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5. Actividades de remedio y cierre

5.4. Tercera actividad de remedio

Em algumas crônicas, Alfredo Camarate apresenta personagens do arraial, esse espaço em transformação. Essas personagens, que talvez não sejam “reais”, mas que surgem da aproximação do cronista com a realidade, auxiliam o leitor do jornal a montar uma imagem desse espaço e dos habitantes que o ocuparam. Dessa forma, o cronista informa-nos não só sobre as transformações da cidade, mas também sobre seus habitantes, sempre conjugando imagens do que é, ou foi, e do vir a ser.

Uma das personagens de suas crônicas é um velho. Um homem de agulha. Camarate, em um dos seus “constantes passeios matutinos” avistou “perto da janella de uma modesta casa térrea, um velho cosendo, ainda pelo antigo processo da agulha manuseada a dêdo”.104 Chamaram-lhe a atenção tanto esse sujeito e o lugar que ocupava, quanto o seu fazer e o modo do fazer. Esse gesto de manusear, com os dedos,

104 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles VIII. Minas Geraes. Ano III, n.94, 8 de abril

a agulha, a linha e o tecido surpreendeu o cronista que, acostumado – expressão que não denota uma postura passiva ou acrítica – a uma lógica dos grandes centros urbanos, estava ciente da incorporação da máquina e de uma nova temporalidade estabelecida entre o homem e o trabalho. O vagar, o cuidado e a destreza, exigidos em um trabalho manual, teriam sido substituídos por um gesto mecânico, automatizado. Em suas palavras, esse processo de costurar uma peça com as mãos e a agulha, “mesmo em França, é preferido pelos que compram, com grandes resistencias dos que vendem”.105 Alfredo Camarate apontava, então, para uma nova relação com a mercadoria, que deixava de ser única, produzida de alguém para alguém, de um conhecido para outro conhecido, para se tornar um objeto, sobretudo de venda e, por isso, produzido pela máquina, em grande quantidade e para um outro desconhecido.106 Essa relação com a mercadoria, posta na modernidade é observada por Georg Simmel (1979): “Na esfera da psicologia econômica do pequeno grupo, é importante que, sob condições primitivas, a produção sirva ao cliente que solicita a mercadoria, de modo que o produtor e o consumidor se conheçam. A metrópole, entretanto, é provida quase inteiramente pela produção para o mercado, isto é, para compradores inteiramente desconhecidos, que nunca entram pessoalmente no campo de visão propriamente dito do produtor” (p. 13 e 14).

O cronista ainda admirou essa personagem por outros motivos relatados ao longo da narrativa: “Tenho notado uma cousa: é que o moço mineiro póde ser ou não ser um homem bonito; mas um mineiro velho é quasi sempre mais bonito e, dessa belleza veneranda, que inspira respeito e sympathias; um como que respeito filial que sentimos, por aquellas alvas barbas; cuidadas quasi sempre com a garridice se não impropria pelo menos muito pouco de esperar-se, num ancião de setenta annos”.107 A impressão que lhe causava a beleza física do velho confundia-se com uma admiração

105 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles VIII. Minas Geraes. Ano III, n.94, 8 de abril

de 1894, p.1.

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Nicolau Sevcenko (2001) observa as alterações nos padrões de comportamentos impostas pela preeminência da industrialização, dos fluxos acelerados pelos meios de transporte e pelas máquinas. A relação entre as pessoas também sofre as consequências dessa aceleração do tempo e a forma de identificar e conhecer os outros é a mais rápida e direta: “pela maneira como se vestem, pelos objetos

simbólicos que exibem, pelo modo e pelo tom com que falam, pelo seu jeito de se comportar” (p.64).

Nesse bojo, a comunicação básica entre as pessoas, aquela que precede a fala, é baseada em símbolos exteriores. A avaliação das qualidades humanas é substituída pela apreciação das mercadorias que exibe e ostenta, no vestuário, nos aparatos, objetos pessoais e no corpo. Esses fatores associados irão provocar uma mudança profunda nas sensibilidades e na percepção sensorial dos habitantes metropolitanos, com a supervalorização do olhar e a sofisticação/treinamento desse sentido em um ambiente de imagens, símbolos, velocidade e trânsito.

107 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles VIII. Minas Geraes. Ano III, n.94, 8 de abril

pelos traços, gestos, expressões de alguém que possuía experiência e que, pela sua condição – de viajante do tempo e morador desse lugar –, podia ainda comunicá-la. Essa admiração ainda se revela em um outro trecho:

Tenho passado, por muitas vezes, diante desses rostos venerandos; mais venerandos do que os que descreve a historia sobre os antigos patriarchas; admitto, sempre com instinctivo respeito, o modo pausado, seguro e justificadamente sentencioso, desses homens dos principios do meu seculo e que na simplicidade dos seus habitos, na modesta grandesa das suas virtudes; na sobriedade das suas exigencias; no seu quasi constante isolamento, que nada tem de feroz nem de ostentoso, podem fallar debaixo para cima, com todos os homens da geração que succedeu á sua e que tão cheios são de requintes, de pretensões, de vaidades e orgulhos e que olham de revez para o proximo, com a soberana convicção desse proximo estar muito

distante delle. 108

Essa crônica sobre o velho costureiro também aponta para outra questão, posta por aqueles que fazem da cidade seu lócus de observação. Alfredo Camarate, apesar de ter se revelado um cidadão, não deixou de perceber como a vida urbana inaugurava outra forma de estar no mundo e, principalmente, novas maneiras de se relacionar com o outro. Voltando à crônica, Camarate fala de um hábito próprio e só possível de ser visto em pequenas localidades: “O bom do velhinho, o meu alfaiate, mantendo-se um tanto, nas despretensões do curioso, um tanto nas seguranças do official de offício, deu-me os bons dias, costumes invariavel em tordas as terras pequenas do Estado de Minas, onde se considera toda a população como um cacho de parentes, mais ou menos radicados, no tronco que a todos foi berço!”.109 Todos eram conhecidos e, mesmo que não o fossem, ainda fazia sentido o cumprimento, que predispõe o indivíduo a estabelecer uma relação, iniciar uma narrativa.