A poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos, ‘esta coleção de objetos de não amor” (Drummond). Resiste ao contínuo “harmonioso” pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia. (Alfredo Bosi)
Em “O ocaso da vanguarda” Otávio Paz, ao comparar a vanguarda do início do século XX com o Romantismo, afirma que a semelhança central entre eles é a pretensão de unir vida e arte. Ambos os movimentos não foi: “...apenas uma estética e uma linguagem; foi uma erótica, uma política, uma visão do mundo, uma ação: um estilo de vida.” (1984 p.134). Havia uma ambição de mudar a realidade, sem dúvida uma intenção revolucionária. Paz defende que tanto os filósofos quanto os revolucionários não entenderam a atitude ambígua dos poetas que: “...vêem na magia e na revolução duas vias paralelas, mas não inimigas, para transformar o mundo” (1984, p.137).
Nas palavras de Paz, fica evidente que poesia e revolução, apesar da aparente negação mútua, sempre caminharam juntas: “...a operação mágica não é essencialmente distinta da operação revolucionária. A vocação mágica da poesia moderna, desde de Blake até nossos dias, não é senão a outra face, a vertente obscura, de sua vocação revolucionária” (1984, p.138). Mesmo que Paz esteja se referindo à Revolução russa, é importante notar como o lirismo se coloca diante de situações políticas em momentos históricos de transformação das coisas do mundo. “A poesia é a verdadeira revolução” (1984, p.143) diz Paz, pois ela leva a repensar as relações pessoais. A vocação revolucionária da poesia é sua natureza de transformar a presença do homem no mundo: “O poema não é um ato puro, é uma contingência, uma violação do absoluto”. (1984, p.144).
O caráter revolucionário da poesia consiste na capacidade que ela tem de forçar um olhar muito mais intenso e crítico para a realidade. Assim, questiona essa realidade como uma ação política, porém sem deixar ser convertida em instrumento a serviço de uma ideologia política, como ocorreu com muitos poetas que vivenciaram a Revolução russa. Ao questionar a realidade, a poesia capta a história que, segundo o crítico, é um texto produtor de outros textos. A história, diz Paz, não é única. Ela aponta para aquilo
que a crítica contemporânea tem destacado, ou seja, a abertura à pluralidade de vozes na qual a sociedade se coloca em tempo plural que é refletida na poesia comprometida com a história.
A poesia é inconcebível sem a história. Ela é construída pela multiplicidade de suas vozes. Paz deixa isso evidente ao concluir que: “O poeta não é o ‘autor’, no sentido tradicional da palavra, mas um momento de convergência das diferentes vozes que confluem para um texto” (1984, p.200). A participação do leitor é fundamental no ato de recriação histórica do poema. Como define Paz: “O poema é uma virtualidade trans- histórica que se atualiza na história, na leitura. Não há poema em si, mas em mim ou em
ti. Vaivém entre o trans-histórico e o histórico” (1984, p.202). Como ato revolucionário,
a poesia afirma e nega a história pois está sempre redimensionada. Ela faz a crítica da atualidade em que se inscreve, mostrando-se assim atual: “Ler um texto poético é ressuscitá-lo, re-produzi-lo. Essa re-produção desenvolve-se na história, mas se abre para um presente, que é a abolição da história” (1984, p.209).
Em “Poesia e história” Octávio Paz reafirma a extrema ligação entre a poesia e a história: “O poema, ser de palavras, vai mais além das palavras e a história não esgota o sentido do poema; mas o poema não teria sentido – nem sequer existência – sem a história, sem a comunidade que o alimenta e à qual alimenta” (1982, p. 225-226). As palavras do crítico apontam para o caráter datável da poesia, ou seja, o poder que a poesia carrega de tornar presente os momentos consagrados pela poesia. É o que Paz chama de ‘consagração’ do instante: “...privilegiado da corrente temporal” (1982, p.227). É o instante que o poeta cria e o leitor recria. Ao participar do ato criativo do poeta, o leitor, segundo Paz, recria a si próprio. Por isso, o poema é sempre uma obra inacabada, pronta para ser completada ou recriada por um novo leitor.
Paz conclui que o poema é histórico como produto social e também como criação que transcende o histórico. Nesse aspecto, a poesia se torna revelação do homem: “Essa revelação é o significado último de todo poema e quase nunca é dita de modo explícito, mas é fundamento de todo o dizer poético” (1982, p.230). Paz afirma, entretanto, que a revelação da condição humana não é uma explicação, pois vai além: é uma experiência em que a própria condição se revela ou se manifesta.
A necessidade de resistir às ideologias fez com que a lírica procurasse se desligar da história. Alfredo Bosi (1977) afirma que a modernidade se modelou como recusa e ilhamento. Recusa aos discursos dominantes. Fato que tem como marco o Pré- Romantismo. Assim, os poetas modernos se afastaram da realidade, ou seja, da barbárie
de transformar a poesia em mercadoria e o poeta em burocrata da linguagem. A poesia se fechou em si, quebrando o antigo desejo do poeta de ser compreendido por todos. Como afirma Bosi: “A metáfora do avestruz que cobre a cabeça diante do inimigo é eloqüente demais para exigir comentários” (1977, p.144).
Sophia M. B. Andresen no discurso “Poesia e revolução” define o caráter revolucionário da poesia: “O amor positivo da vida busca a inteireza. Porque buscar a inteireza do homem numa sociedade como aquela em que vivemos é necessariamente revolucionária” (s/d, p.75). Em outras palavras, Andresen confirma o pensamento de Paz de que o significado último da poesia é revelar o homem. A poetisa confirma o caráter político da poesia, por isso ela é desalienante: “E porque desalienar, conquistar a inteireza de cada homem é a finalidade radical de toda a política revolucionária, o projeto de uma política real é, por sua natureza, paralelo ao projecto da poesia” (s/d, p.76).
Andresen traça a profissão de fé da poesia, ou seja, inspirar e profetizar os caminhos da desalienação. Percebe-se assim a estreita relação da poesia com a realidade social. Ela não deve ser adorno, nem luxo em uma sociedade necessitada de profundas transformações. Sintetizando a função social da poesia, que vem ao encontro tanto do pensamento de Paz como também Bosi e Adorno, Andresen afirma: “...é a poesia que desaliena a nossa consciência” (s/d, p.77).