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Entre as pautas do dia a dia, o essencial conteúdo factual e as determinações que o mercado da comunicação impõe ao jornalismo diário, eis que surgiu, em uma segunda-feira de 2009, Fortaleza – Sentidos da cidade. A ideia de executar reportagens que explorassem os sentidos de Fortaleza foi de um repórter. Tiago Coutinho, então trabalhando no Núcleo de Cultura e Entretenimento, sugeriu à editora-assistente Regina Ribeiro que fosse feita uma pauta sobre os sentidos da cidade, simplesmente, como Regina afirma em entrevista:

A pauta era os sentidos da cidade. Era só isso: os sentidos da cidade. Não se tinha uma coisa detalhada, mas eu achei tão bacana e falei pra ele: “Tiago, eu vou dar uma destrinchada. Vou pensar alguma coisa sobre os sentidos da cidade e vou te apresentar pra tu veres como é que a gente trabalha”. E daí eu fiquei pensando como a gente podia fazer... (idem)

Instigada pela proposta, Regina pensou e materializou o que desejava com aquele projeto: “[a ideia] era transformar Fortaleza num grande palco em que o repórter tinha que sentir Fortaleza e tinha que convidar outras pessoas para sentir Fortaleza” (ibidem). A partir da observação dos textos de jornalistas que já trabalhavam na redação d’O Povo, a editora escolheu os cinco que escreveriam os cadernos: Raquel Chaves, Tiago Coutinho, Juliana Girão, Mariana Toniatti e Henrique Araújo. A ordem era sentir a cidade e escrever, sem preocupações com lead ou pirâmide invertida, afinal, como definir o mais importante entre as informações coletadas (e vividas) durante a apuração dos sentidos de uma cidade? O único requisito, como Regina destaca, era reportar o observado com liberdade:

Porque uma das coisas que todo jornalista quer é ter um pouco de liberdade de lidar com a questão da produção textual... A gente, como jornalista, que escreve no dia-a- dia, termina tendo um jeito de fazer as coisas, sabe? Até as palavras que a gente usa se repetem. Isso vira uma rotina – meio caótica, porque você não sabe sobre o que vai escrever, mas vira uma coisa rotineira mesmo. A primeira coisa que eu falava, e inclusive está na pauta, é: “Vamos experimentar com o texto também, vamos escrever uma coisa de um jeito que você nunca escreveu antes”. Esse era um dos primeiros quesitos dessa pauta: “Vamos olhar pra Fortaleza, convidar as outras pessoas para olharem pra Fortaleza de um jeito diferente” (ibidem).

O projeto circulou entre o dia 13 de abril de 2009, uma segunda-feira, e 17 de abril de 2009, uma sexta-feira, e foi feito no formato standard, como é a maioria dos demais cadernos d’O Povo. Cada caderno tem 12 páginas, sendo uma (a contracapa) um anúncio publicitário que indicava o assunto do dia seguinte. Nesse anúncio, aparecem os nomes das instituições e órgãos que patrocinam o projeto: Coelce, Câmara Municipal de Fortaleza, Prefeitura de Fortaleza e Governo do Estado do Ceará.

Os cadernos foram batizados a partir da temática tratada: o primeiro, sobre a visão, chama-se Olhares, o segundo (paladar) é Sabores, o terceiro (audição), Silêncio e ruído, o quarto (tato), Um toque e o quinto (olfato), Aromas da cidade. O assunto influenciou diretamente também na criação do projeto gráfico da publicação. Regina Ribeiro diz que pediu ao Núcleo de Arte do jornal que o layout fizesse o leitor exercitar o sentido explorado nas reportagens. “A ideia era surpreender o leitor” (RIBEIRO, Regina. Depoimento [out. 2010]. Entrevistador: Mariana Lazari da Silva e Silva. Fortaleza, 2010. Entrevista concedida para elaboração de monografia). É possível perceber, inclusive, que tudo nos cadernos remete ao sentido referenciado. As cores dialogam com as fotografias que são o pano de fundo dos textos. Tudo tem relação na construção de um jornalismo diferente.

As fotografias, aliás, são ponto importante desta pesquisa. Elas demonstram fortemente a ruptura que Fortaleza – Sentidos da cidade representa. Ao contrário do encontrado usualmente no jornal O Povo, onde as fotografias figuram afastadas do texto, complementando a informação textual e obedecendo a um padrão formado pelo fundo em papel jornal e o projeto gráfico da publicação, no projeto analisado as fotografias são o fundo, o cenário, e, por isso, também podem ser “sentidas” pelo leitor. Paisagens vazias são completadas com texto; palavras e frases surgem dentro de pratos com comida ou de telefones, interagem com personagens das fotografias, com texturas, com cores. Não são conteúdos separados, distantes. Tudo dialoga e compõe a escrita de um sentido.

Palavra e imagem se articulam num espaço gráfico composto com destaques de cor, preto e branco, relevo de blocos densos e áreas livres, dimensões físicas de tipos (de famílias tipográficas), ordenação hierárquica por áreas físicas de valor visual. Tudo isso que simplesmente se chama diagramação ou planejamento gráfico, compõe mais um ângulo de análise da linguagem jornalística (MEDINA, 1978, p.106).

A ideia que defendemos de que o projeto se caracteriza como uma leitura ora literária, ora jornalística da cidade, baseia-se, inclusive, no layout das páginas. Um jornalismo que rompe padrões é aquele que aproveita elementos gráficos na construção da informação. Não com ícones ou itens que façam referência a outra informação, mas com gravuras, ilustrações, fotografias e cores que são informação e contribuem para proporcionar uma inserção do leitor na narrativa. É isso o que observamos em Fortaleza – Sentidos da cidade.

Mesmo fazendo parte de uma publicação que executa coberturas especiais com certa regularidade, o especial foi recebido com estranhamento pela chefia d’O Povo. O projeto gráfico, segundo a editora Regina Ribeiro, foi o ponto mais surpreendente para os demais editores. As fotografias cobrindo toda a página foram criticadas. “Teve uma hora que eu fiquei irritadíssima com os comentários [feitos durante as reuniões diárias de avaliação do jornal, das quais participam os editores], que eu disse que a proposta sempre foi essa. Do ponto de vista externo, as pessoas elogiaram demais. Mas, internamente, causou um estranhamento muito grande”, diz Regina.

Tal estranhamento demonstra a surpresa que o jornalismo diferente provoca. Parece que todos estão acostumados ao que irão encontrar ao abrir o jornal. Como o cotidiano já foi compreendido e absorvido pelos leitores – e aí estão incluídos os jornalistas –, quando um projeto especial surge trazendo novidades, naturalmente, em um primeiro momento, todos se surpreendem. Chocam-se com a quebra de padrões e com o encontro de um conteúdo que seria visto mais facilmente em outro veículo, como as revistas. O que esse projeto mostra, entretanto, é que os limites entre os meios de comunicação não são absolutos. Cada vez mais as linguagens são híbridas e os conteúdos diversos, porque o receptor da mensagem quer informação ao abrir uma revista ou um jornal, ou ainda ao assistir a um telejornal. E o veículo precisa satisfazer essa vontade. É uma necessidade mercadológica. Assim, não é mais suficiente para um jornal dizer o que aconteceu no dia anterior. O crescente acesso às tecnologias da informação faz com que o público já saiba disso quando os impressos chegam

às ruas. O que interessa é o conteúdo. E isso exige dos meios uma reinvenção diária de formatos e linguagens, ou, acreditamos menos utópico, um aproveitamento de elementos narrativos nas pautas do cotidiano. É preciso contar histórias que provoquem identificação nos leitores, que cimentem os laços comunitários (cf. SODRÉ, 2009), como as narrativas conseguem fazer. Fortaleza – Sentidos da cidade mostra-se como esse diferencial, esse “ir além” com conteúdo a favor da informação de qualidade.

Porém, é importante destacar que o projeto em estudo é o extremo da ruptura com o jornalismo mecânico diário. Reconhecemos que tal ruptura não é executável diariamente. Como lembra Carlos Alberto Vicchiatti (2005), o jornal precisa informar sobre os acontecimentos cotidianos e é regido por “regras industriais de produção” (p.26). Não é possível deixar o factual de lado em prol de investigações jornalísticas. Elas podem existir como uma parte da redação, como acontece em O Povo. Porém, sabemos que essa prática não condiz com a base do jornal diário. O que defendemos aqui é que, se não é possível realizar diariamente profundas narrativas do cotidiano, como as feitas em Fortaleza – Sentidos da

cidade, que o projeto sirva de inspiração e que sejam aproveitados elementos dessa apuração

diferenciada e dessa escrita híbrida na construção dos escritos de todos os jornalistas. O maior trunfo do projeto em estudo é mostrar que a escrita de um jornalismo diferente depende simplesmente de se olhar para personagens e fatos cotidianos de outra forma. Essa é a base do hibridismo que faz surgir o jornalismo narrativo.