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O termo “Propiciação” tem sua origem na Psicologia Ecológica, sendo uma área da Psicologia que estuda a interações entre os organismos e seu ambiente. A origem da Psicologia Ecológica é associada ao autor James J. Gibson1, que, em seus trabalhos,

destacou a importância da percepção, por parte dos animais, das possibilidades de ação oferecidas pelo ambiente. Para Gibson, a análise do ambiente é essencial para entender-se o comportamento de um indivíduo [Gibson, 1966].

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A primeira aparição do termo foi em Gibson [1977], em que o autor define Propiciações como todas as possibilidades de ação latentes no ambiente. Essas possibilidades estão sempre relacionadas ao agente e, portanto, relacionadas à suas capacidades de reconhecê-las. A partir de então, foi dada muita atenção ao assunto e vários estudos foram realizados, encarando as Propiciações como propriedades do ambiente e dos objetos [Sanders, 1997].

Posteriormente, em Norman [1988] o conceito começou a ser utilizado no contexto de IHC. Donald Norman apropriou-se do termo para se referir às possibilidades de ação perceptíveis pelo usuário e introduziu o conceito de “Propiciações percebidas”. A partir daí essa interpretação foi popularizada nas áreas de IHC e desenho da interação, fazendo-se o conceito não depender somente das características do usuário, mas também de suas metas, planos, valores, crenças e experiências passadas.

Gaver [1991, 1992] explora de maneira sistemática a noção de Propiciações e de sua percepção em IHC. De acordo com o autor, as Propiciações podem prover uma ferramenta para analisar as tecnologias, com uma abordagem centrada no usuário. Ele também as classifica de acordo com sua relação com as informações que oferecem. Quando as Propiciações são percebíveis, elas oferecem uma ligação direta entre percepção e ação. Quando são ocultas ou falsas, levam a erros. Gaver [1991] também ressalta que as Propiciações podem ser úteis para analisar tecnologias e explorar as “solicitações” psicológicas inerentes aos objetos e a análise racional do desenho de uma interface. A figura 2.5 ilustra a relação entre a informação disponível ao usuário para percepção das Propiciações e sua capacidade de percebê-las. Separando-as das informações percebíveis sobre elas é possível distinguir as rejeições corretas e as Propiciações percebidas, ocultas e falsas [Gaver, 1991].

Propiciação Falsa Propiciação Percebida Rejeição Correta Propiciação Oculta Propiciação Existente Não Sim Informação P ercebida Não Sim

Figura 2.5: Tipos de Propiciação de acordo com sua existência e a percepção do usuário McGrenere & Ho [2000] apresentam uma discussão conceitual sobre Propiciação,

comparando o conceito tradicional de Gibson [1966] e a interpretação introduzida por Norman [1988], usada no desenho de interfaces. Os autores argumentam que é necessário um desenvolvimento da noção original de Gibson para que o conceito possa ser plenamente utilizado no mundo do desenho. Para isso, deve-se incorporar a noção de vários graus de Propiciações, analisando-se a quantidade e qualidade da informação disponível para que o usuário perceba as possibilidades de ação.

Uma das dificuldades com a utilização do conceito original de Propiciações de Gibson é que ele tinha foco nas questões de percepção visual. Dessa forma deixou de lado as outras formas de percepção utilizadas nas interações com os artefatos [Baerentsen & Trettvik, 2002].

O trabalho de Vyas et al. [2006] considera as Propiciações dos artefatos como todas as possibilidades — tanto para pensar como para agir — que representam algo para o usuário em sua interação com esse artefato. Dessa forma, ele propõe uma visão de Propiciação centrada na interação, batizada de “Propiciação na Interação”2.

Baseado nessa visão, esse trabalho considera que as Propiciações não são propriedades dos objetos, mas um relacionamento construído entre o usuário e o artefato em sua vivência no mundo. Portanto, não se pode analisar uma Propiciação sem considerar os objetivos de interação do usuário e seu contexto de uso.

O conceito de Propiciação na interação de Vyas et al. [2006] se desenvolve em três principais eixos: a) As Propiciações se referem tanto aos usuários quanto aos seus ambientes; b) Propiciações emergem de Atividades e práticas; c) Propiciações são construídas cultural e socialmente. Pode-se concluir que as Propiciações não são uma propriedade do ambiente, mas uma base comum entre o usuário e seu ambiente. Elas formam uma relação ternária entre um ambiente, um usuário e uma Atividade.

Sugerir que as Propiciações emergem da interação do usuário com o artefato ou ambiente é dizer que os usuários participam ativamente dessa interação. Assim, estão continuamente interpretando as situações e construindo e reconstruindo o significado de um artefato e, consequentemente, construindo e reconstruindo as Propiciações de um artefato. As Propiciações estão sempre em uma dinâmica de reconstrução, de acordo com o usuário e tudo ao seu redor que influencia sua maneira de pensar e agir.

Vinte anos depois de introduzir o conceito de Propiciação na área de desenho de interações, Donald Norman apresenta um trabalho em que descreve o conceito de “significantes”3. Para Norman [2008] as pessoas buscam maneiras para entender

produtos e serviços. Procuram indicação ou qualquer sinal que os ajude a entender o significado de algo. Buscam significantes. Para o autor os significantes sociais são

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Do inglês: Affordance in Interaction

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os mais importantes, pois todas as ações humanas são sociais. Tudo, dentro de um contexto social, significa algo para alguém, por isso é importante que o desenhista se atenha aos detalhes que possam ter significado. O significado muda de acordo com o contexto social em que o observador está inserido.

Conforme Karat et al. [2000], para se obter sucesso na análise e desenho de Propiciações, é necessário entender o usuário, suas tarefas e o contexto onde ele realiza essas tarefas e atinge suas metas. Entendendo esses elementos é possível realizar uma análise centrada no usuário e construir uma ferramenta que seja, para o usuário, um complemento às suas Atividades e não um elemento que coloca restrições ao seu trabalho.

O usuário quer se sentir no controle da ferramenta e não ser controlado por ela. Sob esse ponto de vista, para elaborar uma ferramenta útil ao usuário é preciso entender os elementos culturais e comportamentais que o rodeiam e quais as Propiciações necessárias para ajudá-lo a realizar suas tarefas. Assim é possível construir uma ferramenta que se adeque ao contexto desse usuário e que seja, naturalmente, parte de suas Atividades.

O posicionamento de Kaptelinin & Nardi [2012] sobre as Propiciações relaciona o usuário e a Atividade executada, englobando seu contexto sociocultural, o que é um conceito relevante para este trabalho. Os autores descrevem as Propiciações de uma perspectiva de ações mediadas por artefatos, da maneira como são aplicadas em IHC. Essa perspectiva engloba o contexto sociocultural em que o usuário está inserido, considerando que as ações do usuário e sua mente são mediadas.

Um exemplo de mediação por ferramentas é quando um indivíduo deseja apertar um parafuso. Ele não interage diretamente com o parafuso, mas utiliza uma chave de fenda para mediar sua interação com o parafuso. Outro exemplo é um usuário interagirindo com outro pela internet utilizando a mediação de um software de bate- papo.

As capacidades de ações do usuário dependem das mediações socialmente desenvolvidas e das ferramentas disponíveis. Kaptelinin & Nardi [2012] descrevem que, sob a perspectiva de ações humanas mediadas:

• Propiciações podem ser entendidas como as possibilidades para ações do humano em seu ambiente cultural;

• Propiciações emergem na interação entre uma pessoa, as ferramentas e seu ambiente cultural;

• As capacidades de ação do autor são dinâmicas e podem mudar rapidamente caso as ferramentas disponíveis sejam alteradas;

• As Propiciações disponíveis podem prover informações relevantes sobre as ações humanas em seu ambiente;

• As Propiciações e as necessidades situacionais dos atores estão inter-relacionadas: as Propiciações das ferramentas podem ser ajustadas às necessidades situacionais. O conceito de Propiciação percebidas foi popularizado por Norman [1988], quando este expandiu um tipo de interação em que, além das restrições físicas apresentadas pelo ambiente, ainda há restrições culturais, lógicas e semânticas. Essa visão de Propiciações difere da perspectiva Gibsoniana, em que emergem da percepção direta das restrições unicamente físicas. Ele realçou o fato de que tanto restrições físicas quanto mentais afetam diretamente a percepção por parte do usuário das ações disponíveis que são propiciadas pelo ambiente. Norman acredita que tais restrições permitem que objetos simples possam ser usados sem muitas instruções.

Com o foco na percepção pelo usuário das possibilidades de ação do ambiente, as Propiciações representam um importante conceito no desenho de interações, já que incorporam a interação entre um usuário e um artefato ou dispositivo, baseada na percepção do usuário sobre as propriedades desse artefato ou dispositivo (Sharp et al. [2002]).

Norman [1999] descreve convenções culturais como mapeamentos arbitrários entre um ação e uma função que se torna comum em um determinado grupo. Convenções geralmente são criadas no desenho de uma interface quando não há nenhuma Propiciação perceptível disponível. O trabalho de Still & Dark [2012] sugere que se uma convenção se torna automatizada por conta de seu uso constante, ela pode levar a uma Propiciação percebida.

No trabalho de Baerentsen & Trettvik [2002] a TA é utilizada para entender a Atividade que rodeia o usuário, de forma a enriquecer o entendimento de Propiciações em IHC. Isso gera um entendimento mais amplo da Atividade, sua estrutura e seus níveis hierárquicos de organização. Usando a TA, as Propiciações são analisadas levando-se em conta o contexto sociocultural em que o usuário está imerso.

Baerentsen & Trettvik [2002] argumentam que a utilização de Propiciações em IHC é vaga sem um entendimento da Atividade humana e de seu ambiente em um sentido mais amplo. Os autores mostram como o entendimento da Atividade, sob os olhos da TA, enriquece e estende o conceito de Propiciação. Em conjunto com a TA, as Propiciações são analisadas levando-se em conta o contexto sociocultural em que o

usuário esta imerso. Para os autores a motivação de uma Atividade e aquilo que faz com que ela tenha sentido no contexto do indivíduo e a orientação a metas faz com que ela tenha sentido em um contexto social.

MacKay [1999] também explora as Propiciações oferecidas pelo papel. A autora analisa o comportamento de controladores de voos que utilizam fitas de papel com informações sobre os voos para manterem a organização e controle. A introdução de um software na rotina de trabalho de controle de voos é necessária, pois o uso de papeis limita a quantidade de voos que podem ser acompanhados simultaneamente. A autora, então, verifica que as Propiciações disponíveis nessas fitas de papel, em termos de comunicação e organização, são difíceis de se reproduzir em um software.

A evolução do conceito de Propiciação e a vasta utilização para análise de Atividades humanas permitiram a consolidação de um conceito importante. Neste trabalho as Propiciações das Atividades de processos de negócio serão analisadas conforme o contexto em que são percebidas. Na próxima seção as Propiciações serão classificadas de acordo com a maneira em que são percebidas pelo humano. Tal classificação será vastamente utilizada na solução apresentada no próximo capítulo.

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