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Tomando por base a abordagem Multinível, o passo inicial foi mapear os Grupos Sociais Relevantes em atuação na dinâmica de adoção de MVNO. Por se tratar de um estudo cuja unidade de análise é a Cadeia de Valor de TM, o foco foi intencionalmente direcionado para o lado da oferta. Apenas este motivo já justificaria a exclusão do lado da demanda no presente estudo, mas há também a dificuldade relativa à coleta de dados: dado o ínfimo número de usuários de MVNO no Brasil, haveria a necessidade de explorar a potencial migração de usuários das Operadoras atuais de TM, e neste caso a dificuldade é oposta; com uma penetração do serviço superior a 100% da população brasileira, haveria necessidade de condução de pesquisa com rigor nas técnicas quantitativas, especialmente de amostragem, o que não se justifica para os objetivos do trabalho.

A solução foi realmente considerar todos os GSR do lado da oferta, e verificar a necessidade de agregar perspectivas representativas da demanda. Assim, os GSR considerados a priori eram:  Operadoras;  Candidatos a MVNO;  Regulador;  Fabricantes de Aparelhos;  Analistas de Mercado;

 Órgãos de Defesa do Consumidor.

Para cada um desses grupos, houve a pesquisa sobre sua atuação diante do tema, de modo a perceber a potencial relevância de sua contribuição. Os GSR Analistas de Mercado e Órgãos de Defesa do Consumidor, cuja inclusão se deu por potencialmente representarem interesses dos usuários, foram avaliados quanto ao volume de discussões e influência sobre o tema. Verificamos manifestações descritas nos anais da CP 50, mas após sua publicação, pouco de discussão residual se manteve.

Alguns exemplos que corroboram esta afirmação: o site Teleco, especializado em Telecomunicações, não recebe novos artigos com opiniões sobre o tema desde Fevereiro de 2010, e atualiza seu conteúdo apenas com informações sobre a adoção de MVNO no País (novas licenças ou alteração no número de terminais) (TELECO, 2010). Já o blog de Ethevaldo Siqueira, um dos mais renomados jornalistas que cobre o setor de TIC, contabiliza dez posts sobre o tema, todos de 2010 e 2011 (SIQUEIRA, 2010). Entre os Órgãos de Defesa do Consumidor, o Proteste apresenta apenas um artigo relacionado ao tema, datado de Janeiro de 2011 (PROTESTE, 2011), e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), nenhum artigo ou notícia sobre MVNO (IDEC, 2013).

Dado que, à parte dos atores diretamente envolvidos no fenômeno, pouco havia de manifestação dos demais grupos, o estreitamento do trabalho em torno da Cadeia de Valor foi definitivo. E mesmo seguindo esse estreitamento no escopo, ainda restava um GSR com baixa atividade no que tange a MVNO: os Fabricantes de Aparelhos Celulares. Com a ausência de notícias na imprensa relacionando esse setor com o fenômeno de MVNO, parecia prematuro abordar o tema, que deve impactar tal indústria, mas apenas no momento em que a escala das MVNO atingir maiores proporções.

Com relação ao GSR das Operadoras, crítico para o estudo, uma perspectiva se abriu na medida em que os Quadros Interpretativos eram formados: dado o nível de atividade reportada pela imprensa sobre uma parcela desses atores e a aparente apatia de outra parcela, ficava patente a existência de expectativas e interesses diversos dentro do mesmo grupo. Assim, o projeto vivenciou fenômeno semelhante ao descrito por Delgado e Pozzebon (2010), onde ao utilizar a Abordagem Multinível, houve necessidade de identificar subgrupos dentro do mesmo Grupo Social Relevante, dada a diversidade de interesses ou capacidades encontrada pelos autores.

A solução foi caracterizar os subgrupos de maneira a diferenciá-los: Operadoras first-movers, e Operadoras followers. A nomenclatura utilizada denota uma avaliação de momento, pois tendo sido publicada a regulação do setor, apresentou-se com clareza tal distinção; nada impede que ao longo do tempo, esses comportamentos se alterem, mas é incontestável que passados vinte e sete meses de existência do marco regulatório, esta era a fotografia do setor:

 Operadoras first-movers: notadamente a TIM, e em grau ainda desconhecido de desenvolvimento, a Vivo. Ambas já apresentaram publicamente suas estratégias para o negócio e estruturas organizacionais específicas para atender a Candidatos a MVNO;  Operadoras followers: Claro e Oi. Nenhum desenvolvimento, ou estratégia definida na

direção de MVNO.

Situação similar foi vivenciada ao avaliar os Candidatos a MVNO. Ainda que fosse esperado encontrar empresas de perfil diverso, considerando os exemplos internacionais com essa diversidade, uma interessante divisão entre os interesses primários das empresas ao buscar MVNOs foi descoberto: enquanto a maior parte dos Candidatos a MVNO declaravam encontrar no modelo uma forma de complementar os negócios já existentes em suas empresas, de outro lado havia a análise de atores focados na geração de valor do negócio de TM em si.

Assim, como forma de enriquecer o entendimento do Processo vivenciado pelos GSR e facilitar análise futura do histórico de adoção de MVNO, essas perspectivas foram separadas, originando dois GSRs:

 Candidatos a MVNO como Negócio Complementar. Aqui, se encaixam a Conecta e uma série de empresas dos ramos de varejo e serviços financeiros que declararam interesse no modelo;

 Candidatos a MVNO Centrados em Telecom. Aqui a Virgin Mobile é o caso de destaque, mas há também Tesa Telecom e Datora Mobile, focadas em segmentos corporativos.

No decorrer das análises, no entanto, outro Grupo Social Relevante foi se tornando cada vez mais necessário para o entendimento do panorama, as MVNEs. Dada a necessidade de se incorporar aos Candidatos a MVNO, conhecimentos e competências específicos da indústria de telecomunicações, as MVNEs demonstraram ter um papel fundamental na condução do processo, e em função dessas capacitações críticas, podem fazer a diferença entre uma implantação bem ou mal sucedida de um caso de MVNO. Desta forma, este GSR foi incorporado à pesquisa, e contribuiu de maneira decisiva para consolidar o eixo de análise para a questão da Cadeia de Valor.

Compreendidos os participantes da coleta de dados, foram contatados representantes de cada um dos GSR. Por se tratar da experiência mais avançada até o presente momento, o cluster responsável pela formação da Conecta ganhou prioridade: TIM, Datora, e Porto Seguro; Operadora first-mover, MVNE, e Candidato a MVNO como Negócio Complementar, respectivamente. Houve facilidade no contato e no agendamento com representantes das três empresas, para entrevistas presenciais.

Para responder a questões representando o Regulador, foi dada preferência para quem estivesse diretamente envolvido na questão de MVNO. Mais uma vez, o acesso ao membro do Conselho Diretor que relatou o processo da Res. 550 não foi difícil de obter, nem houve entraves para o agendamento.

Como Candidato a MVNO Centrado em Telecom, a escolha da entrevista com a Virgin Mobile foi uma busca de aliar a discussão sobre seus planos no Brasil, com uma discussão comparativa com outras regiões onde a companhia atua.

Para compor o panorama de mercado, havia necessidade de incluir uma Operadora follower. Esta tarefa envolveu maior esforço, dado que pouco havia de informação sobre o envolvimento dessas operadoras. Após buscas na rede social LinkedIn, foi encontrado perfil de um profissional que incluía entre suas responsabilidades a análise de negócios MVNO dentro da Oi. Depois de contatado, o processo de agendamento e realização da entrevista ocorreu sem maiores dificuldades.

Foram ainda realizadas tentativas de incluir a Vivo como uma segunda voz dentro do GSR Operadoras first-mover, e embora os contatos não tenham sido difíceis de obter, não foi possível realizar a entrevista, dado o conflito de agenda para o levantamento.

Para todas essas fontes primárias, foi aplicado um questionário semiestruturado distinto. Nele, o objetivo era de detalhar os Quadros Interpretativos de cada GSR, compreender as etapas de negociação vivenciadas até aquele momento, e observar se já havia alguma manifestação da tecnologia em prática, ou seja, os primeiros Conteúdos do processo de adoção de MVNO, para depois confrontar tal dinâmica com as principais questões substantivas e conceituais depreendidas da revisão da literatura.

Como forma de capturar manifestações anteriores dos atores de mercado e auxiliar na elaboração dos questionários, foi conduzida uma análise da CP 50, realizada pela Anatel e que forneceu à Agência Reguladora os insumos para a versão final da Res. 550. Foram avaliados os participantes que opinaram durante esse processo, os pontos objetivos discutidos, e sua argumentação, e ao final, onde havia relevância, esses insumos foram incorporados ao questionário sob a forma de confirmação das posições daquele GSR.

Quanto aos aspectos substantivos, estes foram de especial relevância ao questionar o Regulador, para o qual foram levadas comparações com outros regulamentos e níveis de adoção ao redor do mundo. Já os aspectos conceituais estiveram presentes em todos os questionários, em especial as questões referentes à Cadeia de Valor, sempre com o pano de fundo da Abordagem Multinível, ou seja, levando em conta o Contexto de cada GSR e o Processo sob análise.

As questões eram abertas, baseadas em um roteiro semiestruturado, mas não restritas a ele. Dado o estágio incipiente de adoção, muitas questões foram formuladas de modo a obter como resposta as expectativas futuras dos entrevistados acerca de determinados temas.

A característica exploratória de tais entrevistas permitiu o aprofundamento de certos temas. Em alguns casos, e apenas após um primeiro contato pessoal, houve necessidade de elaborar novas questões suscitadas a posteriori, ou algum tema relevante noticiado pela imprensa. Nesses casos, as informações foram trocadas por e-mail.

Desta forma, o levantamento contou com as seguintes fontes primárias, representados no quadro 3:

Quadro 3: Entrevistados classificados por GSR, e informações sobre as entrevistas

Fonte: autor, a partir das entrevistas realizadas.

Todas as entrevistas foram gravadas em áudio digital, tiveram duração entre 20 e 70 minutos, conforme a disponibilidade de tempo de cada entrevistado, e suas transcrições integram este trabalho como Anexo C. A opção por reuniões presenciais se deu para buscar, além da observação objetiva, elementos subjetivos como os artefatos de cada realidade. Embora as vantagens dessa opção não tenham sido totalmente capturadas, dado que o limitado tempo de interação não permitia que a atenção fosse direcionada a tais elementos, uma consequência positiva pode ser creditada às entrevistas pessoais: o alto grau de concentração e dedicação dos entrevistados, observado em todos os casos.

Após a realização das entrevistas, houve a codificação em torno dos principais temas, seguindo a Abordagem Multinível: o Contexto de cada ator, seus relatos sobre os Processos em que se inseriam, interagindo com os demais GSR, e apenas após essa etapa, é que foram avaliados os possíveis Conteúdos resultantes da dinâmica e sua relação com a Abordagem Substantiva e Conceitual. Esta compilação de dados integra esta Dissertação como Anexo F.

É importante ressalvar que, mesmo considerando o universo restrito de GSR envolvidos, os resultados da pesquisa foram limitados pelo pequeno número de entrevistados. Com mais respondentes de cada GSR, seria possível atingir o grau de saturação mencionado por Jansen (2010), estágio em que a amostra apresenta repetição de padrões, um sinal de exaustão da diversidade de posições buscadas. Ao contrário, restaram lacunas ao estudo, tais como o entendimento preciso do posicionamento da Vivo sobre o tema MVNO, a extensão do

Grupo Social Relevante Organi- zação

Entrevistado Local Data

Operadora first-mover TIM Diretor de Parcerias e Estratégias de Atacado

Escritório empresa - Rio de Janeiro

25/01/2012 Operadora follower Oi Executivo de Contas - São

Paulo

Escritório Comercial empresa - São Paulo 17/04/2012 Candidato a MVNO Centrado em Telecom Virgin Mobile VP de Desenvolvimento de Negócios

Congresso "MVNO Industry Summit " - Dallas, EUA

15/11/2012 Candidato a MVNO como

Negócio Complementar

Conecta Gerente-Geral Escritório empresa - São Paulo 24/04/2012 MVNE Datora Diretor de Novos Negócios Café próx Escritório empresa -

São Paulo

30/06/2011

Regulador Anatel Conselheira - Conselho

Diretor

fenômeno de apropriação da regulamentação de MVNO para desenvolvimento de operações M2M, ou ainda o entendimento das estratégias de outras MVNEs.