Além das capacidades de colheita e transporte, bem como o PUI, outros fatores interferem no sequenciamento das frentes de colheita. Dentre estes fatores pode-se citar: Flutuações na capacidade de processamento da indústria.
Comportamento da entrega de fornecedores. Liberação de áreas de vinhaça.
Áreas com risco de incêndio. Áreas com risco de inundação.
Áreas com solos com baixa retenção de água. Trafegabilidade das estradas.
2.5.1 Flutuações na capacidade de processamento da indústria
Paiva e Morabito (2009, 2011 e 2013) modelaram o planejamento da produção industrial de açúcar, álcool e energia elétrica como um problema de seleção de processos. De
acordo com os autores, cada um dos possíveis processos produz um mix de produtos finais de acordo com a qualidade da matéria-prima e gargalos de processo, já que é um processo divergente, ou seja, são obtidos vários produtos simultaneamente a partir de uma única matéria-prima. O modelo apresentado maximiza a margem de contribuição ao lucro, determinando a quantidade de matéria-prima processada e os processos selecionados no período, com base na previsão de qualidade da matéria-prima, condições de comercialização no período, dentre outros.
Sendo assim, dependendo do plano industrial, pode haver épocas do ano em que, dado um nível de qualidade, sejam desejadas quantidades diferentes de matéria-prima para obtenção de maior lucratividade. Então, as áreas com menor potencial de colheita e transporte podem ser colhidas nas épocas de menor demanda por quantidade de cana e as de maior potencial, nas épocas de pico de processamento industrial.
2.5.2 Comportamento da entrega de fornecedores
O comportamento de fornecedores que entregam cana na esteira da usina é bastante oportunista. Se não são regrados, concentram seu esforço de colheita na época de pico de açúcares, uma vez que a matéria-prima é remunerada de acordo com sua qualidade, conforme Piewthongngam et al. (2009). Estes autores propuseram uma abordagem que interfere no plano de cultivo dos produtores na Tailândia. O ganho potencial estimado pelos autores seria de 23% da produção.
No Brasil, as usinas buscam colocar cotas mensais, semanais e diárias baseadas no total de cana do fornecedor. Estas cotas dosariam a entrega do fornecedor uniformemente durante o ano. Entretanto, esta estratégia é mais difícil de ser implementada em regiões em que há uma concorrência mais acirrada entre as usinas. Nos últimos anos a Conselho de Produtores de cana-de-açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (CONSECANA), órgão que regulamenta a forma de pagamento da matéria-prima em vários estados do Brasil, propõe um pagamento por teor de açúcares relativo ao período. Outros métodos de pagamento de matéria-prima baseados em sua qualidade também têm sido propostos na literatura (LEJARS et al., 2010).
Por mais que se pense em mecanismos para inibir este comportamento oportunista, esta é uma questão bastante conflituosa. Sendo assim, a definição das frentes de colheita em estudo deve levar em conta que a entrega de fornecedores é variável durante o ano. Dessa forma, quando ela é alta, a entrega realizada pela operação da usina deve ser menor e vice-versa. Assim, como no caso da demanda industrial, em época de maior entrega
de fornecedores, a operação da usina deve buscar a colheita de áreas com menores potenciais de produção de colheita e transporte.
2.5.3 Liberação de área de vinhaça
A vinhaça é um subproduto direto da produção de álcool em usinas de cana-de- açúcar. Para cada litro de álcool são produzidos aproximadamente 13 litros de vinhaça, para níveis de diluição e qualidade da matéria-prima padrão. Devido ao seu potencial hídrico, bem como à sua riqueza em nutrientes como carbono orgânico e potássio, a utilização deste subproduto por meio de fertirrigação dos canaviais vem sendo largamente empregada para a obtenção de ganhos de produtividade agrícola (DE VASCONCELOS et al., 2010; SINGH et al., 2007).
A aplicação da vinhaça na lavoura é realizada nos períodos pré-emergente e emergente por meio de aspersores, gotejadores e pivôs centrais. Os benefícios de sua aplicação estão limitados a níveis máximos de concentração de nutrientes, determinado pelos órgãos reguladores de acordo com o estado de saturação do solo. Uma vez que estes limites forem extrapolados, a vinhaça se transforma em contaminante do solo penalizando o ambiente e onerando a cadeia produtiva.
Dessa forma, a aplicação eficiente da vinhaça deve considerar o sincronismo entre o ritmo de produção de vinhaça pela usina e o ritmo de aplicação na lavoura. Cabe ressaltar que a composição da vinhaça é dependente do processo industrial, bem como das características da matéria-prima. Se o mix de produção possui uma proporção maior de açúcar, a vinhaça tende a ser mais concentrada, devido à produção de álcool a partir do mel final, subproduto do processo de açúcar. Um processo adicional de concentração de vinhaça vem sendo aplicado para baratear o transporte ao campo (PARNAUDEAU, et al., 2008). Sendo assim, este sincronismo também depende da composição da vinhaça produzida. No planejamento de colheita, deve ser prevista a colheita gradual de áreas onde a vinhaça possa ser aplicada (JENA; POGGI, 2013). Da mesma forma, a definição das áreas de colheita deve levar em conta esta condição.
2.5.4 Áreas de risco de incêndio
Incêndios acidentais são eventos bastante temidos pela equipe agrícola de usinas por vários fatores, como: o dano ambiental, a antecipação da colheita de áreas com canavial novo ou com tipo de variedade inadequado, a perda de qualidade devido ao elevado tempo entre queima e colheita, a perda do canavial naquela safra propriamente dita e,
finalmente, a ruptura da logística de colheita, devido a desvios da frente para processar a cana queimada. Sendo assim, especialmente em regiões mais secas, são adotadas estratégias para acelerar a colheita de áreas de risco de incêndio no período chuvoso, para que o combustível do fogo (i.e., a cana) no período seco seja reduzido.
Estas áreas de risco são regiões próximas a estradas de grande movimentação, de cidades, dentre outras. Além disso, em locais com grandes concentrações de cana, são feitas barreiras contra o fogo, colhendo-se faixas de cana, formando corredores de isolamento com menor quantidade de matéria seca. Com isso, busca-se reduzir a área afetada por incêndio acidental. Em áreas com risco de incêndio a colheita deve ser forçada em janelas de tempo antes do acúmulo de matéria seca.
2.5.5 Áreas de risco de inundação
Este é o caso contrário das áreas relatadas no item anterior. Em locais onde há tendência da umidade mudar substancialmente a plasticidade do solo, deve-se evitar a colheita no período mais chuvoso, para evitar danificar o canavial, os equipamentos de colheita, compactar o solo e reduzir o rendimento de colheita. Nestas áreas deve-se forçar a colheita em janelas de tempo no período mais seco.
2.5.6 Áreas de solo com baixa capacidade de retenção de água
Nas áreas com baixa capacidade de retenção de água e solos com composição mais arenosa, é desejável que a cana seja colhida no período mais chuvoso, em que a umidade residual do solo seja suficiente para suprir as necessidades fisiológicas da planta até a sua emergência, período mais crítico ao seu desenvolvimento. Novamente, nestas áreas deve-se forçar a colheita em janelas de tempo fixadas no período mais úmido.
2.5.7 Trafegabilidade das estradas
Nas épocas mais chuvosas, a manutenção das estradas não pavimentadas é mais complexa pelo fato de a enxurrada levar os agregados do solo e formar valetas, dentre outros fatores. Sendo assim, é desejável que, no período mais chuvoso, sejam colhidas áreas cujo escoamento da produção aconteça em um sistema viário com maior percentual de estradas pavimentadas. As janelas de tempo também devem ser ajustadas para que atendam a esta condição.