A pesquisa realizou-se no Lar das Palmeiras61 que tem, como uma de suas metas, oferecer um ambiente com ‘cara, jeito de um Lar, de uma família’, como se referem os responsáveis pela instituição.
Trata-se de uma pesquisa de cunho qualitativo ou de análise qualitativa (segundo Martins, 1994, p. 41), inspirada em algumas reflexões sobre fenomenologia existencial. Cabe-me, portanto, desenvolver uma reflexão sobre “fenomenologia existencial”.
Para Critelli, (2006) (...) “a tarefa de se pensar a possibilidade de uma metodologia fenomenológica é, em última instância, uma reflexão sobre o modo humano de ‘ser-no-mundo” (p.17). Assim, na pluralidade ou em interação com o outro, lida-se com distintos valores, concepções de vida, modos de ser, diferentes. Sem uma reflexão sobre o modo de ‘ser-no-mundo’, corre-se o risco de se naturalizar a cultura do outro, sua forma de entender o mundo e, consequentemente, comprometer o olhar fenomenológico que dele se faz.
Na Introdução da obra de Heidegger Todos nós... Ninguém, Spanoudis (1981), nos explica claramente o sentido das expressões introduzidas pelo autor, ‘ser-no-mundo” (ou ‘sendo-no-mundo) e “existência”..
‘Ser no mundo’ diz respeito às várias maneiras que o existir humano está possibilitado a viver; corresponde ao modo básico do ser humano existir. O “ser- no” (ser em), se refere às coisas com que se tem familiaridade, “o sentir-se confiante”. E ‘ser-no-mundo’, às múltiplas maneiras com que ele vive e pode viver, os vários modos como se relaciona e atua com tudo o que se manifesta e com que se relaciona em sua cotidianeidade. A essa totalidade de referências – que se manifestam mais ou menos significativas no dia a dia, Heidegger chamou de ‘entes’.
A palavra ‘existência’ “não tem ligação com o conceito habitual e clássico de “realidade”, contrapondo-se ao conceito ‘essência”. Existência vem do verbo ek-sistire; ek-sistencia é algo que emerge, se manifesta, se desvela.
“ Ser e Existência”, para Arendt, se confundem na trajetória da existência humana. Diz a autora que o termo:
“Existenz’ indica, em primeiro lugar, nada mais do que o ser do homem, independentemente de todas as qualidades e capacidades que possam ser psicologicamente investigadas... com a ressalva de que não é por acaso que o termo ‘Ser’ tenha sido substituído por Existenz”(1993, p.15).
Para a fenomenologia, os termos coincidem, segundo Critelli (2006). A intenção é compreender sua manifestação/ser a partir de seu próprio poder de manifestação (aparição/desaparição/ser). Ser, só pode ser compreendido se apreendido, percebido, revelado, na ordem existencial, Isto é: na existência, a compreensão do ser. A fenomenologia não está à procura de nenhum ser previamente interpretado como substância ou identidade conceitual, diz a autora:
“não há ser em si, nem ente em si, ou consciência em si, mas o ser tal qual ele se põe como questão ou tarefa no existir humano. Ser, para o homem, é sua mais própria e peculiar possibilidade em todo o seu existir” (p. 52).
A fenomenologia existencial, portanto, preconiza que é preciso penetrar no universo do sujeito para poder compreender como e que sentido62 ele dá aos acontecimentos e às interações sociais que ocorrem em sua vida diária, pois,
“aquilo que é compreendido (desvelado/revelado) por alguém nunca é compreendido como coisa em si, mas é sua existência mesma que ganha outra iluminação através desta compreensão. O que se compreende é o ser mesmo, a existência. Aquele que compreende algo é sempre um novo si mesmo a partir de cada novo desvelamento. Mas o compreendido deve ser levado ao testemunho dos outros para ser confirmado. Junto com os outros o indivíduo tem a garantia (...) de que desvelou algo e renasceu através desse desvelamento” ( Critelli, p. 87).
Como nos sugere Critelli, compreender a existência humana é sempre uma ‘iluminação’, para se compreender um novo si mesmo a partir de cada novo desvelamento, o qual possibilita, também, a imprevisibilidade (termo já discutido no capítulo anterior). Mas, o ato de compreender só se confirma com e na presença do outro.
Adentrar na instituição de acolhimento como pesquisadora, significava adentrar em um “mundo novo” totalmente diferente de minha realidade de vida e profissão. Embora eu nutrisse certa expectativa de conhecer as pessoas que convivem na Casa-lar, dimensionando-se esse agir, procurei despojar-me de conceitos pré-estabelecidos, ou pré-concebidos para melhor compreendê-los em sua singularidade, contando com a imprevisibilidade, para melhor compreendê-lo.
A imprevisibilidade, para Arendt, é inerente a toda a ação que se inicia e, neste ato, humanamente nos revelamos por meio das palavras:
“Na ação e no discurso, os homens mostram quem são, revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares, e assim apresentam-se ao mundo humano, enquanto suas
62 O termo sentido, não é uma expressão sinônima de significação, mas é o mesmo que destino, rumo, a
identidades físicas são reveladas, sem qualquer atividade própria, na conformação singular do corpo e no som singular da voz. Esta revelação de “quem”, em contraposição a “o que” alguém é – os dons, qualidades, talentos e defeitos que alguém pode exibir ou ocultar – está implícita em tudo o que se diz ou faz. Só no completo silêncio e na total passividade pode alguém ocultar quem é” (p. 192).
Na verdade, foram esses os pressupostos que desencadearam o desenrolar de minha pesquisa, tecendo, então, os questionamentos: Quem é o sócio-educador? Como compreende suas condições de vida como sócio- educador? Que valores, qualidades, talentos e defeitos se mostram ao interagir com as crianças? Que concepções tem da criança e do mundo em que vive?
O primeiro instrumental para a realização da pesquisa foi agendar entrevistas com os gestores da instituição. “Ir a campo”, significa adentrar em um novo ambiente: isso demanda a adoção de um processo de “estranhamento e imprevisibilidade”, de diferenciação na aproximação, considerando-se que tanto o local como as pessoas do ambiente eram desconhecidas até aquele momento.
O passo seguinte foi refletir e estruturar algumas questões sobre o propósito da pesquisa, pondo-as no papel, mais no sentido de um planejar o tempo e organizar minhas próprias ideias. Optei por realizar entrevistas. O espaço para “ouvir o outro foi considerado neste momento (Ver anexo VI).
Convencionalmente, entrevista tem sido considerada “como um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional” (que) proporciona ao entrevistador, verbalmente, a informação necessária”63Lakatos, A., 1993, p.195-196. In: Szymanski, 2008, p.10).
Szymanski salienta que esta visão contempla um aspecto supostamente neutro além de o entrevistador ser considerado como um mero informante. Esclarece-nos que, embora se submeta a entrevista às “condições comuns de toda a interação face a face, ela é fundamentalmente uma situação de interação humana”. Como tal, contempla uma motivação, um jogo de emoções e
sentimentos que permanecem como um “pano de fundo durante todo o processo, além da intencionalidade, tanto por parte do entrevistador como do entrevistado.
A entrevista pode, também, trazer “ conflitos e contradições” e a relação de poder e desigualdade entre pesquisador e pesquisado. Uma forma de refletir sobre essas circunstâncias é aceitar que todo o saber vale um saber (Freire,
1992;Héber-Suffrin, 1992. In: Szymanski, pp. 11 a13); a autora propõe o diálogo como meio de se buscar uma condição de horizontalidade ou igualdade de poder na relação entrevistador/entrevistado. A entrevista adquire, assim, um sentido interativo, interpessoal, influenciando positivamente em seu curso e no tipo de informação que aparece.
A entrevista considerada como um encontro interpessoal, é que Szymanski chamou de ‘entrevista reflexiva’ , apresentando as seguintes características: a de contornar algumas dificuldades citadas acima, inerentes a uma situação de encontro face-a-face, e como ferramenta auxiliar de construção de uma condição de horizontalidade, “em especial quando os mundos do entrevistador e entrevistado forem muito diferentes social e culturalmente” (p. 15).
“Reflexividade” tem aqui um duplo movimento: o primeiro, o entrevistador deve expressar a sua compreensão do que ele ouviu do outro - no sentido de refletir a fala de quem foi entrevistado - submetendo a sua compreensão ao próprio entrevistado; o segundo, “o entrevistado pode voltar para a questão discutida e articulá-la de uma outra maneira em uma nova narrativa, a partir da narrativa do pesquisador” (idem). Esse segundo movimento garante ao entrevistado o direito de ouvir, de discordar ou modificar suas proposições durante a entrevista.
Para me sentir mais segura como pesquisadora, realizei uma entrevista piloto com um adulto cuidador do Jardim das Flores, uma outra unidade de acolhimento na qual trabalhei por três anos consecutivos, num período anterior. O fato de este local e seus profissionais serem conhecidos, tal agir propiciou mais segurança, tanto para a realização e análise das questões dirigidas ao entrevistado como no planejamento em relação à proposta desta pesquisa (Ver anexo VI).
O Sr. Nelson e D. Alice, responsáveis pela Casa-Lar das Palmeiras, foram os principais alvos de meu interesse.
3.2- PROCEDIMENTOS
Estive no interior do Lar em seis momentos, os quais classifiquei de “visitas”. As duas primeiras foram dedicadas aos educadores responsáveis pela instituição de acolhimento. Foram feitas individualmente, por ambos desenvolverem suas atividades de trabalho junto às crianças em locais diferentes constituintes do abrigo e por exercerem cargos específicos no interior dos mesmos. Essas entrevistas foram consideradas como “semi-estruturadas”, pois a intenção era oferecer espaços abertos ao entrevistado para expressar livremente suas ideias, impressões, modos de pensar e de agir. Ocorreram em um espaço de tempo de uma hora.
Na terceira e quarta visitas, apresentei uma devolutiva dos dados colhidos de ambos os entrevistados, separadamente, constituída pelas observações, descrições realizadas e a transcrição de fitas gravadas. Nesses momentos, abri espaços para acrescentarem o que quisessem aos dados apresentados. Fiquei nos locais de duas horas e meia a três horas; tive permissão para tirar algumas fotos de alguns trabalhos artísticos das crianças, porém, não da instituição, para mantê-la em privacidade.
Pude realizar, também, novas observações, perceber e conhecer outras pessoas e profissionais que interagem com os educadores no cuidado das crianças.
Minha presença se registrou no abrigo por mais duas vezes. A quinta vez, se constituiu praticamente em uma nova “devolutiva” ao sócio-educador. Isto porque, na primeira devolutiva muitos pontos de reflexão surgiram entre pesquisador e pesquisado, além de novas informações sobre os modos de ser e agir do entrevistado em suas práticas educativas com as crianças.
Na sexta vez, fui praticamente “requisitada” a comparecer ao abrigo, com a finalidade de auxiliar o educador na elaboração de um projeto dirigido para a
FUMCAD e para uma empresa das imediações, como opção de obtenção de verbas e parceria. Havia uma questão de prazos para o encaminhamento dos mesmos às instituições referidas. Nessas visitas, tive a oportunidade de realizar alguns outros registros. Nas duas últimas visitas não me utilizei de gravações ou de algum planejamento prévio que caracterizam as entrevistas reflexivas, mas tive a oportunidade de identificar outras situações que complementam o trabalho de pesquisa.