conjuntamente. O preconceito é uma atitude que se poderá ou não traduzir em comportamentos discriminatórios. No entanto, através das suas respostas, os atores referiram nunca terem sentido preconceito ou discriminação por serem o chefe da empresa (Raymond) e a mulher do dono da imobiliária (Marlene).

Direi que não fui alvo de preconceito ou discriminação no meu local de trabalho, em todo o caso não abertamente, porque … sou a esposa do dono da imobiliária. (Marlene)

93 Não, nunca fui discriminado porque sou o próprio chefe. Pode ser que haja outros que são vítimas e não eu. Não sou vítima! (Raymond)

Assim, apesar de estes inquiridos relatarem não sentir preconceito nem discriminação, são raros os relatos onde não são reveladas ocorrências de discriminação no local de trabalho, ou em trabalhos anteriores, ou sentidos pelos familiares (maridos ou filhos), ou vivenciados no dia a dia (supermercado, escola, paragem de autocarro).

4.2.3.4. Situação profissional comparativamente à situação no país de origem

Os relatos pessoais de Marlene e Raymond permitem ilustrar o contexto da situação profissional no país de origem comparativamente a Portugal. Dito de outro modo, se melhorou ou piorou a situação profissional desde que residem em Portugal.

Assim, o discurso de Marlene clarifica as diferenças salariais existentes nos dois países e destaca o baixo salário auferido em Portugal. Deixa bem claro que, se tivesse que trabalhar para um patrão, nunca teria escolhido Portugal como país de destino. Contrariamente, revela a pressão sofrida no Luxemburgo e a falta de tempo existente para “tomar um café ou tempo para a família” (nas palavras da própria).

É muito fácil de resumir, comparando o Luxemburgo e Portugal. A nível da minha situação profissional, posso dizer que em Portugal os salários são muito inferiores. Nunca teria vindo se fosse obrigada a trabalhar para um patrão. Quanto à minha situação profissional em Portugal, a nível económico foi bom até chegar a crise. (…) posso referir que no Luxemburgo tinha colegas e chefes de trabalho e em Portugal fui sempre eu a patroa. Lógico que como empregada ganhava de certeza mais no Luxemburgo do que em Portugal. Em 1999, ganhava-se uma média de cem mil francos e mais como empregada bancária com alguns anos de experiência, o que dá cerca de dois mil e quinhentos euros, mais os extras, mas com uma pressão enorme. Para fazer parte desta classe média, não havia tempo para ir tomar um café durante as horas de trabalho ou tempo para a família. (Marlene)

Em concordância com a cisão anterior, o discurso seguinte revela vantagens económicas e financeiras no Luxemburgo e desvantagem a nível de ambiente social. É também justificado pelo próprio a competição e inveja por parte dos luxemburgueses e estima e afetuosidade por parte dos portugueses.

94 Depende. Economicamente, pode-se dizer que tive uma situação muito agradável no Luxemburgo, é verdade, muito difícil de realizar resultados económicos aqui, social, é completamente ao contrário, aqui tenho mais prazer de fazer alguma coisa, porque é mais fácil ter sucesso. No Luxemburgo, tem concorrência e, quando se tem sucesso, os outros sentem inveja, não gostam. Aqui, quando se tem sucesso, as pessoas juntam-se e gostam, existe mais afetividade e ficam contentes se tudo corre bem. No Luxemburgo é o contrário. Gosto mais de estar aqui. Penso que tenho mais sucesso económico no Luxemburgo, social aqui e financeiro no Luxemburgo, é mais fácil, porque ganha-se mais. (Raymond)

4.2.3.5. Satisfação / Insatisfação no trabalho

Relativamente a esta questão, Marlene faz referência a uma liberdade limitada, por parte de um empresário, por não poder usufruir dos domingos ou dos feriados. Em simultâneo, salienta ligeiras vantagens, nomeadamente autonomia para ir à praia sempre que tenha vontade ou, então, descansar à hora do almoço. Acrescenta a paixão pelo imobiliário e critica a atual economia portuguesa por arruinar o setor do imobiliário.

Trabalhar por conta própria… quer dizer, não há domingos nem feriados, mas, quando apetece ir à praia e descansar à hora do almoço, está livre de o fazer. O imobiliário tornou-se uma paixão que, infelizmente, foi destruída pela má economia portuguesa hoje. (Marlene)

No próximo relato, observa-se a satisfação de Raymond, assente no prazer pelo que faz. (…) gosto de tudo o que faço. Gosto de fazer e não tenho a pressão de fazer coisas que não gosto. (Raymond)

Contrariamente à satisfação, Raymond ilustra a sua insatisfação e descreve as dificuldades que sentiu em encontrar portugueses qualificados, competentes e responsáveis, apesar de várias tentativas efetuadas. Reconhece o desejo de trabalhar com portugueses e não com estrangeiros.

(…) tenho problemas de “trovar” pessoas qualificadas junto da sociedade. Tenho problemas de informação, de contactos… Posso delegar nos outros mais responsabilidades, já fiz muitas tentativas, mas, infelizmente, não funciona… Essas pessoas não são competentes ou não gostam de assumir responsabilidades; se falamos de responsabilidades, essas pessoas não gostam. Gosto de trabalhar com

95 pessoas portuguesas. Eu gosto de trabalhar com portugueses em Portugal e não multinacional. (…) gosto também de trabalhar com estudantes ou pessoas mais jovens, que mostram interesse em evoluir e de ter responsabilidades. Preciso de trabalhar mais desse lado, para ter contactos. E aqui não é fácil de fazer, para mim não é tão fácil. (Raymond)

De modo idêntico, o relato de Marlene deixa entrever o mesmo dilema descrito por Raymond e elogia o trabalho das pessoas e empresas do norte do país.

Tenho dificuldades de encontrar pessoas competentes e responsáveis. Ao longo dos anos, encontrei alguns, mas é difícil. Em geral, são pessoas ou empresas do norte do país, para trabalhar prestam muito mais. (Marlene)

É de assinalar que, apesar dos inquiridos estarem satisfeitos com os seus trabalhos, também revelam insatisfação que está, implícita ou explicitamente, relacionada com o facto de não encontrarem portugueses qualificados, competentes e responsáveis.