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ELEMENTOS PARATEXTUAIS DA ANÁLISE

Apresentamos neste capítulo os elementos paratextuais, descrevendo-os e demonstrando a sua relevância para a obra literária em geral e, especificamente, para a obra traduzida.

3.1 Capa, sobrecapa e contracapa

A capa impressa, em papel ou papelão, é um fato recente, do século XIX. Na era clássica, os livros apresentavam-se em encadernação de couro e sem informações prévias, salvo a indicação resumida do título e, às vezes, do nome do autor, que configurava na lombada (GENETTE, 2009, p. 27).

Ainda de acordo com o autor, a capa nem sempre é a primeira manifestação do livro que é oferecida à percepção do leitor, fazendo-se uso, muitas vezes, de uma sobrecapa, sendo assim um suporte paratextual.

A função mais evidente da sobrecapa é chamar a atenção por meios mais espetaculares do que aqueles que não se pode ou não se quer permitir numa capa: ilustração chamativa, menção de uma adaptação cinematográfica ou televisiva, ou apenas uma apresentação gráfica mais agradável ou mais individualizada que as normas de uma capa de coleção não permitem (GENETTE, 2009, p. 31).

Vieira (1992), referindo-se à relevância da capa, afirma que ela é a porta de entrada do livro traduzido, ocupando uma posição estratégica e apresentando importantes elementos verbais, como o nome do autor e o título da obra, e também os elementos não verbais, tais como as ilustrações.

Silva (2000), citando Vieira (1992), ressalta que, dentre os elementos do paratexto, a capa ocupa posição estratégica inicial, sendo o elemento de maior exponibilidade do objeto livro, apresentando um importante elemento verbal: os títulos e os subtítulos. A sua importância decorre do fato de que eles, transportados para outra língua, apresentam alterações linguísticas que se refletem na cultura receptora.

A contracapa – parte de trás do livro – traz, geralmente, informações sobre o autor e a obra. Nela, podemos encontrar também elementos não verbais, como uma foto do autor ou mesmo imagens relacionadas à capa.

Muitas vezes, depois de observar a capa do livro, o leitor busca quase que imediatamente informações no seu verso. Dessa forma, a contracapa também exerce uma importante função para a obra.

Portanto, dentre os elementos paratextuais que compõem o peritexto, a capa, a sobrecapa e a contracapa demonstram exercer um papel fundamental na recepção de uma obra. Os elementos verbais e não verbais presentes nelas contribuem para a legibilidade e podem influenciar nas expectativas do leitor em relação ao livro, podendo direcionar a leitura de forma parcial e levar o leitor a fazer determinadas inferências que podem refletir na compreensão global do texto.

3.2 Orelhas

A orelha do livro é a continuação da capa e da contracapa. Ela também acompanha a sobrecapa. A orelha dos livros geralmente contém informações sobre o autor e a obra.

Sabe-se que existem livros que não apresentam orelhas, mas quando estão presentes, elas são partes integrantes da capa, e fazem parte dos primeiros contatos do leitor para com a obra. O seu conteúdo é relevante, visto que “os elementos introdutórios que estão presentes nelas são os primeiros a serem lidos, se se deseja saber quais são os pontos fundamentais focalizados pelo autor” (SALVADOR, 1986, p. 119).

A orelha é o espaço editorial do livro; assim, é nela que o editor, de posse da palavra, busca atrair o leitor. Vieira (1992) pontua que

(...) é nesses espaços que o editor da cultura receptora, na qualidade de primeiro a tomar a palavra, se dirige ao novo público receptor, criando, desta forma, os primeiros signos interpretantes, por ordem de exponibilidade, que direcionarão a futura leitura da obra (VIEIRA, 1992, p. 162).

Na orelha, os editores e tradutores utilizaram as personagens como objeto de seu discurso. Esse discurso é, geralmente, sucinto, prioriza a exposição de fatos e a transmissão de dados sobre o autor, seu contexto de recepção e seu lugar na literatura mundial, além de discorrer sobre a obra, sua repercussão, temática, estilo, etc. (VIEIRA, 1992, p. 163).

Em uma carta-ensaio intitulada “Sul Tradurre” de 1963, Calvino faz uma crítica ao conteúdo exposto nas orelhas do livro, quando declara que as editoras têm um poder excessivo em relação ao conteúdo.

Sob essa ótica, o escritor afirma que “o editor, com a orelha, tem um poder que me parece excessivo: o de colocar toda a discussão crítica; concorda-se ou discorda-se, mas não se sai daqueles temas, daquelas ideias”9 (CALVINO, 2002, p. 54, tradução nossa).

Essa “discussão crítica” pode levar, ainda, a apresentar os temas e os personagens de forma tal que antecipe o seu destino e revele partes da história. Além do acima exposto por Calvino, o “poder excessivo” das editoras pode se manifestar, em alguns casos, antecipando fatos que venham, eventualmente, a desmotivar a leitura.

3.3 Falsa folha de rosto, folha de rosto e verso da folha de rosto

Essas páginas são relevantes, pois nelas estão contidas informações sobre a obra, localização espacial e temporal, data da primeira publicação e número de edições.

O anterrosto ou falsa folha de rosto é a folha anterior à folha de rosto que aparece após as folhas de guarda10. É uma folha opcional que precede a folha de rosto e contém no anverso o título e o subtítulo da publicação, centralizados na página; e no seu verso aparecem informações relativas à série a que pertence o livro (FRANÇA; VASCONCELLOS, 2013, p. 18).

Como afirma Vieira (1992),

(...) no anterrosto ou falsa folha de rosto, geralmente, encontramos apenas o título do livro. O título, portanto, sendo o único elemento numa página, ele apresenta uma grande autoridade, porém, na tradução o seu código linguístico é alterado e essa “supremacia” é dividida com a tradução (VIEIRA, 1992, p. 151).

Sobre o título, aprofundaremos no capítulo seguinte, da análise e discussão dos dados.

A folha de rosto é um importante elemento paratextual, visto que é parte obrigatória do livro e contém os elementos essenciais de identificação da publicação, tais como nome do autor, título, edição, número de volumes e notas tipográficas. É na folha de rosto que o nome do autor está, mais uma vez, presente. Já no caso de obra

9“L’editore, con il ‘risvolto’ ha un potere che mi sembra eccessivo: quello d’impostare tutta la discussione critica, si concorda o si contrasta, ma non si esce da quei temi, da quelle idee.” 10

Conforme o Manual para normalização de publicações técnico-científicas, folhas de guarda são “folhas inseridas no ‘início e no fim do livro para fixar o miolo às capas feitas de material rígido (encadernados) e não devem trazer nenhuma informação impressa”. (FRANÇA; VASCONCELLOS, 2013, p. 17).

traduzida, espera-se encontrar o nome do tradutor. Segundo Vieira (1992, p. 151), “a presença ou ausência do nome do tradutor nessa página constitui evidência do status do tradutor na cultura receptora e relativamente ao autor originário”.

No verso da folha de rosto aparecem os direitos autorais ou editoriais (copyright), informações sobre autorização de reprodução do livro ou parte dele, título original da obra, no caso de tradução, número e data da edição da qual se fez a tradução, data de edições anteriores ou de copyright da obra original. Também registro de informações sobre outros suportes em que a publicação possa estar disponível e a ficha catalográfica e créditos (nome e endereço da editora/editor, incluindo correio eletrônico e home page).

O verso da folha de rosto é, talvez, o paratexto mais significativo na tradução, pois é nele que é representada a cultura do país de origem, a localização temporal e espacial da obra, os direitos da tradução e informações contidas na ficha catalográfica. Apresenta também o título original e o título traduzido, justapondo dois títulos, sendo esse um fator relevante, pois como afirma Vieira, “contrapõe dois campos” e, dessa forma, traz informações sobre a obra original e a obra traduzida, marcando a passagem de um código linguístico a outro.

O verso da folha de rosto concretiza o entre-lugar do paratexto das traduções, situado no limiar entre a cultura originária e a cultura receptora, entre-lugar esse que permitirá também, novamente, a concretização do sentido etimológico de traducere, “transpor”, “transportar” (VIEIRA, 1992, p. 153).

É, sem dúvida, um paratexto importante na obra traduzida, pois é o momento em que o tradutor assume visibilidade concretamente.

Ainda nessas páginas pré-textuais podemos encontrar, dentre outros, dedicatória, agradecimentos e epígrafe11.

3.4 Notas de pé de página

As notas de pé de página ou notas de rodapé são informações que estão separadas do texto, e quando aparecem costumam estar no final da página, mas, às vezes, são colocadas no final do livro.

11

Dedicatória, agradecimentos e epígrafe são elementos opcionais, ficando a critério do autor a sua inclusão. Caso ocorram, devem aparecer separadamente, em páginas ímpares (FRANÇA & VASCONCELLOS, 2013, p. 20).

Como afirmam França e Vasconcellos (2013, p. 150), “as notas de rodapé destinam-se a prestar esclarecimentos ou a tecer considerações, que não devam ser incluídas no texto, para não interromper a sequência lógica da leitura”. A partir dessa definição, e transportando-a para a obra traduzida, percebemos que, no caso da tradução, as notas de pé de página visam a esclarecer sentidos que a língua alvo não consegue transmitir, sobretudo quando se trata de elementos extralinguísticos, que fazem parte de outra vivência cultural.

As notas de rodapé no texto traduzido dão visibilidade ao tradutor, visto que é naquele espaço que aparece, explícita, a voz do tradutor. Por outro lado, no conto “Notas ao pé da página”, Moacyr Scliar, seu autor, coloca o tradutor como criador do texto. No lugar do texto aparece um espaço vazio, estando todo o conteúdo do conto no pé de página. A respeito desse conto, a tradutora Arrojo (2004) comenta que

(...) embora o narrador de Scliar represente a única voz autoral do conto, ou seja, embora o que lemos seja exclusivamente o texto do tradutor, este escreve dentro dos limites do único espaço textual que em geral se destina aos tradutores: o rodapé da página (ARROJO, 2004, p. 29).

No caso de textos traduzidos, o leitor é diferente do leitor “modelo” imaginado pelo autor da obra escrita na língua de partida. Cabe então ao tradutor determinar em que parte do texto traduzido o leitor poderia se defrontar com problemas de legibilidade, por não possuir todo o conhecimento prévio necessário para a sua compreensão. Nesses casos, é necessário que o tradutor preencha as lacunas do leitor por meio de notas de pé de página. É, portanto, o espaço paratextual mais relevante no que diz respeito ao tradutor.

Antes de passarmos às análises, é importante ressaltar que, privilegiando os elementos paratextuais na obra traduzida, não estamos contestando a relevância das análises do texto traduzido. A análise do paratexto é um ponto de partida, que busca demonstrar que os elementos paratextuais exercem um papel facilitador para o leitor na medida em que eles apresentam e contextualizam a obra na cultura receptora.