1.2 T EORETISK BAKGRUNN
1.2.3 Teori og rammeverk
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Tão relevante como saber em um jogo quem são os jogadores e quais são suas regras é ter em mente que o conjunto singular dessas regras e desses jogadores, dos agentes e de seus recursos, exclui aqueles que muitas vezes não compartilham das mesmas bases fundadoras de determinada contenda. Há situação ainda pior, quando nem mesmo foram convidados para dela participar, ainda que os seus efeitos possam transformar e dizimar suas vidas.
Todos os agentes que aqui rotulei como legítimos não são mais do que esses que conduzem o jogo do qual participam. Seus conflitos não são menos “reais” ou custosos por conta disso, por incluírem um rol específico de interlocutores enquanto outro é excluído. Envolvem-se, afinal de contas, até o fim em suas lutas por recursos, apostando todas suas fichas nisso.
A luta na qual entram tem, por esses processos cotidianos, uma composição particular e é válida segundo mecanismos, escalas e propósitos igualmente particulares. Conforme se movem pelo Setor Noroeste e procuram desenvolvê-lo (no sentido de propor um tipo ou mais tipos de envolvimento com algo), essa luta assume facetas cujos contornos são extremamente relevantes para compreender como se fiam algumas tramas em torno dessas disputas por projetos estáveis, sonhos, recursos; disputas, enfim, por espaços, sejam simbólicos, geográficos, culturais e financeiros, ou antes, um conjunto multifacetado de todas as composições.
No próximo capítulo, minha posição é que essa luta, no Setor Noroeste, em Brasília e no Distrito Federal, pode ser compreendida como uma luta pelo céu. Sobre ela debruço-me pouco a pouco a partir de agora.
CAPÍTULO 7
Objetivo: um céu em particular
Os encontros etnográficos que tive com a família Montenegro e a família Santos não são representativos apenas porque entre seus membros estão os tipos sociais (Simmel, 1972) de assalariados de renda alta e média, com cargos hierárquicos em geral superiores e com forte presença no setor público. Isso, apesar de relativamente exacerbado no Setor Noroeste até onde pude ver a partir de meu trabalho de campo, é relativamente comum no DF e, em especial, no Plano Piloto.
Os Santos e os Montengro compartilham ainda de objetivos em comum, projetos que encontram muitas ressonâncias uns nos outros e, embora os Santos não tenham filhos até o momento, vislumbram nos que poventura venham a ter o mesmo que os Montenegro conseguiram para os seus: estudos universitários, cursos de qualificação, carros na garagem e uma vida ainda melhor do que tiveram quando mais novos. Quanto ao DF das camadas médias, o mesmo pode ser dito em suas linhas gerais (Machado; de Magalhães, 2010).
Os pontos de contato, todavia, vão além e é nessas similitudes que reside algo capcioso. Em alguns momentos das conversas que tive com Rose, Marcos, seus filhos e, depois, com Bernardo, respingavam aqui e ali referências ao céu. Bernardo me disse que “para quem tem como pagar, o céu é o limite.” Rosana foi mais direta quando retoricamente me perguntou: “olha esse céu aqui e vê se não é uma maravilha?”
Essas duas referências poderiam bem ser detalhes desnecessários em meio a outras informações possivelmente mais relevantes. Não é raro que ouçamos pelas ruas brasileiras que o céu é o limite quando queremos apontar o quão ilimitadas são as possibilidades em relação a determinadas coisas. “Para os banqueiros, o céu é o limite” seria uma frase perfeitamente compreensível e empiricamente comprovável, uma vez que sabemos como desigualmente o sistema financeiro brasileiro pende sua balança para poucos.
Agora, daí a pegar desse momento banal de uma conversa e usá-lo como um rastro de algo maior a ser explorado antropologicamente pode soar mais do que exagerado, quase uma bravata.
Em relação aos Montenegro, dá-se o mesmo. Será tão relevante assim o momento em que Rosa esticou seu dedo, apontou-o para o céu e para todas as facilidades territoriais que podiam ser vistas de sua janela? Será que sua frase não pode ser posta de lado como muitas vezes se faz com vírgulas mal utlizadas e onomatopéias desnecessárias?
O céu, como utilizado em nossa conversa, não seria um desses recursos com os quais cobrimos pequenos silêncios de nossas conversas cotidianas? Não seria um mero escape para quando não se tem muito o que falar?
O argumento que defendo considera todas essas questões como válidas. Ao longo das reflexões que enfrentei em campo e, principalmente, quando não estava mais propriamente em pesquisa etnográfica, muitas vezes me perguntei até que ponto o céu poderia ou não ser algo relevante para os moradores recentes do Setor Noroeste.
Pouco a pouco e na medida em que fui mais vezes e por mais tempo ao bairro, o céu passou, no entanto, a se destacar ainda mais como uma categoria importante para a vida das pessoas com quem interagi durante alguns períodos dos últimos dois anos.
O que ouvi das famílias com referência ao céu é algo recorrente. Foram muitas as ocasiões em que o céu do bairro, o céu do Setor Noroeste, o céu acima desses apartamentos, foi apontado para mim em conversas mais ou menos longas, das menos às mais profundas.
Em uma sexta-feira de junho de 2015, Lucas, estudante da UnB, o mesmo que comentara sobre o quanto o avô havia simpatizado com o bairro, convidou-me para que subíssemos até a laje de seu prédio, onde ficam as superfícies de captação da radiação solar e de onde, segundo ele, “o céu é imenso.”
A Foto 28 é uma das fotografias que captei nesse dia, em um dos poucos momentos em que, de fato, decidi parar de olhar e contemplar o céu para apenas registrá-lo. Assim como Lucas, fiquei emocionado.
Até aquele momento, nunca tinha visto o céu da capital tão vasto como ao que tive acesso naquele dia. Lucas, antes de se mudar, também não. “Bom pra trazer a namorada”, me disse pouco antes de descermos as escadas que nos devolveriam ao seu apartamento.