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The Elements of Credibility

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2 Credibility

2.1 Theories of Credibility

2.1.3 The Elements of Credibility

Sofia e Tatiana, bem como todos os seres humanos, nasceram em um mundo em que o conhecimento está disponível como o procedimento central, padrão, para lidar com pessoas e coisas. Mas, como ressalta Hedegaard (1996), é importante diferenciar o conhecimento que existe independentemente de Sofia e a aquisição e o desenvolvimento desse conhecimento por ela.

Figura 15 – Sistemas de mediação observados na iniciação de Sofia à leitura de ícones.

Como já mencionado anteriormente, esses procedimentos-padrão, esses conhecimentos, são localizados histórica e culturalmente e resultam de processos desenvolvidos socialmente para a resolução de problemas. Dessa forma, assume-se que as práticas sociais antecedem os conhecimentos sociais, levando à rejeição da suposição de que estes existam independentemente daquelas: “as habilidades socialmente desenvolvidas, portanto, são a base para os conhecimentos socialmente desenvolvidos” (HEDEGAARD, 1996, 345).

Vale então trazer novamente as ideias de Davidov, para quem esse conhecimento societário pode ser separado em duas formas distintas: o conhecimento empírico e o conhecimento teórico. Enquanto o primeiro lida com diferenças e semelhanças de um fenômeno individual e surge por meio da observação e comparação de objetos e eventos, o segundo lida com um sistema integrado de fenômenos e emerge por meio do desenvolvimento de métodos para solução de problemas. Para o autor, no processo de apropriação desses conhecimentos, os sujeitos podem adotar posturas distintas de compreensão do fenômeno, podem assumir mecanismos diferentes para compreender a realidade. E, dependendo do caminho percorrido, diferentes serão também os mecanismos pelos quais resolverão problemas posteriores.

Entretanto, não se pode falar em uma “sensibilidade em geral” ao se determinar a relação entre a percepção do real e os diferentes tipos de pensamento. O fato de um objeto ser captado sensorialmente não define a priori o tipo de sua expressão racional. Como coloca Davídov (1988, p. 137-8, tradução nossa):

se este objeto é examinado em si mesmo, fora de certo sistema e da conexão com outros objetos, pode se converter em conteúdo do pensamento empírico. Se o mesmo objeto é analisado dentro de certa concretude e somente assim podem ser reveladas suas verdadeiras particularidades, se converterá em conteúdo de pensamento teórico.

É possível perceber essa escolha diferenciada em relação às formas de apropriação dos objetos quando são analisados dois episódios extraídos das conversas das famílias G6 e G7 em visita ao Museu Biológico. Nos dois grupos, houve a observação direta dos objetos museais, no caso, biodioramas de serpentes brasileiras. O episódio abaixo (E2) ilustra como a família G7, a partir da observação de dois dioramas (cascavel e periquitamboia), procura dar significado ao que vê e lê, em uma construção coletiva, lançando mão de conhecimentos do grupo:

1. Ana Luiza: Ô, Di, quando você encontrar a cobra dali, você vai levar um susto. 2. Anderson: Eu tirei uma dessa aqui, ó. Dá pra ver bem o chocalho dela aqui, ó. 3. Diane: Hã, hã.

4. A: E olha, ela tá bem...

5. Neusa: Ali é uma só ou são duas?

6. A: Não, tem mais que uma. Não é possível...

7. N: Eu acho que é uma só, hein, porque a cabeça dela tá aqui e o guizo ali, ó. 8. D: Mas ó o tamanho dela lá pra dentro...

9. A: Mas é legal que cê vê a diferença dela, assim pertinho, e a diferença da naja em posição de ataque. Ela abre, né?

10. N: Ahã, ela só levanta. 11. A: É.

12. N: A que abre, a que arma, é a naja.

13. D: Ela, ela se enrola, aí a cabecinha dela fica assim... 14. A: O chocalho fica no meio...

15. D: ...e o chocalho no meio. 16. N: Hum... misericórdia...

17. A: Ó aquela ali, amor. Aquela é de brinquedo. Aquela eu tenho certeza que é de brinquedo.

18. N: Foi... de brinquedo... (duvidando). 19. A: Foi...

20. D: Olha amor. Parece... é periquito. Periquitamboia. 21. A: Periquitamboia!... (risos).

22. D: Mistura de periquito com jiboia (risos). Por isso que ela fica na árvore. 23. N: Hum... Ela muda de cor.

24. D: Cobra-papagaio, tá vendo como é uma mistura de ave com cobra?

25. N: Possui coloração verde quando adulta e quando jov... indivíduo jovem são geralmente cor de laranja (lendo).

26. D: La-ran-ja! Que legal! 27. N: Ó.. pequenininha...

28. D: É. Essa deve ser peçonhenta, né? Não. Não. Não peçonhenta. 29. N: Não peçonhenta.

30. D: Eu achei que era porque ela se alimenta de... de rato e morcego... Hábitos noturnos...

No trecho descrito acima, observa-se uma aproximação da família com os saberes científicos expostos no museu, em que Diane teve consciência de uma contradição entre seu conceito empírico (as serpentes que se alimentam de ratos e morcegos são peçonhentas) e a voz institucional exposta na legenda (a periquitamboia alimenta-se de roedores e morcegos e

não é peçonhenta). Durante toda a visita, Diane envolveu a família no intuito de compreender os elementos para uma serpente ser considerada peçonhenta. O problema inicial, surgido a partir de uma necessidade de Diana em compreender quais serpentes são perigosas para a vida humana, colocou toda a família em atividade de aprendizagem. Assim, os outros membros do grupo também assumiram a tarefa de identificar serpentes peçonhentas.

A família G6 apresentou problema semelhante, buscando formar um conceito de serpente peçonhenta compreensível a todos do grupo. Diferentemente da família G7, em que foi possível estabelecer claramente o início do episódio com o conflito de Diane, nesse grupo, considerou-se a fase inicial do episódio (E3) um conjunto descontínuo de falas em que um dos membros expôs seu conceito de serpente peçonhenta. Em algumas passagens, Maria Lenise apresentou um conceito empírico de serpente peçonhenta bastante comum: as de maior tamanho são venenosas. Em vários momentos, surpreendia-se com a presença de serpentes peçonhentas pequenas, demonstrando que seu conceito de serpente peçonhenta não incluía as de menor tamanho.

Em continuidade a essas falas não sequenciais, mas coesas, observou-se o seguinte trecho:

Os três membros da família G6 posicionaram-se frente ao biodiorama da cascavel. 1. Maria Lenise: É a cascavel.

2. Rita: É cobra, não é víbora.

[...]

3. R: Tô achando que a maioria é cobra, não é venenosa... 4. ML: Cobra é não peçonhenta?

5. R: Cobra é não peçonhenta e víbora é peçonhenta. Em espanhol, quando se fala “culebra” é a cobra e “víbora” é a peçonhenta.

[...]

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