A autoridade é fundamental para o funcionamento de qualquer organização, tanto naquelas que são exclusivamente empresariais quanto nas que possuem natureza eclesial, religiosa e empresarial. É por isso que Weber (2004a e 2004 b) afirma que numa estrutura organizacional existem três tipos de autoridade, a tradicional, a carismática e legal-racional. Para Weber, portanto, a autoridade, qualquer que seja a sua espécie, é exercida quando determinadas ordens são obedecidas. Em se tratando de uma corporação empresarial, além da autoridade, a liderança é também essencial. Sendo assim, autoridade e liderança vêm se constituindo nos principais meios de condução da IBL, seja como uma organização religiosa, seja como uma corporação empresarial.
Na IBL a autoridade e a liderança estão relacionadas intimamente com o carisma e também com as ações de comando e de gerenciamento desenvolvidas pelo mais importante líder carismático da organização, Valadão. O líder carismático, de acordo com Antônio Cesar A. Maximiano (2006:205) desenvolve as tarefas de gerenciamento quando seus seguidores trabalham com obediência para realizar a missão, a meta proposta ou a causa em que estão envolvidos. Nesta direção, Etzioni (1983:23) explicita que a autoridade carismática gera obediência porque está baseada na devoção afetiva dos seguidores do “senhor” e nas dádivas do seu carisma. É por isso que a liderança, somada à autoridade, são mais do que uma mera opção da organização, e conforme Campos (2006:123), ambas são exigências típicas das associações de crentes.
Autoridade e liderança são conceitos mais amplos do que gerenciamento e não podem ser vistos como uma mesma coisa. No entanto, tal como assinala Reinaldo Oliveira da Silva (2001:26), o gerenciamento é uma forma especial de liderança, pois com ele se alcança objetivos organizacionais. Na verdade, a IBL pode ser pensada como uma organização religiosa tanto quanto como uma corporação empresarial, já que ela tem feito a conjugação
entre o religioso, o gerencial e o empresarial. Para tanto, Valadão implantou uma espécie de “ideologia gerencial” na IBL como uma forma de adaptar a organização às mudanças ocorridas no campo religioso e na sociedade no seu todo.
Neste sentido, a IBL adotou o modelo organizacional e administrativo resultante do planejamento estratégico nela aplicado, cuja principal ideia foi a de “...gerir a igreja como uma empresa, sem perder o foco de família”54, para garantir a sua sobrevivência institucional e administrativa, bem como manter a ênfase religiosa. Isso demonstra que a IBL é administrada nos moldes de uma corporação empresarial, e Valadão, seu presidente, por possuir autoridade espiritual, possui também autoridade administrativa e institucional, e como tal, toma as decisões mais importantes e mais estratégicas da organização. Isso quer dizer quer a IBL é uma organização administrativamente centralizada em Valadão, apesar da existência de um Conselho Administrativo, conforme informação coletada em entrevista55. Esse Conselho Administrativo foi instituído com a finalidade de auxiliar Valadão na administração da organização e de vários empreendimentos ligados à IBL, tais como a Rede Super, a Editora Lagoinha, a Livraria Seara e a Fundação Oásis.
Valadão se constituiu como presidente da IBL em 31 de julho de 1972, portanto, no último dia 31 de julho de 2011, completou 39 anos à frente da IBL, como pastor, líder e gestor da corporação. Isto significa que Valadão conseguiu centralizar e “monopolizar” o ministério pastoral da igreja por mais de três décadas, o que demonstra, por um lado, que ele é possuidor um carisma pessoal e institucional e, por outro, de competência gerencial e administrativa. Valadão, nesta perspectiva, revela-se um gestor competente e um exímio administrador, apesar de não possuir formação superior no campo da administração de empresas. O carisma de Valadão aliado à sua capacidade gerencial e administrativa fez da IBL uma corporação empresarial, cuja ênfase é a sua inserção no competitivo mercado religioso.
Com esse pressuposto, praticamente toda a produção religiosa da IBL, ritos, liturgias, músicas, coreografias, danças, CD’s, doutrinas, etc, podem ser inseridos no contexto de produção-comercialização-consumo. Apesar de Berger não teorizar a partir da categoria da comercialização, a teoria da produção e do consumo por estar embasada no paradigma da
54 Plano Avançado DT/Lagoinha. Este documento apresenta um plano avançado de Marketing da IBL e da
empresa DT e foi produzido em meados dos anos de 1990.
55 Dados coletados em entrevista realizada em 06 de julho de 2010. Esta entrevista foi feita com o programador
visual e coordenador do portal Lagoinha.com. De acordo com o estrevistado o Conselho Administrativo da IBL atua somente nas pequenas coisas e presta relatórios ao presidente daquilo que foi realizado e implementado.
secularização, conforme abordado e discutido por Berger (1985), coloca a religião dentro do mercado. Neste sentido, é possível situar a IBL como uma das produtoras de bens simbólicos para este mesmo mercado, o que significa que a lógica econômica penetrou e impregnou o interior da IBL, sem descaracterizar, contudo, sua finalidade religiosa. Isto indica que a religião está ganhando espaço, cada vez maior, como produtora de bens simbólicos, mas, ao mesmo tempo, diminuindo a força da religião como produtora do nomos social.
Para se ter uma ideia da junção entre a lógica econômica e a finalidade religiosa na IBL, no dia 18 de outubro de 1995, foi criada a Fundação Oásis56. Esta instituição tem a IBL como sua mantenedora e é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos. A Fundação Oásis (Anexo 03) incorpora todos os trabalhos sociais e de beneficência da IBL, como por exemplo, a Casa das vovós, o Abrigo Pró Criança e a Trigoásis, que atua na área de panificação. “Os produtos fabricados pela trigoásis, além de sustentar os projetos sociais da IBL são comercializados na Tenda da Bênção e na Barraca da Praça da Fonte nas dependências da IBL”57. Este aspecto comercial está se tornando fértil no campo religioso, e, como enfatiza Lísias Nogueira Negrão (2000:59), faz com que se torne visível a penetração da lógica econômica dentro das instituições religiosas.
A Fundação Oásis, além dessa atuação beneficente na IBL, é também responsável por empreender novas ações e administrar parte dos negócios e das empresas da IBL, como por exemplo, o salão de beleza Oásis, o Colégio Cristão de BH e a Pizzaria Oásis. A IBL tem ainda outras empresas como a Seara Livraria, a Rede Super de Televisão e o “Ministério de Louvor Diante do Trono”, sendo estes caracterizados por relações econômico-comerciais.
“O DT quer ser um dos modelos mais bem sucedidos de empresas existentes, independentemente da indústria. Mas, não devemos desanimar. Se perseveramos, no devido tempo e com a ajuda de Deus, iremos colher a nossa recompensa e alcançar nosso objetivo”58.
Muito se tem discutido se as igrejas que ampliam seus negócios, tal como a IBL fez, são ou não igrejas de cunho empresarial ou empresas religiosas. Considerando a dimensão administrativa da IBL, seu desempenho no campo religioso, seu plano de negócios e seu
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A Fundação Oásis é uma instituição de direito privado com autonomia administrativa e financeira, inscrita no CNPJ com o n° 01.030.958/0001-98. Esta fundação atua na área da beneficência e na administração de algumas das empresas criadas IBL.
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Retirado do portal www.lagoinha.com/portal/engine.php. Acesso em 06 de julho de 2011.
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objetivo, conforme especificado acima, de fato, esta organização religiosa pode ser pensada como uma igreja que atua como uma empresa, competindo no mercado religioso. Neste aspecto, o esforço religioso, gerencial e administrativo da IBL é para atingir com eficiência e eficácia os objetivos organizacionais, seja como igreja, seja como empresa, o que certamente a habilita a enfrentar a concorrência no competitivo mercado religioso.
Esse aspecto empresarial e comercial da organização é confirmado por uma matéria publicada pelo portal lagoinha.com que assim expressa: “A IBL atende todos os estados do Brasil, além de outros 244 países do mundo de praticamente todos os Continentes da Ásia, América, África, Antártida, Europa e Oceania”59. O volume de vendas da IBL através do portal lagoinha.com deve ser enorme e por mais que seja destacado que “Todo o lucro das vendas do shopping.com e da Seara Livraria seja destinado a missões da Igreja Batista da Lagoinha”, fica evidente a lógica mercantilista e o também o lucro. Isto indica que a IBL está preparada para competir no mercado religioso com profissionalismo, produtividade e eficiência.
A IBL, identicamente a tantas outras igrejas, tanto pelo lado empresarial quanto pelo lado mercantilista vem atendendo a uma demanda cultural-religiosa que pode ser sintetizada pela adoção de regras comerciais e empresariais. A esse respeito, com a análise acerca da IURD, Campos (1997:175) assinala que a religião está cada vez mais situada no mercado e que as igrejas, para atuarem neste novo e lucrativo espaço, precisam se organizar como verdadeiras empresas produtoras de mercadorias para a grande clientela. Neste sentido, o critério organizador de uma corporação religiosa de caráter empresarial passa a ser a racionalidade, o que conforme Campos (1997:176) faz parte do processo de substituição dos antigos eixos da religião cristã pautados no altruísmo pelos arrojados eixos do mercado em que impera o egoísmo individualista.
No que tange à dimensão administrativa da IBL, sua principal tarefa é cumprir as metas e desenvolver os programas e estruturar os “negócios” criados por Valadão. Neste aspecto, Valadão coordena e gerencia todas as atividades administrativas da IBL, desde a elaboração do planejamento, objetivos e metas da organização até a execução e prática. Nesta perspectiva, foi possível verificar uma forte imbricação entre Valadão, a IBL e a sua dimensão administrativa, pois, em 39 anos de ministério e de gestão, este agente religioso
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Matéria publicada no portal lagoinha.com em 26 de maio de 2010, cujo título é: Notícias da lagoinha. Acesso em 15 de maio de 2010.
desenvolveu uma forma peculiar de administrar uma religião e uma “paróquia”. Isso significa que a administração, a gestão e o gerenciamento da IBL são feitos para dar equilíbrio e sustentabilidade entre os dois pilares em que ela trabalha, isto é, os “bens simbólicos” e os “bens materiais”.