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Um sentimento melancólico pode ser fruto da coibição de valores considerados essenciais para um indivíduo. A coerção de tais valores implica um enlutamento chamado por

10 Marques de Sade (1870-1914) foi um escritor francês aristocrata controverso aos padrões sociais vigentes na

época em que viveu. Tem uma extensa obra e diversos livros de sua autoria foram escritos enquanto estava preso na prisão de Bastilha. Para se ter uma ideia de sua importância, seu nome deu origem ao termo sadismo, definido como perversão daquele que procura aumentar a intensidade do prazer sexual produzindo sofrimento em outros.

11 A cut-up é uma técnica literária que preconizava a não-linearidade narrativa, com textos literários recortados

Dóris Peçanha de ―ansiedade espiritual‖. Segundo a estudiosa, quando a ―ansiedade espiritual‖ atinge amplamente um grupo de pessoas, esse estado de angústia está indissociavelmente ligado ao momento histórico em que essas pessoas estão inseridas, e assim ela explica:

Paul Tíllich distingue três tipos de ansiedade de acordo com as direções em que o não-ser ameaça o ser: ansiedade ôntica ( do destino e morte), ansiedade moral ( de culpa e condenação), ansiedade espiritual (do vazio e da perda de significação); e, preferencialmente, situa-se ao fim de cada Era, quando as estruturas de poder, crença e significação desintegram-se, deixando o indivíduo com métodos de proteção conhecidos, mas ineficazes, dada a situação geral de mudança (PEÇANHA, 1988, p. 13).

Segundo Peçanha, a economia ―racionalizante‖ do ―laissez-faire‖12 fez com que

houvesse um processo de desumanização e mecanização do indivíduo. ―A dicotomia espírito- corpo do século XVII converteu-se numa separação radical entre razão e emoção‖ (PEÇANHA, 1988, p. 17). Para essa estudiosa, a alienação do homem moderno em relação ao mundo natural transformou-se, sob o impacto da bomba atômica e as recorrentes ameaças de guerras termonucleares, em profundo sentimento de solidão. As diversas configurações de governos ditatoriais e reacionários contribuíram para esse estado patológico de melancolia, principalmente entre os grupos jovens. Chega-se, dessa maneira, durante o século XX, a um estado em que o homem sente-se vazio espiritualmente e despido de significação.

O sentimento de melancolia e desalento é muito recorrente nas primeiras poesias de Allen Ginsberg, como percebemos no poema abaixo:

Sinto-me como se estivesse no fim e portanto estou acabado. Todos os fatos espirituais que percebo São reais mas não escapo

À sensação de estar encerrado E à sordidez do ser,

À inutilidade de tudo quanto

Vi, fiz e disse (GINSBERG apud PEÇANHA, 1988, p. 18).

Se compararmos esse poema com um trecho de A fúria do corpo, podemos detectar uma proximidade poética que pode ter sido causada pelo sentimento comum de vazio espiritual. O sentimento confuso de fracasso e melancolia tem certo espaço na narrativa,

12 Expressão máxima do neoliberalismo econômico, o laissez-faire é uma filosofia capitalista predominante nos

Estados Unidos e Europa no final do século XIX e início do século XX, que defendia o livre funcionamento do mercado, sem nenhuma intervenção do Governo, ou apenas aquelas intervenções indispensáveis para proteger os direitos de propriedade.

sendo consequência das desilusões provocadas pela tirania do sistema autoritário, pela falta de saída nos planos cultural e espiritual, como observamos no trecho abaixo:

Saio da casa arruinada, saio sim, saio pelas ruas de uma cidade que foi minha e não darei o nome porque ela me pertenceu naquele tempo em que eu ainda não sofrera a queda de todas as ilusões, mas saio pelas ruas de uma cidade ao Sul, isto arrisco revelar, depois de ter me insurgido contra o tempo em vão caminho por ruas onde o frio de agosto me gela os ossos embora eu já não tenha nenhum fantasma a conservar na geladeira, tem uma praça que procuro quem sabe a destruíram, quem sabe prédios se ergueram sobre ela (NOLL, 2008, p. 246).

Assim como Ginsberg, acredita-se que Noll, na fase inicial de sua obra, divide-se conflituosamente entre a melancolia e a reação contra esse estado patológico de ansiedade. Essa reação aparece, sobretudo, por meio da subversão política, moral e também literária. Por essas e outras considerações podemos aproximar esses dois autores, considerando as reações culturais ou literárias a favor da inibição das emoções e dos desejos.

Os beats enfrentaram esse estado patológico de ansiedade questionando valores e contribuindo para o aparecimento de novas ideologias, enfrentaram certo conformismo e a pretensa segurança dos seus contemporâneos para que esses questionamentos pudessem ser validados. No poema ―O uivo‖, Ginsberg já superava seu estado melancólico inicial, identificando e problematizando a brutalidade capitalista.

Segundo Peçanha, via-se em todo ocidente jovens tomando posições subversivas e radicais. Talvez por falta de uma tradição de esquerda nos Estados Unidos, os beats ―foram os que melhor compreenderam que o inimigo não é o capitalismo, mas a tecnocracia alimentada por uma especialização que desenvolve ardis cada vez mais engenhosos para sutilmente conseguir nossa aquiescência‖ (PEÇANHA, 1988, p. 19). Sendo assim, essa geração consegue detectar um problema social, mas partindo de uma remodelação pessoal para depois encarar ou projetar essas ideias coletivamente. Essa reforma de si mesmo inclui um novo modo de vida, novas maneiras de convívio social e novos parâmetros estéticos, contrariando diversas normas.

Dóris Peçanha ainda afirma que a valorização da razão em detrimento das demais faculdades humanas ou, ao contrário, o uso exclusivo da emoção confunde o indivíduo moderno. Essa forma dicotômica de avaliar o homem – razão versus emoção – limita ou obstrui nossa relação com a realidade, fazendo com que adaptemos nossa conduta à sua configuração. Para Peçanha, os estudiosos do comportamento humano deveriam destituir-se de uma ―cosmovisão científica‖ totalizadora para discutir uma visão subjacente da realidade.

A exploração do não-intelectivo foi uma façanha da beat que não só questionou os fundamentos da sociedade tecnocrática, mas disseminou conceitos para uma nova cultura.

As contradições e falácias denunciadas por essa geração e todo seu projeto de rebeldia não puderam ser consumados em sua real projeção em função da força manipuladora do autoritarismo estatal norte-americano. Grande parte das suas contestações foi ofuscada pelos meios de comunicação de massa que desvirtuavam seus discursos enxergando-os meramente como um fenômeno comportamental. A euforia dos movimentos rebeldes dos anos de 1960 e 1970 alimentava, distorcidamente, a função de entretenimento da mídia e desviava a atenção da população dos assuntos mais importantes em relação à política. Os meios de comunicação social banalizavam a excentricidade de tais movimentos e mostravam à população uma espécie de espetáculo truanesco.

Na década de 1980, a ebulição cultural do festival de Woodstock ganha uma versão ―pequeno-burguesa‖, para não dizer caricata aqui no Brasil – não pelos artistas em si que dela participaram, mas pela maneira como foi projetada. Em 1985, cria-se o maior evento de rock do país a serviço do Estado: o Rock in Rio. O maior sinônimo de rebeldia jovem, o rock, foi transformado em sensacionalismo comercial. O local do festival foi cuidadosamente selecionado, propagando os valores da sociedade de consumo, reforçando a ideia de conforto e comodidade, com milhares de seguranças e soldados da polícia militar e ―85 mil metros quadrados só de anfiteatro; três palcos móveis; camarins com banheiros, salas de estar, restaurantes e todo conforto para artistas e técnicos; segurança para dar e vender‖ (MANCHETE apuid PEÇANHA, 1988, p. 105). Tudo isso acontecia no mesmo ano em que o Brasil elegia o primeiro presidente civil após duas décadas de ditadura militar: uma maneira arguciosa de desviar a população dos acontecimentos políticos importantes do país. Peçanha justifica, como decorrência disso, o atraso do Brasil em absorver os movimentos de rebeldia que circulavam pelo mundo ocidental:

Em 1984 ocorreu em nosso país a exploração da literatura Beat com 30 anos de atraso. Se, por um lado, o momento em que isso se dá parece não ter importância e ser uma simples decorrência do atraso com que recebemos as produções dos países desenvolvidos, por outro, parece responder a uma necessidade cultural de renovação, de abertura para o até então publicável, de busca nos caminhos avessos ao sistema, de novas alternativas de vida uma vez que o modelo importado há 20 anos já demonstrou amplamente seu espírito genocida aplicado a nossa ―coreografia de índio‖. Será por acaso que a procura da literatura Beat (veja-se o crescente número de publicações da L&PM e Brasiliense) coincide com a mobilização da sociedade brasileira em busca do direito de gerir seu próprio destino? (PEÇANHA, 1988, p. 106).

Para Peçanha, o grande inimigo da geração beat e da contracultura, além da força manipuladora e neutralizadora do Estado, estava dentro do próprio movimento. Os beats negaram completamente a realidade, entregando-se ao irracional, sendo conduzidos por forças impulsivas. Para essa estudiosa, a negação completa do sistema ou da racionalidade, implica a subtração ou supressão do representante psíquico paterno. Ainda afirma que não pode haver uma revolução efetiva fundamentando-se essencialmente no escapismo:

Segundo André Stéphane, não pode haver revolução fundada em uma negação da realidade. Os Beats, que mostraram os exageros da racionalidade tecnocrática, caíram na situação antitética de negar o sistema como um todo e, ao fazê-lo, suprimiram o representante psíquico da figura paterna. Ora, o espírito revolucionário conduz a substituir o pai e não simplesmente a banir a relação paterna. Entende-se tal supressão na medida em que os pais (figuras masculinas) da geração Beat foram homens fracos ou ausentes, possibilitando que seus filhos permanecessem fixados no universo pré-edipo, ou seja, naquele dominado pela mãe (PEÇANHA, 1988, p. 106).

Peçanha afirma que, para a Psicanálise, a ausência do representante psíquico paterno implica de um modo geral na negação da realidade, fazendo com que esses indivíduos permaneçam no universo pré-edípico, em que os sentimentos e as emoções predominam e são interligados ao representante psíquico materno.

Os Beats apresentaram traços característicos das fases de desenvolvimento anteriores ao Complexo de Édipo como a bissexualidade, o narcisismo através do qual negaram a dimensão temporal permanecendo como eternos adolescentes, e o predomínio dos desejos instintivos sobre sua repressão. Dominados pelo princípio do prazer, mas não desejando ceder ao incesto, erigiram defesas como homossexualidade que possibilita ―uma regressão desde o conflito edípico até uma posição oral e passiva‖ (PEÇANHA, 1988, p. 107).

Peçanha ainda assegura que o uso de drogas faz com que o beat retorne a um passivo e despreocupado ―estado nirvânico‖ da primeira infância, quando o seio da mãe satisfaz por completo a necessidade da criança. A retomada aos níveis psicóticos da personalidade permite uma gratificação alucinatória dos desejos, o que estava implícito em toda relação da beat com os variados usos de entorpecentes. Essa estudiosa afirma que as características pré-edípicas da personalidade estão presentes nos autores dessa geração variantemente com maior ou menor grau.

O movimento Beat mostrou o vazio espiritual em que se assentava o establishment, questionou suas estruturas, apontou novas formas de viver, vigorou como expressão

ficcional, mas sucumbiu tragicamente às forças de desintegração interna e externa. Constituiu um dos sonhos perdidos dos anos 60, a matriz onde se gestava um frágil mundo alternativo e que, sendo parte integrante da contracultura, era tudo quanto se dispunha para enfrentar o totalitarismo tecnocrático. Enfim, os Beats buscaram uma revolução mas foram incapazes de concretizá-la porque, enquanto antiédipos, foram negadores da história e portanto incapazes de realizar politicamente um projeto histórico (PEÇANHA, 1988, p. 108).

A comum característica de toda essa geração, como asseverado, é o impulso ambulatório. Através das andanças contínuas os beats expressam ao mesmo tempo o seu ―desejo de mudança e o desejo de reter e reproduzir o passado‖ (PEÇANHA, 1988, p. 107). Esse passado seria o mundo materno figurado frequentemente como busca da natureza e do Oriente (nascente), especialmente as religiões destituídas de um pai-salvador absoluto e totalizante.