A ocupação atual da terra na Vila de Barbados38 seguiu lógicas de ordenamento territorial impostas pelas condições geográficas da região bem como pelo conhecimento e costumes passados entre gerações como herança cultural. As casas encontram'se próximas à
38
Como dito anteriormente, os moradores de Barbados e Saco do Morro se consideram apenas uma comunidade dividida espacialmente, mas para os órgãos oficiais elas são consideradas comunidades distintas. Devido a fatores logísticos como a dificuldade de acesso, o estudo foi realizado apenas no núcleo de Barbados, mas nunca desconsiderando as múltiplas relações entre ambas as vilas.
água da baía de Pinheiros, o que garante o acesso facilitado aos portos familiares onde as embarcações são mantidas quando não estão em uso ou quando necessitam de reformas.
A ocupação localiza'se em uma área de várzea, circundada pela água, manguezais, grandes pedras e morros, o que limita os espaços para a construção de moradias. As pedras existentes nos morros apresentam risco de deslocamento sendo um fator primordial na escolha do local para a construção de espaços que serão habitados.
A água utilizada para o consumo de forma geral é oriunda de dois rios que nascem nos morros, canalizados por mangueiras simples até as casas.
A comunidade de Barbados é subdivida em regiões denominadas pelos moradores como Pedra Branca, Ponta, Saco e Sambaqui. O nome de cada região da comunidade faz referência a elementos físicos e geográficos que as diferenciam e as descrevem de maneira funcional para os moradores. Não existem limites precisos de divisão dessas áreas, tendo cada uma delas uma abrangência aproximada de definição de seu início e fim.
Mapa 6: Regiões da vila de Barbados
A região denominada Pedra Branca é a única que não apresenta ocupação atualmente. Ainda assim, devido aos antigos usos desta região ela ainda se constitui em um espaço de grande importância simbólica. No período da Colônia de Superagui a Pedra Branca ainda era visível, mas com o abandono da região a vegetação cobriu a grande pedra que servia como um
referencial de localização geográfica para a comunidade. Era nos arredores da pedra que algumas famílias cultivavam roças de maneira conjunta. Diversos outros espaços entre a vila do Saco do Morro e a comunidade de Canudal eram destinados ao cultivo de roças. Ainda hoje existem espaços onde poucos moradores ainda trabalham com a roça. No entanto, as áreas destinadas às roças diminuíram, uma vez que os moradores alegam a proibição da prática pelos órgãos ambientais. As demais regiões apresentadas no mapa se referem a áreas de ocupação, não abrangendo todo o território utilizado pelos moradores.
A área de mata é considerada de uso comum, mas ainda assim existem regiões dela utilizadas por famílias específicas para a retirada de lenha e outros recursos. Tais regiões não são fixas visto que existe um rodízio de áreas de extração caracterizadas pela existência de determinadas espécies, tempo de regeneração dos recursos extraídos anteriormente e outras características referentes aos ciclos naturais sendo esses fatores incorporados ao conhecimento dos moradores através das práticas tradicionais de uso dos recursos. Segundo um informante, , + . ! % , -. % " , . , % + , % % + % % / , % % , " "+ - . , " ! , - ! % - + , , > " "+ % , % " + 2 , " % (Roberto).
O mar, da mesma maneira que a mata, possui uma lógica de uso compartilhado com regras sociais já incorporadas pelos moradores (sem a necessidade de serem ainda hoje verbalizadas ou oficializadas em acordos) para a otimização destes usos. Existem pontos familiares tradicionais de pesca, sem haver, no entanto, quaisquer marcações físicas para defini'los. Os pescadores da região respeitam tais regras não formalizadas como os antigos pontos tradicionais de cerco de cada família dentro da baía39.
As quatro regiões de Barbados são interligadas por caminhos produzidos pelos próprios moradores havendo trechos de pedras e pequenas pontes de madeira para facilitar o acesso nos dias de chuva. Quando existe a necessidade de manutenção desses caminhos, os
39
Outras comunidades, no entanto, possuem demarcações espaciais para pontos de pesca tradicional de cada família. A Vila das Peças, por exemplo, sinaliza tais territorialidades específicas com o uso de bandeiras pretas onde a população local já tem incorporado quem são os “usuários” tradicionais daquele espaço, mesmo sem uma identificação escrita sobre o domínio destes pontos por cada família.
próprios moradores organizam'se em mutirões para realizá'la. Ainda que a comunidade aponte que nem todos os moradores participam dos mutirões, estes são considerados como minoria.
De maneira geral os terrenos não possuem limites precisos, não havendo muros ou cercas para delimitá'los e definir o que se encontra dentro ou fora do domínio de cada família. Tal domínio não se limita apenas à casa mas também ao seu jardim, porto para canoas, estruturas como casas de farinhas, casas de geradores e, em alguns casos, suas roças. Geralmente, a localização das casas se dá em pequenas regiões compostas por núcleos familiares mais próximos (a casa dos pais próxima à casa dos filhos).
Um costume que diferencia Barbados das demais vilas da região é o cultivo de jardins, o que mantém os terrenos e caminhos sempre coloridos e com a aparência de bem cuidados. O lixo, geralmente, é queimado, mas quando não é possível também é enterrado.
As casas são feitas de madeira advinda da própria região ou de alvenaria, o que implica na necessidade de recursos financeiros e na utilização de um transporte para o deslocamento dos materiais de construção vindos, geralmente, do centro de Guaraqueçaba. Os moradores apontam que, antigamente, as casas eram feitas a partir de técnicas que associavam o uso do barro, diferentes madeiras, cipós e palhas, demandando um vasto conhecimento acerca das épocas propícias para a extração e manejo adequado de cada recurso. Com a intervenção dos órgãos ambientais as construções passaram por transformação tanto em relação à técnica quanto ao uso de materiais. Hoje a alvenaria é incentivada pelas autoridades ambientais como forma de coibir a extração de madeiras. Neste quesito a comunidade fica dividida, ao passo que considera a alvenaria como de qualidade, mas também relativizam acerca da necessidade de muito dinheiro para que seja utilizada (tanto para a compra do material como para o deslocamento até um centro urbano onde possam comprar tais materiais). A imposição no modo de construir implica em um método indireto de controle do uso de recursos e tecnologias de dimensão identitária e relacional.
Barbados possuía no período da coleta de dados 69 moradores distribuídos em 19 casas. No entanto, existiam 6 casas destinadas à moradia que encontravam'se desocupadas e 1 casa de turista que também não apresentava moradores. Além disso, existiam as pequenas casas destinadas ao armazenamento dos geradores de energia e barcos, que não foram contabilizadas. Em termos de equipamentos ou espaços públicos foram contabilizados na comunidade 2 casas de farinha, 1 bar, 1 restaurante, 2 pequenos comércios de alimentos, 1 campo de futebol, 1 casa de cultura (pertencente à associação de moradores em parceria com
pessoas externas à comunidade) e 1 espaço comunitário denominado como Espaço Michaud (obra da Provopar em 2009). Trilhas e ruínas são encontradas ao redor da comunidade.
Em frente a Barbados estão as ilhas de Pinheiros e dos Papagaios, local onde ocorre a revoada dos papagaios da cara roxa, ou chauá ( ! " ), espécie endêmica da região. Apenas a ilha de Pinheiros apresenta ocupação humana tendo somente uma família residindo atualmente, mas também apresenta casas de turistas. A famosa revoada dos papagaios da cara roxa é um dos motivos que contribuem para o fluxo turístico em Barbados, proveniente, em sua maioria, de Superagui para passeios diários.