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The Basic Structure of Loop Quantum Gravity

A Topos Model for Loop Quantum Gravity

3.1. The Basic Structure of Loop Quantum Gravity

No intróito referente à depressão pós-parto em geral, já aludimos à primeira referência sobre a sintomatologia deste problema – levantada por Hipócrates e, mais tarde, por Jean Esquirol, entre outros.

Segundo Thot464, uma psicose465 trata de uma “doença causadora da perturbação da actividade mental, isto é, dos sentidos, da faculdade de pensar e da vontade”. Já segundo a Post and Antenatal Depression Association (PANDA), psicose é o nome de um grupo de doenças mentais onde se verifica uma perda de contacto com a realidade.466 Por fim, Elisabete Soares e Saldanha de Azevedo referem que as psicoses são “perturbações mentais em que o comprometimento das funções mentais atinge um grau que interfere profundamente com a compreensão, com a capacidade de atender às exigências rotineiras da vida ou com a manutenção de um contacto adequado com a realidade”.467 Considera, e bem, Egas Moniz que “as psicoses não são atributo exclusivo dos indivíduos cuja mentalidade dilaceram e aniquilam”.468

Díade, p. 28-29. Já KITZINGER, Sheila – Mães: um estudo antropológico da maternidade, p. 153,

refere-nos que nas sociedades camponesas e de caçadores é costume manter-se a criança dia e noite em contacto com o corpo da mãe, quase como se aquela fosse um prolongamento desta, sendo “quase uma fase de existência marsupial para o bebé, que saiu do útero para entrar num estádio extra-uterino”.

462

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 38; FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e

da Maternidade, p. 165.

463

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 39-44; FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da

Gravidez e da Maternidade, p. 166-168.

464

THOT, Ladislau – Psicopatologia Criminal. Boletim do Instituto de Criminologia, p. 8-9; LUZES, Pedro – Psicanálise das Psicoses. Separata do Jornal do Médico, p. 6-10; FOUCAULT, Michel –

Doença Mental e Psicologia, p. 14; MÉNÉCHAL, Jean – Introdução à Psicopatologia, p. 46-48.

465

Ou enfermidade mental. Cfr. THOT, Ladislau – Psicopatologia Criminal. Boletim do Instituto de

Criminologia, p. 8; LUZES, Pedro – Psicanálise das Psicoses. Separata do Jornal do Médico, p. 6-10.

466

PANDA, Post and Antenatal Depression Association Inc. – Postpartum Psychosis [Em linha]. Texto original: “The term psychosis is the name for a group of mental illnesses where there is a loss of contact with reality”. (traduções nossas)

467

SOARES, Elisabete; AZEVEDO, M. Saldanha de – As Psicoses na Práxis Clínica. In GOMES, António Alves; CORTESÃO, Eduardo Luís; SILVA, Ermelinda Santos – Psiquiatria, Neurologia e

Saúde Mental na Práxis do Clínico Geral, p. 227.

468

MONIZ, António Caetano de Abreu Freire Egas – Psicoses Sociais. Revista da Ordem dos

99

Tanto poderão existir causas externas, ou exógenas, como causas internas, ou endógenas.469 Aquelas dividem-se em físicas e psíquicas, sendo as psíquicas as “doenças do cérebro, da medula espinal, dos nervos, as enfermidades infecciosas (sífilis, febre tifóide, gripe), as perturbações da assimilação, as intoxicações (álcool, morfina, cocaína, heroína, ópio, etc.), e as alterações produzidas por certos fenómenos fisiológicos orgânicos (adolescência, início e fim do período menstrual, gravidez,

parto e lactação)”.470 Quanto às causas endógenas, as enfermidades mentais são “a

predisposição geral e individual, a propensão, como tara hereditária, a idade, o sexo, a profissão, o clima, etc.”.471

Por outro lado, Funalioli distingue as causas das psicoses em “causas predisponentes” (gerais ou individuais) e em “causas determinantes” (físicas, marais ou mistas) – entre as físicas, temos então a gravidez e o estado puerperal.472

Apesar de desde o DSM.IV473 permitir-se que a Psicose Puerperal seja classificada como uma forma severa de depressão major474 ou o desencadeamento/recorrência de uma desordem psicótica primária, como a esquizofrenia, a preponderância dos dados sugere que esta é uma ostensiva apresentação de desordem bipolar pós-parto.475 O médico deve, em caso de surtos agudos, procurar diferenciar uma esquizofrenia

469

Sobre tal distinção, cfr., igualmente, JASPERS – Psicopatologia Geral 2, p. 555.

470

THOT, Ladislau – Psicopatologia Criminal. Boletim do Instituto de Criminologia, p. 8-9. (negritos nossos) Cfr., igualmente, LUZES, Pedro – Psicanálise das Psicoses. Separata do Jornal do Médico, p. 6-10; JASPERS – Psicopatologia Geral 2, p. 761-762; ATHAYDE, J. Schneeberger de – Elementos de

Psicopatologia, p. 315.

471

THOT, Ladislau – Psicopatologia Criminal. Boletim do Instituto de Criminologia, p. 9; LUZES, Pedro – Psicanálise das Psicoses. Separata do Jornal do Médico, p. 6-10.

472

FUNAIOLI, apud. THOT, Ladislau – Psicopatologia Criminal. Boletim do Instituto de

Criminologia, p. 9.

473

DSM.4 - Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fourth Edition (ou a 4.ª Edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais), pela American Psychiatric Association. Cfr. FELDMAN, Robert S. – Introdução à Psicologia, p. 573; FELDMAN, Robert S. – Compreender a

Psicologia, p. 542-545.

474

Sobre esta depressão – cujo termo norte-americano é Major Depressive Disorder, vide AMERICAN Psychiatric Association – Major Depressive Disorder and the “Bereavement Exclusion” [Em linha]; FELDMAN, Robert S. – Compreender a Psicologia, p. 553-554; CARDOSO, José Maria Neves – Alterações Psiquiátricas e Gravidez. In GRAÇA, Luís Mendes da – Medicina Materno-Fetal, p. 636.

475

SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony J.; WISNER, Katherine L. – A Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353. Texto original: “Although the Diagnostic

and Statistical Manual of Mental Disorders, 4th ed. (DSM-IV), allows for classification of PP as a severe

form of major depression or the onset/recurrence of a primary psychotic disorder, such as schizophrenia, the preponderance of data suggests that PP is an overt presentation of bipolar disorder after delivery” (itálicos do original). (traduções nossas) Igualmente, STONE, Katherine – What The New DSM-V Says

About Postpartum Depression & Psychosis [Em linha]. En passant, PSICOSITE – Psicose Puerperal

[Em linha]; LONGO, Dan L.; et al. – Manual de Medicina de Harrison, p. 1315-1316; LONGO, Dan L.; et al. – Harrison’s Principles of Internal Medicine, p. 3529-3546.

100

hipotética desta outra situação psicopatológica e/ou perturbação da personalidade que é a Psicose Puerperal.476

A Psicose Puerperal é das mais graves (e raras/menos frequentes) perturbações psicopatológicas do período pós-parto.477 Tem sido definida como tratando-se da emergência repentina e, de certo modo, inesperada, de sintomatologia psicótica nos primeiros dias do puerpério. “Trata-se de uma perturbação psicopatológica grave, que aconteceu na estreita relação temática e temporal com o nascimento do bebé”.478

Geralmente apresenta-se “como uma psicose aguda de tipo predominantemente confusional. A doente vive então um estado onírico, de cenas não encadeadas, mas tristes, fúnebres ou terrificantes. Revela ansiedade, perplexidade, terror”.479

Existe grande consenso nas estimativas de incidência da Psicose Puerperal, situando-a entre 0,1% e 0,2% para a população das puérperas em geral – ou seja, aproximadamente um em cada mil partos.480-481-482 Contudo, diversos autores referem que as psicoses

476

SOARES, Elisabete; AZEVEDO, M. Saldanha de – As Psicoses na Práxis Clínica. In GOMES, António Alves; CORTESÃO, Eduardo Luís; SILVA, Ermelinda Santos – Psiquiatria, Neurologia e

Saúde Mental na Práxis do Clínico Geral, p. 250.

477

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 44; FEINENMANN, Jane – Sobreviver à

Depressão Pós-Parto: Identificar, compreender e superar a depressão pós-parto, p. 44-45;

FRIEDMAN, Susan Hatters; SORRENTINO, Renée – Commentary: Postpartum Psychosis,

Infanticide, and Insanity – Implications for Forensic Psychiatry [Em linha], p. 326; DIMINO, Debora

K. – Postpartum Depression: A Defense for Mothers Who Kill Their Infants [Em linha], p. 233; PANDA, Post and Antenatal Depression Association Inc. – Postpartum Psychosis [Em linha]; YANG, Vue – Postpartum Depression and the Insanity Defense: A poor mother’s two worst nightmares [Em linha], p. 231; NONACS, Ruta; COHEN, Lee S. – Postpartum Mood Disorders: Diagnosis and Treatment Guidelines. The Journal of Clinical Psychiatry [Em linha], p. 35; CANTILINO, Amaury; et al. – Transtornos psiquiátricos no pós-parto. Revista de Psiquiatria Clínica [Em linha], p. 290; BERGINK, Veerle – First-Onset Postpartum Psychosis [Em linha], p. 31, 47; STEWART, Donna E.; et al. – Postpartum Depression : Literature review of risk factors and interventions [Em linha], p. 17- 18; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders during Pregnancy and

Postpartum (Review of Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 81; CENTENO, Mónica –

Puerpério e Lactação. In GRAÇA, Luís Mendes da – Medicina Materno-Fetal, p. 377.

478

FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e da Maternidade, p. 168; ROBERTSON, Emma; et al. – Risk of puerperal and non-puerperal recurrence of illness following bipolar affective puerperal (post- partum) psychosis. The British Journal of Psychiatry [Em linha], p. 258; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders during Pregnancy and Postpartum (Review of

Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 81.

479

ATHAYDE, J. Schneeberger de – Elementos de Psicopatologia, p. 315; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders during Pregnancy and Postpartum (Review of

Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 81; BERGERET, Jean (dir.) – Psicologia Patológica: Teórica e clínica, p. 100.

480

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 44; FEINENMANN, Jane – Sobreviver à

Depressão Pós-Parto: Identificar, compreender e superar a depressão pós-parto, p. 44-45;

FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e da Maternidade, p. 168-169; FRIEDMAN, Susan Hatters; SORRENTINO, Renée – Commentary: Postpartum Psychosis, Infanticide, and Insanity –

101

poderão estar subdiagnosticadas, sobretudo nas suas formas mais leves.483 Segundo outros estudos, 80% dos casos ocorrem no primeiro mês, e 40% na primeira semana,

Depression: A Defense for Mothers Who Kill Their Infants [Em linha], p. 233; OBERMAN, Michelle

– Mothers Who Kill: Coming to Terms With Modern American Infanticide [Em linha], p. 39-40; THOT, Ladislau – Psicopatologia Criminal. Boletim do Instituto de Criminologia, p. 10-11 (para as psicoses em geral); PANDA, Post and Antenatal Depression Association Inc. – Postpartum Psychosis [Em linha]; SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony J.; WISNER, Katherine L. – A Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353, e 364; ROBERTSON, Emma; et al. – Risk of puerperal and non-puerperal recurrence of illness following bipolar affective puerperal (post- partum) psychosis. The British Journal of Psychiatry [Em linha], p. 258; LAI, Jiun-Yang; HUANG, Tiao-Lai – Catatonic features noted in patients with post-partum mental illness. Psychiatry and Clinical

Neurosciences [Em linha], p. 157; NONACS, Ruta; COHEN, Lee S. – Postpartum Mood Disorders:

Diagnosis and Treatment Guidelines. The Journal of Clinical Psychiatry [Em linha], p. 35; LLEWELLYN, Alexis M.; STOWE, Zachary N.; NEMEROFF, Charles B. – Depression During Pregnancy and the Puerperium. Journal of Clinical Psychiatry [Em linha], p. 28; WORLD Health Organization – Maternal Mental Health & Child Health and Development [Em linha]; CANTILINO, Amaury; et al. – Transtornos psiquiátricos no pós-parto. Revista de Psiquiatria Clínica [Em linha], p. 290; CAMACHO, Renata Sciorilli; et al. – Transtornos Psiquiátricos na Gestação e no Puerpério: Classificação, diagnóstico e tratamento. Revista de Psiquiatria Clínica [Em linha], p. 93-95; BERGINK, Veerle – First-Onset Postpartum Psychosis [Em linha], p. 17-18, 31, 47; STEWART, Donna E.; et al. –

Postpartum Depression : Literature review of risk factors and interventions [Em linha], p. 16-18;

CARVALHO, Álvaro; et al. – Perturbações Mentais associadas à Gravidez, Interrupção da Gravidez e Puerpério. In GOMES, António Alves; CORTESÃO, Eduardo Luís; SILVA, Ermelinda Santos –

Psiquiatria, Neurologia e Saúde Mental na Práxis do Clínico Geral, p. 296; IACONELLI, Vera – Depressão Pós-Parto, Psicose Pós-Parto e Tristeza Materna [Em linha]; ANDRADE, Laura Helena S.

G. de; VIANA, Maria Carmen; SILVEIRA, Camila Magalhães – Epidemiologia dos Transtornos Psiquiátricos na Mulher. Revista de Psiquiatria Clínica [Em linha]; BARR, Jennieffer A.; BECK, Cheryl T. – Infanticide Secrets: Qualitative study on postpartum depression. Canadian Family Physician [Em linha], p. 1717.e1; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders

during Pregnancy and Postpartum (Review of Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 78 e 81;

LONGO, Dan L.; et al. – Harrison’s Principles of Internal Medicine, p. 3522-3529 Curiosamente, Frederico Navas Demétrio considera que o crime de infanticídio “ocorre em 4% das psicoses puerperais”, uma vez que “a relação mãe-filho é tão intensa que mesmo a mulher psicótica, sem contacto com a realidade, em raríssimos casos mata a criança intencionalmente” – cfr. ENTREVISTA: “Depressão Pós-

Parto” [Em linha]. Por seu turno, SALINAS, Daniel Herrera – Aspectos Psicosomáticos de la Mujer

(primera parte). Revista de la Facultad de Ciencias Médicas [Em linha], p. 37, refere que “las psicosis gravídicas son cinco veces menos frecuentes que las puerperales”, enquanto “se presenta depresión neurótica en un 10% de las embarazadas”; novamente o afirma em SALINAS, Daniel Herrera – Aspectos Psicosomáticos de la Mujer (segunda parte). Revista de la Facultad de Ciencias Médicas [Em linha], p. 54-55. Já POLÓNIO, Pedro – Psiquiatria: Medicina da Pessoa, p. 341 refere que “a seguir ao parto a frequência de doenças mentais aumenta 4 a 5 vezes”. VERSCHOOT, Odile – Ils ont Tué leurs Enfants :

Approche psychologique de l’infanticide, p. 34-35, relata-nos enquanto casos de irresponsabilidade

penal (para o ordenamento jurídico francês, pelos motivos que já tivemos oportunidade de expor): “les irresponsabilités pénales sont devenues rarissimes (0,4% en moyenne entre 1998 et 2002 après environ dix-huit mois d’instruction)”.

481

Em relação aos casos estudados e analisados por Pedro Polónio e Motta Figueiredo, os casos de psicoses da gravidez constituíram apenas 6,3% – POLÓNIO, Pedro; FIGUEIREDO, Motta – As Psicoses da Gravidez, Puerpério e Lactação. Separata dos Anais Portugueses de Psiquiatria, p. 8.

482

Contra, BARRACLOUGH, Jennifer; GILL, David – Bases da Psiquiatria Moderna, p. 144, os quais apontam para a frequência de 1 em 500 nascimentos.

483

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 44; FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e

da Maternidade, p. 168-169; FRIEDMAN, Susan Hatters; SORRENTINO, Renée – Commentary: Postpartum Psychosis, Infanticide, and Insanity – Implications for Forensic Psychiatry [Em linha],

102

sendo os quadros da doença bipolar muito mais frequentes no primeiro ano após o parto, comparando com outras etapas da vida.484

Figueiredo485 refere mesmo que em mais de 50% dos casos, o início da doença ocorre na primeira semana após o nascimento, nunca antes do terceiro dia ou depois da quarta semana do puerpério, sendo caracterizado fundamentalmente pelo quadro psicótico de desencadeamento abrupto e intenso.486

A Psicose Puerperal manifesta-se geralmente após alguns dias ou semanas sem que a mulher evidencie problemas comportamentais, mas, num terço dos casos, sobrevêm em mulheres com história prévia de perturbação psiquiátrica major, anterior ou decorrente ao puerpério.487 Para a mulher, nestes casos, o bebé não existe enquanto tal, passando a ser um espaço vazio preenchido por elementos do psiquismo da mãe, cindidos do real, sendo a angústia insuportável, o que pode levar ao surgimento de rituais obsessivos e

484

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 44; FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e

da Maternidade, p. 169-170; SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony J.; WISNER, Katherine L. – A

Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353, e 364; BERGINK, Veerle – First-Onset Postpartum Psychosis [Em linha], p. 19-20. De referir também que existem diferenças sexuais na incidência da depressão – cfr. GLEITMAN, Henry; FRIDLUND, Alan J.; REISBERG, Daniel – Psicologia, p. 1071-1072. Já BARRACLOUGH, Jennifer; GILL, David – Bases da

Psiquiatria Moderna, p. 144, referem que esta doença tem início dentro de 12 semanas após o parto.

485

FIGUEIREDO, apud. APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 44.

486

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 44; FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e

da Maternidade, p. 169-170; FRIEDMAN, Susan Hatters; SORRENTINO, Renée – Commentary: Postpartum Psychosis, Infanticide, and Insanity – Implications for Forensic Psychiatry [Em linha],

p. 326-327; SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony J.; WISNER, Katherine L. – A Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353, e 364; ROBERTSON, Emma; et al. – Risk of puerperal and non-puerperal recurrence of illness following bipolar affective puerperal (post- partum) psychosis. The British Journal of Psychiatry [Em linha], p. 258; LAI, Jiun-Yang; HUANG, Tiao-Lai – Catatonic features noted in patients with post-partum mental illness. Psychiatry and Clinical

Neurosciences [Em linha], p. 157; NONACS, Ruta; COHEN, Lee S. – Postpartum Mood Disorders:

Diagnosis and Treatment Guidelines. The Journal of Clinical Psychiatry [Em linha], p. 35; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders during Pregnancy and Postpartum

(Review of Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 81.

487

APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 44-45; FEINENMANN, Jane – Sobreviver

à Depressão Pós-Parto: Identificar, compreender e superar a depressão pós-parto, p. 46-49;

FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e da Maternidade, p. 169-170; FRIEDMAN, Susan Hatters; SORRENTINO, Renée – Commentary: Postpartum Psychosis, Infanticide, and Insanity –

Implications for Forensic Psychiatry [Em linha], p. 326-327; SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony

J.; WISNER, Katherine L. – A Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353-354; LAI, Jiun-Yang; HUANG, Tiao-Lai – Catatonic features noted in patients with post- partum mental illness. Psychiatry and Clinical Neurosciences [Em linha], p. 157; NONACS, Ruta; COHEN, Lee S. – Postpartum Mood Disorders: Diagnosis and Treatment Guidelines. The Journal of

Clinical Psychiatry [Em linha], p. 35; ATHAYDE, J. Schneeberger de – Elementos de Psicopatologia,

p. 315; ALMEIDA, Fátima – Prevenção do Neonaticídio em Portugal: Perspetivas Psicológicas. Peritia –

103

pensamento desconexo.488 Segundo Friedman e Resnick, mais de 4% das mulheres que padeçam desta desordem e que não sejam entretanto submetidas a tratamento conveniente cometerão infanticídio.489

Outros diversos estudos apontam a possibilidade de prevenir a Psicose Puerperal com uma intervenção precoce em mulheres com antecedentes como situações de luto (aborto) ou perturbações psiquiátricas prévias.490 Terceiros estudos apontam para uma relação entre esta psicose e as perturbações bipolares.491

488

IACONELLI, Vera – Depressão Pós-Parto, Psicose Pós-Parto e Tristeza Materna [Em linha]; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders during Pregnancy and

Postpartum (Review of Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 81.

489

FRIEDMAN, Susan Hatters; RESNICK, Phillip J. – Child Murder by Mothers: Patterns and prevention. World Psychiatry [Em linha], p. 139. Igualmente, ENTREVISTA: “Depressão Pós-Parto” [Em linha]; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders during

Pregnancy and Postpartum (Review of Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 81.

490

Cfr. APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 45-46; SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony J.; WISNER, Katherine L. – A Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353-354; BARR, Jennieffer A.; BECK, Cheryl T. – Infanticide Secrets: Qualitative study on postpartum depression. Canadian Family Physician [Em linha], p. 1717.e1; SALINAS, Daniel Herrera – Aspectos Psicosomáticos de la Mujer (segunda parte). Revista de la Facultad de Ciencias

Médicas [Em linha], p. 54-55; ALMEIDA, Fátima – Prevenção do Neonaticídio em Portugal: Perspetivas

Psicológicas. Peritia – Revista Portuguesa de Psicologia [formato eBook], p. 61-64; KITZINGER, Sheila – A Experiência do Parto, p. 324; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and

Anxiety Disorders during Pregnancy and Postpartum (Review of Psychiatry Series, Volume 24, Number 4), p. 2-11, 53-58, 77-86, 95-96. Apontam-se, sobretudo, a esquizofrenia, a desordem bipolar, e

a epilepsia. POLÓNIO, Pedro; FIGUEIREDO, Motta – As Psicoses da Gravidez, Puerpério e Lactação.

Separata dos Anais Portugueses de Psiquiatria, p. 8, referem ter-se manifestado 9 psicoses maníaco-

depressivas, 6 esquizofrenias e 1 epilepsia durante a gravidez, de cujo total 6 agravaram apreciavelmente no puerpério, “por excitação ansiosa ou maníaca e maniforme incoerente”, enquanto “uma depressão a seguir ao parto teve excitação ansiosa e viragem para mania incoerente”, e “uma doente com herança epiléptica e personalidade epileptóide, teve uma primeira crise de mania durante a gravidez, veio a sofrer de novo surto na lactação de outro filho e teve depois vários acessos espontâneos”; para maior aprofundamento dos casos estudados por aqueles autores, cfr. POLÓNIO, Pedro; FIGUEIREDO, Motta – As Psicoses da Gravidez, Puerpério e Lactação. Separata dos Anais Portugueses de Psiquiatria, p. 8- 21. Para aprofundamento do estudo sobre a epilepsia, cfr. CORREIA, Diogo Telles (coord.) – Manual de

Psicopatologia, p. 192-193; LONGO, Dan L.; et al. – Manual de Medicina de Harrison, p. 1199-1212;

LONGO, Dan L.; et al. – Harrison’s Principles of Internal Medicine, p. 3529-3546. Para aprofundamento sobre a esquizofrenia, entre outros, vide FOUCAULT, Michel – Doença Mental e

Psicologia, p. 11-12; BARBOSA, António; CÂMARA, Jorge – Urgências em Psiquiatria. In

CORDEIRO, J. C. Dias (org.) – Manual de Psiquiatria Clínica, p. 490; LONGO, Dan L.; et al. –

Manual de Medicina de Harrison, p. 1319; LONGO, Dan L.; et al. – Harrison’s Principles of Internal Medicine, p. 3522-3529.

491

FIGUEIREDO, Bárbara – Perturbações Psicopatológicas do Puerpério. In CANAVARRO, Maria Cristina (coord.) – Psicologia da Gravidez e da Maternidade, p. 170; SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony J.; WISNER, Katherine L. – A Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353-354; ROBERTSON, Emma; et al. – Risk of puerperal and non-puerperal recurrence of illness following bipolar affective puerperal (post-partum) psychosis. The British Journal of Psychiatry [Em linha], p. 258; COHEN, Lee S.; NONACS, Ruta M. (ed.) – Mood and Anxiety Disorders during

104

Santos492 procura diferenciar, segundo os quadros psicóticos puerperais conhecidos, pelas seguintes categorias: psicose delirante aguda, “caracterizada por sintomatologia polimorfa e lábil, dominada por flutuações do humor e de consciência493, conteúdos delirantes centrados na criança, agressividade (por vezes oculta) e frequentes sentimentos infanticidas”, sendo o risco de recorrência em gravidezes posteriores de cerca de 10% a 50%; perturbações tímicas francas, a mais frequente, que inclui conteúdos maníacos e de depressão major494, predominando “um quadro de melancolia delirante, centrado ainda no bebé, sentimentos de culpabilidade e incapacidade, que poderão fazer precipitar tentativas suicidárias e infanticidas”; e estados esquizofrénicos, os quais representam 10% a 15% das Psicoses Puerperais e admite a existência de história prévia de surtos psicóticos.495

Não se conhece, verdadeiramente, nenhuma causa para o surgimento desta psicose, mas existem teorias relacionadas com as mudanças biológicas envolvidas na gravidez e parto; além dessas, temos também a predisposição genética, o facto de se ter padecido de doença mental prévia, e os factores de stress psicológico, social e ambiental.496

492

SANTOS, apud. APÓSTOLO, Luísa Maria Patrício Machado – Op. cit., p. 46; FEINENMANN, Jane – Sobreviver à Depressão Pós-Parto: Identificar, compreender e superar a depressão pós-parto, p. 46-49; SIT, Dorothy; ROTHSCHILD, Anthony J.; WISNER, Katherine L. – A Review of Postpartum Psychosis. Journal of Women’s Health [Em linha], p. 353-354.

493

A propósito daquilo que seja a consciência (ou melhor, sobre o consciente versus inconsciente, e a questão do livre-arbítrio) para a Psicologia e para a Psiquiatria, cfr. JASPERS – Psicopatologia Geral 1, p. 21-23, 71-179; BOMBARDA, Miguel – A Consciência e o Livre Arbítrio, p. 44-82, 191-214; KRAFFT-EBING, R. von – Traité Clinique de Psychiatrie, p. 109-121, 201-207, 230-234. Sobre a psicopatologia da consciência e da personalidade, cfr. ATHAYDE, J. Schneeberger de – Elementos de