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The consequences of auteurism

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3. ANALYSIS

3.5. T AXONOMIC DISCOURSE

3.5.7. The consequences of auteurism

Como se sabe, a realidade social é pluridimensional e, por isso, susceptível de ser abordada de diferentes maneiras pelas diversas ciências sociais. Estas mantêm entre si relações de interdependência na abordagem aos fenómenos sociais. As diferentes ciências analisam as mesmas realidades, os mesmos fenómenos "sociais totais", embora cada uma delas, privilegiando uma perspectiva própria de análise. Neste contexto podemos afirmar que o social é único, o que varia são as dimensões a privilegiar assim como as diversas maneiras de o abordar dependendo dos interesses que orientam o investigador em ciências sociais, de acordo com a sua específica abordagem ao nível da realidade social.

Quando pretendermos estudar um determinado fenómeno social, devemos considera-lo na sua multiplicidade de aspectos e procurar várias perspectivas de análise que possam contribuir para uma melhor compreensão do fenómeno, através de um intercâmbio entre as várias disciplinas que mantêm entre si múltiplas relações de interdependência. O conhecimento dos fenómenos sociais só se constrói mediante a

148 Comunicação no I Congresso de Serviço Social, promovido pelo ISSS-Universidade Lusíada, em

complementaridade de perspectivas, pois só deste modo o objecto de estudo em questão poderá ser compreendido e explicado na sua globalidade e complexidade intrínsecas.

O conceito de género começou a surgir em textos e artigos científicos de várias ciências sociais enquanto um conceito inovador com um cariz fortemente cultural, que se diferenciava da categoria analítica de sexo, puramente biológica. De facto, definiu-se género enquanto significações e expectativas social e culturalmente associadas a comportamentos de cada sexo num determinado espaço e tempo. O género e a identidade de género do indivíduo constroem-se e reconstroem-se ao longo da sua biografia, na e com a interacção com os outros, em que o(s) masculino(s) e o(s) feminino(s) não têm o mesmo peso, valor e significado. (Maciel, 2010:15).

Com base na interdisciplinaridade das ciências sociais e reconhecendo a importância do conceito de género e a sua tendência teórica e epistemológica, procura-se inventariar os contributos de algumas áreas do saber na compreensão conceptual de género. Assim, as ciências humanas, sobretudo a sociologia, a psicologia e a antropologia, têm demonstrado como a diferenciação sexual é um elemento constitutivo fundamental da identidade de cada pessoa e das relações sociais.

A partir destes pressupostos, apresentam-se, em seguida, algumas abordagens disciplinares sobre género, designadamente, nas áreas da sociologia, antropologia, psicologia, e do Serviço Social.

A investigação sociológica no domínio das relações sociais de género centra-se, essencialmente em dois pressupostos de análise: a posição ocupada na sociedade pelos homens e pelas mulheres não são apenas diferentes, mas também desiguais e a desigualdade social entre homens e mulheres resulta, principalmente, da organização da sociedade e não de diferenças biológicas ou psicológicas.

Os estudos das relações sociais de género foram bastante marcados pelo trabalho de investigação levado a cabo pela socióloga feminista norte-americana Jessie Bernard (1982)149, que, em meados dos anos 40 do século XX, iniciou a abordagem da importância do "género" na organização da vida em sociedade150.

149 A obra mais conhecida desta autora, The Future of Marriage (1982), procura mostrar como é que o

casamento constitui um contexto institucional de cristalização de normas, valores, papéis e padrões de interacção entre o homem e a mulher, ideologicamente dominantes e que subjugam e oprimem a mulher.

De acordo com a mesma fonte, grande parte dos estudos no domínio das relações sociais de género supõe que a diferenciação de comportamentos e de traços de personalidade consoante o género resulta de expectativas socialmente incutidas nos indivíduos desde a infância, pelas quais as crianças são socializadas no sentido de desempenharem diferentes papéis, "masculinos" ou "femininos". Trata-se, pois, de investigar como é que, ao nível das interacções entre os indivíduos, são construídas as dicotomias entre o homem e a mulher. Neste domínio, são de salientar os trabalhos da socióloga feminista britânica Dorothy Smith (1987)151e da teórica feminista francesa Luce Irigaray (1985)152, sobre o modo como as linguagens actuais se baseiam, muito em experiências e conceitos masculinos.

A sociologia de género engloba, assim outros conceitos e perspectivas com tradições epistemológicas diferenciadas, como é o caso do conceito de relações sociais de sexo, que visa compreender as desigualdades e assimetrias entre homens e mulheres. Esta corrente de pensamento, defendida em Portugal por Ferreira (1999), argumenta que as relações entre homens e mulheres atravessam os vários domínios, profundamente interligados, da realidade social, quer se trate da instituição familiar, quer da profissional, e consequentemente introduz- lhes condicionalismos objectivos.

No âmbito da sociologia de género, Torres (2010), sugere, como autores de referência, Connell (1987,2002) ou Kimmel (2000), que se debruçam sobre o cruzamento entre género e família e defendem que não existem apenas uma masculinidade e uma feminilidade, pois o género é bem mais plural.

As ideias fundamentais de Connell, a propósito de género e vida privada centram-se na crítica à teoria da aprendizagem ou socialização de papéis de género que considera terem contribuído para essencializar, naturalizando essas aprendizagens de género. Para Torres (2010), esta perspectiva revela-se aberta e não determinista quanto aos efeitos das socializações familiares na construção de género. Ao criticar a teoria dos papéis sexuais, que dão uma prevalência determinística e unívoca às socializações primárias, reduzindo o papel dos sujeitos a seres passivos e afastando a influência de outros elementos externos à família na construção

151 Smith, Dorothy E (1987), The Everiday World as a Problematic A Feminist Sociology, Boston,

Norheastem University Press, in Género (sociologia), In Infopédía. Porto; Porto Editora, 2003-2012

152 Irigaray, Luce (1985), This Sex Wich Is Not Once. Ithaca: Cornell Univerity Press, in Género

identitária, contribui assim, mais uma vez, para recusar uma visão essencialista do género, agora no plano da vida íntima e pessoal (Torres, 2010:125).

Kimmel (2000), ao abordar a família mostra como o género atravessa todas as dimensões da vida familiar: da escolha do cônjuge ao casamento, da parentalidade à edução dos filhos até às politicas relativas ao trabalho doméstico e aos cuidados com os filhos. Para além das desigualdades já conhecidas de poder entre homens e mulheres na família, ele procura identificar, as desigualdades na repartição de tempo de trabalho (pago e não pago) entre homens e mulheres na família, ao mesmo tempo que denuncia a insuficiência de políticas relativamente ao apoio à família, sublinhando, as tensões a que as mulheres e mães trabalhadores estão submetidas (Kimmel, 2000:132). Para Torres (2010:126), a perspectiva sociológica de Kimmel, partindo de resultados de investigação efectuada nos EUA contribui para uma visão actualizada dos temas da família, para além do tema do género que trata de forma aprofundada (Torres, 2010:126).

Torres (2010:127), refere ainda três autoras: Pamela Abbott, Claire Wallace e Melissa Tyler153, que escreveram uma introdução à Sociologia numa perspectiva feminista por contribuir para a revisão dos temas clássicos da sociologia, tratando-se de um livro onde os vários domínios da vida social são apresentados na perspectiva das mulheres.

A sociologia de género em Portugal teve um início tardio, lento e irregular, dada a institucionalização também tardia da sociologia em Portugal, resultante do contexto histórico, político, social e cultural do país. Como tal, a sociologia de género necessitava de uma articulação entre a própria consolidação das ciências sociais portuguesas e o movimento feminista, este campo da sociologia manteve-se em estado de latência até aos anos 80 (Amâncio, 2003).

Foi nessa década que alguns artigos científicos no seio da sociologia da condição feminina foram publicados com o intuito de dar a conhecer a situação real das mulheres portuguesas. No entanto, nos anos 90, este campo científico deixou de estudar "a mulher" para analisar "as mulheres", e substituiu a noção de "condição" pela de "relação"(…) (Amâncio, 2003).

Vale a pena, de forma breve referenciar alguns contributos de autores que em Portugal se têm destacado relativamente ao conceito de género.

153 Abbott, Pamela, Claire Wallace e Melissa Tyler (2005), An Introcdution to Sociology. Feminist

Torres (2001), tal como Amâncio (1994) e Almeida (1995) apresentou o conceito de género, no livro Sociologia do Casamento: A Família e a Questão Feminina, como a construção social e cultural dos comportamentos, representações, papéis e expectativas dos indivíduos a partir do corpo biológico. Ou seja, tal como West e Zimmerman (1991) enunciaram, a biologia fornece a matéria-prima a partir da qual se começa a construir a identidade de género de cada indivíduo, mas a sociedade e a história fornecem o contexto. A interacção, socialização e integração na sociedade, a partir do corpo biológico, faz do indivíduo o que ele é. Deste modo, é ao longo de um processo permanente de construções e reconstruções, vulnerável a mudanças e contingências, que o indivíduo desenvolve a sua identidade de género. No entanto, Torres (2001) complementou a perspectiva destes sociólogos, ao alertar para o importante peso dos constrangimentos socioinstitucionais na construção do género. O local objectivo que o indivíduo ocupa no trabalho, na família e nos contextos em que ocorrem as interacções no quotidiano detém uma influência considerável que West e Zimmerman (1991) negligenciaram (Maciel, 2010:6).

Outros contributos portugueses destacados por Torres (2010), temos: Ligia Amâncio (1994); Helena Carreiras (1997); Miguel Vale de Almeida (1995); Lurdes Rodrigues (1989); Maria das Dores Guerreiro (1994) e Virgínia Ferreira (1999).

A psicologia apresenta aspectos interessantes para a compreensão do conceito de género, que como já foi referido reveste-se de grande importância no estudo em presença. Nesta perspectiva, a filósofa feminista Sandra Harding (1986) descreve três tipos de posturas no domínio do estudo do género na psicologia: a perspectiva empiricista, a de “standpoint” feminista e a pós moderna.

A perspectiva empiricista engloba dois tipos de abordagem: a abordagem essencialista e a abordagem de ênfase na socialização. A primeira, com grande influência no início do século XX, sugere a existência de diferenças inatas entre os sexos, sendo o género equivalente a sexo. A segunda, com grande influência na psicologia social nas décadas de 60 e 70 apresenta o género como o resultado de forças sociais e culturais, aprendido através dos processos de modelagem e imitação (Bandura, 1977). Assim, a masculinidade e a feminilidade passam a ser características socialmente aprendidas através do desenvolvimento cognitivo e emocional. A ênfase do género deixa de estar na biologia e passa para a socialização.

As abordagens da socialização face ao género, apesar de apresentarem inovações, continuam a enfatizar que o género é aprendido e não inato, mas continua a entender o género em termos de diferença dicotómica, sendo interno e imutável.

Uma abordagem que aparece como alternativa à abordagem empiricista é identificada como “feminist standpoint” (Harding, 1986). Esta posição enfatiza o aumento do conhecimento como uma actividade pessoal onde o pesquisador e sujeito estão em interacção contínua, sendo indissociáveis das suas próprias experiências. Centralizam os estudos nas próprias mulheres, produzindo conhecimento que consideram verdadeiramente feminino porque exclusivamente centrado nas experiências particulares das próprias mulheres (Nogueira, 2000: 174).

Uma terceira abordagem no estudo do género que Harding (1986) designa por pós- moderna e que na psicologia é protagonizada pelo construcionismo social154. Esta abordagem “recusa a possibilidade de discursos universalizantes e generalizáveis acerca da mulher ou de todas as mulheres. Discutindo-se a existência de identidades essencializadoras e focaliza-se a atenção na construção social das categorias que são usadas para analisar e compreender o mundo social, ou seja o conhecimento socialmente construído”(Nogueira, 2000:179).

Pode então, concluir-se, com base nas diferentes perspectivas teóricas, que o construcionismo social aponta para um tipo de abordagem baseado nos problemas das populações locais, contrariamente às pesquisas realizadas fora do contexto, de tipo universal155.

No âmbito da abordagem multidisciplinar de género, será pertinente para a sua compreensão, analisar alguns aspectos relacionados com o pensamento ético no feminino. Neste sentido, a literatura feminista sobre ética, designadamente autoras como Carol Gilligan (1982) e Nel Noddings (1984), entre outras, têm chamado a atenção para o facto

154Análise do discurso ou psicologia crítica em função de diferentes nuances dentro da mesma postura

epistemológica.

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As correntes, como o funcionalismo, o estruturalismo, o subjectivismo, o construtivismo ou o interpretativismo têm uma forte influência no serviço social, mas não constituem, elas próprias teorias do serviço social. O objecto, fundamentos teóricos, axiológicos e metodológicos de acção dos assistentes sociais variam entre uma visão estática, conservadora, funcional e paternalista e uma visão dinâmica, progressista, estrutural e emancipadora das populações.

do “sujeito moral” não ser neutro, o que significa que há dois tipos de sujeito – o masculino e o feminino.

Com efeito, na construção da identidade feminina “há ritmos biológicos bem determinados, há fragilidades, há resistências, há possibilidades e impedimentos, há apetências e rejeições que se prendem com o corpo. Conceitos éticos fundamentais como os de pessoa, liberdade e consciência moral, enraízam-se num corpo sexuado. O modo diferente de habitar o corpo, ou de viver a gestação, ou de estabelecer relações com os filhos, tem implicações na teorização ética dos conceitos de personalidade moral, de dever, de valor.(...) uma sociedade melhor terá que ser eticamente plural e na construção da pluralidade, os valores femininos deverão ser relevados”(Ferreira, 2000: 104).

Carol Gilligan (1982), discípula e colaboradora de Kohlberg156, a partir dos resultados do mestre e recusando a hipótese de uma menoridade ética das mulheres, resolve retomar a questão analisando-a numa outra perspectiva. Desse estudo surge o livro In a Different Voice, que constituiu um marco nesta temática. A autora pretende alargar a compreensão do desenvolvimento humano, incluindo nele uma voz feminina, com insistência na responsabilidade, na relação e no cuidado/mulheres, que foi deixado de fora na construção das teorias.

Gilligan (1982), pondo em causa as conclusões de Kohlberg (1984), analisa a génese dos conceitos morais, utilizando situações em que as mulheres estavam directamente envolvidas. Tornou-se evidente a existência de uma moralidade tipicamente feminina, menos atenta ao direito e valorizando o cuidado, referenciando os seus critérios éticos em função da relação com os outros e da responsabilidade.

Refere a mesma autora que a construção das identidades, masculinas ou femininas assumem grande destaque. Interessa, pois, realçar as diferenças, de modo a que cada sexo,

156 Lawrence Kohlberg foi professor na Universidade de Chicago, bem como na Universidade Harvard.

Especializou-se na investigação sobre educação e argumentação moral, sendo mais conhecido pela sua teoria dos níveis de desenvolvimento moral, criando um novo campo na psicologia: "desenvolvimento moral". Uma das suas obras mais conhecidas: Essays on moral development, Vol 2: The psychology of

alcance a sua realização ética, a partir das potencialidades próprias, não devendo continuar- se a apresentar um modelo ético único.

As teses de Carol Gilligan (1982) levantaram muita polémica e contestação, suscitando muitos debates e chamaram a atenção para dois modelos éticos igualmente válidos, a ética da justiça, mais frequente nos homens, baseia-se essencialmente nos direitos e a ética do cuidado, designada por ética feminina, que se baseia no amor, na atenção ao outro, na inter-relação e na responsabilidade.

Como podemos observar, pela narrativa de uma mulher do Casal da Mira, esta questão está muito presente, o que se verifica na maioria das trajectórias de vida destas mulheres. Algumas delas, depois de terem criado os filhos, sozinhas, sem ajuda de homem, ainda acabam por criar os netos, pois é bastante frequente jovens raparigas ficarem grávidas, os rapazes (pais), não assumirem a responsabilidade e elas por imaturidade e falta de condições, acabam por deixar as crianças ao cuidado das avós:

“….Eu vim para Azinhaga, em 1980, tinha 21 anos para tomar conta da minha irmã Andresa, porque a minha mãe morreu, e o meu pai estava internado no hospital…. Também tomava conta dos meus irmãos que eram pequeninos …….depois os meus irmãos cresceram e fui, novamente, trabalhar em limpezas, até hoje……..Eu tinha um namorado, de quem tive uma menina. Depois o pai emigrou para França, nunca mais voltou. Ffiquei sozinha com a bebé……depois juntei-me com um rapaz de quem tive o segundo filho…… vivi com ele 3 anos e emigrou para França……não voltou, então eu fui lá buscar ele. Ele entrava e saía, não dava …… eu tive essa menina que está com 11 anos. Vai para 5 anos que ele foi para o Algarve e não veio mais, nem ajuda na despesa dos filhos…..O meu filho teve esse bebé com uma menina e ela abandonou o menino, então a minha filha foi buscar a criança e estamos a criá-lo”. (Hirondina, 48 anos)

Nel Noddings157, reforçou a perspectiva de uma ética do cuidado. A partir da relação mãe/filhos e professora/alunos, Noddings identifica a ética do cuidado como uma orientação moral superior à das teorias da justiça baseadas em princípios e regras, pois considera que essa ética está suportada na “atitude que expressa as nossas memórias mais precoces por termos sido acarinhados e da nossa acumulação de memórias, que respeitam, simultaneamente, ao acto de termos sido cuidados pelos outros e vice-versa” (1984: 5).

Para Noddings (1984), o cuidado desenvolve-se em círculos de pessoas que estão ligadas entre si e que podem transformar-se em cadeias de afectos. Refere que “Sendo o

157 Filósofa da educação e professora de ética feminista, em Stanford University e Columbia University

(EUA), notabilizou-se com o seu livro “Caring: a feminine approach to Ethics and moral Education” (1984).

cuidado, um elemento estruturante de ética, opõe-se ao ponto de vista masculino, que se afirma imparcial. Esta “imparcialidade” é desadequada porque exige distância relativamente à totalidade das situações concretas, retirando-lhes os aspectos que se possam considerar moralmente relevantes e generalizáveis, o que desfragmenta e desqualifica todo o tipo de razões morais próprias que as mulheres habitualmente expressam e que advém de um conhecimento detalhado, mas global (holístico) que costumam ter da realidade”(1984: 46-50). Nesta perspectiva, a interdependência que se estabelece entre “quem cuida” e de “quem é cuidado” obriga a uma “imersão total”, a um “compromisso total” com as necessidades, interesses e preocupações da pessoa que precisa do cuidado”. A ilustrar esta questão apresenta-se a situação de uma mulher, viúva, residente no Casal da Mira:

“….. Não tenho ninguém que me ajude a cuidar dos meus filhos……Tenho o meu pai com 80 anos, que foi operado à anca, tenho o meu irmão, que é muito doente, tenho o meu filho invisual que também requer muita atenção ..…. está tudo dependente de mim.”(Margarida, 38 anos)

No que se refere aos contributos da antropologia, é de salientar que a antropologia social e cultural clássica, tal como o conhecimento científico em geral caracterizou-se pelo androcentrismo158, tendo sido o movimento feminista do pós-guerra que deu origem à antropologia de género, a qual veio dar visibilidade às mulheres e trouxe inovações teóricas e conceptuais à disciplina.

Stolke (1996) faz uma abordagem sobre o desenvolvimento da antropologia de género, em que refere, entre outras, duas antropólogas que foram determinantes na

158Termo atribuído ao sociólogo americano Lester F. Ward em 1903, está intimamente ligado à noção de

patriarcado, porém não se refere apenas ao privilégio dos homens, mas também da forma como as experiências masculinas são consideradas como iguais as experiências de todos os humanos e tidas como uma norma universal tanto para homens quanto para mulheres, sem dar o reconhecimento completo e igualitário à sabedoria e experiência feminina.

evolução do pensamento antropológico sobre esta questão e que foram Andrey Richards159 e Plyllis M. Kaberry160.

Nas suas obras, as autoras têm o mérito de apresentarem e descreverem toda a riqueza da dimensão feminina dos processos socioculturais em geral. Foram pioneiras pelo enorme valor etnográfico das suas obras, que constituem documentos históricos sobre um mundo desaparecido devido às enormes transformações socioeconómicas que sofreram os povos por elas estudados.

Posteriormente, nos anos setenta, surgem alguns “estudos da mulher”, universalistas e categóricos, segundo os quais, a mulher é entendida como categoria sociocultural indiferenciada que esteve sempre oprimida, situação ligada à sua função materna. O conceito de género, foi introduzido no princípio dos anos oitenta pretendia superar o enunciado essencialista e universalista161. Transcende o reducionismo biológico ao centrar a análise das relações entre mulheres e homens entendidas como construções culturais. Nesta teoria entende-se que as identidades de género constituem-se reciprocamente, o que implica considerar que só se pode compreender a experiência das mulheres num determinado contexto e é necessário ter em conta os atributos do homem162. Ora, esta teoria de género ganhou terreno progressivamente, embora persista numa

159Audrey Isabel Richards (8 Julho 1899 - 29 Junho 1984), britânica, foi pioneira, na antropologia social de

género, tendo desenvolvido trabalho em vários países, mas principalmente na África subsariana.

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