Antes de qualquer passo à frente, é preciso que reflitamos sobre o conceito de classe social no âmbito próprio das ciências humanas, para que nosso escopo teórico não comprometa, posteriormente, os procedimentos metodológicos da pesquisa.
Foram Marx e Engels que construíram uma concepção, ao mesmo tempo, estrutural e dinâmica do conceito de classe social. Este conceito é, antes de tudo, uma categoria histórica, ou seja, ao tratarmos de classe social estamos nos remetendo ao desenvolvimento da sociedade e as condições estruturais que definem suas estratificações. Por isso, Stavenhagen salienta que “a definição marxista de classe não se pauta sobre o tipo de ocupação, nem no nível de renda, nem no estilo de vida, que são critérios secundários de caracterização de uma classe social, mas a relação com os meios de produção” (1980, p. 288). Dito em outros termos, o lugar que um determinado agrupamento de homens e mulheres ocupa, em um sistema historicamente determinado de produção social, é função do modo pelo qual se obtém a parte da riqueza social. Com efeito, a partir deste critério de “corte”, foram elaboradoras, para a sociedade capitalista, as noções de classe proletária e classe burguesa como expressões antagônicas e conflitantes.
Por outro lado, esta definição de classe social e sua expressão polarizada entre proletariado e burguesia são contribuições do século XIX. Como o modo de produção capitalista sobreviveu a todos os revezes do século XX, impõe-se que
54 façamos, pelo menos, uma reconsideração de seu alcance teórico em determinar a totalidade social. Léfèbvre (2005) considera que, além dessas duas classes, também devem ser consideradas, com estatuto de classes sociais, os camponeses e as “classes médias”; definições à parte, o que ele está colocando no debate é que há outras classes entre os extremos, as quais realizam um papel ativo de mediação no conflito central da luta de classes.
Quando transladamos a problemática das classes sociais para o contexto brasileiro atual, é impossível não deixar de considerar um fato em relação à classe operária – ela convive com situações de emprego e desemprego de modo estrutural/conjuntural, salvo poucas exceções, isto lhe impõe a construção de uma mediação já bastante conhecida: a realização concomitante de ocupações diversas que incluem um amplo espectro de atividades, desde o “bico” até trabalhos formais (carteira assinada). Por isso, demos preferência, neste trabalho, em nomear a classe proletária de trabalhadora, porque, conseguiríamos abarcar mais amplamente tal situação descrita acima, sem tornar nulas as suas características.
Após esse pequeno détournement, vamos retornar ao que estávamos perseguindo – a definição dos tipos de práticas de reprodução social da classe trabalhadora. Nossa problemática foi construída de modo a indagar as condições de reprodução da classe trabalhadora do Pero Vaz, consequentemente, neste ponto a pesquisa transita do nível estrutural para o conjuntural.
Como identificar a prática social que relaciona o espaço e a necessidade? Como já dissemos a cidade exerce um papel fundamental na manutenção reprodutiva social, porque sua espacialidade é objeto de incessantes intervenções para adequá-la às estratégias de classe, advindas do nível mais global ou homogeneizante. Propriamente, ao nível na cidade, o espaço é fragmentado para a venda, além disso, é preciso dotá-lo de infraestruturas que vão ajudar a definir os níveis reprodutivos, de acordo com as equivalências de trocas possíveis, seja nas centralidades, seja nas periferias. Portanto, ao mesmo tempo em que ocorre a produção da cidade capitalista, também ocorre a definição de onde e como vão se reproduzir as classes
55 sociais. Este complexo movimento é conhecido como segregação socioespacial e age, diretamente, na prática que elegemos para ser analisada - a do habitar.
No caso da classe trabalhadora, tal necessidade é vivida dramaticamente, porque lhe faltam os meios ou condições materiais para competir no mercado de terras no qual a cidade capitalista se transformou. Daí as lutas por moradia, as ocupações de terras, as vitórias, mas também as derrotas...se o homem habita o mundo poeticamente, a poesia da classe trabalhadora é, sem dúvida, concreta. O que observamos, quando da pesquisa empírica, foi como a prática do habitar tem se realizado no bairro do Pero Vaz, não perdendo de vista que esta prática depende de diversas formas sociais, desde as formas espaciais propriamente ditas até as jurídicas. Interessou-nos a história dessa prática, registrada no espaço, na produção do bairro, em relação ao conjunto da cidade, e como ela tem reagido à forma predominante do capitalismo, a mercadoria, isto é, como a prática do habitar tem respondido, enquanto atividade, à estrutura capitalista.
Na teoria geral das necessidades, o trabalho é a mediação entre a necessidade e a fruição. Neste aspecto, Lefebvre observa que
a necessidade remete ao trabalho, que cria e permite a fruição do objeto produzido ou da obra criada; por sua vez, estimulado pela necessidade, o trabalho produz novas necessidades, confirmadas pela fruição; e, assim, sucessivamente, em um movimento perpétuo, que não tem nada de círculo viciosos, mas que avança, lentamente ou aos saltos, seguindo uma espiral ascendente. (2005, p. 28).
Então o trabalho é uma imediaticidade prática. Não obstante, onde buscá-lo enquanto prática de reprodução social? No urbano. Por quê? Porque entendemos que no urbano esta prática expressa a condição de reprodução social da classe trabalhadora, com suas contradições e mediações, uma vez que expõe o que o trabalho se tornou para esta classe. O trabalho talvez seja a prática urbana que sofreu a mais intensa ressignificação. Na realidade, desde o fim do século XVIII, sua natureza foi sendo moldada segundo as diretrizes da reprodução social burguesa. A estratégia é bem simples, mas eficiente, retirar o máximo de valor da mão-de-obra
56 por unidade de tempo trabalhada. A forma social elaborada para consolidar e dissimular esta permanência foi a contratual – se paga pelo trabalho comprado, mas sob a aparência desta forma, perde-se a visão da exploração porque o trabalho pago não corresponde ao valor produzido pelo tempo trabalhado, assim, as frustrações, a vergonha pelo aviltamento são situações inseparáveis, mas também as inventividades, os desvios, o achincalhar das condições de trabalho.
Em resumo, este foi o trajeto teórico delineado para a reflexão do objeto de pesquisa, no entanto, necessário se faz demonstrar com quais procedimentos o apreendemos empiricamente, por isso, a seguir apresentamos a metodologia deste trabalho.