Na questão 1, ‘O que você considera importante ensinar nas aulas de matemática/português? Por que?’, 5 (cinco) categorias foram mencionadas pelos professores
da amostra. Destaca-se a categoria “Assuntos que fazem parte do dia-a-dia dos alunos”, explicitar essa categoria significa considerar o contexto, os conhecimentos prévios e os interesses dos educandos, buscando abordar conteúdos significativos para os alunos.
No documento Matrizes Curriculares para o Ensino Médio que orienta o currículo prescrito do Ceará, percebemos que diversos conteúdos/competências/detalhamento de conteúdo, abrangem essa categoria, ou seja, consideram importante levar em conta os conhecimentos do dia-a-dia dos educandos. Como exemplo, o conteúdo “Implicações do gênero (oral e escrito, do suporte e/ou do enunciado na compreensão do texto” que envolvem diversas competências (1, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 9) e detalhamento de conteúdo: a compreensão das funções sociais dos gêneros (orais e escritos) em situações reais de comunicação (os propósitos comunicativos, estilos e finalidades) como poesia, a carta, a reportagem, o ofício, a propaganda, o debate etc. (CEARÁ, 2009b, p. 15).
As demais categorias “Operações básicas como pré-requisito de resolução de problemas”; “abordagem teórica do conteúdo, focando no método de resolução” e “criar as condições para o desenvolvimento do senso crítico”, mencionadas pelos professores da amostra, também são consideradas na organização prescrita do documento citado.
Quanto à questão 2, ‘O que você ensina nas aulas de matemática/português?’, pode-se perceber a partir das sete categorias defendidas pelos professores (“Interpretação textual/estratégias de leitura”, “Produção textual”, “Grade curricular”, “Conteúdos da disciplina”, “Operações básicas da matemática”, “Assuntos que fazem parte do dia a dia dos alunos” e “Conteúdos da disciplina contextualizados nos acontecimentos atuais”) algumas contradições entre o que os professores consideram importante ensinar (questão 1 desse questionário) e o que eles ensinam de fato. Observa-se também muitos aspectos coerentes entre os dois itens.
Como contradição pode-se refletir sobre as categorias que explicitam que considera importante ensinar “As operações básicas como pré-requisito de resolução de problemas” e “Abordagem teórica do conteúdo, focando no método de resolução”, mas, os professores da amostra também indicam que ensinam os “Conteúdos da disciplina” que, conforme a grade da matriz curricular para o 2º ano do ensino médio, não há espaço para os conteúdos “Operações básicas como pré-requisito de resolução de problema (esses conteúdos pertencem à grade curricular de outras séries). Dessa forma, trabalhar operações básicas visando resolução de problemas significa não se limitar aos “conteúdos da disciplina” e sim pesquisar/disponibilizar conteúdos conforme a situação ou atividade didática. Outra evidente
contradição, são as categorias explicitadas pelos professores “Assuntos que fazem parte do dia-a-dia” e “Grade curricular” uma vez que, dificilmente pode-se trabalhar a dinâmica do dia a dia e a grade curricular pronta e acabada.
Como aspectos coerentes, pode-se observar: as duas categorias explicitadas pelos professores como importantes ensinar (“Abordagem teórica do conteúdo, focando no método de resolução” e “Operações básicas como pré-requisitos de resolução de problemas”) e a categoria que eles ensinam (“Ênfase nas operações básicas da matemática”). As categorias “Assuntos que fazem parte do dia-a-dia”, “Leitura , produção de textos e regras gramaticais” defendidas como importantes de serem ensinadas, são coerentes com as categorias “Interpretação textual/estratégias de leitura” e “Produção textual” e “Grade curricular (que inclui literatura e gramática aplicada ao texto e à comunicação)” apontadas tembém pelos professores, e por fim, a categoria “Criar as condições para o desenvolvimento do senso crítico” também se mostrou coerente.
Na questão 3 – “Relacione 3 fatores internos e 3 fatores externos à escola que contribuem para o fracasso escolar”, 10 categorias foram apontadas pelos professores (“Falta de recursos”, “falta de um trabalho uniforme na escola”, “Falta de compromisso dos professores”, “Falta de compromisso dos alunos”, “Material didático”, “Espaço físico/condições precárias da escola”, “Desvalorização dos professores”, “Falta de maior acompanhamento nas questões de indisciplina dos alunos”, “Alunos indisciplinados” e “Falta de organização diálogo entre os professores”). Pode-se perceber que os professores atribuem as causas do fracasso escolar aos próprios atores da escola e têm uma visão geral/total da escola mas, por outro lado, não conseguem focar aspectos fundamentais da instituição escolar. Como por exemplo, a forma em que a avaliação é desenvolvida, as questões pedagógicas e as dificuldades de aprendizagem dos alunos.
Quanto aos aspectos externos que influenciam o fracasso escolar, 5 categorias foram explicitadas pelos professores (“Falta de participação da família na vida escolar do aluno”, “Necessidade de sobrevivência que obriga o aluno a trabalhar”, “A violência na comunidade”, “Falta de acompanhamento aos alunos que dizem vir para à escola, mas não vem” e “Desinteresse educacional por parte do poder público”), percebe-se que a ausência da família e do poder público e a violência na comunidade são as principais categorias englobando as outras. Percebe-se também que na visão dos professores da amostra faltam políticas públicas que proporcionem aos cidadãos não apenas o ingresso, mas também a permanência na escola.
A questão 4 – ‘Relacione 3 fatores internos e 3 fatores externos à escola que contribuem para o sucesso escolar’, nos possibilitou perceber que os professores entrevistados explicitaram como fatores internos que contribuem para o sucesso escolar as categorias: “Compromisso dos professores”, “Núcleo gestor comprometido com o processo de aprendizagem”, “Interdisciplinaridade”, “Ambiente educativo motivador”, “Interesse do aluno”, “Qualidade do material didático”, “Informática educativa/multimeios” e “Cursos oferecidos”. Os professores ao explicitarem essas categorias, enfatizaram o papel dos gestores e professores como centrais para contribuir com o sucesso escolar. Quanto aos fatores externos, as categorias: “Pais participantes da educação dos filhos”, “Mais empregos”, “Família equilibrada”, “Políticas públicas voltadas para a educação”, “Aulas de campo”, “Motivação na participação das avaliações externas” e “Premiação nas avaliações externa”, foram defendidas pelos professores e mostra que a escola não é vista como algo estanque da sociedade, pelo contrário, a escola está inserida numa realidade maior.
Na questão 5 – ‘Qual o papel da avaliação no processo de ensino aprendizagem?’, os professores explicitaram as seguintes categorias: “Diagnosticar”, “Intervir”, “Recomeçar o processo de aprendizagem”, “Verificar o que o aluno aprendeu daquilo que foi ensinado”, “Fazer que o aluno adquira conhecimentos”, “Considerar a evolução do aluno no processo” e “Considerar todo o currículo desde o fundamental II”. Percebe-se contradições entre as categorias, pois ao defender categorias que demostram que a avaliação serve para medir o quanto o aluno aprendeu daquilo que foi transmitido, mostra uma concepção mais tradicional da avaliação e consequentemente do processo de aprendizagem, uma abordagem da avaliação como mensuração. A palavra “transmitir” também lembra algumas especificidades da educação tradicional, pois desconsidera que as pessoas se desenvolvem na interação com os objetos, com o outro e com o meio de forma ativa, modificando o meio e sendo modificado por ele segundo Piaget (2003b).
Pode-se considerar ainda que há uma confusão entre avaliação e verificação da aprendizagem que, segundo Luckesi (2011), a dinâmica do ato de avaliar não se encerra com a obtenção do dado ou informação que se busca. Focar apenas naquilo quanto o aluno aprendeu seria verificação, pois os sujeitos não consideram os possíveis usos dessa verificação, sendo assim uma atividade com o fim em si mesma.
Destacam-se também as categorias “Diagnosticar”, “Intervir e recomeçar o processo de aprendizagem. Estas categorias apresentam importantes aspectos da avaliação formativa que, segundo Scriven (1967), devem ocorrer ao longo do processo, de forma
processual e que possam proporcionar informações úteis para que os responsáveis promovam o aprimoramento do processo avaliativo.
Um dos professores afirmou que:
“Levando em consideração a evolução do aluno no processo, realmente a avaliação é muito importante. Infelizmente, toda a vida escolar do aluno será posta à prova em um exame vestibular que, mesmo sendo o ENEM o principal teste, ainda é um método que deixa a desejar. Se fosse levado em consideração todo o currículo do aluno desde o fundamental II, acredito que o interesse e a qualidade do ensino elevaria e muito seu nível”.
O professor expressou a importância de considerar toda a vida escolar do educando e não apenas um momento pontual avaliado com uma prova. Considerando a avaliação no seu aspecto continuado e não estanque em etapas na vida escolar.
Na questão 6 – ‘Qual a sua opinião sobre a avaliação externa?’, os professores explicitaram: “Não avalia a aprendizagem dos alunos, pois não considera o processo contínuo de diagnóstico e intervenções”, “Indicador da situação da educação nas escolas”, “Motivação para os alunos valorizarem a aprendizagem”, “Eficiente quanto à premiação”, “Eficiente quanto à cobrança dos descritores através dos conteúdos”, “Não atende aos alunos e professores no tocante às dificuldades”, “Seu questionário socioeconômico deveria ser usado em prol de uma evolução educacional” e “Desempenha o papel de censo escolar que obtém dados e não os usa”, mostrando dessa forma que os sujeitos percebem esse tipo de avaliação como algo positiva no sentido que serve como indicador de qualidade da escola, motivação para os alunos, eficiente nas premiações e na cobrança dos descritores, por outro lado, aparecem pontos negativas como não avalia realmente a aprendizagem dos alunos e não atende as necessidade educacionais. A não utilização dos dados dos questionários sócio- econômicos também aparece como fator negativa das avaliações externas.
Por fim, a questão 7 – ‘Qual a importância do currículo no processo de ensino aprendizagem?’, foram defendidas as seguintes categorias: “Uniformizar o ensino”, “Tornar as aulas mais atrativas”, “Organização escolar dos conteúdos programáticos”, “È a base do funcionamento de uma escola”, “São referenciais que sugerem a forma de repassar o conhecimento” e “Precisa se adaptar ao ENEM, para contemplar as habilidades e competências cobradas nesse exame”. Essas categorias mostram que os professores da amostra percebem o currículo como algo estanque, parado, a margem do processo de aprendizagem, dessa forma, uma visão tradicional do currículo, bem diferente das concepções mais atualizadas, como as defendidas por Traldi (1987).