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5 Incorporating Demonological Traditions

5.1 Jīngmèi: the “Chinese” Demon

5.1.1 Textual Origin

Além de ser reconhecido mundialmente por suas críticas à teoria das descrições de Russell, Strawson é lembrado, de modo especial, pelo fato de ter reativado os argumentos transcendentais e por ter dado um novo alento à filosofia kantiana no mundo anglo-saxão. A obra Individuals se tornou famosa não somente por reintroduzir a metafísica no contexto da Filosofia Analítica, mas também por ter sido responsável direta pela reativação e florescimento dos argumentos transcendentais (STERN, 2000). Segundo Hacker, o crescente uso dos argumentos transcendentais está associado, por um lado, a atenção cada vez maior às “doutrinas wittgensteinianas e, por outro, ao ressurgimento do interesse geral pela Crítica da Razão Pura de Kant. Quem mais explicitamente tem posto isso em prática é Peter Strawson, em cujos escritos é notável a inclinação kantiana” (HACKER, 1999, p.115). Enquanto Sydney Shoemaker seria um típico representante dos argumentos transcendentais inspirados em Wittgenstein, Strawson seria o protagonista de tais argumentos a partir de uma filiação kantiana. Todavia, a utilização desse tipo de argumentos não é exclusiva de Strawson. Vários filósofos contemporâneos fizeram uso de tais argumentos em algum momento ou outro de suas obras. Podemos citar aqui Hilary Putnam, Ludwig Wittgenstein, Sydney Shoemaker, Jürgen Habermas, Donald Davidson, Norman Malcolm, Richard Rorty, entre outros.

Embora os argumentos transcendentais remontem a Crítica da Razão

Pura, Kant jamais empregou a expressão “argumento transcendental” nessa

obra ou em outra qualquer. Foi Strawson quem consagrou essa expressão na história da filosofia. Segundo Ralph Walker (1999, p.223), Strawson “foi o principal expoente” desses argumentos. Entretanto, Strawson não foi o primeiro a utilizá-los. Já em 1939, Austin (1939) no artigo “Are there A priori Concepts?” teria utilizado um argumento transcendental para provar a existência de universais. Um pouco mais tarde, em 1951, Charlie D. Broad publicou o livro Kant: An Introduction, no qual menciona a expressão “argumento transcendental”, afirmando que Kant a introduziu na filosofia, mas que ele não discute explicitamente essa expressão (BROAD, 1978, p.13). Mas afinal, o que é um argumento transcendental?

Um argumento transcendental pode ser definido como um argumento que trata de “justificar suas conclusões apresentando-as como condições necessárias para a experiência, o conhecimento ou a linguagem” (WALKER, 1999, p.225). A Crítica da Razão Pura de Kant está repleta desse tipo de argumento: por exemplo, “sem espaço e tempo não podemos conceber objetos”, “sem permanência não podemos falar em mudança”, “sem experiência externa não teríamos experiência interna”, e os exemplos poderiam se multiplicar (KANT, 1980a; CABRERA, 1999). Assim, um argumento transcendental é concebido como uma busca das condições de possibilidade, e ele é estruturado em dois passos: num primeiro momento afirmamos que algo é o caso (K), para num segundo momento, demonstrarmos que se não se der certa condição (Y), (K) não seria possível. Walker (1999, p.240) apresenta a seguinte forma geral de um argumento transcendental:

“Há experiência (ou conhecimento ou linguagem) (de certo tipo K) P é uma condição necessária da experiência (etc.)

Portanto, P”.

Toda a polêmica em torno dos argumentos transcendentais ocorreu quando Stroud afirmou que esses argumentos não eram bons o suficiente

para derrotar o cético. Mas, são esses argumentos realmente apenas uma arma contra o cético, como sugere Stroud? Na Crítica da Razão Pura os argumentos transcendentais são abundantes e não necessariamente em todas as situações são alocados por Kant como argumentos anticéticos (AQUILA, 1999). Um bom exemplo disso é a utilização de um argumento transcendental na “Estética transcendental”, na qual não há uma polêmica com o ceticismo. O argumento transcendental presente na “Estética transcendental”, segundo Glock (2003), visa mostrar que espaço e tempo enquanto intuições puras são pré-condições necessárias para termos conhecimento sintético a priori na matemática. No entanto, encontramos na “Refutação do idealismo” e na “Dedução”, argumentos transcendentais que estariam endereçados diretamente contra o ceticismo (WALKER, 1999; AQUILA, 1999). O argumento da “Dedução” quer provar que sem a aplicação das categorias àquilo que nos aparece no âmbito espacio- temporal, a experiência de objetos não seria possível. Ou melhor, “as categorias se referem necessariamente e a priori a objetos da experiência, porque só mediante elas pode chegar a ser pensado um objeto qualquer da experiência” (KANT, 1980a, p.82; B 126). Alguns intérpretes de Kant pensam que esse argumento da “Dedução” é bem sucedido contra o ceticismo de tipo humeano, enquanto outros mantêm dúvida a respeito do êxito desse argumento (KÖRNER, 1999).

O argumento transcendental presente na “Refutação do idealismo”, por sua vez, quer mostrar que existem objetos fora da consciência baseado no fato de que ter consciência de meus estados subjetivos pressupõe como condição necessária ter consciência de objetos externos no espaço e no tempo. Segundo Kant, “a determinação de minha existência no tempo só é possível por meio da existência de coisas reais que percebo fora de mim [...] isto é, a consciência de minha própria existência é simultaneamente uma consciência imediata da existência de outras coisas fora de mim (KANT, 1980a, p.145-146; B 275-276). Esse argumento é bem sucedido contra o ceticismo acerca do mundo externo? Para Loparic (1988, p.76), “longe de afastar o ceticismo, o argumento só procede se assumirmos o idealismo transcendental e, portanto, todo o ceticismo nele embutido”. O

máximo que o argumento da “Refutação ao idealismo” faz é mostrar que não podemos “inferir a proposição de que o mundo externo existe sem mais nem menos, mas de concluir que a operação bem sucedida da percepção interna pressupõe a exequibilidade da operação da percepção externa” (LOPARIC, 1988, p.76). Aqui não vamos avaliar o poder de refutação que tem os argumentos transcendentais presentes na “Dedução” e na “Refutação do idealismo” e nem mesmo verificar se esses argumentos transcendentais presentes na primeira Crítica seriam alvejados pelas críticas de Stroud, dentre outras. O objetivo do presente texto consiste em analisar como, no interior da obra Individuals (1959), Strawson concebe os argumentos transcendentais a partir do projeto de uma metafísica descritiva e se, de fato, ele estaria empregando tais argumentos contra o ceticismo como sugerem os críticos, de modo especial Barry Stroud.