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O gênero carta é um dos mais antigos em nossa sociedade e possui uma estrutura fácil de ser identificada pelos usuários da língua. Alunos, pais de alunos, enfim, toda a comunidade escolar já teve contato com esse gênero textual ou tem conhecimento a respeito deste. Sabe-se que a carta permite um diálogo não imediatizado entre os indivíduos, uma vez que há distância de espaço e de tempo entre o escritor e o destinatário.

Em nossas práticas sociais, a carta pode atender a objetivos diversos. Através dela, podemos nos comunicar com pessoas próximas a nós (familiares, amigos, companheiros) ou mais distantes de nós (empresas, autoridades) e não nos referimos apenas à distância, e sim ao grau de intimidade. Por isso, podemos afirmar que há vários tipos de cartas, que podemos perceber ao nosso redor, como a carta pessoal, a carta de solicitação, a carta de reclamação e a carta do leitor, para ilustrar alguns exemplos.

Desse modo, as várias possibilidades de uso das cartas remetem a distintos campos de atividades: a propaganda, os negócios, a correspondência pessoal. Essas categorias demonstram o papel que a carta representa na interação social. Nessa perspectiva, podem ser analisados como subgêneros do gênero carta (MELO, 2009).

Em seu estudo sobre o gênero, Melo (2009, p. 63), que também trabalhou com a carta de reclamação em sua pesquisa, também destaca que:

[...] a carta, com sua comunicação direta entre dois indivíduos dentro de uma relação específica em circunstâncias específicas, pode ser um meio flexível no qual muitas das funções, relações e práticas institucionais podem se desenvolver. [...] a própria natureza do funcionamento sociocomunicativo da carta – uma comunicação direta entre duas partes (remetente e destinatário); a confiabilidade conferida ao documento; a possibilidade da interlocução (da troca); a construção de relacionamentos (sociais) específicos em circunstâncias específicas – parece ter criado condições para a emergência de novas práticas comunicativas ou, dito de outro modo, de novos usos sociais da escrita para responderem às necessidades comunicativas demandadas.

Considerando que a situação comunicativa a ser realizada em nossa pesquisa visa o registro de uma reivindicação dos alunos acerca de um problema enfrentado na escola,

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optamos pelo gênero carta de reclamação. A escolha também foi motivada pelo fato de que: i) a argumentação possui um papel fundamental na formação dos indivíduos em uma

sociedade letrada;

ii) a carta de reclamação é um gênero essencialmente argumentativo, que se identifica com a realidade dos alunos, já que enfrentam diversos problemas coletivos e individuais em seu cotidiano, os quais podem vir a ser solucionados com o uso devido e produtivo do gênero;

iii) os textos argumentativos possuem maior relevância e são os mais cobrados em avaliações diagnósticas e de acesso ao nível superior, tais como ENEM, vestibulares, seleções e concursos.

Acreditamos que, ao praticar a produção de textos pertencentes a esse gênero, os alunos poderão, além de dominá-lo, utilizar os conhecimentos adquiridos em sua realidade dentro e fora da escola. Assim, podemos exercitar os aspectos constitutivos desse tipo de texto, as principais dificuldades dos alunos ao redigir e também a argumentação.

Para Marcuschi (2008, p. 219), “a questão do agrupamento dos gêneros é importante, pois diz respeito à seleção dos gêneros a serem tratados na sequência didática”.

Em vista disso, para a escolha do gênero, evidenciamos os agrupamentos de gêneros constituídos por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004), que defendem a ideia de que cada gênero apresenta características distintas em sua produção e necessita de um plano de ensino adaptado, tendo em vista o desenvolvimento da expressão oral e escrita dos aprendizes. Por exemplo, um aluno que domina o processo de escrita de um texto narrativo, não necessariamente dominará o texto explicativo.

Para os autores supracitados, os gêneros podem ser agrupados de acordo com algumas regularidades linguísticas e seus domínios essenciais de comunicação na sociedade. Assim, dividem os gêneros em cinco capacidades de linguagem dominantes: narrar, relatar, argumentar, expor e descrever ações. Contudo, ressaltam que um gênero não pode ser classificado de maneira absoluta em um agrupamento, mas pode ser protótipo de um, já que essa organização facilita o trabalho didático.

Vejamos, no quadro a seguir, o agrupamento dos gêneros proposto pelos autores, com destaque – tendo em vista nossa pesquisa – para a capacidade do argumentar:

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Quadro 3 – Aspectos tipológicos

DOMÍNIOS SOCIAIS DE

COMUNICAÇÃO CAPACIDADES DE LINGUAGEM DOMINANTES EXEMPLOS DE GÊNEROS ORAIS E ESCRITOS Cultura literária ficcional NARRAR

Mimeses da ação através da criação de intriga

Conto maravilhoso Fábula

Lenda

Narrativa de aventura Narrativa de ficção científica Narrativa de enigma Novela fantástica Conto parodiado Documentação e memorização de ações humanas RELATAR

Representação pelo discurso de experiências vividas, situadas no tempo

Relato de experiência vivida Relato de viagem Testemunho Curriculum vitae Notícia Reportagem Crônica esportiva Ensaio biográfico Discussão de problemas sociais controversos ARGUMENTAR Sustentação, refutação e

negociação de tomadas de posição.

Texto de opinião Diálogo argumentativo Carta do leitor Carta de reclamação Deliberação informal Debate regrado

Discurso de defesa (adv.) Discurso de acusação (adv.) Transmissão e construção de

saberes EXPOR Apresentação textual de diferentes formas dos saberes

Seminário Conferência

Artigo ou verbete de enciclopédia Entrevista de especialista

Tomada de notas

Resumo de textos “expositivos” ou explicativos

Relatório científico

Relato de experiência científica Instruções e prescrições DESCREVER AÇÕES

Regulação mútua de comportamentos Instruções de montagem Receita Regulamento

Regras de jogo Instruções de uso Instruções Fonte: DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 102. Grifo nosso.

Em virtude de interesse restrito da pesquisa, na qual trabalhamos com a carta de reclamação, focalizamos o agrupamento argumentativo.

Quanto à estrutura da carta de reclamação, exemplo de gênero da ordem do argumentar, por se aproximar do nosso contexto de pesquisa em sala de aula do Ensino

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Fundamental, destacamos o modelo proposto por Melo (2009): 1- abertura do evento: cabeçalho, vocativo e saudação;

2- corpo da carta: constatação inicial, argumentação + problematização, resolução e/ou reivindicação e conclusão-avaliação.

3- encerramento do contato: pré-encerramento, despedida e assinatura.

O modelo mostra-se acessível para que os aprendizes consigam expressar sua reclamação e seus argumentos de maneira clara e objetiva, através de um texto escrito. Não pretendemos apenas exigir que os alunos redijam seus textos cumprindo um formato com rigor, como se fosse uma “fórmula”, mas facilitar a compreensão dos aspectos constitutivos do gênero a ser estudado e produzido por eles.

Por isso, adotamos um modelo de análise semelhante, mais conciso e adequado à nossa proposta de produção, fazendo adaptações que consideramos necessárias para uma melhor compreensão dos alunos de 9º ano da rede pública de Fortaleza, que empregamos ao aplicar os módulos e avaliar os textos dos alunos:

1- abertura do evento: cabeçalho, vocativo e saudação;

2- corpo da carta: constatação do problema + reclamação, argumentação, reivindicação e conclusão.

3- encerramento do contato: despedida e assinatura.

Essa estrutura composicional do gênero e outros aspectos que pretendíamos abordar para desenvolver a competência escrita dos alunos, baseados em suas dificuldades, foram estudados dentro de uma sequência didática, sobre a qual falaremos na seção a seguir.