3.1.1.1. A DOMINAÇÃO OTOMANA E A DIVISÃO RELIGIOSA
O que são os Balcãs? A denominação não é clara e foi, durante muito tempo, após o seu aparecimento, alvo de contestação epistemológica e semântica.
Nos finais do século XX, as pessoas falavam dos Balcãs como se estes sempre tivessem existido. No entanto, duzentos anos antes ainda não estavam formados. Não foram os Balcãs, mas sim «Rumeli», as terras que os Otomanos dominaram, as antigas terras «romanas» que conquistaram a Constantinopla. (…)
«Balcãs» foi inicialmente um nome para designar a cordilheira que se transpunha ao fazer-se a rota da Europa Central para Constantinopla (…). [No século XVIII], A maior parte dos eruditos, em especial os autores gregos dos estudos mais antigos desta área usavam o termo, muito mais comum, de «Turquia europeia» e continuaram a ser escassas as referências aos «Balcãs» pelo século XIX adiante. (…) Nem houve muitas referências aos povos «balcânicos» antes de 1880.
Mas, por volta de 1880, os dias da «Turquia na Europa» tinham chegado obviamente ao fim. Os Estados sucessores – Grécia, Bulgária, Sérvia, Roménia e Montenegro – haviam emergido durante o século XIX como contendores lutando para dividir entre si o que restava. Entre 1878 e 1908, as conferências diplomáticas esquartejaram o que restava à supervisão das grandes potências. Viajantes, jornalistas e propagandistas europeus acorreram à região e popularizaram o uso recente e mais amplo do termo «Balcãs». (…) ele tornara- se o termo corrente. Os puristas protestaram. (…) Mas a tendência impunha-se contra este preciosismo. Em menos de meio século, sobretudo como resultado de súbitas mudanças militares e diplomáticas, o novo conceito geográfico instalou- se na linguagem comum. (…) O nome geralmente atribuído a esse segmento é a “península Balcânica” ou simplesmente “os Balcãs”. (Mazower, 2000: XXV- XXVIII).
Assim, a ideia conceptual de Península Balcânica, ou mais comummente «os Balcãs», derivou da visão barbárica e selvagem que os europeus tinham da região – o termo «Balcãs» significa Europa Selvagem. De facto, em 1907, tal como relata Mazower, o jornalista Harry de Windt questionando o porquê da aplicação deste termo, justificava-o dizendo “Porque... o termo descreve com rigor os países selvagens e sem lei entre os mares Adriático e Negro.” (Idem: XXVIII).
Durante todo o período em que a região dos Balcãs foi dominada pelo Império Otomano, não existem relatos de divisões étnicas ou linguísticas. Pelo contrário, as divisões eram baseadas na religião praticada, entre cristãos e muçulmanos, senão atente-se “A consciência da maior parte dos súbditos do sultão não era modelada nem pela escola nem pelo exército – as duas instituições chave através das quais o Estado moderno propaga as identidades nacionais. O Estado otomano relacionara-se com eles na base da religião e não do idioma.” (Ibid.: 41).
Após a queda de Constantinopla, em 1453, com a consolidação do domínio otomano sobre os territórios pertencentes ao antigo Império Romano a Oriente, praticamente todas estas populações foram sendo convertidas ao Islão. Esta conversão massiva foi continuada no período otomano
tardio, muitas vezes por questões materialistas e de progressão social34; mas, ao contrário do que era apanágio da expansão católica levada a cabo pela Santa Sé, esta conversão ao Islão não foi acompanhada pela generalização da língua turca como idioma, assente no princípio “muitas línguas, uma Igreja” (Ibid.: 42)35. Assim, a principal razão36 pela qual os Balcãs acabaram por não ser totalmente «islamizados» prende-se com questões maioritariamente económicas, isto porque converter toda a população da região teria implicado uma redução significativa no volume dos impostos cobrados. Em suma, apesar de cristãos e judeus serem reconhecidos como zimmi – povos protegidos – e apesar das liberdades que lhes eram concedidas, foi a Igreja Ortodoxa que mais beneficiou com a governação otomana. Como refere Mazower:
“Desta forma, a conquista otomana dos Balcãs, longe de esmagar a ortodoxia cristã, trouxe-lhe muitas vantagens (…). Graças aos Turcos, [a ortodoxia cristã] libertava-se largamente da ameaça do catolicismo, representada pelos Venezianos e Genoveses no Mediterrâneo Oriental. Com efeito, o poder
otomano unificou os Balcãs pela primeira vez em séculos. Nos finais do século
XVI, da capital otomana noticia-se que os cristãos aí residentes «não querem qualquer outra dominação que não seja a dos Turcos».” (Ibid.: 49).37
Isto significa que, até ao século XIX, a ortodoxia cristã, grega, miscigenada com misticismos muçulmanos e judeus, dominou sobre todos os cristãos da Europa otomana, fazendo a ponte entre estes e o poder do Imperador.
3.1.1.2. O DESPERTAR DAS CONSCIÊNCIAS NACIONALISTAS
Como se explica, então, o violento despertar dos nacionalismos que se iniciou no século XIX e se consolidou inexpugnavelmente na Península no início do século XX? O emergir de sentimentos
34 “Um argumento de força para a conversão era o estatuto de segunda classe para os não-muçulmanos no mundo
otomano. Os cristãos (e judeus) eram tolerados como «gente da Bíblia», mas estavam sujeitos a discriminação e maus tratos com base na sua religião: não eram autorizados a montar cavalos, usar a cor verde ou construir igrejas acima de determinada altura. A sua palavra contava menos que a de um muçulmano nos tribunais otomanos e pagavam impostos mais pesados, supostamente por não prestarem serviço militar.” (Mazower, 2000: 46).
35 “Na Europa otomana, a maior parte da população – provavelmente cerca de oitenta por cento – continuou cristã.
Mesmo onde o islão construiu estradas para o campo, raramente levou consigo a língua turca” (idem: 47).
36 As questões materiais não foram a única razão, sendo que, à época, houve forte oposição a esta conversão forçada,
com origem no seio das correntes muçulmanas mais ortodoxas.
nacionalistas nos Balcãs não foi, de forma alguma, um fenómeno isolado e exclusivo desta região do globo; ao invés, ele reflecte uma tendência que se verificava em toda a Europa, e nas suas colónias, cuja génese remonta à assinatura do Tratado de Vestefália por parte das grandes potências europeias. A Europa Moderna implementava um novo modelo de organização política e apresentava um novo conceito – um Estado, uma Nação – que havia de ter repercussões determinantes nas suas colónias, tendo a descolonização americana sido o mote de partida para todas as outras que viriam a ocorrer várias décadas depois. A afirmação do Estado Nação na Idade Moderna na Europa e a emergência de consciências nacionais já foram, anteriormente, explorados; interessa agora, analisar o caso concreto dos Balcãs.
É preciso, primeiro, recordar a forma como a ortodoxia grega se inter-relacionou com o Império: “Quando o historiador Christopher Dawson se perguntou por que razão o
Império Bizantino, ao contrário do papado no Ocidente, não conseguia consolidar o seu domínio cultural e religioso no seu canto da Europa, não se apercebia de que, na realidade, a cultura bizantina continuava a evoluir – sob a orientação da ortodoxia e do domínio imperial otomano. Evoluía nos escritos empolados dos fanariotas gregos da capital do sultão, que oscilavam entre a fidelidade à Porta e a esperança de um renascimento do Império Bizantino, mas mantinham-se adeptos virtuosos da ortodoxia e do helenismo.” (Ibid.: 52).
É por causa desta devoção ao helenismo e da manutenção do poderio grego relativamente às restantes províncias do império, perpetuado através da religião e das cerimónias eclesiásticas, ainda que submetida ao Islão e ao Sultão, que se explica o que veio, posteriormente, a suceder-se:
“No princípio do século XIX, os intelectuais búlgaros, sérvios e romenos – em muitos casos educados em escolas gregas – começavam a definir-se pela primeira vez em termos de comunidades culturais. Não se conformavam com o que consideravam ser a dominação grega, pondo abertamente em dúvida ser o grego o seu idioma, ou a sua pátria a «Hellas». (…) As ideias novas de filiação política e cultural levaram tempo a passar dos intelectuais, dos livros e das cidades para as pequenas cidades mercantis e para as casas da massa analfabeta do povo (…).” (Ibid.: 71).
Durante todo o século XIX assistiu-se, assim, à consolidação destas consciências nacionais que viriam a determinar a independência pós-Primeira Guerra Mundial dos novos Estados-Nação que formam o mapa político dos Balcãs modernos. A forma como cada um dos nacionalismos acabou
por vencer a dominação otomana não cabe no âmbito desta análise38. Contudo, é essencial que se retenham várias questões da maior importância: 1) como já foi referido, estes movimentos nacionalistas não são caso isolado dos Balcãs, fazendo eco da tendência de afirmação nacionalista que se registava por toda a Europa e que está por detrás da eclosão da I Guerra Mundial39; 2) apesar da forte luta e resistência levada a cabo pelos povos balcânicos contra o Império Otomano, o interesse e apoio de grandes potências europeias na região foi determinante para a sua independência; 3) o apoio das potências europeias não veio sem senão e, efectivamente, estas ingeriram directamente nos assuntos internos dos novos estados, quer através da nomeação dos monarcas e governantes, quer através da definição das novas fronteiras; 4) apesar dos triunfos alcançados, nunca imperou a união entre os povos do novo Estado independente da Sérvia e esta, nos anos que se seguiram a 187840, foi consolidando a sua supremacia nos Balcãs, mesmo tendo perdido duas guerras contra o Império Austríaco.