O ser humano nasce no narcisismo primário, formado desde o desejo dos pais. Vamos então compreender, inicialmente, a noção de narcisismo. Magalhães (1995) argumenta que o tema do narcisismo é bastante amplo e complexo em psicanálise. Afirma esta autora:
Ao longo de sua obra, Freud usa este termo de várias maneiras: fala em narcisismo primário, em narcisismo, em narcisismo do ego e em narcisismo secundário. São conceitos relacionados entre si, mas cada um contém uma especificidade, cada um deles explicita distintos modos de subjetividade. (MAGALHÃES, 1995, p. 29)
Laplanche e Pontalis (1988) informam que se procurarmos concretizar o momento da constituição do narcisismo primário, encontramos, já em Freud, variações: nos textos do período entre 1910 e 1915 esta fase é localizada entre o auto-erotismo primitivo e o amor de objeto, momento considerado contemporâneo do aparecimento de uma primeira unificação do ego. Com a elaboração da segunda tópica, Freud designa por narcisismo primário um primeiro
estado da vida, anterior até à constituição de um ego, no qual a vida intrauterina seria o arquétipo. De acordo com estes autores, esta última acepção do narcisismo primário é a que prevalece atualmente no pensamento psicanalítico.
Na vida intrauterina a criança só existe na fantasia de quem a concebe. O narcisismo primário seria, desta forma, uma espécie de útero arquetípico, espaço e tempo de gestação da fantasia de como será o filho do desejo dos pais. A escolha de um nome, das roupas, do quarto, da futura escola, e até mesmo de uma futura profissão, são exemplos de como um bebê existe no desejo dos pais, antes mesmo de nascer: “este útero é tecido pela imaginação, pelas representações simbólicas, ele pode existir até mesmo nos homens, enfim, em qualquer um que conceba psiquicamente um filho” (MAGALHÃES, 1995, p. 30).
O narcisismo primário seria esta anterioridade estrutural, o alicerce básico sobre o qual irá arquitetar-se a constituição do sujeito; é um articulador que liga o narcisismo parental com a estruturação da instância narcisista no filho. Desta forma, o narcisismo dos pais resulta no narcisismo do filho:
O conceito de narcisismo primário é um articulador que liga o narcisismo parental com a estruturação da instância narcisista no filho. Sua substância reside na intersubjetividade porque sua realização se dá numa relação entre humanos, primeiramente entre os pais e mais tarde quando nascida a criança, entre ela e estes que se encarregam de prosseguir sua criação: um projeto fantasioso e ideal que será fixado e materializado por todos os meios e métodos que estes pais possuírem (MAGALHÃES, 1995, p. 33).
O momento de instalação do narcisismo primário é o momento de emergência do desejo dos pais. São os pais que desejam a existência do filho e é por eles que aquela vida se mantém.
Freud assim descreve a chama inicial da vida, contida neste abrigo contra as turbulências do mundo externo, que é a instauração do narcisismo primário:
Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que de há muito abandonaram. [...] Assim eles se acham sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho – o que uma observação sóbria não permitiria – e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele. [...] A criança terá mais divertimentos que seus pais; ela não ficará sujeita às necessidades que eles reconheceram como supremas na vida. A doença, a morte, a renúncia ao prazer, restrições à sua vontade própria não a atingirão; as leis da natureza e da sociedade serão ab-rogadas em seu favor; ela será mais uma vez realmente o centro e o âmago da criação –“sua majestade o
os sonhos dourados que os pais jamais realizaram – o menino se tornará um grande homem, e um herói no lugar do pai e a menina se casará com um príncipe como compensação para sua mãe (FREUD, 1980 o, v. 14, p. 107- 108).
Klain (1998), ao eleger como tema de sua pesquisa, “o conceito de desamparo na gênese da identidade” mostra-nos que o narcisismo primário estabelece uma experiência de asseguramento, de instauração de uma camada protetora onde se dá a preservação do humano, pela transmissão narcísica de pai para filho:
Eis, portanto, o momento de instauração da pedra fundamental. O caminho humano está posto. Esta relação a três que reveste e protege tornando-o humano lhe dá um lugar. Eis a identificação primeva, a identificação com o pai da pré-história pessoal. Agora o bebê tem nome e sobrenome. Trata-se de um bebê humano. Tudo isso é o abrigo, o amparo. Abrigo contra a turbulência de uma vida inserida no meio humano. Sem essa instauração não se dá a entrada deste bebê na cultura (KLAIN, 1998, p. 69).
O narcisismo primário constitui, assim, o asseguramento da transmissão da vida, uma revanche contra o desamparo e a finitude da condição humana, posto que neste primeiro laço residem as ilusões de perenidade e imortalidade. Trata-se, ainda, de uma vitória da civilização, pois é uma história de cultura que se transmite.
A disposição de ofertas de ações específicas é o legado da própria cultura, de modo que a instalação do narcisismo primário está intimamente ligada à cultura, esta, que dentre outras coisas, é uma construção mental que protege os homens, tornando-os civilizados.
O desamparo inicial é a condição orgânico-mental fundamental e fundante, estado este que faz o humano mover-se na vida em busca de segurança, sendo por este motivo, o disparador, “a fonte primordial de todos os motivos morais”, como nos mostrou Freud, desde o Projeto.
O recém-nascido emite sinais que serão interpretados. A ação específica diante destes estímulos será consequência da fantasia, de uma imagem que a pessoa que cuida da criança faz dela. Sem isso, a criança sequer será percebida:
Nesta vivência de satisfação constitui-se a pulsão, esta que emerge enquanto exigência e retorna enquanto significado. O movimento somático foi significado; nesta ida e vinda não existe um mero giro circular ou uma simples mudança de rota, trata-se de uma alteração consistente na qual a necessidade se transforma em sexualidade ao ser subsumida pelo desejo do outro (MAGALHÃES, 1995, p. 35).
Por sua vez, Klain (1998), baseando-se no trabalho de Green (1988), “narcisismo de vida, narcisismo de morte”, toma a ideia de ação específica como acervo cultural, como herança cultural que deverá ser transmitida de pai para filho. Nesta complementaridade de papéis, o recém-nascido traz como dote e bagagem uma matéria prima não processada, nem elaborada, que passará por um processo de transformação, ao entrar no circuito da troca simbólica:
Quando um filho conquista aquilo que seu pai lhe transmite, aí se reafirma o humano. Cada pai, cada verdadeiro pai, dá a seu filho a missão milenar de zelar pelo humano. E este humano está entremeado no tecido cultural. [...] Um filho herda uma tradição. Herdá-la não é simplesmente repeti-la sem sentido, mas é, acima de tudo, conquistá-la. Ser o representante desta tradição, desta cultura. Ser aquele que irá transmiti-la a seu sucessor (KLAIN, 1998, p. 44).
Desta forma, vemos que o recém-nascido deve ser reconhecido como humano, pertencente a determinado grupo, membro de uma família, um semelhante. Mas como conquistar esta herança? Como se apossar dela? A resposta a estas indagações requer que o sujeito percorra um caminho, tanto em sua história individual, quanto coletiva. Sendo assim, o narcisismo primário, esta tela protetora, deve ser rompida para que o bebê humano possa seguir o seu desenvolvimento e construir seus recursos internos para conquistar a herança que recebeu.
Para conquistar o dote que recebeu, é preciso enfrentar a perda do seio (processo que promove o rompimento do narcisismo primário) e instalar o movimento de conhecer o mundo e a si mesmo, processo que é inaugurado pelo auto-erotismo, que sinaliza uma renúncia à administração pela mãe, o reconhecimento da fenda que separa o bebê da mãe.
Na experiência de satisfação, a pulsão encontrava seu objeto fora, na sucção do seio da mãe. Mas este objeto é perdido, no intervalo entre a aproximação e o afastamento da mãe. Na passagem do objeto de satisfação “fora”, no seio, para a satisfação no próprio corpo da criança, dá-se assim o auto-erotismo, movimento este que marca a experiência de perda do seio e o encontro de um substituto deste: “o auto-erotismo é uma marca da fenda, um refendimento, que permite ao sujeito contentar-se consigo mesmo” (KLAIN, 1998, p. 61).
Ao encontrar o corpo do bebê o movimento pulsional se desdobra em pulsões parciais, que buscam satisfação em diferentes partes do corpo: a boca, o olfato, o olho, o ânus, etc. O
auto-erotismo caracteriza-se pela anarquia; é um estado em que as pulsões se satisfazem cada uma por sua própria conta, sem exigir qualquer organização de conjunto. O auto-erotismo:
É assim uma chupeta, tal como esse adereço se apresenta mesmo: indispensável à resignação diante da fenda que a separação do seio causou na imagem de integridade antes tida pelo bebê [...]. A chupeta é a conservação do objeto-seio, porém com a marca da interdição sustentada por uma pulsão inibida em seu fim sexual (KLAIN, 1998, p. 71).
No início da vida, não há ainda a unificação das experiências de satisfação das pulsões parciais em uma organização de conjunto, que será consubstanciada pelo ego. A noção de eu emerge no narcisismo propriamente dito, o narcisismo do ego: “um narcisismo resulta em outro, sem deixar de existir, o narcisismo primário é pré-condição para o narcisismo secundário e o narcisismo dos pais é herdado pelos filhos” (MAGALHÃES, 1995, p. 32).
Sendo assim, a vivência estruturada de um ego não é experimentada no início da vida. O ego deve desenvolver-se:
Posso ressaltar que estamos destinados a supor que uma mudança comparada ao ego não pode existir no indivíduo desde o começo; o ego tem de ser desenvolvido. As pulsões auto-eróticas, contudo, ali se encontram desde o início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao auto-erotismo
– uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo (FREUD, 1980
o, p. 93, v. 14).
Esta nova ação psíquica é o movimento da libido em direção ao corpo próprio, que o toma como objeto de amor; ao mesmo tempo, esta ação psíquica unifica, conforma uma unidade de funcionamento, em relação ao modo anárquico e fragmentado da sexualidade que caracteriza o auto-erotismo, ação psíquica que é a própria emergência da instância do ego. Desta forma, no narcisismo, é o próprio ego que é tomado como objeto de amor.
Vamos acompanhar com Freud, em “Sobre o narcisismo, uma introdução” (1914) e em “o Ego e o Id”, texto de 1923, dentre outros, a emergência da segunda teoria do aparelho psíquico, buscando situar nesta, o surgimento do ego.
Quando o bebê se separa do objeto seio, abre-se a fenda. O objeto primordial é “perdido para sempre”, ou seja, a condição primeira de completude, quando não havia distinção entre libido objetal e libido do ego, não pode mais manter-se, situação que reinava no narcisismo primário:
[...] a volta da libido objetal ao ego e sua transformação no narcisismo representa, por assim dizer, um novo amor feliz; e, por outro lado, também é verdade que um verdadeiro amor feliz corresponde à condição primeira na qual a libido objetal e a libido do ego não podiam ser distinguidas. [...] O desenvolvimento do ego consiste num afastamento do narcisismo primário (FREUD, 1980o, v. 14, p. 117).
A volta da libido retirada do objeto e seu retorno em direção ao próprio ego instala o narcisismo secundário, o narcisismo do ego, reservatório de libido, que vai constituindo-se pela retirada da catexia libidinal de cada objeto investido e abandonado. O ego é assim formado, em grande parte, a partir de catexias libidinais abandonadas:
O ego trata com as primeiras catexias objetais do id (e certamente com as posteriores também), retirando a libido delas para si próprio e ligando –as à alteração do ego produzida por meio da identificação. [...] Bem no início, toda a libido está acumulada no id, enquanto que o ego ainda se acha em processo de formação ou ainda é fraco. O id envia parte dessa libido para catexias objetais eróticas; em consequência, o ego agora tornado forte, tenta apoderar-se da libido do objeto e impor-se ao id como objeto amoroso. O narcisismo do ego é, assim, um narcisismo secundário, que foi retirado dos objetos (FREUD, 1980p, v. 19, p. 61-62).
No início da vida psíquica ainda não há um ego, mas um id psíquico desconhecido e inconsciente. O ego tem início no sistema perceptivo:
Examinemos agora um indivíduo como um id psíquico, desconhecido e inconsciente, sobre cuja superfície repousa o ego, desenvolvido a partir do seu núcleo, o sistema perceptivo. [...] O ego não se acha nitidamente separado do id; sua parte inferior funde-se com ele (FREUD, 1980p, v. 19, p. 37).
O ego emerge como uma diferenciação, na superfície do aparelho psíquico, como uma parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo. Em função desta ligação com o mundo externo, o ego procura aplicar a influência desta ao id, promovendo, desta forma, uma substituição do princípio de prazer que reina irrestritamente no id, pelo princípio de realidade. Na sua relação com o id, “o ego representa o que pode ser chamado de razão e senso comum, em contraste com o id, que contém as paixões” (FREUD, 1980p, v. 19, p. 39).
O ego deriva das sensações corporais, principalmente das que se originam da superfície do corpo; constitui-se, também pela sua formação a partir do sistema perceptivo- consciente, erigindo- se como a superfície do aparelho mental:
O próprio corpo de uma pessoa e, acima de tudo a sua superfície, constitui um lugar de onde pode originar-se sensações tanto externas quanto internas. Ele é visto como qualquer outro objeto, mas, ao tato, produz duas espécies de sensações, uma das quais pode ser equivalente a uma percepção interna. [...] O ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície. (FREUD, 1980p, v. 19, p. 39-40).
O ato psíquico que promove a emergência do ego, experiência de unidade, de apropriação de um ego corporal é abordada por Jacques Lacan como sendo o estágio do espelho, quando a criança adquire uma imagem totalizadora de si. A imagem identificada pelo bebê, por volta dos seis a dezoito meses, é a precipitação do ego, quando o bebê humano assume a imago da espécie:
Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que análise atribui a este termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada, pelo uso, na teoria, do antigo termo
imago. A assunção jubilatória de sua imagem especular por esse ser ainda
mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação, que é o filhote do homem nesse estágio de infans parecer-nos-á manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica em que o eu se precipita numa forma primordial (LACAN, 1998, p. 97).
Nesta descrição de Lacan (1998) do ego como a precipitação de uma imagem no espelho, há que se considerar que não se trata de um espelho como objeto concreto, mas de uma metáfora, o espelho aqui entendido como a identificação de si que o sujeito assume, fruto do desejo do outro. O espelho é o Outro, a cultura, a cadeia de significantes que nos antecipa e que nos fornece a matéria prima que compõe as identificações e a identidade, o universo simbólico que nos humaniza e que nos é proporcionado pelo manejo do outro cuidador, o outro concreto, que nos assiste em nosso desamparo primordial.
O bebê identifica-se com a imagem do desejo do Outro nele projetada e que está ali no espelho: “a criança vê algo que não é, e que pretende ser, o falo, a perfeição, o ideal da mãe. Ele deseja ser o desejo do Outro, simbólico, porque encadeamento de significantes; a
instância narcisista é determinada pelo outro concreto que propicia prazeres, um corpo na relação com outro corpo” (MAGALHÃES, 1995, p. 42).
Vamos então explicar melhor a constituição do ego e de seus ideais, a partir das identificações, tomando como pano de fundo a ideia de que o ego é a identificação de si, inicialmente corporal, e que se precipita em uma imago, a projeção de uma superfície.
O ego não é simplesmente a parte do id modificada pela influência do sistema perceptivo, um órgão sensorial, que visa à adequação ao meio externo. Há uma gradação no ego, uma diferenciação dentro dele que pode ser chamada de superego, e que nos permite compreender melhor a natureza das identificações que constituem o caráter do ego. Em “o ego e o id”, Freud afirma: [...] “o caráter do ego é um precipitado de catexias objetais abandonadas e que ele contém a história dessas escolhas de objeto” (FREUD, 1980 p, v. 19, p. 43).
Neste mesmo texto, Freud (1980 p) argumenta que na fase oral primitiva do indivíduo, a catexia de objeto e a identificação são indistinguíveis uma da outra. O bebê introjeta as experiências prazerosas como sendo parte de si, identificando-se com estas, portanto. Com a abertura da fenda que o separa do objeto gratificador, o ego é obrigado a separar-se deste objeto, segue-se então, uma alteração em seu interior: no lugar de uma catexia de objeto, há uma identificação com este, o que faz com que o ego assuma as características do objeto. Neste processo, encontramos a transformação de libido do objeto, em libido narcísica:
Quando acontece uma pessoa ter de abandonar um objeto, muito amiúde se segue uma alteração de seu ego que só pode ser descrita como instalação do objeto dentro do ego, tal como ocorre na melancolia. [...] Pode ser que, através dessa introjeção, que constitui uma espécie de regressão ao mecanismo da fase oral, o ego torne mais fácil ao objeto ser abandonado ou torne possível esse processo. (FREUD, 1980 p, v. 19, p. 43).
As primeiras identificações, efetuadas na mais tenra infância, serão gerais e duradouras, uma vez que a identificação expressa o laço afetivo primordial, efeito dos primeiros objetos introjetados no ego. No ideal do ego encontra-se a primeira identificação de um indivíduo com os pais de sua história pessoal. Em “Psicologia de grupo e análise do ego”, afirma Freud:
A identificação é conhecida pela psicanálise como a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa. Ela desempenha um papel na
história primitiva do complexo de Édipo. Um menino mostrará interesse especial pelo pai; gostaria de crescer como ele, ser como ele e tomar seu lugar em tudo. Podemos simplesmente dizer que toma o pai como seu ideal [...] Ao mesmo tempo em que essa identificação com o pai, ou pouco depois, o menino começa a desenvolver uma catexia de objeto verdadeira em relação à mãe, de acordo com o tipo anaclítico de ligação. Apresenta então, portanto, dois laços psicologicamente distintos: uma catexia de objeto sexual e direta para com a mãe e uma identificação com o pai que o toma como modelo. Ambos subsistem lado a lado durante certo tempo, sem qualquer influência ou interferência mútua. Em consequência do avanço irresistível no sentido de uma unificação da vida mental, eles acabam por reunir-se e o complexo de Édipo normal origina-se de sua confluência. [...] A identificação, na verdade, é ambivalente desde o início; pode tornar-se expressão de ternura com tanta facilidade quanto um desejo de afastamento de alguém (FREUD, 1980q, v. 18, p. 133-134).
As identificações que a criança realiza na primeira infância, no interior da constelação de laços afetivos, que é a trama edípica, formam um precipitado no ego, base para o erguimento do ideal do ego e do superego. Em o ego e o id, Freud utiliza estes dois termos indistintamente. No entanto, nas “Novas Conferências Introdutórias de psicanálise”, de 1932, Freud (1980 r) apresenta o superego como uma estrutura que engloba as funções de auto- observação, consciência moral e função de ideal. O ideal do ego , no entanto, afirma-se como instância que constitui um modelo a que o indivíduo procura conformar-se, resultante das identificações com os pais, com seus substitutos e com os ideais coletivos. Laplanche e Pontalis (1988) argumentam que diferentes autores sublinham a íntima ligação entre os dois: o ideal e modelo (sob a égide do ideal do ego) e a interdição (função da instância superegóica).
A herança do complexo de Édipo, no tocante à problemática da constituição do sujeito, reside na aquisição das identificações do ego, por intermédio das quais este ergue seu caráter,