A obra “Um livro de crítica” foi escrita pelo maranhense Frederico José Correia em 1878 e, como o próprio título já revela, o objetivo desse livro é tecer críticas sobre algumas publicações da época e especialmente sobre a obra de Antônio Henriques Leal: o “Pantheon Maranhense: ensaios biográficos dos maranhenses ilustres já falecidos”.
“Um livro de crítica” gerou grande polêmica na época, por isso foi rica em subsídios para as análises desta tese.
Segundo Martins (2009):
Correia demonstra-se indignado com o fenômeno que ele denomina de
coterie, ou, em uma tradução atual, de “panelinha” ou conciliábulo. Como
quer que seja, Correia revela-se o primeiro crítico independente do Maranhão, inimigo público das igrejinhas e compadrios literários até então hegemônicos nas letras locais. O seu Um livro de crítica tem um alvo específico: um grupo de intelectuais sediados no Maranhão que ele reputa como um conventículo de amigos e confrades que praticam o elogio mútuo e monopolizam os mecanismos de prestígio e consagração em sua província. No pequeno mundo literário maranhense da época, feito de conveniências, acordos tácitos e velados sobre a mediocridade alheia, o levante crítico de Correia constitui uma audácia fora do comum que, mesmo nascida de mágoas e ressentimentos pessoais, dá demonstração de uma rara capacidade de realismo e objetividade. Além disso, condena veementemente o habitus, entre os escritores e literatos locais, de submissão intelectual ao lusocentrismo e promoção de falsas vaidades. (p. 650)
Os comentários de Frederico José Correia sobre esses grupos de intelectuais que se autopromoviam, provavelmente, tinham um fundo de mágoa, pois seu nome não consta da obra, apesar de ele ter sido um homem público bem sucedido. Ele foi nomeado prefeito interino de Caxias, cidade do Maranhão, onde nasceu, e deputado provincial por alguns anos; seu nome é citado como um dos poetas do Parnaso Maranhense na antologia local, editada pelo tipógrafo Berlarmino de Matos em 1861, seguindo o modelo do Parnaso brasileiro de Pereira da Silva.
A hipótese da mágoa se reforça, pois Correia concorda com Leal na inclusão e elogios feitos a um dos biografados.
Frederico José Correia foi o primeiro a tecer críticas sobre os feitos de Souzinha, citados por Leal, chegando a chamá-lo de charlatão, muitas vezes usando um linguajar de deboches, ironias, etc.
Quem ler o Pantheon e não souber a falsa sciencia que reina neste paiz, o que muito facilita a impostura litteraria, concluirá que o dr. Joaquim Gomes de Souza foi um prodígio de intelligencia, um dos maiores genios que tem produzido a humanidade, o primeiro sabio que tem tido o Brasil e um dos maiores que tem visto o mundo! Mas esta illusão não pode durar muito para quem attender á falta absoluta de provas escritas. (CORREIA, 1878, p. 138)
As críticas feitas por Correia sobre a genialidade de Souzinha, descritas no Pantheon, fundamentam-se na ausência de livros que possam comprovar suas capacidades, afirmando que outros sábios como Newton e Laplace, bem mais jovens que Souzinha, já haviam produzido grandes contribuições para a Ciência.
Frederico José Correia (1878) apresentou em destaque, por meio de questionamentos, dois dos seus pontos de vista, fundamentando ainda mais as suas críticas e indagando se Joaquim Gomes de Souza foi autor das memórias que apresentou às academias europeias e se, na possibilidade de ser verdade o que ele descobriu e escreveu, essas descobertas poderiam ser de outros, apenas repetidas por Gomes de Souza, ou apresentavam avanços significativos para a Ciência. Na opinião de Correia, Souzinha não tinha capacidade para descobrir tais dados matemáticos presentes nas memórias.
As justificativas dadas por ele sobre esses questionamentos estão vinculados ao fato de as memórias de Souzinha terem sido recusadas para publicação, na França, na Inglaterra e na Alemanha.
Correia criticou a publicação, na Alemanha, da obra: “Anthologie Universelle.
Choix des meilleures poésies lyriques”, que foi uma coleção de poesias de 17 nações
diferentes na língua pátria; ele evidencia que seria impossível uma obra dessa ser aproveitada por alguém, pois essa pessoa deveria dominar 17 idiomas, bem como afirmou que não houve organização na obra, nem todas as poesias são do gênero lírico e não há uma justificativa para a escolha dessas poesias. E observa, ainda, que não há universalidade nas poesias, pois ele não colocou nenhum poeta do Oriente, da América do Norte e da América do Sul; apresentou poetas brasileiros como se fossem poetas portugueses.
Em verdade, o que é a Anthologia? [...] O unico trabalho que ella custou foi colligir e copiar: trabalho inglorio para qualquer homem vulgar, quanto mais para um sabio da polpa do dr. Souza! E ainda assim, é preciso notar que elle foi nisso ajudado por outros, [...]. A Anthologia offerece mais este ponto, importante, á resolver. Sabia Souza, o russo, o polaco, o sérvio, o bohemio, o maggyar, o hollandez, o dinamarquez, o sueco e o grego moderno? É possivel que algum bolonio o affirme, mas é difficil que alguem o acredite. Elle sabia tanto essas linguas, como eu as sei [...]. (Correia, 1878, p. 142-143)
“Um Livro de Críticas” leva o leitor a perceber fatos e conceitos que eram valorizados no século XIX, bem como o que era importante para ser considerado gênio em um período em que grande parte da população era analfabeta. Saber uma língua estrangeira, publicar algo nessa língua, fazer cursos extraordinários, tudo isso poderia fazer alguém se tornar muito importante para a nação, pois uma pessoa com esse perfil contribuía para aumentar a autoestima do povo brasileiro que era explorado por pessoas estrangeiras.
Martins (2009) reforça as críticas de Correia quando argumenta que:
No caso de Liouville, a justificativa oferecida por Gomes de Sousa é a precariedade de sua saúde. O tom, entretanto, de seu texto endereçado ao colega francês, além de queixume, é o de uma chantagem sentimental muito bem escrita no idioma de seu confrade. O fato é que após essa justificativa apresentada pelo matemático brasileiro, Liouville realiza a publicação das duas notas no Compte-Rendus de l’Académie des Sciences de Paris, [...]. Todavia, o texto transparece, ao longo de sua exposição de motivos, sobretudo no final, que a única preocupação de Gomes de Sousa era ver finalmente o seu nome estampado no periódico daquela instituição. Ademais, o tom de chantagem empregado por Sousa fornece a base para essa suspeita. (p. 663)
A citação anterior se refere à forma como Souzinha escreveu a Liouville, dizendo-o para que apressasse a comissão responsável por avaliar seus trabalhos enviados à Academia de Paris, usando um tom de intimidação relacionado a seus problemas de saúde. Convém destacarmos que, em um meio científico, não se admite esse tipo de pressão.