Como vimos, Isidro chegou a apontar outro nome para os Inapé-porã: Yi’ti
kaha porã – algo como “filhos das perdizes”, como ele próprio traduziu. Max, no
entanto, disse desconhecer este nome. Em um encontro posterior, na subsede do ISA, ambos (Max e Isidro) tiveram a oportunidade de compartilhar alguns temas da pesquisa que desenvolvíamos, mas não chegaram a tratar tal assunto. Mais que isso, em todo o percurso da pesquisa, Max não revelou interesse particular em esclarecer o nome cerimonial de seu clã. Como vimos, apesar das diferentes grafias, o nome Inapé-porã aparece em três das quatro listas acima reproduzidas (Bruzzi Silva, Gentil e Afonso Machado), inclusive com a tradução, “formiguinha pequena” na lista de Bruzzi Silva. Nesse sentido, a que se deve esta referência somente ao apelido do clã e o aparente não interesse de Max em revelar seu nome cerimonial. Ou ainda, como pensar esta profusão de nomes distintos verificada nas listas acima reproduzidas?
S. Hugh-Jones (2002) fornece indicações precisas acerca da onomástica tukano (leia-se povos tukano oriental). De acordo com Viveiros de Castro (apud S. Hugh- Jones, ibidem), os sistemas de nominação ameríndios vão de um continuum entre o polo “exonímico” ao polo “endonímico”. Nos sistemas “exonímicos” (Ikpeng, Yanomamö,
Araweté, entre outros grupos tupi) os nomes vêm do exterior e dos Outros: inimigos, animais, deuses, mortos. Já nos sistemas endonímicos (povos Jê, como os Kaiapó e Timbira) os nomes - e também os bens herdados - são mantidos no interior do grupo, constituindo, dessa forma, parte de sua propriedade e identidades corporadas designando relações sociais particulares. Os povos tukano do noroeste amazônico, de acordo com Viveiros de Castro, pertenceriam ao polo endonímico. Entretanto, S. Hugh- Jones indica que o sistema de nominação tukano não é exclusivamente endonímico e que há diferenças importantes em relação ao sistemas Jê e Bororo.
Atribuídos pelo sopro, os nomes próprios e sagrados dos indivíduos são chamados de basere wame em um processo que envolve a üsü wasoase – “transformação da alma, do espírito”. Para o autor, a referência aos nomes dos grupos e dos clãs exogâmicos deve estar implícita em qualquer discussão sobre os nomes pessoais tukano. Cada clã tem um ou mais nomes sagrados (basere wame, wame goro) que podem ser os mesmos do clã ancestral, nomes dados ao clã por seu ancestral ou, ainda, nomes derivados do nome do ancestral. Segundo o autor, nomes sagrados encarnam a potência e essência do clã e são pronunciados, geralmente, nos encontros rituais. Fora deste contexto, as referências aos clãs são feitas a partir de seus nomes comuns ou pelos nomes jocosos (wame, ahari wame).
S. Hugh-Jones chama a atenção para a complexa elaboração de nomes para ancestrais, grupos e clãs que existe entre os tukano, caracterizada por extremo sigilo e interpretações políticas rivais. Especificar a relação precisa entre esses conjuntos de nomes seria, para o autor, uma tarefa praticamente impossível. Os nomes, na verdade, são o aspecto espiritual de seus referentes ao passo que nomear algo é atribuir-lhe poder. Existem para os indivíduos tukano três tipos de nomes pessoais, ao que o autor identifica como nomes de espírito, apelidos e nomes de estrangeiro e cada grupo exogâmico possui um conjunto particular de nomes de espírito. Os indivíduos recebem nomes de membros falecidos de seu grupo. Ou seja, os nomes dos vivos são os nomes dos ancestrais.
De acordo com o autor, os nomes sagrados ou espirituais formam um aspecto não corpóreo do espírito ou alma (üsü) e são um aspecto íntimo do eu, um elo direto com os ancestrais. Já os nomes de estrangeiro (gawa wame) são em sua maioria nomes cristãos colombianos ou brasileiros abreviados e modificados por necessidades
fonológicas das línguas tukano ou capricho individual. Assim como os indivíduos, os grupos exogâmicos e clãs também são conhecidos por esta combinação de nomes sagrados, apelidos e nomes de estrangeiro.
S. Hugh-Jones afirma que a característica geral do sistema de nominação tukano é endonímico, pois os nomes sagrados são transmitidos internamente ao grupo. Estes nomes servem para perpetuar a existência do grupo tendo também uma função genérica e classificatória – um nome oriundo de um conjunto específico determina o pertencimento ao clã e ao grupo. Entretanto, os nomes usados pelas pessoas no cotidiano e que as individualizam vêm de fora, o que se verifica em relação aos nomes de estrangeiros.
Já os apelidos mundanos referem-se, segundo o autor, aos aspectos corporais da pessoa e à sua biografia individual. Os apelidos também partilhariam qualidade externa, algo justificado pelas recorrentes alusões ao mundo dos animais e porque surgiriam como camadas adicionais de vestimentas atribuídas por Outros na vida subsequente. Os ossos e os nomes sagrados, por sua vez, são aspectos integrais e interiores do eu e da alma adquiridos no início da vida (ver C.Hugh-Jones 1979, p. 134:135 apud S. Hugh- Jones, ibidem).
S.Hugh-Jones observa que embora as identidades tukano provenham amplamente do seu interior, é como se dependessem do exterior para a produção de corpos – algo explícito nos eventos que envolvem o nascimento e a outorga de nomes. Nesse sentido, os nomes pessoais tukano constituiriam parte de um conjunto de ideias que dizem respeito a diferentes aspectos ou componentes do corpo e da pessoa: sangue, ossos, carne e pele; pintura, ornamento, vestimenta; língua, encantamentos, cantos e música; sopro, espírito vital, alma e sombra. Os diferentes tipos de nome pessoal também estão ligados a esferas de relações sociais específicas. Os nomes de espírito estariam conectados com as relações agnáticas ou clânicas, os apelidos com as relações com amigos e vizinhos e, por último, os nomes estrangeiros com as relações com os brancos.
Para o autor, os nomes tukano fazem parte de uma complexa interação entre o segredo e a revelação, o encobrimento e a exibição. Assim como os ossos de uma pessoa, os seus nomes sagrados originam-se no interior do grupo e constituem parte de uma força interior fortemente guardada, encoberta. Já seus outros nomes são
abertamente anunciados de maneiras diferentes e para distintas categorias de Outros como sua identidade pública. O aparente não interesse inicial de Max em pesquisar o nome de seu clã vincular-se-ia a essa complexa interação entre o segredo e a revelação, encobrimento e exibição, apontada pelo autor.
Também cabe uma referência aos Duca-porã, o nome estrangeiro dos Sanadepó-
porã. Como demonstrado por S. Hugh-Jones, a apreensão do nome de um comerciante,
Lucas, por este clã referir-se-ia ao nome estrangeiro que os grupos costumam usar. O que nos parece interessante, no entanto, é pensar se haveriam contextos específicos para a vinculação de um ou outro nome, ou seja, o apelido ou o nome de estrangeiro. Pois, aparentemente, haveria uma maior ênfase de seus co-residentes, Inapé-porã, sobre o apelido, enquanto os outros grupos optariam pela referência a partir do nome de estrangeiro. Algo que se justifica pelo fato do nome Sanadepó-porã não aparecer em nenhuma das listas acima reproduzidas.
Max não concordou com o nome indicado por Isidro atribuído ao seu clã, como vimos. Sua atitude poderia ser interpretada como a afirmação daquela característica endonímica relacionada ao nome de espírito de um determinado grupo. Ou seja, se o nome de espírito provém do interior do grupo, um membro de outro clã não poderia elucidá-lo. Para o caso que temos tratado, o que parece confundir as referências aos dois clãs de Ananás talvez seja o fato deles serem conhecidos somente por apelidos ou nomes de brancos. Interessante, neste sentido, é a busca realizada por Max para revelar a posição hierárquica e nome cerimonial de seu clã junto a outros. Um vasto material ainda em análise sob os cuidados de Geraldo Andrello sugere pistas sobre os elementos que aqui não puderam ser totalmente esclarecidos. Ou seja, tudo indica que com a continuidade da pesquisa poderemos assegurar de maneira mais contundente não só a posição dos Inapé-porã, mas também seu nome cerimonial. Mas isso é tema para futuros desdobramentos. Por ora, é interessante notar que a partir da motivação inicial de Max conseguimos desenvolver um material, ainda que singelo, com grandes expectativas de amadurecimento. E talvez nisto se encontre o maior trunfo de nossa empreitada, pois “acabamos de começar a escolinha”.
Figura 1 - Isidro e Faustino na sede da FOIRN.
Figura 2 - Encontro com Eusébio Freitas na Comunidade São Sebastião. (Da direita para esquerda: Isidro, Eusébio, Max e Faustino)