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Ao narrar o subúrbio, Trevisan excede o espaço referencial da cidade conservado na memória. Embora o passado seja descrito, percebe-se a expansão do limite que é um lugar deslocado de outros centros urbanos. No conto “Em busca de Curitiba perdida”, a realidade violenta se inscreve no lugar que se perde na amplitude, sem a exclusão dos ares saudosos:

Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça — galiii-nha-óóó-vos — é bem a protofonia do Guarani. [...] das meninas de subúrbio pálidas, pálidas que trabalham no balcão, [...] Curitiba das ruas de barro com as mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoço; da zona da Estação em que à noite um povo ergue a pedra do túmulo, bebe amor nos prostíbulos e se envenena com dor de cotovelo; [...] Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a de Romário Martins em que um índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a minha, que viajo. Eu sou da outra, do relógio na praça Osório que marca o dia inteiro seis horas em ponto; [...] Curitiba sem pinheiros ou céu azul pelo que vosmecê é — província, cárcere, lar — esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo (TREVISAN, 1968, 141-143).

O subúrbio se compara a um centro moderno, ou o supera. Lá, a violência rege as condições de vida dos habitantes e expande o signo provinciano como o “circo de horrores” da realidade cruel (ou “suficiente”, de acordo com a denominação dada por Rosset). E isso é tudo com que se deve contar. Por isso que os narradores desse espaço moderno se prendem a lembranças saudosas, a fim de tentarem restaurar pelo menos algum resquício de felicidade.

Na narrativa de Trevisan, o subúrbio e a metrópole são conservados na memória. Mas ambos fogem das referências espaciais, porque representam a violência sem limites, e não inspiram o bem-estar. O estranhamento é a manifestação inerente ao espaço suburbano predominante, porque quanto mais próxima e familiar é a convivência na intimidade, menos os personagens se entendem e compartilham o que conquistam. Isso pode ser comparado com o que Rosset denomina de lugar da “realidade suficiente”.

No espaço suburbano, o bem se afasta, e o mundo se reflete desorganizado. Quando há buscas, são temporárias e visam à satisfação imediata. O futuro não constitui o projeto dos personagens, pois não há futuro. E o presente está em guerra. O imediatismo é instaurado nas relações interpessoais, que se constroem à revelia do destino. A plenitude da vida se restringe especificamente à conquista do prazer, seja pela dissimulação, seja pela violência de fato.

A narrativa de Trevisan se interessa pelos fragmentos da vida, mas não prevê o esclarecimento das complexidades. Por isso, impõe um estado de insatisfação e de tensão constantes no subúrbio, onde a realidade frustra qualquer expectativa.

Por outro lado, a Curitiba moderna, cidade entregue à sujeira do mundo, somente pode ser habitada se a ironia aproximá-la do que realmente ela é. Assim se constata no conto “Curitiba revisitada”:

a melhor de todas as cidades possíveis

nenhum motorista pô respeita o sinal vermelho

Curitiba européia do primeiro mundo

cinqüenta buracos por pessoa em toda calçada

Curitiba alegre do povo feliz

essa é a cidade irreal da propaganda ninguém não viu não sabe onde fica falso produto de marketing político ópera bufa de nuvem fraude e arame cidade alegríssima de mentirinha

povo felicíssimo sem rosto sem direito sem pão dessa Curitiba não me ufano

não Curitiba não é uma festa

os dias da ira nas ruas vêm aí (TREVISAN, 1997b, 108-109).

Observadas geograficamente as Curitibas antiga e moderna, tem-se a noção da crueldade que o lugar impõe: o subúrbio representa a conjunção dos tempos, e é nesse anacronismo que o espaço também perde suas referências.

O passado e o presente, representados pelas duas cidades, são o encontro de dois tempos esculpidos no “rosto duplo e contrário” de Jano, cuja combinação de duas magias (a branca e a negra) constitui a ambiguidade desesperadora entre o amor e a crueldade (ROSSET, 1989a). As impressões sobre amplitude e limite, no subúrbio, se invertem e perdem suas dimensões.

O narrador, ao revisitar a cidade, vê a violência banalizada pela rotina e a crueldade que a modernidade esconde, mas sempre prestes a emergir: “cidade alegríssima de mentirinha / povo felicíssimo sem rosto sem direito sem pão”.

O excerto do conto “Curitiba revisitada” mostra o desrespeito no trânsito, os buracos das ruas, as poluições sonora e visual, a guerra do capitalismo, a infelicidade humana ao lado da fome e da injustiça social. Enfim, o caos urbano que se soma à distância e a incomunicabilidade entre os indivíduos revela a perda da natureza a qual a memória do passado tenta resgatar, como as passagens seguintes demonstram: “nenhum motorista pô respeita o sinal vermelho”, “cinqüenta buracos por pessoa em toda calçada” e “essa é a cidade irreal da propaganda” (TREVISAN, 1997b, 108).

Rosset observa dois aspectos da violência estabelecida pela realidade. Primeiro, a realidade por si mesma; em seguida, a consciência desse estado completa a dupla crueldade do “real”. O mundo se forma para fins violentos, e o caos é a tragédia que o compõe. O excesso do real começa no limite que separa uma possível natureza pacífica do caos:

Quero dizer que se pode, bastante ordinariamente, e mesmo, em certa medida, bastante razoavelmente, julgar que a realidade é cruel por natureza, mas também, e por uma espécie de último refinamento de crueldade, verdadeiramente real (ROSSET, 1989b, 17).

É bem nesse sentido que a descrição da cidade, em “Curitiba revisitada”, mistura algumas possibilidades de conviver na cidade (ou apenas vislumbres dessas) com o seu espaço suficiente e cruel: “a melhor de todas as cidades possíveis” versus nenhum motorista pô respeita o sinal vermelho”; “Curitiba européia do primeiro mundo” versus “cinqüenta buracos por pessoa em toda calçada”; “Curitiba alegre do povo feliz” versus “essa é a cidade irreal da propaganda” (TREVISAN, 1997b, 108-109).

O narrador detecta o excesso da violência por intermédio de negações e afirmações irônicas que confirmam o caos urbano. Sentir-se nesse labirinto é a convivência dolorosa e interminável.

A dupla crueldade do real, segundo Rosset, evidencia na repetição o aspecto inelutável da realidade. A repetição atinge o desespero, na medida em que ela excede o familiar, desgastando-o e transformando em monstruoso. Cada gesto reiterado consiste na ilusão de restabelecer a ordem ou um controle que conforte a perda de referências apaziguadoras:

Assim também talvez todo homem, quando se preocupa em dar conta de seu desejo ou de sua repulsa: o acréscimo de um comentário supérfluo, tido como explicação de um fato do qual é apenas a expressão reduplicada e tautológica, que acompanha habitualmente toda manifestação de amor ou de aversão (ROSSET, 1989b, 19).

Uma nova Curitiba é explorada no livro Macho não ganha flor. Agora, ainda mais desprendida do passado. Nas vezes em que as reminiscências vêm à tona, não pretendem salvar ninguém definitivamente. Corroboram, apenas, as inúmeras “aberrações” geradas no laboratório da violência que define o espaço suburbano e suficiente. Os diversos narradores dos contos mostram o apocalipse anunciado na apresentação desse livro.