Os jovens e adultos com baixa visão, assim como os cegos, costumam ser pessoas que possuem independência, no entanto, a perda visual pode (ou não) trazer consigo a redução
52 É necessário observar a acústica da sala, pois mesmo videntes e ouvintes se sentem prejudicados com a dificuldade de identificar as informações.
dessa condição ou até mesmo a necessidade de aprender outras formas de lidar com o mundo que o cercam (MONTILHA; ARRUDA, 2007). Geralmente são pessoas que identificam suas necessidades e indicam algumas formas de agir e ajudar.
Caso o aluno não consiga descrever ou o professor não compreenda determinadas necessidades pedagógicas, no caso da baixa visão, existem algumas estratégias para avaliar de forma informal a acuidade e o campo visual, não destituindo a importância de um acompanhamento profissional especializado. Isso ajuda na seleção de materiais didáticos para a confecção das aulas e dos processos avaliativos. Gasparetto e Nobre (2007) apresentam quatro tipos de avaliações informais, possíveis de execução e com rápida resposta para qualquer faixa etária. Veja no quadro a seguir:
Quadro 5 – Avaliações Informais do Aluno com Baixa Visão Avaliação
Informal Materiais ou Técnicas Procedimentos
Acuidade Visual (Para longe)
Lousa, cartazes, mapas, quadros e objetos.
Identificar ou reconhecer letras, palavras, frases, números, símbolos ou objetos; localizar objetos caídos ou dispostos em mesas cadeiras, etc.
Ao avaliar cada uma dessas situações considerando a iluminação utilizada, a distância entre o indivíduo e os objetos; anotar o tamanho das letras, palavras, símbolos e objetos utilizados e se faz uso de um ou ambos os olhos.
Acuidade Visual (Para perto)
Livros,
cadernos, jogos, etc.
Apresentar material que será avaliado e solicitar que identifique indicando a distância olho-objeto e se sentir necessidade de aproximação do objeto aos olhos. Aumentar e depois diminuir o tamanho do objeto utilizado, questionar se a pessoa vê o objeto como um todo ou apenas parte dele.
Considerar questões de contraste e figura de fundo para que não se distraia. Verificar a necessidade de uso de pranchas de leitura e tiposcópios53.
53 “Tiposcópio: É um guia para leitura, confeccionado em cartão ou material plástico preto, com uma fenda com altura para duas linhas do texto a ser lido e com largura do texto, podendo ser modificado de acordo com a necessidade. Tem a função de diminuir a luz refletida sobre o papel branco, aumentar o contraste da linha a ser lida com o fundo e facilitar a localização e seguimento”. Disponível em: < http://www.acessibilidadenapratica.com.br/textos/auxilios-nao-opticos-para-baixa-visao/> Acesso em: 08 ago. 2017.
Campo Visual
Periférico Técnica da Confrontação
O profissional deve sentar-se em frente à pessoa com baixa visão (cerca de 40 cm de distância) e solicitar para fixar o olhar no nariz dele. Apresente o objeto em diferentes áreas de seu campo periférico e peça para informar quando vê e quando não vê.
Visão das Cores Cartões, blocos, lápis e outros objetos que contenham cores formando um conjunto.
As cores deverão ser apresentadas da seguinte forma: primárias, secundárias e matizes. É preciso anotar a capacidade de identificar. Se houver dificuldade de nomear, utilizar outro jogo de cores solicitando que o indivíduo realize a pareação. Deve-se proceder a avaliação de comparação e classificação de contrastes no caso de utilizar matizes54.
Fonte: Quadro elaborado com base em Gasparetto e Nobre (2007, p. 56-57).
[Áudio-descrição: quadro composto por três colunas e cinco linhas. Na primeira linha há os cabeçalhos de cada coluna: avaliação informal, materiais ou técnicas e procedimentos. Na segunda linha: Acuidade Visual (para longe); lousa, cartazes, mapas, quadros e objetos e identificar ou reconhecer letras, palavras, frases, números, símbolos ou objetos; localizar objetos caídos ou dispostos em mesas cadeiras, etc. Ao avaliar cada uma dessas situações considerando a iluminação utilizada, a distância entre o indivíduo e os objetos; anotar o tamanho das letras, palavras, símbolos e objetos utilizados e se faz uso de um ou ambos os olhos. Na terceira linha: acuidade visual (para perto); livros, cadernos, jogos, etcétera; apresentar material que será avaliado e solicitar que identifique indicando a distância olho-objeto e se sentir necessidade de aproximação do objeto aos olhos. Aumentar e depois diminuir o tamanho do objeto utilizado, questionar se a pessoa vê o objeto como um todo ou apenas parte dele. Considerar questões de contraste e figura de fundo para que não se distraia. Verificar a necessidade de uso de pranchas de leitura e tiposcópios (com expoente sete). Na quarta linha: campo visual periférico; técnica da confrontação; o profissional deve sentar-se em frente à pessoa com baixa visão (cerca de 40 cm de distância) e solicitar para fixar o olhar no nariz dele. Apresente o objeto em diferentes áreas de seu campo periférico e peça para informar quando vê e quando não vê e na quinta linha: visão das cores; cartões, blocos, lápis e outros objetos que contenham cores formando um conjunto; as cores deverão ser apresentadas da seguinte forma: primárias, secundárias e matizes. É preciso anotar a capacidade de identificar. Se houver dificuldade de nomear, utilizar outro jogo de cores solicitando que o indivíduo realize a pareação. Deve-se proceder a avaliação de comparação e classificação de contrastes no caso de utilizar matizes (com expoente oito)].
Essa avaliação pode ser feita acordada com o aluno para que o mesmo possa dispor de suas necessidades pedagógicas. Nesse sentido, o docente pode observar o que utilizar na sala para contemplar todos os alunos, inclusive aqueles com baixa visão.
O diagnóstico fornecerá elementos nas direções (central, superior, inferior, direita e esquerda) para identificar, no esquema descrito por Bruno (2009, p. 81), as condições do campo visual:
54 “Matiz: é o que define as tonalidades das cores, por exemplo, o amarelo, o verde e o roxo são matizes. Dessa forma, conclui-se que todas as cores são matizes, sejam primárias, secundárias ou terciárias”. Disponível em: < https://www.todamateria.com.br/caracteristicas-das-cores/> Acesso em: 08 ago. 2017.
Figura 4 – Esquema para avaliação e registro do campo visual
Fonte: Bruno (2009, p. 81).
[Áudio-descrição: sobre um retângulo, há um diagrama com uma linha vertical e outra horizontal sobrepostas a um círculo com a legenda: campo visual central. Há quatro retângulos menores. As pontas destas linhas ficam próximas a cada retângulo com as legendas: campo visual lateral, campo visual superior, campo visual lateral e campo visual inferior].
Portanto, a partir desse diagrama e da proposta de avaliação informal, é possível registrar a amplitude do campo visual mediante a representação de ambos os olhos nas direções horizontal e vertical. De posse do resultado, fica mais fácil observar estratégias de organização e gestão da sala de aula, a elaboração de materiais e outras necessidades pertinentes ao fazer pedagógico. (BRUNO, 2009; GASPARETTO; NOBRE, 2007). O que chama a atenção é a disponibilidade dos docentes para investigar essas condições de acesso à informação (campo e acuidade visual), para então redimensionar a organização pedagógica de sua sala de aula.
Para colaborar com esse diagnóstico, que pode ser feito pelos professores com a colaboração de um atendimento especializado na universidade, seguem algumas indicações retiradas e adaptadas para o público do Ensino Superior, de acordo com o material “Alunos Cegos e com Baixa Visão – Orientações Curriculares” (PORTUGAL. ME. DGIDC, 2008), quais sejam:
i) Usar pincéis com uma cor que contraste com a cor do quadro (branco/preto); ii) Evitar os reflexos da luz no quadro e na superfície de trabalho;
iii) Evitar posicionar-se em frente da janela;
iv) Não posicionar o aluno de frente para uma fonte de luz (natural ou artificial); v) Colocar o aluno no lugar na sala de aula que lhe proporcione um melhor campo
de visão;
vi) Alternar atividades que exigem maior esforço visual com tarefas não visuais; vii) Conferir ao aluno o tempo necessário para que possa realizar tarefas que
exijam um grande esforço visual, nomeadamente a leitura;
viii) Evitar letras cursivas, decorativas, etc., isso dificulta a identificação do texto; ix) Nas imagens eliminar os detalhes desnecessários;
x) Nas apresentações em powerpoint usar cores contrastantes, preferencialmente cores claras (branco ou amarelo) sobre um fundo escuro (preto ou azul).
São indicações que não demandam custo, mas o acesso à informação e boa vontade de executá-las. Algumas auxiliam, inclusive, na mobilidade e orientação desse aluno em sala de aula. Existem, ainda, outras orientações que podem ser identificadas ao longo do processo de ensino-aprendizagem que, relacionadas aos recursos de acessibilidade, podem ser utilizadas pelos alunos com baixa visão: i) auxílios ópticos; ii) auxílios não-ópticos e iii) recursos de Tecnologia Assistiva Digital da Informação e Comunicação (TADIC).
Os auxílios ópticos são lentes ou recursos que permitem ampliar a imagem e a visualização de objetos, possibilitam o uso da visão residual para longe e para perto. São exemplos de auxílios ópticos para perto: as lupas de mão e de apoio, óculos bifocais ou monoculares. No caso dos telescópios, estes são usados para identificar objetos distantes. A indicação de alguns desses recursos é de competência de um profissional da área de saúde, no caso o oftalmologista (DOMINGUES, 2010). Nas figuras a seguir estão exemplos de recursos ópticos:
Quadro 6 – Imagens de Recursos Ópticos55
Lupa de Mão Lupa de Apoio Telescópio
Fonte: APTOMED SAÚDE INTEGRADA (S/D)
55 Disponível em: <http://www.aptomed.com.br/canal/Visao-subnormal---Baixa-visao/Recursos-Opticos> Acesso em: 25 ago. 2017.
[Áudio-descrição: quadro composto por três imagens quadradas. Na primeira, há duas lupas pretas na parte superior da página de um livro, sendo que uma é segurada por uma das mãos; na segunda, uma lupa de apoio azul sobre uma folha com várias letras maiúsculas em tamanho crescente, que juntas criam o formato da letra vê e na terceira, dois telescópios azuis, um menor e mais largo em relação ao outro].
São recursos bem conhecidos até mesmo por pessoas que são usuárias sazonais desse material. Auxiliam na ampliação de textos e imagens, no caso das lupas de mão e de apoio. O telescópio é próprio para visualizar pessoas, imagens e objetos à distância.
Existem algumas necessidades que são resolvidas através de recursos não ópticos. Estes se referem à modificação do ambiente, mobiliário, iluminação, recursos para leitura e escrita (como contrastes e ampliações) que complementam ou não os auxílios ópticos. Os recursos não ópticos têm o objetivo de melhorar o funcionamento visual e isso inclui também o uso de recursos digitais para o acesso à informação e à comunicação (DOMINGUES, 2010).
São considerados auxílios não ópticos: a iluminação natural ou artificial do ambiente, o contraste das cores, folhas com pautas escuras e maior espaço entre elas, livros com texto ampliado, prancheta inclinada para leitura, canetas com ponta porosa preta ou azul, dentre outros. “Alguns alunos podem enxergar melhor em ambientes menos iluminados, como aqueles que têm sensibilidade à luz (fotofobia), e outros podem preferir ambientes mais claros (DOMINGUES, 2010, p.13)”.
O contraste, que também é um auxílio não óptico, caracteriza-se pela diferença de luminância56 entre superfícies próximas. São padrões de alto-contraste, por exemplo, o preto com o branco. A suscetibilidade aos contrastes interfere na percepção de forma, em atividades de reconhecimento de face, objetos, atividades de vida diária, orientação e locomoção no ambiente (BRUNO, 2009).
No caso do contraste, existem vários exemplos: uso de linhas escuras e caneta porosa azul ou preta; uma lousa escura para fazer contraste com uma cor clara; o uso de colas coloridas em relevo para o aluno com baixa visão estudar mapas, imagens podendo ser feito, por exemplo, nas aulas de Geografia, Biologia ou qualquer outro assunto que envolva o uso de figuras e, nesse sentido, deve-se, sobretudo, junto com o aluno, descobrir qual é a melhor opção de contraste para melhorar o processo de ensino-aprendizagem.
56 “Fulgor ou luz que um corpo emite ou reflete.” Disponível em: <
Na ampliação de material (textos, livros, apresentações em powerpoint ou algo que necessite de projeção em tela) e confecção de trabalhos escritos é possível o docente observar algumas questões importantes:
i) Espaçamento entre linhas (ao menos 30% da altura da letra empregada para facilitar a localização do início do texto na linha); ii) Uso de letras minúsculas e maiúsculas ao invés de somente
maiúscula ou minúscula;
iii) Uso de fontes simples (fontes muito elaboradas – com muitos detalhes – dificultam a leitura);
iv) Margens estreitas para maior aproveitamento da largura da folha e evitar papel brilhante;
v) Na ampliação de imagens, tabelas, mapas observar a qualidade das cores (com o contraste) e informações, como por exemplo, a legenda. Utilizar também a audiodescrição;
vi) Canetas porosas e lápis macio (3b ou 6b) são de escrita mais forte e aumentam o contraste;
vii) Folhas com pauta ampliada e reforçada: facilitam a ampliação das letras e aumentam o contraste da linha com o papel57.
É preciso reconhecer que, além da observação do professor, é necessário o acompanhamento especializado para uma melhor qualidade de determinadas ampliações. Infelizmente ainda não há muito material produzido de forma ampliada e a forma mais usual é escaneamento do texto com reimpressão utilizando fontes maiores.
No caso de necessitar enfatizar uma informação, utilizar o marcador em amarelo. Ele é comumente reconhecido pelos usuários de computador na barra de ferramentas com o nome – realce da cor do texto. Em textos impressos, esse marcador é conhecido como acetato. Vejam a imagem a seguir:
Figura 5 – Acetato amarelo disposto sobre o texto de um livro58
Fonte: Auxílios não ópticos para baixa visão (Acessibilidade na Prática, 2015).
57 Itens adaptados das informações sobre recursos não ópticos para alunos com baixa visão. Disponível em: < http://www.acessibilidadenapratica.com.br/textos/auxilios-nao-opticos-para-baixa-visao/ > Acesso em: 08 ago. 2017.
58 Disponível em: < http://www.acessibilidadenapratica.com.br/textos/auxilios-nao-opticos-para-baixa-visao/ > Acesso em: 08 ago. 2017.
[Áudio-descrição: imagem retangular na horizontal. O acetato amarelo está disposto sobre um texto de um livro na língua inglesa com o seguinte destaque: if we agree that we learn differently and that students need
customized pathways and paces to learn, why do schools standardize the way they teach and the way they test?].
Esse realce também é uma das indicações no que se refere ao controle da iluminação. Com relação à iluminação, o docente pode ajudar o aluno a se posicionar mais ou menos próximo à luz natural, e sendo fontes artificiais como as lâmpadas, procurar evitar posições que causem muito reflexos.
No que concerne ao acesso e usos das Tecnologias Assistivas de Informação e Comunicação (TADIC):
[...] como computadores e etc., pode ser facilitada para a pessoa com deficiência visual, do tipo baixa visão, com o uso das ‘opções de acessibilidade’ no próprio computador. Essas ações alteram funções no vídeo, no mouse e no teclado, melhorando o contraste, deixando mais nítido o cursor, ampliando as letras, dentre outras. Entretanto a leitura de um texto ampliado durante muito tempo pode causar desconforto visual, nessas situações o uso de softwares com síntese de voz pode tornar-se um diferencial para a leitura em ambiente computadorizado (GALVÃO et al., 2015, p. 152).
Diante dessas estratégias, fica claro que avaliação oral não constitui a única ou a principal forma de forma de avaliar esse alunado. A produção textual também pode ser um importante instrumento, desde que se observem aspectos como concentração, o tempo de elaboração para que o mesmo possa devolver ideias na forma escrita. Como essa tarefa demanda desempenho visual, é necessária certa flexibilidade com relação ao tempo de execução (DOMINGUES, 2010).
Não se descarta também a apresentação de trabalhos em equipe, desde que os recursos utilizados na apresentação estejam sincronizados com a fala do aluno. No caso da prova, que sejam respeitadas as orientações de trabalhos escritos descritas anteriormente (ver p. 97-99). Se for prova escrita, colocar “nas respostas de escolha múltipla colocar as caixas, onde o aluno deve assinalar a resposta, no final de cada frase” (PORTUGAL. ME.DGIDC, 2008, p.19).
Essas recomendações são exequíveis. Os conteúdos não são alterados e sim a forma de apresentá-los. Não há, nesse sentido, perdas ou frustrações e sim uma grande diferença ao aluno que não possui a deficiência visual – a de conhecer novas formas de ensinar e aprender.