Para conhecimento das experiências profissionais prévias dos alunos, contemplando as adquiridas antes do ingresso no curso e as vivenciadas no percurso da formação inicial, a Tabela 13 reúne informações obtidas a partir das respostas dos alunos com base nas seguintes questões do questionário:
Já foi ou é catequista ou professor instrutor de escolas bíblicas? Já fez substituições em escolas?
Que atividade profissional desenvolve atualmente.
Tabela 13: Experiências prévias de trabalho docente (antes e durante a formação inicial)
Exerceu ou exerce atividades
como catequista? Fez substituições em escolas (remuneradas ou não)? Atuação profissional Não – 63 Sim – 25 Sem resposta – 02 Não – 58 Sim – 29 Sem resposta – 03
Estagiário na Educação Infantil – 23 Professor efetivo na Educação Infantil – 12 Estagiário no Ensino Fundamental – 12 Professor titular no Ensino Fundamental – 02 Terceiro setor/ Educação Não formal – 01 Educação de Jovens e Adultos – 0
Outros ramos – 26 (distribuição de livros/ administração hospitalar/ corretora de seguros/ área comercial/ auxiliar administrativo e de escritório/ funcionário público/ babá/ área social/ educação especial/ inspetora de escola/ finanças/ marketing/ assistente operacional/ concessionária/ auxiliar de DP/ telecomunicação).
Não está trabalhando no momento – 12 Sem resposta – 02
Total - 90 Total – 90 Total - 90
Considerando que 51 alunos, ou seja, mais da metade dos respondentes, indicou a família como participativa em igrejas e/ou grupos religiosos, revelando ser este um hábito cultural frequente na fase da infância e adolescência, no universo de 90 respondentes, apenas 25 alunos indicaram exercer ou ter exercido atividades como catequistas ou professores/ instrutores de escolas bíblicas. Essa questão teve por objetivo identificar se o hábito de
113 frequentar espaços religiosos, como uma das atividades de lazer mais recorrente durante a infância adquirida na socialização primária, permanecia quando adulto, durante a socialização secundária, e se estas referências e experiências religiosas de algum modo interferiram na escolha do curso.
Em relação às atividades profissionais experienciadas durante a formação inicial, um número não muito expressivo (29 respondentes) tiveram experiência como professores substitutos em escolas, como atividade remunerada ou não, durante o curso. Por outro lado, muitos já trabalham em escolas, ou seja, exercem a profissão sem terem concluído o curso, perfazendo o total de 49 alunos, dentre os que atuam na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I. Esse dado nos indica que o número de alunos que já atua em sala de aula, na condição de estagiário ou titular, é superior ao número de alunos que exercem atividades profissionais em outros ramos (26).
Outro dado relevante é que, conforme apontado anteriormente, apenas seis alunos do total de 90 respondentes têm o Curso de Magistério. Todavia, a pesquisa relevou que há 14 alunos que atuam como professores efetivos em escolas, sendo 12 na Educação Infantil e dois no Ensino Fundamental I. Esses dados nos indicam dois pontos que merecem atenção especial nos estudos e pesquisas sobre formação docente:
Do total dos alunos que já atuam como professores efetivos, apenas três deles têm o Magistério, o que revela que há 11 alunos atuando como professores efetivos em sala de aula sem terem concluído a formação inicial, sendo nove na Educação Infantil e dois no Ensino Fundamental I. Esse dado revela o ingresso precoce na carreira docente, sem a formação mínima exigida, contrariando, inclusive, a exigência legal, conforme artigo 62 da Lei de Diretrizes e Bases – LDB – n. 9394/96:
A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nos 5 (cinco) primeiros anos do ensino fundamental, a oferecida em nível médio na modalidade normal. (Redação dada pela Lei n. 12.796, de 2013)
Dentre os que ingressaram na profissão antes de terem concluído o curso de formação inicial, a maior incidência está na Educação Infantil, 12 dentre os 14 alunos identificados e, desses 12, apenas três tem o Magistério. Estes dados demonstram a incidência
114 de profissionais que atuam na área sem terem a mínima formação exigida pela lei, refletindo na desvalorização profissional.
Nesse ponto, vale apontar – no Quadro 09 a seguir – as falas dos alunos entrevistados sobre suas experiências profissionais pregressas (formais ou informais: professor particular, aulas de monitoria, trabalho comunitário, igrejas e hospital) que, de algum modo, os aproximou da área da educação e da Pedagogia. Estas experiências correspondem a uma das etapas da socialização secundária, constituindo outro elemento, anterior ao ingresso na formação inicial, que incide sobre as concepções dos alunos sobre o curso e a profissão e que, portanto, deve ser considerado em estudos sobre identidade profissional.
QUADRO 09: Houve lembrança de algum fato ou experiência pessoal ou profissional que te aproximou da docência?
Aluna 01 -. Ah, eu tive sim com uma professora minha de Português, que inclusive era minha madrinha de Crisma. Eu admirava muito ela (...) o jeito dela se aproximar dos alunos, de escrever na lousa, gostava muito.
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Aluna 02 – A questão da aula particular. Sentia total prazer com essa atividade. Aos 16, 17 minha família participava de um grupo chamado Leigos Missionários que é da Ordem das Consolatas da Igreja Católica, que a escola que eu estudei era das freiras das Consolatas, desde os 16 quando nós estávamos no 2º ano do Ensino Médio nos fazíamos trabalhos voluntários na comunidade indígena de Jandira. Então, esse trabalho era com alunos que se interessassem, era pra ir lá ensiná-los a ler e escrever do nosso jeito, a fazer conta de Matemática, então eu sempre tive próxima ao que é a docência, nem sabia o que era. Então acho que teve influência total isso.
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Aluna 03 - (...) eu tenho meu pai analfabeto, minha mãe fez só até o segundo ano do Ensino Fundamental I e tenho a minha ex-sogra que também é analfabeta e é muito triste esse mundo dos não letrados, então isso me deu a vontade de mudar. ---
Aluna 04 - Não prô, porque foi o que eu falei pra você, eu abandonei a escola com 21 anos. (...) Eu tive a lembrança da minha vivência, principalmente, da minha professora do 1º ano. Sabe, não sei se ela ainda é viva (tomara que seja), mas não vou esquecer nunca, ela usava um brincão assim de pérola e chupava uma mexerica “desse tamanho”, dos olhos azuis. Olha prô eu tinha seis anos, e ela, com aqueles olhos azuis, loura, tão chique, tão elegante, ela tinha tanto amor. Ah, a professora Rosália também. Depois com o tempo, eu descobri (...) a professora Rosália pegava a gente no colo. Depois com o tempo a sobrinha do marido trabalhava na escola como secretaria, há muito pouco tempo eu descobri que ela tinha uma filha usuária de drogas. Então, tudo que ela não podia dar pra filha dela, ela dava pra gente, eu lembro prô perfeitamente que ela pegava a gente no colo, no 3º ano primário. É, porque eu fiz o favor de reprovar né, o 3º ano primário, eu não falei pra você, professora eu tinha uma dificuldade imensa. Eu sou canhota que nem você, então já era difícil de aprender. (...) Sabe prô (...) eu fazia as letras invertidas, chegava na minha casa e não conseguia, mas assim, graças a Deus eu tenho uma irmã que é três anos mais velha do que eu e ela me ajudava, porque minha mãe não tinha condição. E assim prô até hoje eu tenho muita dificuldade e eu presto uma atenção, eu fico assim o tempo todo ouvindo, eu presto uma atenção, mas sem a interferência de tanto barulho, porque como você percebeu eu sento bem na frente.
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Aluna 05 - Não. (...) Acho que mais a influência de irmãos mesmo, mas vivência assim não. Não me recordo de ter ensinado ninguém.
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Aluna 06 - Acho que o que me acarretou mais também foi isso de dar aula na Igreja, foi bom porque precisava de um planejamento, precisava parar e pensar o que eu vou fazer com essas crianças, quem são essas crianças. Acho que ai é uma forma de ensinar, vou ensinar a Bíblia, vou sim, mas precisava de um planejamento, a mesma coisa que uma escola. (...) Eu trabalhava todos os domingos do mês, com a faixa etária de três a quatro anos. Eu fiquei por dois anos, eu tinha de 15 para 16 anos e parei com 17. Quando eu parei na Igreja é porque eu comecei a fazer teatro, porque eu amo teatro, e aí eu me vi muito assim envolvida com o teatro e tinha domingos que eu não podia ir, porque tinha espetáculos, tal. Aí eu parei um pouco de dar aula na Igreja pra me envolver mais com teatro e na Farmácia eu só pude entrar quando eu fiz 18 anos. Eu entrei na Farmácia com 17, faltando um mês para 18 e aí eu comecei. Hoje eu tenho 24 anos.
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Aluna 07 - Sim! Por causa disso que eu falei. Porque eu arranjava emprego em escola e eu lidava com classes. (...) Eu pensava assim: “Já que é para eu ficar em escola, eu vou ficar indo como professora porque como musicoterapeuta eu fico
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perdida". Então eu quero saber como é uma escola, aprender academicamente como é uma escola já que eu já estou dentro da escola. Mas meu foco nunca foi escola. (...) Nunca, eu até pensei em hospital, mas eu mandava currículo, não arranjava emprego. Não tenho nada contra a escola, não é isso, pelo amor de Deus, mas não era o meu foco. Então tive que mudar o meu foco, mas mesmo eu pensando em mudar o meu foco, durante a faculdade eu vi que não é isso o que eu quero. Não quero trabalhar em sala de aula. Não é (...) eu gosto de trabalhar com crianças, só que eu gosto de criança especial. Eu até talvez mande currículo para a APAE. (...) Não sei (...) sinceramente, eu não sei, mas eu sempre tive carinho, amor. Quando eu descobri que eu queria fazer Musicoterapia, eu já estava nessa área de saúde. Eu sempre falei que eu iria trabalhar na APAE, sempre, sem saber nem o que era a APAE; profundamente, eu sempre falei que trabalharia e trabalhei na APAE. Então assim (...) segui um foco que foi o trabalho (...) eu não sei, eu acho (...) não sei, eu gosto de criança especial. (...) Como não tenho ninguém na minha família que seja da área médica, não sei de onde veio porque se fosse Pedagogia, ah minha irmã é professora, essa foi uma influência, agora área médica ninguém na minha família (...). Ninguém, ninguém. A minha irmã faz Design, a outra é professora de Letras, meu pai industriário, minha mãe dona de casa, nunca teve nada (...) foi coisa minha, algum motivo tem. É isso!
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Aluno 08 - Eu acho que, volta um pouquinho para a outra questão, esta coisa de que sempre gostei muito de criança na minha vida. Eu via uma criança, assim em qualquer situação, então eu me aproximava. Influenciou diretamente quando minha mãe falou, abriu meus olhos, porque se você gosta de criança né, investe nisso, têm pessoas que não suportam criança. Antes de entrar no curso eu fiz parte do (...) na época eu não lembro (...) foi um movimento, eu fazia curso no Dominicano. Uma instituição filantrópica, católica e tal, e aí houve uma época que tava tendo muita enchente por lá, zona leste, e o pessoal fez um grupo de pessoas para trabalhar lá, pra ajudar as pessoas que estavam sofrendo a consequência das enxurradas e tal e eu trabalhei um pouquinho na Igreja. (...) Esqueci o nome que era o movimento deles, então a gente foi na igreja católica receber as pessoas, tinha gincana com crianças. Então houve esse contato também, antes da docência. Uma experiência que marcou bastante.
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Aluna 09 - Então, toda minha trajetória sempre me levou a Pedagogia, foi dando aulas de Matemática no meu interior que é um interior pobre, que as pessoas precisam (...) que você vê que as crianças vão realmente para aprender, que você tem respaldo maior, é a credibilidade que os pais te depositam, muita confiança, que você vê que está em suas mãos a responsabilidade de educá-los, a responsabilidade de formá-los. Então tudo isso me levou a criar essa identidade e a querer realmente isso. Durante o Magistério atuava como monitora de Português, sempre na sala, sempre envolvida com esse tipo de coisa.
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Aluno 10 - Porque a minha ex-sogra ela leciona em Mogi. Aliás, hoje em dia ela á é aposentada e uma das minhas principais metas assim, caso eu vá entrar na sala de aula como professor é trabalhar em Mogi das Cruzes, porque lá é uma das poucas cidades onde o professor é bem visto, onde o professor é bem pago e ele tem uma carga horária assim bem tranquila para poder trabalhar. Ela trabalhou 25 anos da vida dela como professora sempre ali, 2º ano, 3º ano e 4º ano. E ela hoje aposentou, com o salário dela, digamos assim, razoavelmente bom. E assim, por Mogi ter essa qualidade no ensino, eu acho que é importante eu investir na minha carreira por lá, caso eu vá lecionar. Tenho intenção de ser professor do Ensino Fundamental I, prestar concurso. Educação Infantil eu acho que não porque assim eu não consigo me ver com crianças muito pequenininhas. Eu acho que pelo meu tamanho, muito “troglodita”. Eu fiz o estágio na Educação Infantil, eu curti muito, mas eu me senti como aquele cara “Um Tira no Jardim de Infância” sabe? Então, a criançada não me via como professor e sim como brinquedo. “Professor me levanta, me levanta, me levanta”. Tudo era levantar. Pronto! Era isso. Já no EFI já teria uma identificação como professor.
Dentre as experiências pessoais e/ou profissionais que, de algum foram responsáveis ou, ao menos, influenciadoras na tomada de decisão e escolha pelo curso de Pedagogia e pela docência, destacam-se: referências dos professores da escolarização básica (em especial, da escola primária/ Ensino Fundamental I), aulas particulares, pais (pai e/ou mãe) analfabetos (desejo de alfabetizá-los), aulas na Igreja como catequista e referências de valorização social ao professor.
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2.2.6. Seus contextos familiares: trajetórias escolares, atividades profissionais e