Conforme já discutimos, a ‘política neodesenvolvimentista brasileira’ (BOITO & BERRINGER, 2012) tem gerado grandes disputas territoriais e tem fomentado significativas transformações ambientais fazendo emergir novas realidades no campo. Frente à necessidade de tecer as linhas de conexão entre os desdobramentos da relação capital x trabalho (THOMAZ JÚNIOR, 2002) e o processo de modernização agrícola - e mediante a emaranhada teia de conflitos na Chapada do Apodi -, buscaremos analisar como esse processo tem interferido na organização da produção camponesa e de que forma acarreta impactos relativos ao ambiente e, consequentemente, aos/as trabalhadores/as.
Na medida em que identificamos diferentes interesses em torno do uso comum dos bens naturais, vimos que, de um lado, estão os interesses das grandes corporações (pautadas pela mercantilização da natureza). De outro, as comunidades tecem disputas de sentidos e buscam uma permanente reapropriação dos territórios. Essas disputas apresentam questões problematizadoras que nos instigam a conhecer, a partir das experiências das mulheres, de que forma os distintos interesses do agronegócio e do campesinato tecem suas relações com o ambiente.
Tendo como pano de fundo o olhar sobre o modelo de desenvolvimento e as pressões estabelecidas pelos grandes conglomerados econômicos, percebemos que a acumulação/reprodução do capital também se faz mediante a exploração e a destruição da biodiversidade. A Chapada do Apodi é palco desse cenário. Por trás da aparência moderna do agronegócio, a exploração descomedida da natureza e dos(as) trabalhadores(as) sustenta a lógica de acumulação via territorialização do capital no campo. Gera, ainda, o que alguns autores chamam de destruição biológica e cultural da natureza:
O agronegócio é devastador. Imensas áreas de florestas e do cerrado estão sendo ilegalmente desmatadas, secando nascentes e mananciais, sugados pelo ralo das monoculturas, pastos de capim, carvoarias, mineradoras e madeireiras. Os agrotóxicos, despejados por aviões e tratores, estão contaminando solos, águas, ar e as plantações camponesas, causando doenças e mortes (CANUTO, 2004, p. 10).
Essa é uma “velha”/nova realidade que tem assolado o campo brasileiro, especialmente as Comunidades da Chapada. De acordo com Dona Judite, tal processo tem como uma de suas bases a ambição:
Quem foi que destruiu? Foi o homem. Devido o que? Devido à ambição. Quando nós plantávamos, o cercado do meu pai era aqui na frente aí aonde tem essas bananas, daí meu pai ia e nós íamos de pé para plantar e colher. Todos os anos ah, tá chegando novembro, todo mundo agoniado, fazendo aquelas coivaras, para plantar. Se plantava, colhia... ninguém tem mais esse gosto, não. Elas (as empresas) destruíram tudo. Quando chega o inverno chega me dá uma tristeza!.. Não tem mais onde eu plantar nem um quilo de feijão. (Judite)
Na Chapada do Apodi, as consequências já são perceptíveis pelo grau de homogeneização da paisagem, pela contaminação da terra e da água, pela poluição do ar e pelos impactos à saúde e à soberania alimentar das famílias.
As pesquisas realizadas pelo Núcleo Tramas entre os anos de 2007 a 2010, por exemplo, apontaram essas questões e são referendadas pelas mulheres quando estas relatam os impactos ambientais do agronegócio nos seus territórios e lembram como eles geraram processos de desigualdades ambientais, perceptíveis pelas evidências da apropriação material do território.
De acordo com Carneiro, Rigotto & Pignati, (2012), são exemplos disso: a concentração de terras, a imposição da monocultura, a introdução da mecanização, a informatização, a biotecnologia, a fertilização química intensiva do solo e os agrotóxicos. Tudo isso impacta de forma desigual as populações camponesas, que ficam expostas aos riscos e aos danos ambientais desse modelo caracterizado como agroquímico dependente.
5.2.1 Impactos na Água
Em relação à água, os elementos centrais que desvelam a problemática da contaminação mostram a perda da autonomia no acesso e no controle sobre ela. Nesse sentido, a contaminação se constitui como uma das maiores expressões de violência desse modelo na vida das mulheres da Chapada. Isso ocorre porque, na compreensão das mulheres, a água tem um importante significado para suas vidas no cotidiano.
Sophia afere que os fios que tecem a trama dos agrotóxicos em relação à contaminação ambiental e aos impactos à saúde foram diagnosticados, em primeira instância, pelas mulheres da Comunidade.
Em seu depoimento, ela denota que, antes mesmo de se falar em pulverização aérea e de problemas com venenos, houve um surto de alergias e problemas de coceiras na pele que atingiram várias pessoas, especialmente, as crianças.
Tece com o fio da sua própria história o problema da contaminação humana por agrotóxicos na Chapada, vez que ela mesma foi vítima e, a partir daí, desencadeou todo o processo de denúncia e de luta do seu pai contra a contaminação da água.
O fio da meada, então, inicia-se em 2004, quando sofreu, a partir de problemas de coceiras na pele, uma intoxicação grave. A mãe a levou para o hospital. Na época, os médicos recomendaram remédios e injeções, mas o quadro só se agravava. Como os medicamentos não resolviam o problema, outras mulheres alertaram a sua mãe de que a doença poderia vir da água:
Aí disseram que podia ser a água e que mamãe fervesse a água para eu tomar banho. E mesmo fervendo, não dava jeito. Aí teve uma época que eu passei a tomar banho com água mineral. Aí foi que foi amenizando, amenizando, até eu melhorar. Isso foi na mesma época que começou a morte dos peixes, dos animais. Aí por conta disso que aconteceu, foi a primeira análise da água que foi feita. O meu pai pegou essa água e levou eu me lembro, eu acho que foi para o Centec na época e quando foi feito disseram que a água estava contaminada. (Sophia)
Por parte das famílias, portanto, começa a descoberta da contaminação da água consumida, que vinha pelo canal do perímetro que abastecia a comunidade.
Sophia relata que essa situação familiar desencadeou a busca de seu pai pelas respostas ao problema das intoxicações das pessoas. Ele chegou a pressionar os órgãos e descobriu que a contaminação ocorreu por um “acidente” com um funcionário de uma das empresas do agronegócio: o funcionário foi abastecer o trator com veneno para pulverizar a plantação e, nos procedimentos, colocou primeiro o veneno no tanque do trator e, depois, a mangueira para abastecer com água do canal. Todavia, deitou-se no trator e dormiu. O resultado, foi que o trator encheu e começou a retornar a água - já com veneno - para a piscina que abastecia a comunidade:
Aí foi que estourou a bomba (notícia) que a primeira contaminação foi feita no trator, não tinha nem avião ainda. Aí pronto, aí contaminou e a sorte é que não morreu ninguém, mas muita gente adoeceu com problemas na pele. Aí pronto, daí já foi uma luta. Ele [Zé Maria] começou a ir atrás dessas coisas quando o resultado deu positivo e o cara disse o que tinha acontecido e tudo. Aí parece que eles tiveram que secar a piscina. Nisso, a empresa soube da poluição, mas não fez nada. Só depois que a análise chegou já tinha passado uns quinze dias ou mais o pessoal usando essa água, aí interditaram a piscina, lavaram, secaram todinha. Aí pronto, começou a ter fiscalização e meu pai começou a ver vidros de venenos nas piscinas, os sacos de adubo, tudo jogado. (Sophia)
Figura 17. Mortandade de Peixes Figura 18. Coleta de Resíduo Tóxico Fonte: Acervo Núcleo Tramas
Este depoimento indica que o alarme dado pelas famílias no que tange ao problema da contaminação das pessoas por agrotóxicos se relaciona ao modo como os(as) camponeses(as), em seu devir histórico, desenvolvem conhecimentos tecidos na relação com o ambiente natural (PORTO- GONÇALVES, 2006). Revela, também, uma concepção de ambiente que não se separa da sociedade.
Dessa maneira, as mulheres, atentas aos sinais do corpo adoecido, fizeram “pontes” com o uso da água e alertaram para as possíveis reações que uma água de má qualidade pode trazer ao organismo, especialmente, de crianças. Foi a experiência prática que as levou ao nexo entre adoecimento e contaminação, mesmo desconhecendo, até então, os impactos dos agrotóxicos à saúde.
O caráter predatório do modelo, portanto, já é perceptível para as mulheres, que veem o enriquecimento de alguns à custa da exploração da natureza e dos(as) trabalhadores(as).
As transformações foram apontadas e tiveram repercussão para a própria empresa, fruto, segundo Sophia, de uma reação de negação da natureza. Da água vista e sentida como bem comum à água degradada e à vida ameaçada, a argumentação de Dona Judite se constrói. Com base na comparação entre o vivido no passado e a ameaça ao presente, ela relata:
Nós tínhamos poços profundos aqui e a gente bebia água limpa. Fomos nascidos e criados bebendo essa água sem contaminação nenhuma; nós podíamos beber ela sossegada. Hoje nós não temos mais esse gosto! Se quisermos beber uma água boa, até porque tenho dúvida: eu sei se essa água não tem contaminação nenhuma também como o povo fala? É água de nome Cristalina, da marca Apodi. E eu sei lá de onde ela vem, como ela vem, se não tem contaminação também? A nossa é uma água boa, é uma água boa sim! Mas ninguém pode beber, né? Ninguém pode beber e isso ninguém sofria. (Dona Judite)
A “perda do gosto” é um elemento que tem perpassado a experiência das mulheres e que demonstra aspectos de como as transformações estão imbricadas em diversas esferas da vida camponesa, tanto em relação ao apego com a terra e às vivências comunitárias quanto em relação ao trabalho e às relações sociais.
No caso específico da questão ambiental, isso se reflete especialmente na relação com a alimentação e a água. A qualidade e o medo da contaminação (“beber ela sossegada”, “comer alimento sadio”) são expressões que se referem a essas transformações e a como as mulheres e as comunidades como um todo passam a enxergar esses problemas.
Nos últimos anos, na região, debates públicos vêm sendo organizados e lutas sociais vêm sendo protagonizadas pelas comunidades e pelos movimentos sociais, o que tem gerado uma apropriação desses problemas. O aquífero Jandaíra, por exemplo, tem sido foco dessa questão, sobretudo pelas formas de utilização da água e pela sua contaminação.
Figura 19. Carste do Aquífero Jandaíra. Fonte: COGERH, 2013.
Assim, percebemos que a ameaça à soberania hídrica é uma das marcas da modernização agrícola na Chapada do Apodi, visto que, lá, o agronegócio passou a controlar não só o fluxo da água, mas instituiu a contaminação por produtos químicos. Nesse sentido, por exemplo, está a pesquisa feita pela COGERH entre os anos de 2008 a 2011, a partir do monitoramento de poços profundos.
Figura 20. Localização dos Poços Monitorados. Fonte: Cogerh, 2013
Figura 21. Agrotóxicos identificados nas amostras de água subterrânea entre os anos de 2008 a 2011. Fonte: Cogerh, 2013
Nas amostras colhidas, foram identificados 16 tipos de agrotóxicos na água. Três tipos presentes na maioria das amostras foram a Atrasina (herbicida fabricado pela Nortox, de classificação toxicológica III, média toxicidade e potencial de periculosidade ambiental II, sendo perigoso para o ambiente. É bastante utilizado no cultivo de cana, sorgo e milho11); a Clotianidina (inseticida de classificação toxicológica III, utilizado nas plantações de algodão, feijão, milho e soja12) e o Imidacloprido (inseticida de classificação tóxicológica II, altamente tóxico, utilizado em diversos cultivos especialmente de algodão, feijão, milho, soja, cana)13.
11
Fonte: www.adapar.pr.gov.br. Acesso em 04 de setembro de 2014.
12
Fonte: http://www4.anvisa.gov.br/base/visadoc/CP/CP[5291-1-0].PDF Acesso em 04 de setembro de 2014.
13
Fonte: http://www.nortox.com.br/imagens/produtos/imidacloprid_bula.pdf.
175
Tabela 3. Amostra de Agua subterrânea contaminada por Agrotóxicos – 2010 e 2011
Fonte: Cogerh, 2013
Os dados mostram a contaminação como resultado desse modelo que passa a impor às comunidades uma “alternativa infernal”: conviver com a água contaminada, adentrar na lógica da mercantilização e pagar pela água mineral de qualidade duvidosa ou se contentar com a falta dela. O que passa no imaginário dessas mulheres ao ter que obrigatoriamente “conviver com ideia de beber, cozinhar, comer, banhar e lavar” com essa água contaminada?
Figura 22. Água para consumo contaminada. Desenho de Gracinha Xavier. Cedido à pesquisa
A incerteza passa a reger o imaginário das mulheres sobre aquilo que é considerado como um bem para a sustentabilidade da vida, a água. A água representa a facilitação das atividades no seu cotidiano e o medo da ameaça de
viver sem ela é desafiante. O sonho passa a ser, então, a possibilidade de poder ter acesso a uma água de qualidade. Nesse sentido, a luta pela adutora tem sido uma das grandes bandeiras das comunidades da Chapada. As mulheres, mais uma vez, estão à frente desse processo pressionando e debatendo com os órgãos públicos essa questão. Os espaços de diálogo e pressão política são as assembleias gerais que ocorrem a cada três meses e que são organizadas pela Cáritas e as pastorais sociais da Diocese de Limoeiro do Norte.
Além disso, há uma preocupação com o uso indiscriminado da água. Nesse aspecto, existem duas questões importantes para nossa análise. A primeira diz respeito ao volume de água que é utilizado na produção da fruticultura irrigada e no abastecimento à população de modo geral. Isso nos permite problematizar a ampliação da desigualdade de acesso. De que forma?
Em 2008, a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos - Cogerh apresentou os dados relativos ao volume de água extraído do aquífero Jandaíra. Nesse período, a extração foi superior à capacidade de recarga e o órgão estimou um déficit de 4 milhões de m³ ao ano.
Os dados também apresentam uma situação resultante, nos últimos anos, do aumento do número de poços profundos na Chapada. Em 1999, foram cadastrados 1.398 poços. Desses, 1.174 estavam em propriedades particulares e apenas 224, em locais públicos.
Em diálogo com moradores da Chapada, estes reconhecem que quem tem dinheiro, tem acesso à água. Segundo o que relatam, as empresas podem cavar poços mais profundos. Os moradores e os pequenos produtores, entretanto, veem seus poços secarem e sofrem os impactos da seca que os atinge atualmente. Em movimento contrário, a tabela abaixo, com dados da Cogerh, aponta-nos o volume de água consumido pelas empresas no ano de 2012.
Tabela 4. Volumes de Água Explotadas por Uso em 2012
Fonte: Cogerh, 2013
O quadro acima, portanto, revela a desigualdade de acesso à água do aquífero ou, mais precisamente, a desigualdade de acesso entre empresas e abastecimento humano. Ao mesmo tempo, verificamos, conforme indica o gráfico abaixo, a relação disso com a diminuição do volume de água do aquífero. Isso, por sua vez, contribui com a situação de escassez de água na Chapada, fato descrito pelos(as) moradores(as) com a secagem dos poços pertencentes aos(às) camponeses(as) que trabalham na agricultura familiar.
Figura 23. Nível de Agua do Aquífero Jandaíra 2009 - 2013. Fonte: Cogerh, 2013
Para além da desigualdade de acesso, outras questões podem ser problematizadas em relação ao uso indiscriminado da água. Nos seus relatos, as mulheres fazem uma ligação entre sua realidade local e a consciência ambiental do problema global:
Uma dona de casa amanhece o dia aguando o terreiro, aguando a estrada, aguando não, lavando a estrada sem necessidade e se a gente for reclamar: não faça isso, enquanto a gente está desperdiçando agua aqui, muita gente está morrendo de sede em outros países. Eles dizem: Ah! A água que eu lavo aqui não vai servir para eles lá?!.. É o que dizem. A ignorância chega a esse ponto. Tem gente que diz assim: Eu não estou pagando? Eu gasto do jeito que eu quiser. Ah! Mas isso aqui há dez anos vai faltar. Para que que a gente quer dinheiro, senão pra comprar? Aí em dez anos você vai ter o dinheiro, mas não vai ter como comprar porque não vai ter de jeito nenhum. A gente está vendo agora a comunidade de Lagoinha comprando água, não é? Quinhentos litros de água por vinte reais, trinta reais. E ainda tem gente que a Defesa Civil vai lá, enche e ainda agua terreiro e ainda briga com a Defesa Civil quando demora a ir lá colocar água. Infelizmente tem isso. As pessoas são incompreensíveis. É como se fossem todos analfabetos, como se ninguém nunca tivesse ido à escola! Mas o pior é que tem gente que tem muito estudo e que faz essa situação acontecer. (Mirian)
Ao apontar a responsabilidade das pessoas sobre o problema do gasto de água, Mirian, através de um exemplo concreto de como a utilização da água pode acarretar problemas, demonstra uma preocupação com o futuro do bem e o cuidado que ele merece.
Esse depoimento nos faz pensar sobre o grau de consciência ambiental que perpassa a relação do campesinato com a natureza. Aponta, inclusive, as interferências que já atingem o imaginário da população de que o “dinheiro pode comprar tudo” (Mirian), um mito frente à possibilidade da escassez de água na Chapada.
Mais do que apresentar o risco, o exemplo que elucida a conexão entre o “poder comprar, mas não ter a água” demonstra a forma de relacionar os diferentes sentidos atribuídos à percepção da água (como bem a ser cuidado ou mercadoria). Essa é talvez uma forma de perceber as diferentes visões sobre o ambiente estabelecidas na (des)ordem do capital sobre a natureza:
Só que agora estou com maior medo porque dizem que vai faltar água, o Castanhão está secando. Ainda hoje eu estava dizendo à Rita: meu Deus, eu tenho pena das minhas plantinhas que vão morrer tudo. Porque quando chegar aqui com carro-pipa, eu não vou tirar água do carro-pipa pra aguar uma planta. (Rita Maria)
Inferimos, assim, que o medo move as mulheres na luta para visibilizar a problemática da água. Isso está explicito na fala da Rita Maria e, de
certa forma, é a expressão do que é divulgado permanentemente, das notícias que circulam sobre a água no cotidiano da comunidade e de seus sujeitos.
5.2.2 Impactos à produção
Outra face da modernização que impacta os camponeses e as camponesas da Chapada diz respeito à racionalidade econômica baseada em práticas destrutivas e poluentes. Essas práticas geram prejuízos econômicos, convivência com a “alternativa infernal” e “mobilidade do capital”. Traduzem, também, o processo de desigualdade ambiental. Esse processo nos permite mostrar a penalização e vulnerabilização de alguns grupos sociais (impactados de forma desigual por esse modelo).
A constatação do prejuízo de tal modelo para a produção camponesa é relatada a partir do fato ocorrido no quintal da dona Luana. Ao apresentar o problema da pulverização aérea de agrotóxicos no plantio de banana ao redor de seu sítio, ela fala do prejuízo causado pela morte de uma quantidade significativa de animais:
Os bichos da gente morria, as galinhas. Muitas, muitas. Só de uma lapada só, entre galinha, peru, capote e pato, morreram umas trezentas cabeças, só minha. Eu tinha demais, minha filha. Um saco de milho só era três dias. Era muita, muita, muita. Muito capote. Só capote morreu sessenta de uma lapada. Passava os aviões aí matava porque pingava dentro de uma lagoa que tinha aí com água aí morria, morreu foi muito. É assim, minha filha, a nossa vida. (Dona Luana)
Para dona Luana, as empresas só trouxeram prejuízos com a contaminação. Esta gerou a morte dos bichos; provocou o adoecimento de muita gente que mora ao redor das plantações; prejudicou a terra com os agrotóxicos e, de modo consequente, acarretou a contaminação dos alimentos.
A elucidação dessa fala traduz a ideia de alternativa infernal (PIGNARRE e STENGERS, 2005), no sentido de percebermos que, depois de vulnerabilizadas com a perda da terra e a falta de políticas públicas para a agricultura familiar e camponesa, as famílias são obrigadas a “conviver” com esses problemas.
Pignarre e Stengers (2005, p.40) denominam como “alternativas infernais” situações que se caracterizam pela apresentação pública de uma série de opções ou alternativas, todas elas invariavelmente ruins; pelo mecanismo circular em que as tentativas de se buscar soluções inovadoras apenas agravam o problema e pelo efeito de poder que esse tipo de enunciado produz sobre as pessoas, que sentem-se incapazes de agir e, como resultado, submetem-se, resignam-se, 180
deprimem-se ou simplesmente produzem denúncias que ecoam no vazio, incapazes de reverter o mecanismo que as paralisa (LISBOA; BARROS, 2008, p. 370).
Dona Judite também interliga a problemática da contaminação com a forma de produzir trazida pelas empresas produtoras de frutas, milho e soja, uma vez que estas utilizam uma grande quantidade de veneno para produzir em grande escala. Ela reconhece a vantagem desse tipo de empreendimento, que traz o emprego como solução para as famílias. Entretanto, já prognostica que, nessa forma de utilização da natureza (até seu limite), a tendência é que tais empresas se retirem e deixem a população apenas com os problemas,