Tem espaço amplo no romance de Ignácio de Loyola Brandão a questão do sexo. O linguajar do narrador é sexo; as strippers são sua obsessão, em Berlim; o corpo de Luciana é trilhado ponto a ponto, nu, pela memória, compondo uma cartografia do afeto e do desejo. O que é esta sexualidade clara e expansiva, que não se esconde nem se envergonha, linguagem devassada, presente na obra?
De princípio, a linguagem que narra os mecanismos sexuais já traz em si o que podemos denominar de face libertária, aspecto que adentra o substrato linguístico e faz dele seu espaço de libertinagem. Erotismo e linguagem não se separam. Dessa forma, a linguagem literária imantada pela questão do sexo é a manifestação de um
poder subversivo e libertador atribuído duplamente à linguagem – o de transpor
interditos pela ficção e pelo sexo.
Esse caráter libertário justificaria a plena presença do sexo pulsante no interior da obra literária em questão: um desejo de libertar-se, de alcançar a liberdade de uma expressão sem amarras. No romance, esse desejo que se vincula à própria liberdade da linguagem se ampara, por exemplo, na seguinte passagem, quando o narrador relembra, contando em terceira pessoa, um episódio da infância:
[...] No muro dos fundos da igreja, indo para a missa das sete, viu a revelação.
BOCETA. A palavra escrita em letras vermelhas, enormes. Explodiu na cara dele.
— O que é boceta, tia?
Levou um tapa na boca, a tia foi direto ao confessionário. No dia seguinte o muro estava pintado de amarelo-ovo, outra vez.
— O que é boceta, pai?
De castigo, sem sair quinze dias. — O que é boceta, professora? Suspenso por três dias. — O que é boceta, padre?
Não terá absolvição enquanto repetir palavras como essa. Bosta, que boceta é esta pela qual a gente sofre tanto? (BRANDÃO, 2009, p. 124)
A linguagem para a criança é ilimitada, e não discerne o bem e o mal dos homens crescidos. Contudo, é na infância mesmo que essa linguagem começa a ser polida, para o bem ou para o mal, e nisto amordaçada, silenciamento tão próprio do
mundo dos adultos por sobre as inquietações pueris.
É na infância que nos são apresentados tantos interditos a partir da linguagem, e que se apresentam todos os tabus. Afinal, é pela linguagem que se diz “isto não se pode fazer”, “isto não é digno” etc.
Mas o interdito também é posto para ser violado, de acordo com o que aponta Bataille (2017, p. 88) em seus estudos acerca do erotismo, sobretudo em relação a preceitos morais e religiosos, de modo que, na vida adulta, a criança acaba por descobrir como possibilidade sagrada, produtiva e criadora a própria ultrapassagem de um limite.
Ainda no sentido das proibições da vida de Breno, crescer sob o peso do interdito moral de uma cidadezinha pequena faz com que a personagem se espante ao ver a cena de um filme em que um rapaz toca sem medo o braço de uma garota. Diante do espanto, ele percebe que algo está errado no funcionamento do mundo, pelo menos o
mundo que lhe foi apresentado: “Aquela imagem congelada em minha memória era a
primeira mostra de que algo estava errado no lugar em que eu vivia, no meio que me condicionava. Algo que eu não aceitava e estava disposto a modificar” (BRANDÃO, 2009, p. 121).
Disposto a modificar a interdição que lhe incutiram, agora homem crescido e em posse de uma escritura, a linguagem do sexo vem romper o limite que o sepultava em contenção. O que Breno diz e escreve, enquanto personagem, e também narrador, é sempre sem pudor, escancarado. O próprio fato de ser escritor é uma provocação à ordem do mundo, podemos dizer.
A linguagem de ficção, assim, é essencialmente o deslimite, e, diante do sexo, imiscuindo-se à questão do sexo, faz-se ainda mais despudorada. O linguajar obsceno é uma forma de não temer o que antes fora apresentado como o censurado, aquilo que se não pode professar.
Deliberando sobre essa questão, e, mais especificamente, sobre a condição da prostituição, Bataille (2017), em seu comentário sobre o erotismo, afirma que a palavra que designa um órgão sexual ou os atos sexuais, ou seja, a palavra que se traveste de sexo, nos chega sempre como uma proibição, a princípio: não se pode nomear esses órgãos. Assim, justamente, “nomeá-los de uma maneira desavergonhada faz passar da transgressão à indiferença que coloca no mesmo patamar o profano e o
apropriar-se do que por toda a sua infância e adolescência fora a palavra proibida é também colocá-la no lugar de honra de uma criação artística, conferindo a ela o peso das coisas sagradas.
Nessa questão ainda sobre a linguagem a nomear os interditos sexuais, Bataille (2017) se refere tanto à linguagem da prostituta, por exemplo, que imuniza o ato sexual de toda (i)moralidade, aproximando-o, nesse esforço de indiferença ante as demandas da profissão, à irrepreensibilidade de um ato sagrado e à pureza de um sacrifício sagrado, como também se refere à linguagem dos amantes, na cama, na intimidade, naquele instante em que os apaixonados permitem-se quebrar a barreira da fala obscena, mesmo os mais puritanos, dizendo tudo o que se não pode professar à luz
do dia, e assim experimentando pela linguagem “suja” toda a liberdade sexual que beira
a experiência religiosa, que consagra o momento de extremo amor entre seres.
A linguagem de Breno, então, não se envergonha, sobretudo não a
linguagem de seu amor – que é também marcadamente sexual – por Luciana. De fato,
“sexo, erotismo e amor são aspectos do mesmo fenômeno, manifestações do que chamamos vida” (PAZ, 1994, p. 15), dificilmente concebíveis sem que se experimente a mistura entre eles, uma mistura tão complexa que, a seu tempo, trabalha concomitantemente em direção à vida e em direção à morte.
Dizer, portanto, que o sexo é parte fundamental da vida não o transforma necessariamente em algo da ordem da mais pura alegria, pois o sexo traz também o luto, uma vez que é, a seu tempo, enquanto vigor, igualmente o fenecimento.
Cada gozo, uma pequena morte, para então renascer o amante, para então morrer de novo, e assim indefinidamente, até que se morra, de fato: eis a prisão do prazer no corpo. Nessa relação entre amor e morte, em suas faces de alegria e tristeza, afirma ainda Bataille, na introdução à obra O erotismo (2017):
Jamais devemos esquecer que, a despeito das promessas de felicidade que a acompanham, [a paixão] introduz, antes de mais nada, a perturbação e a desordem. A própria paixão feliz acarreta uma desordem tão violenta que a felicidade de que se trata, antes de ser uma felicidade de que seja possível gozar, é tão grande que se compara ao seu contrário, ao sofrimento [...]. As chances de sofrer são tao maiores na medida em que somente o sofrimento revela a inteira significação do ser amado. A posse do ser amado não significa a morte, pelo contrário, mas a morte está envolvida nessa busca. Se o amante não pode possuir o ser amado, pensa às vezes em matá-lo: muitas vezes preferiria matá-lo a perdê-lo. Deseja em outros casos sua própria morte [...]. A paixão nos engaja assim no sofrimento, já que ela é, no fundo, a busca de um impossível” (BATAILLE, 2017, p. 43).
Assim, a paixão do sexo, em seu jogo de vida e morte, é também uma porção de tristeza e amuo, um cansaço, ao querer possuir o outro plenamente e, mesmo
na conexão mais cerrada dos corpos, não o conseguir – paradoxo de “amarmos
simultaneamente uma alma imortal e um corpo mortal” (PAZ, 1994, p. 116). Nesse
sentido ainda, como Bataille (2017) aponta também, “a paixão nos repete
incessantemente: se possuíres o ser amado, esse coração que a solidão estrangula formaria um só coração com o do ser amado”, mas esta é, potencialmente, uma promessa ilusória (BATAILLE, 2017, p. 44).
De modo que o sexo, bem como sua fala apaixonada, que motiva a enunciação em O beijo não vem da boca (2009), quer também, em sua abundância, em sua profusão de linguagem e de detalhamento, celebrar a glória do corpo e do amor, mas coroar uma falta primordial: a alma sempre esquiva do corpo, a impossibilidade de fundir-se, pelo amor, com o corpo amado, e a impossibilidade de articular, mesmo em extrema liberdade, o discurso do erotismo, do sexo, do desejo em sua plenitude.
Assim, tendo-se a linguagem no centro do jogo do sexo e do amor, quando eu, amante, recrio a alma do objeto desejado e ausente como uma presença, via linguagem, já não me falta a alma que menciona Paz (1994, p. 116), esta que burilo a meu bel-prazer uma vez que a fabrico com meus próprios instrumentos ficcionais, mas
também aí já não tenho o corpo. Assim, então, algo também falta, continua a faltar –
esse corpo que, sempre, no fim das contas, é aquilo que, por primeiro, quero possuir. Contudo, de acordo com o que segue Paz (1994) a ponderar, mesmo na impossibilidade dessa junção plena, impossibilidade de um encontro que suprima o grande espaço que cabe entre dois corpos que se abraçam e se desejam, ainda assim,
inevitavelmente, amamos: “[...] A carne se corrompe, nossos dias estão contados.
Contudo, amamos. E amamos com o corpo e a alma, em corpo e alma” (p. 17), mesmo que seu encontro final e concomitante seja impossível.
Nessa impossibilidade de reter o outro, portanto, podemos de certo modo encaixar a “desistência” de Breno em remontar Luciana, entendendo enfim que o gesto dessa remontagem, via palavra poética, só produz outras e outras ausências, multiplicando a presença de um fantasma. Assim como a linguagem cotidiana, referencial, configurar-se-ia como uma morte da própria linguagem, na intenção de apagar-se para chamar os objetos e não apenas enunciar sua designação, na ilusão, enfim, de trazer a existência dos objetos ao nomeá-los, a linguagem de ficção, por sua
vez, no caminho contrário, é o tornar-presente de uma ausência insubstituível, linguagem que passa a ser o próprio referente do universo poético, possuindo apenas sua opacidade, seu mundo criado através de um opaco vazio que não permite que nada a trespasse.
Breno não teria, assim, outra Luciana que não fosse a mesma Luciana que nós mesmos temos – uma fictícia, inventada pela linguagem –, presença de sua própria ausência, somente possível pela palavra vazia, tudo isso em acordo mesmo com o que Jeanne Marie Gagnebin (1998) aponta, num texto que versa sobre as relações entre a memória, a verdade e a ficção, sempre em conjunção com a ideia da morte:
Se as palavras só remetem às “coisas” na medida em que assinalam igualmente sua ausência, tanto mais os signos escritos, essas cópias de cópias como diz Platão, são, poderíamos dizer deste modo, o rastro de uma ausência dupla: da palavra pronunciada (do fonema) e da presença do “objeto real” que ele significa (GAGNEBIN, 1998, p. 218).
A escritura, pergunta Gagnebin (1998), não seria então isso mesmo, um lidar com a ausência potencializada que os signos linguísticos sempre evocam? No bojo dessa reflexão, conseguimos postular ainda que, talvez, a desistência de Breno em perseguir a imagem de Luciana em Berlim venha justamente diante do entendimento, para o personagem, de que, pela ficção, não se tem nada além do vazio de um corpo feito de palavras.
Um corpo possível, sim, mas nunca a presença que não seja uma ausência. Esta que pode, pela linguagem poética, transformar-se na única verdade acessível, e ainda assim um vazio, o fantasma. Mas, vendo nesta falta o exato triunfo da linguagem
literária, ainda pergunta Agamben (2013): “E não nos foi dada a linguagem para
libertarmos as coisas de suas imagens, para levar a aparência à própria aparência, para
conduzi-la à glória?” (AGAMBEN, 2013, p. 125).
De fato, a linguagem brinca então com seu próprio caráter esvaziado e esquivo: alterna-se o sentido de seu vazio entre disfórico e eufórico, ou seja, positivo e negativo, como perda e vantagem – eis, enfim, o tal “poder obscuro” de que nos falara Blanchot (2011).
Justamente aí, na perseguição das coisas que não se alcançam, dos contrários que se unem num jogo, o desejo do homem não pode encontrar descanso, sendo um jogo constante entre vazio e preenchimento, entre morrer e viver, pois, afinal, “talvez o verdadeiro nome do homem, a cifra de seu ser, seja o Desejo” (PAZ, 1982, p.
165), e esse desejo não encontra fim. Esgotar-se seria matar o próprio homem. Mas ele, o desejo, continuamente conduz o homem, de modo vibrante, incansável, à fonte da linguagem, onde a aparência, pelas ausências, traz uma espécie de glória irresistível.
O amor, dessa forma, enfrenta as mortes sucessivas, a falta constante, a busca pelo outro, pelo preenchimento, e segue; esse amor só se consagra ao celebrar a ausência, justamente no que nunca se satisfaz ou se esgota, ausência indelével, a do objeto amado e a da palavra. O amor e a linguagem operam semelhantemente, assim, tal qual nos descreve Paz: “A poesia nos faz tocar o impalpável e escutar a maré do silêncio cobrindo uma paisagem devastada pela insônia [...]. Tanto nos sonhos como no ato sexual abraçamos fantasmas” (PAZ, 1994, p. 11), perseguimos, portanto, o vazio esperançoso e arruinado de uma espera que nos alimenta.