5. Methodology
5.2 Challenges in the data gathering process
Com o objetivo de chegar a um nível de detalhamento maior, as instâncias de mudança foram analisadas segundo a escala de ordens de Catford ([1965] 1978). Todas as categorias sugeridas pelo autor foram aplicadas. No entanto, verificou-se que algumas categorias não foram produtivas para a investigação da convencionalidade. A Tabela 17 apresenta esse refinamento da análise das mudanças na tradução através da escala de ordens e traz apenas as mudanças efetivamente verificadas no corpus de estudo.
Tabela 17: Mudanças na tradução segundo a escala de ordens
Mudanças Ocorrências (A)
Acréscimo de morfema de palavra de grupo/oração 97 85 150 Expansão de palavra para grupo 11
Omissão de palavra 12
Contração de grupo para palavra 108
Como discutido anteriormente, o acréscimo foi a alteração mais frequente no
corpus. Esses acréscimos foram de três tipos: acréscimos de morfemas (97), acréscimos
de palavras (85) e acréscimos de grupo/oração (150). Esse último tipo engloba tanto ocorrências de acréscimo de grupos de palavras quanto de orações por uma decisão metodológica. Durante o processo de análise dos dados, verificaram-se ocorrências em que a fronteira entre grupo e oração nem sempre era clara – como, por exemplo e
principalmente, nos acréscimos de “é que” e “ foi que” depois de pronome relativo e
conjunção integrante. O único tipo de expansão verificado foi a expansão de palavra para grupo (11), o único tipo de omissão registrado foi a omissão de palavra (12) e o único tipo de contração registrado foi a contração de grupo para palavra (108).
A Tabela 18 apresenta as mudanças de acordo com a escala de ordens para cada TT do corpus.
Tabela 18: Mudanças na tradução segundo a escala de ordens para cada TT Mudanças GC_Britto (A) IM_Britto (A) LL_Britto (A)
Acréscimo de morfema de palavra de grupo/oração 14 36 83 24 20 43 59 29 24 Expansão de palavra para
grupo
4 5 2
Omissão de palavra 2 4 6
Contração de grupo para palavra
17 31 60
O maior número de acréscimos de palavras (36) e de grupo/oração (83) foi verificado em GC_Britto. Enquanto isso, as instâncias de contração, resumidas à contração de grupo para palavra, foram menos frequentes em GC_Britto (17). Esses resultados corroboram as observações feitas anteriormente sobre a interferência do estilo de GC_Roth, em especial em relação à expressão de alteridade dos sujeitos, nas escolhas de Britto. O procedimento mais frequente em IM_Britto foi acréscimo de grupo/oração. Esse resultado está relacionado a ocorrências de dupla negativa e de “é
que” e “foi que” depois de pronome interrogativo e de conjunção integrante. As
instâncias de omissão foram poucas e estão relacionadas, principalmente, com ocorrências de sanitização.
LL_Britto foi o TT que registrou o maior número de acréscimos de morfema (59) e o maior número de contrações de grupo para palavra (60) no corpus de estudo.
Esses dois resultados estão relacionados, em particular, ao emprego de palavras com os sufixos –inho e –inha para formar o diminutivo em língua portuguesa. LL_Britto foi o TT que registrou as frequências mais altas de ocorrência de itens lexicais formados a partir desses sufixos. Os itens lexicais formados a partir de –inho apresentaram uma frequência de ocorrência normalizada de 38,83 e os itens lexicais formados a partir de – inha apresentaram uma frequência normalizada de 19,93. Tanto as ocorrências de acréscimo de morfema quanto as ocorrências de contração de grupo para palavra estão relacionadas ao emprego de itens lexicais com esses sufixos e também com o estilo do TF LL_Updike. Uma das características do estilo de John Updike, autor do TF LL_Updike, é utilizar ironia para criticar a vida da classe média norte-americana dos subúrbios. A vida de Rabbit, personagem central da coletânea compilada para integrar o presente corpus de estudo, é tomada especificamente como uma crítica ao comportamento humano na sociedade conservadora norte-americana, e às normas dessa sociedade que entram em conflito com o ego individual (cf. MORLEY, 2009; SHARP, 2006). As ocorrências de itens lexicais formados a partir de –inho e –inha no TT LL_Britto estão relacionadas com a recriação dessas instâncias de ironia e crítica do TF, conforme ilustrado no Quadro 23.
Quadro 23: Ocorrências de palavras com sufixos –inho e –inha em LL_Britto
TT TF
(1)
O tesouro fundamental de sua vida estava enterrado ali, na cidadezinha
de Olinger, e ele não perdia a esperança de recuperá-lo.
The basic treasure of his life was buried back there, in the townof Olinger, and
he kept hoping to uncover it.
infantis.
(3)
"Onde está o Jeffrey?"
“Em Taos, tentando pintar,
coitadinho.”
"Where's Jeffrey?"
"In Taos, trying to be a painter, the poor darling.”
(4)
E o chefe da polícia era um homenzinho espevitado, tão pequeno
que chegava a ser cômico, de quem ninguém tinha medo, nem mesmo as
crianças da primeira série, quando ele parava o trânsito para que elas atravessassem a rua em frente à
escola.
And the police chief was a perky, comically small man who inspired fear in no one, not even in first-graders as he
halted traffic to let them cross the street to the elementary school.
O exemplo (1) apresenta uma ocorrência de acréscimo de morfema, quando
“town” no TF, é traduzido como “cidadezinha” no TT. Nesse caso, o emprego da forma
no diminutivo tem relação com a depreciação da cidade e com o sentimento melancólico que o personagem tem por ela. O exemplo (2) também apresenta uma
ocorrência de acréscimo de morfema ao traduzir “shits” como “merdinhas”. Nesse
exemplo, várias alterações de diferentes ordens foram realizadas para dar ao TT a fluência aparente do TF. O exemplo (3) apresenta uma ocorrência de contração de grupo
para palavra ao traduzir “the poor darling” por “coitadinho”. Essa ocorrência faz parte
de um diálogo com falas irônicas sobre a tentativa de um personagem, Jeffrey, de escapar de uma vida comum e suburbana. O exemplo (4) traz também uma ocorrência de contração de grupo para palavra ao traduzir “small man” por “homenzinho”. O uso
do diminutivo no TT, nesse exemplo, não apenas mantém o sarcasmo do TF como,
através de alterações de ordem sintática, traduz “a perky, comically small man” por “um
homenzinho espevitado, tão pequeno que chegava a ser cômico”. Essas alterações mostram explicitamente a intervenção do tradutor, que não se restringe à relativa correspondência formal, mas reelabora o grupo nominal, amplificando-o.