OF JUDGE PINTO DE ALBUQUERQUE
A. The combination of administrative and criminal penalties
As entrevistas com os policiais militares recém-formados foram fundamentais para a avaliação do respectivo processo de ensino e aprendizagem da linguagem e comunicação policial; assim, a partir das respostas adquiridas, foi possível comprovar a existência, na presente Corporação, de uma abordagem mais estrutural envolvendo o processo de ensino e aprendizagem da linguagem e comunicação policial, ou seja, uma abordagem ainda inapropriada à formação policial nesse aspecto. Vejamos as respostas dos policiais:
1. Em relação ao tema Comunicação Social/Telecomunicações, o que os senhores aprenderam em seus cursos de formação policial?
Bem! Eu aprendi o Código Q, a mexer no rádio, pelo menos no rádio antigo. A PM ela tá passando por um processo de modernização, então, nós adquirimos um
novo rádio, infelizmente, nesse a gente ainda não teve um curso, mas quanto ao rádio antigo a gente tem um curso, também de forma básica, é... o Código Q, a falar no rádio e, quanto a comunicação, mais voltado pra comunicação social, também nós tivemos algumas matérias básicas, como se portar em entrevistas, é..., ter cuidado a, a, ao que falar, evitar gírias, essas, coisas. (2º tenente do 10º
BPM, recém-formado do CFO).
No curso de formação? Eu aprendi o diálogo, como deve ser feito, como que
funciona o aparelho; é... como que deve ser a comunicação entre... via rede rádio, entre policiais e pela rede, basicamente isso, funcionamento e como deve ser! [Reforço da pergunta do autor – comunicação social, alguma coisa?] de
comunicação social? Ham... a gente teve pouco, a gente teve mais de...
comunicação via rádio mesmo, de comunicação social foi bem pouco mesmo, não teve muita não! (Soldado do 4º BPM, recém-formado do CFP).
2. Que tipo de linguagens os senhores utilizam nas comunicações de serviços operacionais e entre os seus próprios pares?
Então isso aí seria mais uma situação interna nossa aqui, né? [Resposta do autor –
Interna né, e operacional, entendeu? Entre vocês mesmos!] Numa situação
interna, a gente utiliza mais... é, uma situação mais cordial mesmo, né? Pelo
menos a minha visão é essa, mais tranquila mais cordial, como um profissional, nada mais. E com a situação do policial militar com a sociedade, também da mesma
forma! Bem profissional, é uma linguagem... é, é comum usado no dia a dia, mas
de forma profissional. (2º tenente do 10º BPM, recém-formado do CFO).
Como assim o tipo de linguagem? [Esclarecimento da pergunta por parte do autor -
Qual tipo de linguagem; linguagem técnica, linguagem mais cordial, mais informal?] Depende... no serviço operacional, né? É..., bom, depende, né? O policial
com quem eu trabalho todo dia é um, mais informal, com aqueles policiais que a gente não tem tanto contanto... é... de forma mais formal, mas não, assim, não tem um padrão, é totalmente de forma formal ou totalmente, não tem esse padrão! [Reforço da pergunta do autor – Códigos de serviços?] Resposta da policial – Via
rede rádio, mas, alguns no dia a dia, que são codinomes de, por exemplo, refeição que a gente usa o RF, essas coisas assim, não tem um padrão fixado,
não tem isso muito não. (Soldado do 4º BPM, recém-formado do CFP).
3. Ao saírem de seus respectivos cursos, os senhores se sentiram preparados ou aptos para a prática de comunicação operacional (policial x policial), bem como social (policial x cidadão comum)?
Eu acho que toda pessoa quando sai de uma faculdade ou de um curso de formação, ela, ela... estremece, quando vai pra vida, pra vida real, né? Porque...
é onde há um confronto de todo conhecimento que obteve, né? No meu caso
específico, eu não me senti muito preparado, isso tudo porque, na vida real, não sei se também é possível, mas era muito, muito diferente do que, do que passou no plano teórico lá da academia. (2º tenente do 10º BPM, recém-formado do
CFO).
Sim, sim, de comunicação sim! A gente sai muito cru em relação à vivência, mas de comunicação a gente teve um preparo bem..., assim, muito bom. (Soldado do
4º BPM, recém-formado do CFP).
4. Em seus períodos de atuação policial, já se depararam com alguma palavra que não souberam interpretar ou entender?
Ah! Tem algumas, alguns casos que sim! Que..., às vezes eu sei o, o significado,
mas a pessoa que tá falando, ela não sabe, e eu entendo de uma forma e ela, no entendimento dela, ela tá falando de outra forma, tem vários casos dessa forma.
(2º tenente do 10º BPM, recém-formado do CFO).
Mais jargões de rua, às vezes a gente vai fazer uma abordagem e o abordado usa alguns jargões que a gente não teve conhecimento, por ser assim, características do local mesmo, né? Você vai trabalhar em determinada área; é
regionalismo mesmo! Igual você tá aqui, aqui em Brasília aí você vai pra Minas, você não entende algum jargão que é usado lá, mas isso, agora do serviço mesmo não. [Reforço da pergunta por parte do autor – Entre seus pares, você conseguiu
interpretar todas as palavras até agora?] continuação da resposta da policial – Sim,
sim, tranquilo, não tem muita variação do vocabulário, do que a gente usa no dia a dia não. (Soldado do 4º BPM, recém-formado do CFP).
5. Os senhores sabem especificar o que são comunicações verbais e não verbais? Se sim, podem dar exemplos desses dois tipos de comunicações utilizados no serviço policial?
Bem, eu acredito que a comunicação verbal, é, são as palavras , né? E a não
verbal, ela inclui, abrange o restante, os gestos, a postura da pessoa, né? (2º
tenente do 10º BPM, recém-formado do CFO).
Sim, verbal é que a gente tá fazendo agora, (risos) e a não verbal é... [Reforço da
pergunta por parte do autor – Me dá exemplos de algumas linguagens verbais e não verbais que vocês utilizam aqui!] Continuação da resposta – Assim..., a
comunicação verbal é o que a gente tá falando agora, é... a conversa mesmo, o som saindo, a verbalização; a..., a não verbal é mais expressão corporal, é a face da
pessoa, por exemplo, você vai fazer uma abordagem, você percebe que ela tá mais tensa, pela forma como o corpo dela reage, como você inicia a abordagem; isso seria a não verbal. (Soldado do 4º BPM, recém-formado do CFP).
Por meio das entrevistas, se observa claramente uma possível falha que a abordagem estrutural ocasiona ao processo de ensino e aprendizagem da linguagem e comunicação policial. Na primeira assertiva, os policiais recém-formados lembram apenas de alguns dos códigos repassados durante o curso de formação, bem como a respeito da funcionalidade operacional do aparelho de rádio. E ainda na primeira assertiva também, os próprios policiais reconhecem a carência de outros conteúdos, dentre os quais a comunicação social.
Pelo fato de não terem aprendido, nos referidos cursos de formação policial, a linguagem policial de forma específica, eles acabam não sabendo discernir o que realmente falam como profissionais, se são apenas códigos internacionais para a radiocomunicação, se é um linguajar mais informal ou formal, o tempo dessas linguagens etc. Já na terceira assertiva, os policiais afirmam que não se sentiram preparados, depois de seus respectivos cursos de formação, para atuarem comunicativamente na sociedade de um modo geral. O próprio tenente, em sua resposta, ressalta o grande descompasso entre o que foi ensinado na academia e a realidade que ele mesmo vem enfrentando nas ruas.
Ainda nessa assertiva, a soldado elogia o processo de ensino sobre a comunicação policial, mas esse elogio é amplamente descontruído quando ela mesma afirma que os policiais saem crus em vivência social. Sabe-se que a comunicação sem a vivência não existe, é absolutamente impossível uma viver sem a outra. O que dá a entender é que o elogio faz relação às abordagens estruturais que envolvem somente a memorização de alguns códigos, bem como a dinâmica dos equipamentos de radiocomunicação e outros aspectos estruturais simples. Enfim, os entrevistados demonstram insegurança sobre o contexto das variações da Língua Portuguesa, isto é, gírias sociais, jargões profissionais, comunicações verbais, não verbais e fazem confusão entre aspectos de linguagens paraverbais e não verbais, ou seja, os policiais confundem uma coisa a outra.
Fica mais do que claro a ineficiência da abordagem estrutural para o ensino e aprendizagem da linguagem e comunicação policial. Por meio desse aspecto de ensino, o
aprendiz policial fica obrigado a praticar somente a memorização temporária ou simplesmente decorar alguns sistemas estabelecidos para a linguagem, tais como, códigos e a sistematização dos aparelhos de comunicação. Esse método, além de pesar a memória dos novos policiais, provoca também a ansiedade, o que acaba prejudicando, por outro lado, o ensino e a aprendizagem de outras disciplinas policiais.
Enfim, do mesmo modo, por ser o exercício da memorização, algo parcial, os novos policiais, certamente, irão esquecer grande parte do que lhes foi ensinado ou do que foram obrigados a decorar para a realização de uma prova durante o período do curso de formação. A abordagem estrutural não parece gerar aquisição (duradoura) por parte dos novos policiais da linguagem policial e nem mesmo prepara o aluno para o exercício da comunicação policial. Assim, o novo policial não se torna competente e acaba também não possuindo a habilidade adequada, nem mesmo a sociabilidade comunicativa de forma integrativa.