O mundo do Outro é, e sempre foi, um universo fascinante e magnético que cativa a nossa imaginação e que nos atrai irremediavelmente115. Simultanea, e
paradoxalmente, é também um lugar tenebroso onde os medos mais recalcados e profundos se libertam dos grilhões que os aprisionam no nosso subconsciente. Precisamos, ademais, desse universo misterioso para projectarmos a nossa própria imagem e entendermos a sua essência à luz da diferença que mantém connosco. Definir, caracterizar, estereotipar, rotular o Outro é imanente à condição humana. Só assim podemos fazer sentido do que se nos afigura como estranho e compreendermo-nos a nós mesmos. Carlos Maurício sintetiza, aliás, toda esta dialéctica inerente à problemática da percepção da alteridade ao afirmar que:
Representamos os outros para dar sentido à sua existência, para conferir sentido ao mundo, para falar do que somos e do que desejamos ser. Ao manipular a sua imagem esperamos colher ganhos nos combates em que estamos envolvidos [...]. Ganhos que se podem traduzir no aumento de autoridade ou de prestígio nos domínios político, religioso, científico, artístico, profissional, etc. Manipulamos a sua
114 Idem, ibidem, p. 108.
115 Como Francis Affergan afirma: «L’Autre y est par essence lointain et désiré et désiré parce que
imagem para induzir alterações nos valores e nas práticas sociais, ou, ao invés, para ajudar a enfrentar a sua erosão. Inventar o outro é mostrar/ter poder sobre o outro, sobre os outros, sobre nós116.
Ao enunciar o que acima transcrevemos, Carlos Maurício tinha em mente Oliveira Martins e a(s) sua(s) tentativa(s) de dar consistência e apreender o mundo que o rodeava enquanto político, economista, historiador e pensador. No entanto, os mesmos postulados também são válidos para os outros três autores de que nos ocupamos, os quais ambicionam demonstrar uma certa autoridade no que diz respeito à caracterização do Outro. Qualquer deles representa e manipula uma imagem da Inglaterra vitoriana que contrasta, quer por flagrante divergência, quer por desconcertante justaposição, com a do seu “Portugal contemporâneo”. Similarmente, ao tentarem caracterizar os ingleses, também nos mostram um povo tão diferente e estranho como a multidão anfíbia e híbrida a que o poema de Defoe, citado em epígrafe, se referia.
A alteridade é, portanto, o mote que conduz a análise da Inglaterra vitoriana, tal como elaborada por Eça, Batalha, Ramalho e Oliveira Martins. Nesta óptica, abordaremos a imagem da Inglaterra enquanto país do Outro, do estrangeiro. Na verdade, a própria noção de imagem não existe sem a alteridade, porque «toute image procède d’une prise de conscience […] d’un Je par rapport à l’Autre, d’un Ici par rapport à un Ailleurs. L’image est donc l’expression […] d’un écart significatif entre deux ordres de réalité culturelle»117. No entanto, o embate directo com a realidade
inglesa leva estes quatro autores a perceberem a diferença e a semelhança entre o Eu e o Outro, ou, como ressalva Paula Saukko: «One can only understand the Other through reflecting on its similarity to, and difference from, the Self»118, dicotomia patente nas
obras que analisamos. Desta feita, ao longo deste estudo constataremos como, afinal, a Inglaterra vitoriana, à semelhança do Portugal finissecular, se encontra minada por males sociais graves e em franco processo degenerativo. Porém, a par desta imagem de similitude com a pátria lusa, há a constatação da alteridade inglesa como dissemelhança, seja porque a imprensa inglesa é bastante elogiada e invejada pelos autores, seja porque o Domingo em Inglaterra é um dia triste, bem ao invés do dia festivo celebrado em Portugal, ou seja porque, surpreendentemente, a miséria e, inclusivamente, a própria decadência em Inglaterra são mais brutais e agudas do que na pátria lusa. Assim, como
116 Carlos Maurício, Op. cit., p. 12.
117 Daniel-Henri Pageaux, «De l’image à l’imaginaire», in Colloquium Helveticum. Cahiers suisses de
littérature générale et comparée, Editions Peter Lang, Berne, Frankfurt am Main, 1988, p. 9.
conclui Gilbert Durand, o Eu precisa do Outro para se decifrar a si próprio, porque «o mesmo nasce do mesmo e também do outro»119 ou, como, identicamente, esclarece
Daniel-Henri Pageaux: «Je “regarde” l’autre, mais l’image de l’Autre véhicule aussi une certaine image de moi-même. […] Je veux dire l’Autre […] et en disant l’Autre je le nie et me dis moi-même»120.
Como notámos anteriormente, entre 1877 e 1896 estas quatro figuras de proa da denominada Geração de 70 deslocam-se, por contingências várias, à Inglaterra finissecular, o país que, usando nomenclaturas actuais, se poderia considerar a superpotência de então. E é a imagem que nos legaram dessa nação imperial e ambígua que nos interessa observar nas páginas que se seguem. O império do Outro é o que encontram ao cabo da travessia do Canal da Mancha, uma Inglaterra enigmática assente na duplicidade, detentora de um quarto da superfície terrestre, invadida por elementos exógenos provenientes de todas as partes dos seus vastos domínios coloniais e povoada por uma raça exótica de ingleses desconhecidos e anónimos que enxameiam os bairros miseráveis das grandes urbes da metrópole, nomeadamente da sua capital, Londres, tantas vezes percebida em termos de imagens hiperbólicas e tomada metonimicamente pela própria Inglaterra.
Todavia, se bem que qualquer dos autores tenha efectivamente viajado até à Velha Albion, não os poderemos considerar viajantes em igualdade de circunstâncias, o que, como veremos, é um dos vectores mais conspícuos que impossibilitam a uniformização da imagem que constroem do país. Não nos podemos jamais esquecer, como salientámos anteriormente, que Eça de Queirós e Batalha Reis residiram em solo britânico, mercê das suas ocupações profissionais ao serviço do corpo diplomático português, e que Ramalho Ortigão e Oliveira Martins partiram rumo à Inglaterra como meros visitantes de ocasião. Contudo, importa, desde já, ressalvar que, quando afirmamos que é sobre a Inglaterra que estes autores escrevem, temos presente o facto de que o binómio Inglaterra/Grã-Bretanha é de difícil destrinça, sendo, na maioria das vezes, a Inglaterra tomada numa acepção mais vasta enquanto Grã-Bretanha. Ou, como explica, de modo mais autorizado, Peter J. Taylor:
As the largest component of Britain, especially in population and wealth, England, in many foreign languages and in English itself, is commonly taken to mean the whole of Britain. [...] The result of
119 Gilbert Durand, A Imaginação Simbólica, trad. de Carlos Aboim de Brito, Edições 70, Lisboa, 2000
(1ª ed. 1964), p. 51. Itálico do autor.
this [...] is a confusing mixture of national identities. [...] For instance, Scottish identity exists alongside British identity; a person may call themselves “Scottish and British”. But the equivalent phrase “English and British” has no meaning since, for the English, to be English is to be British [...]. This has been called a fused identity and provides the cultural underpinning of the English presumption121.
Ao lermos o corpus que propomos como objecto de análise, constatamos que a imagem que estes autores veiculam da Inglaterra se circunscreve predominantemente à sua capital, Londres, e às áreas circundantes, os Home Counties, os quais, por seu turno, também aglutinam a noção complexa de Inglaterra enquanto Grã-Bretanha122. Na
verdade, somente após a Segunda Guerra Mundial é que se começou a estudar isoladamente a identidade britânica por oposição à inglesa123. Por isso, só mais
recentemente é que se tem notado com maior precisão «that Great Britain is a composite structure forged […] out of different cultures and kingdoms»124. Genericamente,
Inglaterra é uma expressão aglutinadora que relega para um plano secundário as outras nações das Ilhas Britânicas. De facto, mesmo no século XIX, o próprio mestre Taine «a suivi une idée populaire à l’étranger en regardent en bloc, comme une race homogène, les Anglais, les Ecossais et les Irlandais»125. Portanto, esta generalização, à qual
dificilmente se pode escapar cabalmente, também se fará sentir na percepção da Inglaterra vitoriana. Aliás, sentindo a importância da cidade de Londres no contexto inglês, Oliveira Martins refere-se ao magnetismo exercido pela «capital, Londres, de que toda esta Inglaterra é um subúrbio» (IH, p. 18). O autor, evidencia, deste modo, a
121 Peter J. Taylor, «Which Britain? Which England? Which North?», in David Morley e Kevin Robins
(eds.), British Cultural Studies. Geography, Nationality and Identity, Oxford University Press, Oxford and New York, 2001, pp. 130-131.
122 A este propósito, Peter J. Taylor também nota tanto a macrocefalia londrina, como a supremacia dos
Home Counties na definição da Inglaterra. Assim, refere, por exemplo, que: «There is a sense in which the UK may not be large enough to accomodate both London and England» e que: «It has not gone unnoticed that the English do not have a “homeland” as such, rather they have the Home Counties, a corner of the country masquerading as representative of the whole», in idem, ibidem, pp. 140 e 134, respectivamente.
123 Na verdade, os povos das Ilhas Britânicas só se definem como britânicos quando a sua nação enfrenta
perigos do exterior e se confronta com o Outro. Cf. Linda Colley, «Britishness and Otherness. An Argument», The Journal of British Studies, vol. 31, nº 4, Outubro de 1992, p. 311.
124 Idem, ibidem, p. 312. Aliás, é importante ressalvar que a definição de identidade nacional não é
extraordinariamente complexa só quando se trata de abordar a Inglaterra, a Grã-Bretanha ou o Reino Unido. Como Homi Bhabha explica num dos seus estudos mais influentes: «The nation emerges as a powerful historical idea in the west. An idea whose cultural compulsion lies in the impossible unity of the nation as a symbolic force», Homi K. Bhabha, «Introduction. Narrating the Nation», in Homi K. Bhabha,
Nation and Narration, Routledge, London and New York, 1990, p. 1. Assim, se, em termos gerais, é difícil caracterizar o que se entende por nação, mais problemática é essa caraterização no que diz respeito ao caso das Ilhas Britânicas.
macrocefalia londrina e deixa perceber que a sua imagem da Inglaterra assenta, primordialmente, nas impressões que Londres deixa na sua mente.
No entanto, nem sempre a ideia de Inglaterra poderá abarcar o todo constituído pelo Reino Unido. Com efeito, se a Inglaterra pode conter a Grã-Bretanha, também é verídico que, antes de serem britânicos, os ilhéus do outro lado da Mancha se assumem primordialmente como escoceses, irlandeses ou galeses (devido ao fenómeno de fused
identity, os ingleses não precisam tomar-se por britânicos porque ser inglês ou ser britânico é equivalente), algo que, naturalmente, precede a criação de um Reino Unido em 1707. No final do século XIX, além da justaposição entre Inglaterra e Grã-Bretanha, há, tal como hoje, a percepção de que a Gales e a Escócia são os Outros da Inglaterra e que a Irlanda católica é o Outro colectivo dos britânicos protestantes126. Contudo, ainda
que viajantes coevos, como Taine, não fizessem grandes destrinças entre os diversos povos britânicos, o certo é que Eça e os seus conterrâneos em estudo insistiam na divergência entre a Irlanda e a Inglaterra. Por conseguinte, no corpus em apreço, a Irlanda, tal como apercebida à época, representava «uma entidade étnica, um embrião de nação»127 e, como tal, será também isolada e tratada como entidade particular e
individual: uma ilha ocupada à força pelos ingleses, estando, consequentemente, à margem de qualquer conceito de Englishness ou, inclusivamente, Britishness.
Similarmente, o império também não se define como inglês. Contrariamente, este é sempre visto enquanto britânico, embora, e paradoxalmente, seja atribuído ao esforço inglês. Segundo a argumentação de Peter J. Taylor: «It seems the British created the largest empire in the world but somehow failed to create a British history to accompany it. Instead, English history flourished and assumed the mantle of the necessary historical backcloth for imperialism: it was the “expansion of England” that led to the British Empire128. E, com efeito, ao findar o século XIX, a noção de Inglaterra
também dificilmente se destrinçava da ideia de Grã-Bretanha no que dizia respeito ao império. Este era considerado britânico, embora se devesse à expansão inglesa, como certificava a influente obra de Sir John Seeley, The Expansion of England, publicada em
126 Linda Colley, Op. cit., p. 313.
127 Verbalizando o pensamento martiniano em particular, António José Saraiva também esclarece que,
contemporaneamente, a Escócia, a Irlanda ou a Bretanha Francesa eram nacionalidades, mas não nações que são entidades políticas forjadas pelo Homem, de que são exemplo Portugal, a Espanha ou a França.
Op. cit. (1990), p. 106.
1882, tendo por base os seminários de História ministrados pelo mesmo na Universidade de Cambridge desde 1869129.
Como se depreende, há uma clara ausência de fronteiras que delimitem inequivocamente a Inglaterra e a Grã-Bretanha. É certo que, numa acepção mais restrita, a Inglaterra é uma das quatro nações constituintes do Reino Unido, e foi também o palco físico predominante das estadas destes autores nas Ilhas Britânicas. Contudo, é
também a denominação que mais frequentemente se substitui e sobrepõe à Grã- -Bretanha. Não pretendemos, de modo algum, proceder a uma compartimentação
unívoca entre estes dois espaços geográficos e as suas identidades correspondentes, algo que esbarra numa série de complexidades que, não só são perpetuadas pelos próprios ingleses, como levantam muitas questões aos académicos. Nem, tão pouco, qualquer dos quatro autores em análise se preocupou em avançar explicações concretas que apontassem para uma diferenciação clara entre Inglaterra e Grã-Bretanha, nomenclatura esta à qual os mesmos muito raramente se referem. Apenas Jaime Batalha Reis avança uma breve, e algo confusa, explicação relativamente à «Grã-Bretanha, pequena ilha dividida entre os secos ingleses e os duros escoceses» (RI, p. 166. Itálico do autor). Como se constata, o autor ignorou que os galeses são também um dos povos que constituem a Grã-Bretanha, mas fez questão de distinguir ingleses e escoceses enquanto povos diferentes. De seguida, o autor prossegue nesta linha de pensamento esclarecendo que à Grã-Bretanha «sucedeu, de há muito, nas preocupações nacionais, a “Maior Bretanha” – Great Britain que é o nome por que se designa a expansão dos anglo- -saxões pelo mundo e a sua progressiva acção para se apoderarem […] dele» (ibidem, pp. 166-167). Ora, para Batalha, uma das outras acepções de Great-Britain, literalmente Grã-Bretanha, designa a expansão imperial da nação. Porém, ao referir-se à “Maior Bretanha”, o autor teria talvez em mente a expressão Greater Britain, enunciada primeiramente na obra de Charles Dilke, Greater Britain (1868), «which argued that the British possessed a special genius for planting their peoples, institutions and values around the globe»130, pelo que a sua explicação relativa à imposição de limites
fronteiriços à Grã-Bretanha se reveste de dificuldades de interpretação. Face a toda esta
129 A visão de um império britânico galvanizado por empreendimentos ingleses foi, de facto, muito
popularizada pelas opiniões de Seeley veiculadas em The Expansion of England, obra que, escassos três anos volvidos sobre a primeira edição vendera oitenta mil cópias, nunca estando fora de circulação até 1956. Cf. Bill Schwarz, «Introduction. The Expansion and Contraction of England», in Bill Schwarz (ed.), The Expansion of England. Race, Ethnicity and Cultural History, Routledge, London and New York, 1996, p. 2.
problemática, salvaguardamos o facto de que, nas páginas que se seguem, e nas próprias obras em estudo, a Inglaterra vitoriana retratada compreende sobretudo Londres, os seus
arredores e os Home Counties. Por outro lado, e não raramente, Inglaterra e Grã- -Bretanha são também tomadas no seu sentido mais comum, isto é, enquanto entidades
homónimas. Nos casos excepcionais, a distinção será tida em consideração.
Procedendo, então, como cientistas sui generis que tentam debruçar-se objectivamente sobre o estudo de determinado assunto, verificamos que a alteridade dos ingleses é o objecto que, acima de tudo, se encontra sob as lentes dos microscópios de Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Batalha Reis e Oliveira Martins. É esta que será esmiuçada em diversas parcelas e que, ao mesmo tempo, servirá de elemento de comparação com o Portugal coevo. Como diria Ana Luísa Onofre: «A França e a Inglaterra parecem constituir para Portugal, na opinião de Ramalho Ortigão, as duas grandes instâncias outras - aquelas de que a opinião pública cria e difunde imagens de
alteridade, e em relação às quais toma atitudes básicas de rejeição ou
deslumbramento»131. Face ao ego luso, a Inglaterra, o caso particular que nos interessa,
encarna uma entidade dúplice que é, em simultâneo, objecto de admiração (aprecia-se, por exemplo, o elevado grau civilizacional atingido pelos ingleses e proporcionado pela industrialização da nação) e de desprezo (abomina-se, paradoxalmente, a diferença abissal existente entre as classes proletárias e as classes burguesas endinheiradas ou, dito de modo diverso, entre a miséria em que vivem as primeiras e a opulência das últimas, fosso este advindo, ironicamente, da industrialização)132. E não é só Ramalho
que verbaliza a alteridade inglesa e, sobretudo francesa, como contraponto, por vezes positivo, por vezes negativo, da identidade portuguesa. Os outros autores que ora abordamos trilham o mesmo caminho. A Geração de 70 «deixou-nos uma visão
pessimista [...], uma jeremíaca lamentação de país ínfimo às portas de uma Europa culta e progressiva»133, na qual se destacavam a França, a Inglaterra e, ainda, a Alemanha, ou,
como Eça as qualificaria em 1879, «as três grandes nações pensantes»134. Batalha Reis,
inclusivamente, refere que os portugueses não evitam comparar-se com um «imenso “lá
131 Ana Luísa Liberato Vieira Anileiro Onofre, Op. cit., p. 118. Ênfase e itálico da autora.
132 Com efeito, certas imagens negativas que os autores em estudo veiculam da Inglaterra finissecular
devem-se, grandemente, «aos críticos ingleses da revolução industrial, embora também derive da atitude analítica do escritor realista», Alan Freeland, «Eça de Queirós e a Inglaterra», in Elza Miné e Benilde Justo Caniato (org. e ed.), Op. cit., p. 34. Ou seja, o crescente industrialismo inglês era considerado uma das causas dos males que afectavam o país.
133 António Machado Pires, Op. cit., p. 268. Itálico do autor. 134 Eça de Queiroz, Op. cit. (1987b), p. 122.
fora” superior, que a um tempo os fascina e os acabrunha»135. Portanto, olhando para
essa Europa desenvolvida, Portugal amesquinha-se; o espelho reflecte a superioridade do Outro e revela a inferioridade do Eu, ou seja, o Portugal do século XIX empreende a auto-definição comparativamente ao Outro europeu, culto e desenvolvido, dominado pela França e pela Inglaterra, as quais, como lembra, ainda, Ana Luísa Onofre:
Terão materializado para Portugal as duas grandes figurações referenciais do estrangeiro, um estrangeiro cuja presença quase obsessiva na literatura portuguesa do fim do século passado traduz bem a perturbação funcional do ego nacional. [...] Este estrangeiro [...] participa do esclarecimento da própria noção oitocentista da decadência: é em relação aos outros - principalmente à França e à Inglaterra - que Portugal não vale; é em relação a esses outros que Portugal se pensa e se deseja136.
Ramalho Ortigão não deixará, aliás, de “farpear” a extrema adulação que a nação demonstra por esses dois países. Em Abril de 1876, o autor redige uma «Farpa» aguçada apontada à «cegueira irreflectida» que Portugal nutre pela Inglaterra. Prenunciando o título e o conteúdo da obra posterior, «A Mr. John Bull» é um artigo acrimonioso no qual Ramalho constata a subserviência portuguesa a uma nação que, apesar de imitada, é conhecida «de um modo platónico, excessivamente imperfeito e longínquo»137. Portugal idolatra a Inglaterra, à qual, por seu turno, «nenhuns serviços
devemos»138. A Inglaterra é retratada como um país arrogante que nos espolia, mas que,
incompreensivelmente, veneramos. Por outro lado, e na mesma «Farpa», o articulista observa o endividamento português à França. Afinal, «é pelos livros franceses, pelos jornais franceses, pelas revistas francesas que nós nos educamos, que nos achamos em contacto com o progresso e com a civilização»139.
Contudo, há também um reverso: referimo-nos à Europa que Eça descrevia, num artigo homónimo, para os leitores da Gazeta de Notícias a 2 de Abril de 1888 e que, decadente, não serve de alavanca à diminuição de Portugal. Na Inglaterra «de aparência tão rubicunda, as “crises” acumulam[-se] mais numerosas que as chagas no corpo clássico de Job». Atravessando a Mancha, a França vive a braços com «grossas crises especiais - a das finanças, a da administração, a da Igreja, a dos costumes», enquanto
135 Jaime Batalha Reis, O Descobrimento do Brasil Intelectual pelos Portugueses do Século XX,
organização, prefácio e notas de Elza Miné, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988b, p. 65. O
Descobrimento do Brasil Intelectual pelos Portugueses do Século XX foi um projecto desenvolvido por Batalha Reis para a revista brasileira Serões em 1905.
136 Ana Luísa Onofre, Op. cit., p. 119. Ênfase e itálico da autora.
137 Ramalho Ortigão, As Farpas, 15 vols., vol. 2, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1943, p. 97. 138 Idem, ibidem, p. 100.