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Tendo em vista o caráter de avaliação crítica que minha dissertação possui, nada mais natural que sua conclusão possua um aspecto fundamentalmente negativo no sentido de apresentar um apanhado das limitações e impasses em torno do modelo clássico de análise e da abordagem quantificacional de sentenças de existência apresentados ao longo desses três capítulos. Todo meu trabalho partiu da crítica realizada ao modelo clássico de análise de sentenças que sustentava a falsa ideia de uma isomorfia entre estrutura gramatical e estrutura lógica dos enunciados. Tal isomorfia estava implícita no pressuposto de que toda sentença pode ser analisada na forma sujeito-predicado. É precisamente esse conjunto de falácias que está por trás do argumento do não-ser e da teoria dos objetos de Meinong e que levou seus proponentes ao comprometimento inevitável com uma série de entidades ideais. O grau de inflação ontológica gerado a partir desse modelo deficiente de análise de sentenças alcançou seu ápice na defesa meinongiana de que o domínio do ser deve comportar também um conjunto de entidades impossíveis tais como o círculo quadrado. Penso que poucas coisas podem ser tão contrárias à noção intuitiva que temos do que é a realidade quanto a ideia de que essa mesma realidade seja composta por coisas impossíveis como postulou Meinong.
O modelo quantificacional de tratamento do predicado de existência foi apresentado ao longo do segundo capítulo tendo como pano de fundo a reação à ontologia inflacionada de Platão e Meinong. Como tentei mostrar, os modelos de análises de Russell e Quine estavam a serviço de um programa mais geral de redução ontológica de orientação nominalista e uma abordagem formal de questões filosóficas. Do ponto de vista da formalização das sentenças, essa redução só foi possível através de um tratamento lógico que pudesse eliminar termos denotativos em favor de termos funcionais e, juntamente com isso, eliminar a necessidade de comprometimento ontológico com os possíveis referentes dos termos denotativos utilizados nas sentenças. Essa estratégia proporcionou um refinamento sem precedentes na análise das sentenças e revelou uma assimetria cada vez mais patente entre estrutura gramatical e estrutura lógica forçando assim um rompimento sem retorno com o modelo clássico de análise. Vale ressaltar que essa distinção entre forma lógica e gramática natural é produto de uma posição filosófica mais geral que orientou filósofos como Frege e Russell segundo a qual as linguagens naturais são perpassadas por limitações e ambigüidades, e que uma filosofia e uma ciência que se pretendam rigorosas só podem ser erguidas mediante o tratamento de uma linguagem ideal.
Além da distinção entre forma lógica e gramática natural, as diferentes versões da abordagem quantificacional do predicado de existência possuem em comum as teses de que (i) o estatuto lógico do termo “existe” é fielmente expresso pelo quantificador existencial da lógica de predicados, (ii) que há uma clara identidade entre os predicados “ser” e “haver” e que, portanto, ao contrário do que ocorre na ontologia de Meinong, esses dois termos expressam a mesma porção da realidade, e por fim, (iii) que a ontologia de possibilia e
impossibilia pode ser em grande parte evitada por um tratamento lógico consistente de
enunciados de existência. Ao longo do segundo capítulo apresentei três versões de defesa da tese (i). A primeira versão foi a fregeana, segundo a qual o predicado de existência constitui um predicado de ordem superior que é aplicado de forma significativa e verdadeira apenas a predicados de ordem inferior a ele caso esses predicados de ordem inferior sejam instanciados. A segunda versão defendida por Russell tem na noção de função proposicional seu conceito central. Segundo Russell, toda afirmação de existência é fundamentalmente uma afirmação acerca de uma função proposicional. Caso a afirmação seja verdadeira, então a função proposicional a qual ela se aplica possui pelo menos uma instância verdadeira. Tendo em vista que essas funções proposicionais envolvem, do ponto de vista ontológico, a instanciação ou não de predicados,fica claro que o predicado “existe” é, segundo Russell, um predicado de ordem superior. A terceira e última versão apresentada foi a de Quine que endossou o modelo de análise da teoria das descrições de Russell, mas rejeitou a todo custo a ideia de que o predicado de existência é um predicado de ordem superior. Quine pensou no termo “existe” enquanto um termo sincategoremático. Segundo Quine, existência é algo expresso nos valores das variáveis das sentenças quantificadas. Tentei mostrar também de que forma os critérios ontológicos de Quine constituem uma meta-ontologia.
O trabalho de avaliação do modelo quantificacional de análise quando aplicado aos quatro principais tipos de sentenças de existência, como tentei realizar no capítulo três, teve como objetivo mostrar que, a despeito de todas as disputas filosóficas envolvendo a credibilidade da teoria das descrições de Russell e de sua tese descritivista dos nomes próprios, há casos onde ela parece ser mais razoavelmente aplicável e casos onde seus críticos ganham mais força. Para ser mais específico, as sentenças de existência dos tipos A e C – respectivamente, sentenças com descrições definidas e sentenças com tipos naturais – parecem oferecer menos resistência a uma análise dentro dos parâmetros da teoria das descrições e revelam de forma mais evidente os resultados pretendidos por Russell no que toca a rejeição da ontologia inflacionada de Meinong. Por outro lado, a análise de sentenças de existência dos tipos B e D – respectivamente, sentenças com nomes próprios e termos
indexicais – só é compatível com o modelo de análise de Russell e com seu projeto de redução ontológica se seu proponente, da mesma forma que Russell, assumir teses colaterais a respeito da linguagem e da epistemologia. Entre essas teses estão a tese descritivista dos nomes próprios, a distinção epistemológica entre conhecimento por familiaridade e conhecimento por descrição e sua relação com as descrições definidas, bem como a noção de nomes logicamente próprios e sua relação com os sense-data russellianos.
Por fim, na seção 3.2 que encerra esse trabalho tentei mostrar que mesmo que o modelo quantificacional de análise de sentenças de existência, nas versões de Russell e Quine, fosse adequadamente aplicável a todo tipo de sentenças de existência usadas na descrição da realidade, ainda assim restaria o problema da compatibilização da análise do discurso ficcional e do discurso acerca do real sem retirar disso uma ontologia de orientação meinongiana. Minha proposta, que apresentei sem pretensão de desenvolvê-la e que deve ser entendida como uma indicação para uma pesquisa futura, consiste em utilizar a noção de sistema de referência de Carnap com o objetivo de mostrar que toda sentença é, de alguma forma, indexada por um domínio de quantificação determinado contextualmente e que sentenças que envolvem ficções, a exemplo de “Sherlock Holmes é detetive” podem, em determinado contexto, ser considerada verdadeira sem que como isso tenhamos que assumir que Sherlock Holmes é um possibilia ou uma forma pura não instanciada.