As evidências apresentadas nessa dissertação ao longo do Capítulo 6 e do Capítulo 7, e posteriormente analisadas no Capítulo 8, demonstram que as empresas do setor de etanol utilizaram inicialmente uma estratégia tecnológica seguidora (“catching-up”) em direção à fronteira internacional. Esse processo está alinhado ao processo descrito em Hobday (1995) e Kim (1997), ou seja, as empresas situadas nos países em desenvolvimento acumulam capacidades tecnológicas estrangeiras e estabelecem operações locais de produção. Essa estratégia também está alinhada à perspectiva de Figueiredo (2009), isto é, o setor de etanol acumulou capacidades tecnológicas, se movimentando (“catching-up”) através de uma trajetória de acumulação de capacidades de produção e inovação, alcançando as empresas precursoras na fronteira tecnológica internacional, de acordo com as trajetórias analisadas no Capítulo 8.
Entretanto, o setor brasileiro de etanol provocou um desvio qualitativo logo nos primeiros estágios de sua trajetória de acumulação de capacidades tecnológicas inovadoras, ou seja, realizou um movimento de "path-creating catch-up". No estágio inicial de desenvolvimento de suas capacidades inovadoras, o setor de etanol iniciou a divergência qualitativa na sua trajetória tecnológica (path-creating catching-up: estágio A -> estágio B -> estágio C' -> estágio D'), o que está alinhado aos resultados identificados nos estudos de Lee e Lim (2001) e Figueiredo (2010).
No que se refere à acumulação de capacidades tecnológicas industriais (processo e produto), o setor de etanol brasileiro incorporou inicialmente, no período compreendido pelo regime de industrialização por substituição de importações (1970-1989), capacidades tecnológicas e gerenciais para utilizar e operar tecnologias importadas maduras para produzir de etanol, classificadas no de Nível 1 (Produção). Segundo, essas empresas continuaram o movimento de “path-creating catching-up” em direção à fronteira internacional com o desenvolvimento de capacidades de Nível 2 (Inovador Básico) e Nível 3 (Inovador Intermediário) por meio de esforços de engenharia para adaptar e melhorar os processos de produção e sistemas de equipamentos. Mais tarde, durante o regime de economia aberta (1990-2009), as empresas, os institutos de tecnologia e as universidades
do setor de etanol continuaram a adquirir conhecimento, o que sustentou o movimento de “path-creating catching-up” em direção à fronteira internacional, por meio de atividades em P&D para desenvolver novas tecnologias inovadoras, agregando capacidades tecnológicas inovadoras de Nível 4 (Inovador Avançado) e de Nível 5 (Inovador Global).
No tocante à acumulação de capacidades tecnológicas agrícolas (matéria-prima), durante o regime de industrialização por substituição de importações (1970-1989), as capacidades tecnológicas de P&D estavam distribuídas entre as empresas e as instituições como, por exemplo, o Planalsucar, o CTC e o IAC. Portanto, essas instituições em parceria com as empresas do setor de etanol desenvolveram capacidades tecnológicas compartilhadas de inovação, classificadas no Nível 3 (Inovador Intermediário) e no Nível 4 (Inovador Avançado). No período seguinte, durante o regime de economia aberta (1990-2009), após a desregulamentação do setor de etanol, as empresas, os institutos de pesquisa e as universidades (Ridesa, CTC e o IAC) do setor realizaram projetos e atividades de P&D para desenvolver novas tecnologias inovadoras qualificadas no Nível 5 (Inovador Global).
No entanto, o processo de acumulação tecnológica nas empresas de etanol no Brasil apresenta algumas peculiaridades em relação à abordagem de pesquisa sobre a acumulação de capacidades tecnológicas em empresas situadas em países em desenvolvimento (Hobday 1995; Kim 1997; Lee e Lim 2001; Figueiredo 2003, 2008, 2009 e 2010), ou seja, as empresas utilizaram um arranjo institucional de P&D descentralizado, em parceria com as instituições do setor, isto é, os institutos de pesquisa e as universidades. Nesse arranjo, as capacidades tecnológicas de P&D estavam distribuídas entre as empresas e as instituições como, por exemplo, o Planalsucar, a Ridesa, o CTC e o IAC, que acumularam capacidades tecnológicas compartilhadas de produção (Nível 1 - Produção) e posteriormente de inovação (Níveis 2 a 5 - Inovação).
Esse arranjo descentralizado, direcionado às especificidades da cana-de-açúcar no Brasil, resultou em um desvio qualitativo nos primeiros estágios da trajetória de acumulação de capacidades tecnológicas de produção e inovação do setor de etanol, movimento similar ao destacado por Figueiredo (2010) na indústria de celulose e papel. Por fim, as capacidades acumuladas no Planalsucar, na RIDESA, no CTC e no IAC, em conjunto com empresas produtoras de etanol de 1ª geração no Brasil, destacam a importância dessas instituições,
conforme ressaltado em Murmann (2003), para o compartilhamento do conhecimento inerente ao processo de acumulação tecnológica do setor de etanol.
Além disso, nos últimos anos o setor também iniciou o processo de acumulação de novas capacidades tecnológicas industriais (produto e processo) no Nível 5 (Inovador Global), que compreendem a utilização da biomassa excedente na produção de bioplástico ou na produção de etanol a partir das tecnologias de 2ª geração. Nesse sentido, apesar da perspectiva promissora, a produção de etanol com tecnologias de 2ª geração apresenta desafios ao setor, ou seja, aparentemente, as empresas produtoras de etanol, que acumularam capacidades tecnológicas para produzir etanol de 1ª geração, estão “locked- in” nessa trajetória tecnológica devido à alta rentabilidade do setor nos últimos anos. Esse comportamento é similar ao papel desempenhado pelas instituições globais nos processos nacionais de difusão de tecnologias, descrito por Bodas et al (2010), ou seja, esses mecanismos institucionais sustentam apenas a disseminação de tecnologias simples e maduras em vez de disseminar tecnologias de energias renováveis mais inovadoras. Nesse sentido, apesar da tecnologia de 2ª geração expandir a produção de etanol, há pouco interesse nas empresas do setor em viabilizar a tecnologia de 2ª geração comercialmente.
Finalmente, as evidências apresentadas nessa dissertação demonstram a criação de uma trajetória de acumulação tecnológica nova para o mundo, conforme descrita em Dantas e Figueiredo (2009) e apresentada no Capítulo 8 (Seção 8.1). Desta forma, de acordo com os critérios do Manual de Oslo (OECD 2006), pode-se considerar o setor de etanol brasileiro um setor inovador em matéria-prima, produto e processo ao nível setorial, devido as suas capacidades tecnológicas acumuladas nas funções tecnológicas agrícolas e industriais. Além disso, os resultados desse estudo são sustentados pelo modelo de trajetória de acumulação de capacidades tecnológicas de produção e inovação desenvolvidas por Figueiredo (2003, 2008, 2009 e 2010) e Ariffin e Figueiredo (2004). Nos últimos 40 anos, as empresas do setor de etanol desencadearam um desvio qualitativo na trajetória tecnológica por meio da acumulação de capacidades de produção e inovação na área agrícola e industrial com a finalidade de produzir etanol a partir da cana-de-açúcar, ou seja, essas empresas se movimentaram em uma trajetória tecnológica nova para o mundo.
9.3 Conclusões sobre o papel desempenhado pelas instituições na trajetória