A interlocução de Rebouças e Ortega com os programadores da rede Sesc começou em meados de março. Desde então, a intenção era terminar a “Mostra de Processo” em abril e, até julho, no máximo, estrear O desvio do peixe. Inicialmente, o coletivo achou que seria importante vender o espetáculo para o Sesc, nas unidades Belenzinho, Pinheiros e Consolação – além de os três espaços serem interessantes aos olhos do Grupo, o diretor e o ator da Artehúmus tinham contatos pessoais nesses locais. Apesar dos planos traçados, nem tudo aconteceu conforme o desejo do coletivo.
Após inúmeros e-mails e ligações trocadas, os programadores das três unidades combinaram com Rebouças que iriam assistir ao espetáculo, mas só poderiam fazê-lo na primeira semana de maio de 2014. Com isso em vista e apesar da demora, decidimos que seria oportuno fazer a apresentação na Casa Amarela, assim não perderíamos a chance de vender a peça. No dia combinado, montamos tudo, ensaiamos as cenas e esperamos pelos programadores culturais... Todavia, nenhum dos três apareceu302. A
frustração repetia, ainda que num contexto muito mais favorável, antigas decepções do Grupo em terras paulistanas. De fato, a ausência dos programadores culturais relaciona- se com o fato de haver muitos coletivos tentando vender suas obras para o Sesc,que diz não ter capacidade de ofertar espaço à todos. De qualquer modo, é improvável que todos os coletivos recebam o mesmo tratamento: enquanto alguns são lembrados, outros ignorados. Quanto à Artehúmus, após insistir, conseguiu um espaço na instituição.
Após dias a fio de persistência, Rebouças e Ortega conseguiram agendar uma reunião com o programador do Sesc Consolação; depois disso, ainda aguardamos um longo período até receber a notícia de que havíamos entrado para a pauta da instituição: as apresentações seriam na sala Beta, às segundas e terças-feiras, durante todo o mês de
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outubro de 2014. Os integrantes mais experientes da Artehúmus festejaram os dias concedidos, pois, desde Ohamlet, descobriram que dias alternativos atraem mais público, visto que, nesse período, a concorrência com outros espetáculos torna-se menor303. Por conta disso, desde então apresentar-se em dias “menos nobres” passou a
ser uma estratégia de sobrevivência da Companhia. Evidente que, inicialmente, essa preferência não se deu por vontade do próprio Grupo, afinal, os espaços culturais é que escolhem quando, como e onde receberão os espetáculos. De qualquer modo, ao que parece, a Artehúmus adaptou-se bem à posição que foi-lhe concedida pelas instituições paulistanas. Situação semelhante deu-se com o espaço cênico d’ O desvio do peixe: logo de início foi acordado entre Rebouças e o Sesc que o espetáculo seria realizado na sala Beta e não no teatro. É verdade que há vários anos (mais precisamente, desde Evangelho) o coletivo tem se dedicado a pesquisar espaços não convencionais e, por isso mesmo, contenta-se (e até prefere) apresentar-se em ambientes menos habituais para o espetáculo de teatro – como muitos outros Grupos que transitam com expedientes do tetro contemporâneo. Todavia, a escolha estética da Companhia não deve ser pensada separada de uma estratégia de subsistência no competitivo universo teatral paulistano que ela adota.
Acertados os detalhes, após seis meses sem apresentar O desvio do peixe, estreamos em 29 de setembro de 2014. Dessa vez, utilizamos a iluminação assinada por Edu Silva304 e o cenário completo de Luis Rossi. Portanto, esteticamente, o espetáculo
foi apresentado pela primeira vez conforme fora idealizado pelo coletivo.
Durante todo o mês, recebemos amigos, familiares, estudantes de teatro, artistas parceiros, integrantes de outros Grupos, críticos e jurados de prêmios. Com lotação máxima de cinquenta lugares, contamos, em média, com um público de quarenta pessoas por apresentação305.
Apesar de ter mais espectadores do que na Casa Amarela, o espetáculo tornou-se mais intimista por conta da luz e, principalmente, porque a acústica do ambiente era
303 Atualmente há espetáculos durante todos os dias da semana na cidade de São Paulo. Ainda assim, é
entre quinta-feira e domingo que a maior parte dos coletivos ocupam as instituições culturais com suas temporadas. Apesar de haver espetáculos também nos outros dias, de fato a concorrência é bem menor; principalmente às segundas-feiras, pois, nesse dia, os Sesc's fecham – com exceção da unidade Consolação.
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Além das luminárias que já tínhamos usado na Casa Amarela e da luz exterior à peça (operada por Carlos Camargo), Silva acrescentou à encenação dez abajures que ficavam entre o público. Desse modo, os espectadores também ficavam iluminados e, assim, adentravam no espaço de encenação.
305 A Artehúmus não considera este um ótimo número, já que, segundo os próprios, a temporada de
Ohamlet (feita no mesmo espaço) não só esgotava os lugares como, inclusive, era frequente ter de
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melhor. Assim, durante toda a temporada no Sesc, Rebouças indicou que baixássemos a voz e respeitássemos os silêncios da obra – de fato, quando não atingíamos esse lugar e elevávamos o tom do espetáculo, percebíamos que tudo soava falso. As orientações do diretor nesse sentido foram ainda mais persistentes depois que Alexandre Mate acompanhou o espetáculo. Para o professor e amigo da Companhia, as figuras estavam dizendo os textos muito facilmente, enquanto que aquelas palavras deveriam sair com dificuldade de suas bocas (por exemplo, os intérpretes tinham de tartamudear mais). A partir de então, Rebouças dirigiu vários trechos do espetáculo propondo que balbuciássemos e elaborássemos o pensamento das figuras durante a própria realização da cena (e só então falar com o espectador). Como se vê, mesmo que O desvio do peixe já tivesse sido apresentado por volta de quinze vezes, ainda estava em constante transformação.
O desvio do peixe no fluxo contínuo do aquário no Sesc Consolação. Na foto: Daniel Ortega. Fonte:
acervo da Cia. Artehúmus de Teatro. Foto de Beatriz OSilva.
Para fazer a assessoria de imprensa, o coletivo contratou a empresa Arteplural Comunicação, que se responsabilizou tanto por divulgar o espetáculo em mídias impressas e digitais quanto por contatar críticos de jornais (como O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo)306 e jurados de prêmios de teatro (como APCA e Shell) para que
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fossem assistir ao Desvio do peixe. É importante frisar que o Grupo fez um grande esforço para ser visto pela classe artística, pois, naquele momento, essa era uma maneira não só de entabular relações e ter o trabalho reconhecido, como, principalmente, de ter a obra indicada a alguma premiação em 2015. De fato, esse desejo movimentou o coletivo durante as temporadas no Sesc Consolação e no Teatro do Incêndio (experiência relatada mais abaixo). Certamente esse objetivo tem a ver com o momento da trajetória em que o Grupo se encontrava (e ainda se encontra): ao mesmo tempo em que ocupa uma posição respeitável no universo do teatro – é aprovado com certa regularidade no edital do Fomento307, apresenta seus trabalhos em instituições relevantes (ainda que com
bastante esforço e insistência), atrai alguns jurados e críticos das artes cênicas, tem parcerias com outros coletivos etc. – ainda pretende alçar voos mais altos – ser indicado e receber premiações, vender espetáculos para o “Sistema S” (unidades do Sesc e Sesi) e Centros Culturais com maior regularidade, entabular relações com mais Grupos e pesquisadores do meio teatral, atrair maior número de espectadores às suas peças etc. Ao lado da pesquisa poética e continuada, estes desafios tem alimentado o trabalho da Artehúmus desde o início do processo d’O desvio do peixe.
Após finalizada a temporada no Sesc Consolação, o coletivo tem se esforçado para levar O desvio do peixe para outras unidades da mesma instituição. Entretanto, sem nenhuma resposta positiva, o coletivo contratou, em meados de 2015, a empresa Sofá Amarelo para produzir e vender seus trabalhos – não só O desvio do peixe, mas também Amada e Ohamlet. Todavia, até o presente momento não obteve respostas satisfatórias ou relevantes308.