2. Theory
2.2 Heat transfer
2.2.1 Infrared thermography
2.2.1.2 The atmospheric effects
O gregarismo comunitário e as características que permeiam o tempo de predomínio do relacional, aprofundadas por Maffesoli, são tema constante em suas demais obras. Mas,
particularmente, em O Mistério da Conjunção, é abordada a retórica como recurso de proximidade e tactilidade social, vetor do estar-junto. Como uma forma de compreender a comunicação, a retórica serve de cimento social, elemento de religação entre o indivíduo e o outro, espaço simbólico da co-habitação, modalidade lúdica como forma de exercício da socialidade. “Um dos elementos dessa socialidade de base própria da vida concreta é o que se pode chamar de retórica popular (...) a arte da oratória” (2005 - b; p. 55). O fascínio da retórica popular reside, segundo Maffesoli, no fato de se tratar de uma troca simbólica e, que, portanto, deve estruturar o social. Ou seja não é apenas um jogo, mas um jogo de palavras que, como signos, prestam-se a representar outros signos, alcançando, assim, uma narrativa poética, metafórica, e portanto, transcendental.
A retórica em questão é a oral, veículo dos ditados, provérbios, lendas e outras formas ritualísticas que funcionam como meio de agregação comunitária. O vínculo, independente de qualquer conteúdo, prioriza colocar em contato os interlocutores. Apesar de os exemplos citados por Maffesoli remeterem ao passado oral, é possível dizer que na retórica escrita a dinâmica e as motivações não são diferentes. Se pensarmos que o esquema imaginado por Aristóteles quando se propôs a dissecar a retórica é emissor-mensagem- receptor, vemos que ela é válida para ambos os meios, gráfico e falado, em qualquer situação em que um enunciador pretenda exercer algum tipo de influência sobre um interlocutor. Por isso, é possível dizer que as características levantadas por Michel Maffesoli repetem-se quando se trata da retórica escrita.
A polêmica nutrida por um cronista preserva as características da retórica arcaica e ancestral, entre os quais a teatralidade. Ainda que na escrita se perca o vigor do ato, como na fala, em detrimento do raciocínio e da interpretação, uma coluna em um veículo impresso pode manter seu caráter pictórico, de maneira mais acentuada, no texto do cronista polêmico, em si caricatural e teatral. O polemista usa artifícios como a ironia e figuras de linguagem que
imprimem ao seu texto estilo próprio e que supera a significação textual. Na verdade assume um novo status como forma de comunicação excêntrica dentro do mar de notícias que buscam a objetividade. O melhor exemplo disso talvez seja Paulo Francis. De polêmico formador de opinião, colunista de texto cáustico, quase sem conjunções e recheado de expressões como
waal e pfiu, para denotar paciência e desagrado. Com tantas particularidades no jornal, não poderia deixar de ser surpreendente na televisão. Converteu-se em folclórico, sem abandonar o polemismo, quando assumiu um comentário, no qual, de Nova York, comentava os assuntos em pauta no noticiário internacional e da política brasileira parecendo ébrio, com óculos de lentes fundas e voz arrastada. Com esse estilo, reforçou o mito em torno do personagem de si mesmo criado por ele próprio, ou seja, de seu ethos.
Aristóteles definiu a retórica como “a faculdade de ver, teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão (...) sua tarefa não consiste em persuadir, mas definir os meios de persuadir a propósito de cada questão” (1981; p. 34). Ao se propor estudar a retórica, Aristóteles procurou, entre outras coisas, estabelecer os meios concretos mais convincentes para serem usados na arte de influenciar o interlocutor num juízo. Como filósofo, deduziu que a finalidade da retórica residia em aduzir provas já que
a prova é uma demonstração – pois que nossa confiança é tanto mais firme quanto mais convencidos estivermos de ter obtido uma demonstração-; atendendo a que a demonstração da retórica é o entinema, que este fornece, em resumo, a convicção mais decisiva (...) que é uma espécie de silogismo (1981; p.31)
Diante da explicação tão lógica e estruturada, torna-se perceptível que, para o filósofo grego, o orador bem-sucedido é o que melhor domina “as premissas e a marcha do silogismo” (1981; p.32). Fica claro, nesse trecho da obra, a idealização de Aristóteles por um modelo persuasivo calcado na razão, na argumentação clara, analítica, e bem fundamentada, objetivando não deixar espaço para contestações, refutações, críticas, identificação de falácias
ou sofismas. Trata-se, enfim, da elaboração de uma fórmula ideal e idealizada de obter sucesso num embate retórico-argumentativo, já que “a retórica é útil porque o verdadeiro e o justo são, por natureza, melhores que seus contrários” (1981; p.32). Essa noção também se evidencia quando o autor arrola condições para o uso do estilo com correção e ritmo (“a forma do estilo não deve ser nem métrica nem desprovida de estilo” – 1981; p. 225). Em suma e grosseiramente, poderia ser resumida em uma técnica capaz de habilitar a “reduzir por nós mesmos ao nada a argumentação de um outro, sempre que este em seu discurso não respeite a justiça” (1981; p. 32-33).
Chaïm Perelman, no seu tratado sobre a argumentação, aprofunda as noções aristotélicas. Para ele, “o objetivo de toda argumentação é provocar ou aumentar a adesão de todos os espíritos às teses que se apresentam a seu assentimento: uma argumentação eficaz é a que consegue aumentar a intensidade de adesão” (2005; p. 50). O polemista posiciona-se no sentido contrário: argumenta não pela adesão, mas pela repercussão, angariando adeptos e detratores. Ou seja, nessa definição, a retórica parece uma técnica que não se aplica inteiramente à explicação da estratégia de floreio verbal do polemista que resumidamente, poderia ser definida, justamente, como estruturada na intenção de subverter a lógica considerada justa e ideal, com atitude e estilos transgressores e marcados – na maioria das vezes, deliberadamente – pela excentricidade. “Certamente, parece bastante intuitivo assumir- se o discurso polêmico mais como fala enquanto ato, do que fala enquanto texto. (...) A polêmica parece nascer menos do uso argumentativo do que da atitude argumentativa” (2002; p.53), como notam Wainberg, Campos e Behs.
Os três autores defendem que “a polêmica se instaura preferencialmente pelo caráter, anterior aos argumentos propriamente, divergente das premissas, sobre as quais não há consenso, porque assumidos como espécie de axiomas, fora de julgamento” (2002; p.53). Assim, a quebra da lógica no polêmico precede a argumentação. Mas também pode-se dizer
que não só dessa forma. É valido, igualmente, afirmar que o estilo do polemista não reside apenas na elaboração de premissas que, naturalmente, corroborem e coincidam com uma conclusão, mas na enunciação de premissas que abalem outras conclusões anteriores. Nessa ordem, as premissas não levam a conclusão pressuposta, mas a uma inesperada O esquema do argumento do cronista polêmico e a sua sedução residem, então, na proposição de sentenças conclusivas inversas às esperadas diante das premissas anteriormente expostas. É um abalo e, ao mesmo tempo, uma ruptura com a lógica formal. “O marido fiel é fiel até quando trai”, frase do polemista Nelson Rodrigues, entre outras, é um bom exemplo disso.