Terminamos o capítulo anterior sinalizando que, ao conjecturar teorias sobre o mundo, o cientista encontra-se também interessado em uma questão de cunho ontológico: “o que há, o que é real”? (QUINE, WO, §6, p.20). E, como vimos, seguindo o seu naturalismo, Quine afirma que tudo aquilo que concebemos existir é nada mais do que postulações efetuadas a partir do ponto de vista de um determinado referencial teórico, pois “jamais podemos fazer melhor do que ocupar o ponto de vista de alguma teoria ou outra, o melhor que pudermos no momento” (QUINE, WO, §6, p.20). Desse modo, aponta Quine, o “critério para avaliar mudanças básicas do esquema conceitual tem de ser não um critério realista de correspondência com a realidade, mas um critério pragmático” (QUINE, IOH, p.79).
Dentre os critérios pragmáticos de revisão, ganham destaque a simplicidade e a
organização conceitual. Segundo Quine, preferimos, “ao menos se formos razoáveis, o
esquema conceitual mais simples, no qual os fragmentos desordenados da experiência bruta podem ser encaixados e organizados” (QUINE, WTI, p.16). E o fazemos, ele afirma, dando continuidade ao procedimento do senso comum de expandir a ontologia para simplificar a teoria (QUINE, TDE, p.45). Como ilustração dessa atitude expansionista, Quine retoma o
problema da identidade, tal como apresentado por Heráclito em seu exemplo do rio1.
1 Como, se pergunta Quine, poderíamos afirmar a nossa identidade pessoal se estamos submetidos a inúmeras mudanças, inclusive da própria substância material que compõe o nosso corpo? Tratando de questões aparentemente similares, Heráclito nega a identidade a partir de sua afirmação sobre a impossibilidade de nos banharmos duas vezes no mesmo rio, visto que novas águas estão sempre correndo sobre nós. No entanto,
55 Conforme destaca Quine, um rio – como, por exemplo, o Rio Caístro – é um processo composto a partir de múltiplos estágios (suas partes momentâneas). Para fins de comunicação, destaca Quine, podemos nos referir tanto a algum estágio do rio quanto ao próprio processo
do rio (a somatória de seus estágios). Ou seja, a depender de nossos propósitos, podemos nos
referir meramente aos estágios do rio, como a, b, c etc., mas também, se quisermos, podemos nos referir ao conjunto desses estágios, nomeando o processo do rio: Rio Caístro. Este procedimento de nomeação do rio é uma aplicação, local ou relativa, do princípio de simplicidade, pois as entidades tratadas em um determinado discurso são reduzidas a partir de uma multiplicidade – a, b, c etc. –, a uma só, o Caístro (QUINE, IOH, p.70). No entanto, destaca Quine, de um ponto de vista geral ou absoluto, esse expediente opõe-se diametralmente ao princípio da simplicidade, visto que não eliminamos as entidades a, b, c etc., do nosso universo discursivo, mas, simplesmente, acrescentamos o termo “Caístro”. Ainda assim, Quine enfatiza, esse acréscimo é conveniente devido à economia global permitida pelo termo em alguns contextos.
Há contextos nos quais ainda precisaremos falar diferencialmente de a, b e outros, em vez de falarmos indiscriminadamente do Caístro. Mesmo assim, o Caístro continua sendo um acréscimo conveniente a nossa ontologia por causa dos contextos em que ele realmente traz economia (QUINE, IOH, p.70)2.
A aceitação de uma ontologia acerca de números e classes seria um exemplo de expediente similar: uma multiplicação das entidades de nossa teoria global, visando a clarificação e organização do nosso discurso sobre corpos – isto é, visando à simplicidade global de nosso sistema. No entanto, Quine observa que a “ontologia nem sempre é expansionista” (QUINE, TRR, §35, p.135). Frequentemente, visando a simplicidade da teoria em geral, podemos minimizar a nossa teoria geral, prescindindo de certas “entidades aparentes”. Um exemplo deste processo é a rejeição de noções como intensão, significado proposicional e possíveis não realizados, pois, segundo Quine, quanto mais somos conscientes
acerca de questões ontológicas, tanto mais tendemos a apreciar a necessidade de princípios de
individuação, os quais, entretanto, inexistem ou são frágeis no caso de intenções. Conforme
destaca Quine, a conclusão obtida por Heráclito pode ser questionada se compreendermos que o rio é um
processo através do tempo e que os estágios do rio são suas partes momentâneas. Com isso, embora não possamos banhar duas vezes no mesmo estágio do rio, “podemos nos banhar em dois estágios do rio, que são estágios do mesmo rio, e é nisso que consiste se banhar duas vezes no mesmo rio” (QUINE, IOH, p.65). 2No original: “There are contexts in which we shall still need to speak differentially of a, b, and others rather
than speaking indiscriminately of the Caÿster. Still the Caÿster remains a convenient addition to our ontology because of the contexts in which it does effect economy” (QUINE, IOH, p.70).
56 vimos no primeiro capítulo, esse procedimento mantém relação estreita com a crítica à noção de identidade de significado, desenvolvida por Quine em Two Dogmas of Empiricism (1951).
Segundo Quine, ao buscamos por simplicidade e organização, somos propensos a falar de corpos. O homem e os demais animais costumam ter os corpos como ponto de partida para a construção de suas teorias, devido, sobretudo, ao fato dessa mentalidade ter adquirido valor evidente para a sobrevivência (QUINE, TRR, §14, p.54). Na ciência, contudo, essa noção de corpos é, constantemente, substituída por uma mais precisa, a saber: a de objeto físico, entendido, aqui, como qualquer “qualquer amontado arbitrário de partículas-estados, reunidas ou dispersas espaço-temporalmente” (QUINE, TRR, §14, p.54).
Na medida em que a nossa ciência mais avançada profere o empirismo como a forma de conhecimento mais verdadeira (ou, no mínimo, mais provável), Quine, em decorrência de seu naturalismo, se afirma um empirista. Por motivos semelhantes, ele se aproxima da posição fisicalista em ontologia: uma vez que as teorias científicas mais confiáveis atestam os objetos físicos como o tipo de entidade mais claramente identificável e, justamente por este motivo, como a ontologia que permitiria ao cientista um trabalho mais satisfatório, Quine considera o fisicalismo como a visão ontológica mais adequada para compor as nossas explicações acerca dos fenômenos naturais.
No entanto, conforme afirma Gibson (2006, pp.6-7), o fisicalismo ontológico defendido por Quine afirma mais do que a existência de estados microfísicos (isto é, de objetos físicos), assumindo também a existência de objetos abstratos da Matemática – como, por exemplo, números e conjuntos. Quine se encontra obrigado a admitir a existência de tais objetos abstratos em sua ontologia, uma vez que a nossa ciência mais avançada parece impossível sem estes3. Quine confirma esse ponto:
A interpretação ordinária do discurso científico é irremediavelmente comprometida com objetos abstratos – tais como nações, espécies4, números,
funções, conjuntos – assim como com maçãs e outros corpos. Todas essas coisas figuram como valores de variáveis em nosso sistema global do mundo. Os números e funções, assim como as partículas hipotéticas, são contributos genuínos para a teoria física (QUINE, SLM, pp. 149-50)5.
3 Em tom similar, Orenstein (2002, p.52) afirma que, além dos objetos físicos, Quine admite também a existência de conjuntos e/ou classes.
4 Os termos “nações” e “espécies” se referem a objetos abstratos não matemáticos (QUINE, SLM, p.149). 5 No original: “Ordinary interpreted scientific discourse is as irredeemably committed to abstract objects-to
nations, species, numbers, functions, sets-as it is to apples and other bodies. All these things figure as values of the variables in our overall system of the world. The numbers and functions contribute just as genuinely to physical theory as do hypothetical particles” (QUINE, SLM, pp.149-50).
57 Quine afirmou que um dos efeitos de abandonar os dois dogmas seria uma consequente “indefinição do suposto limite entre metafísica especulativa e ciência natural” (QUINE, TDE, p.20). Em consonância com esse ponto, percebemos que, embora Quine realize uma defesa do fisicalismo, do ponto de vista epistemológico ele considera os objetos físicos não como “verdades últimas”, mas unicamente, como “intermediários convenientes” ou “postulados irredutíveis”:
De minha parte, como físico leigo, acredito em objetos físicos, e não nos deuses de Homero; e considero um erro cientifico acreditar no contrário. Mas, quanto ao fundamento epistemológico, os objetos físicos e os deuses diferem apenas em grau, não em espécie. Ambos os tipos de entidade integram nossa concepção apenas como postulados culturais (QUINE, TDE, p.44, grifos nossos)6.
Como salienta J. J. C. Smart (1969), dizer que os objetos físicos são também “postulados culturais” significa afirmar que nenhum experimento (ou observação) será capaz de, por si só, definir se, de fato, tais objetos existem ou não; significa que, para além das próprias observações empíricas, outros fatores exercem demasiada influência sobre a adoção de uma tal ontologia. Entretanto, dizer que fatores pragmáticos influenciam a escolha de nossa ontologia também não implica que tal escolha esteja “totalmente divorciadas da experiência” (SMART, 1969, p.4). Nessa mesma direção, aponta Quine, a ontologia fisicalista seria ainda superior às demais ontologias, por permitir uma manipulação mais precisa do fluxo da experiência, isto é, por permitir melhores predições:
O mito dos objetos físicos é epistemologicamente superior à maior parte dos mitos na medida em que se mostrou mais eficaz do que outros como dispositivo para fazer operar uma estrutura manipulável no fluxo da experiência (QUINE, TDE, p.44)7.
Conforme vimos no primeiro capítulo, existe uma grande latitude de possibilidades para a construção e revisão de nossas teorias. Essa ampla gama de possibilidades, afirma Gibson, constituiria “o elemento radical do instrumentalismo de Quine” (GIBSON, 1986, p.169). No entanto, em discordância parcial com Gibson, não endossamos que a afirmação de que a existência de uma ampla gama de possibilidades para a construção de nossa teoria do mundo faz com que Quine seja, a rigor, uma instrumentalista. De acordo com o ponto de vista
6No original: “For my part I do, qua lay physicist, believe in physical objects and not in Homer's gods; and I consider it a scientific error to believe otherwise. But in point of epistemological footing the physical objects and the gods differ only in degree and not in kind. Both sorts of entities enter our conception only as cultural posits” (QUINE, TDE, p.44).
7 No original: “The myth of physical objects is epistemologically superior to most in that it has proved more efficacious than other myths as a device for working a manageable structure into the flux of experience.” (QUINE, TDE, p.44).
58 instrumentalista, as teorias científicas são meramente instrumentos ou dispositivos úteis para cálculo de predições, e as entidades (aparentes) nomeadas em tais teorias – átomos e elétrons, por exemplo – não são vistas, de fato, como entidades existentes ou reais. De acordo com algumas versões instrumentalistas, o mesmo se aplicaria também às entidades ordinárias do senso comum – às mesas, árvores e pessoas, por exemplo. Conforme aponta Hylton (2007), Quine, de fato, se aproxima da visão instrumentalista em ciência. Entretanto, ele salienta, existem diferenças cruciais entre as duas visões. Pois, embora Quine entenda a ciência como um instrumento útil para explicar a experiência passada e predizer a experiência futura, ele não assume uma distinção entre conhecimento verdadeiro e conhecimento útil.
Não se pode afirmar que as estimulações de nossas superfícies sensoriais são reais e que os objetos físicos são meras ficções. Superfícies sensoriais são objetos físicos; estimulações sensoriais são eventos físicos em pé de igualdade com quaisquer outros. Este fato indica a importância da abordagem naturalista de Quine com relação ao conhecimento, que começa por tomar como certo o mundo físico e o nosso conhecimento dele (HYLTON, 2007, p.19)8.
Conforme destaca Hylton, uma conclusão com relação a este ponto seria a de que Quine está disposto a conceder realidade à tudo aquilo que seja necessário para que uma dada teoria funcione suficientemente bem (HYLTON, 2007, pp.22-23). Assim como os instrumentalistas, Quine preza pela eficiência prática das teorias científicas. Entretanto, ao contrário daqueles, Quine não compreende os objetos postulados, unicamente, como ficções úteis, mas, além disso, como objetos reais dentro do esquema conceitual adotado. Nesse ponto, concordamos, também, com Gibson (1986), em sua afirmação de que Quine elimina a suposta tensão entre instrumentalismo e realismo, ao endossar “um pragmatismo que acomoda, sem conflito, ambas as visões” (GIBSON, 1986, p.168).
A partir dessas considerações sobre o estabelecimento da ontologia fisicalista, trataremos, mais detidamente, sobre aquilo que Quine considera serem os objetivos primordiais do conhecimento científico. Na sequência, trataremos, também, sobre o modo pragmático a partir do qual a nossa ciência pode, segundo Quine, relacionar-se com a observação, bem como sobre a importância que as hipóteses adquirem nesse processo.
8No original: “One cannot hold that stimulations of our sensory surfaces are real and that physical objects are mere fictions. Sensory surfaces are physical objects; sensory stimulations are physical events on a par with any other. This fact indicates the importance of Quine’s naturalistic approach to knowledge, which begins by taking for granted the physical world and our knowledge of it” (HYLTON, 2007, p.19).
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