Esta tese compartilha dos estudos do projeto de pesquisa da linha de
Jornalismo e Sociedade, Jornalismo de Hibridação e criação de gêneros midiáticos76, além de bolsas de produtividade do CNPq: A ideia do pós-jornalismo (2010 - 2013), O
jornalismo como teoria democrática (2006 - 2010), Jornalismo Institucional: como o
terceiro setor pauta a mídia (2003 - 2006). Na última década, o PPGFAC/UnB tem desenvolvido estudos que reconhecem a ampliação do número de atores em relação ao processo de produção da notícia, além do crescimento do número de práxis segundo a perspectiva de hibridização (característica também é perceptível nos prêmios).
71 Pontos de contato é uma expressão que Sousa (2003) utiliza.
72 Perspectiva de democracia representativa e o jornalismo como cão de guarda, quarto poder.
73 Perspectiva de democracia participativa e o jornalismo como instrumento de promoção da cidadania. 74 Questão das altas e baixas em jornalismo com modelos deterministas que instauram contextos (Pós- Objetividade) e posteriormente são relativizados por modalidades flexibilizantes (Pós-Sujeito, como o Jornalismo Público na ação social e o Novo Jornalismo na narrativa).
75 Apêndice 2 com o inventário de pesquisas do PPGFAC/UnB sobre o assunto.
76 Trata-se de uma parceria internacional coordenada pelo prof. Denis Ruellan (Universidade de Rennes, França), prof. François Demers (Universidade de Laval, Quebec, Canadá). No Brasil, o projeto integra 25 pesquisadores no Brasil.
Magno (2006) já tinha notado mudanças significantes, a partir do Prêmio Esso, na tipologia de Jornalismo Investigativo, a julgar pelos vencedores da premiação, em 51 anos (1955-2006). Para a autora, não há mais reportagens sociais, a julgar pelo gênero de reportagem. Para ela, o marco final dessa prática pode ser estabelecido na cobertura sobre o assassinato de Chico Mendes, em 1989, que teve matéria ganhadora na principal categoria da profissão, mas também sendo a última grande reportagem de cunho social. Em sua pesquisa, ela demonstra que apenas quatro exceções não se enquadram neste diagnóstico. Sendo a ênfase das reportagens premiadas pelo Prêmio Esso (ou o "único tema premiado na categoria principal") a corrupção política no Legislativo, no Executivo e no Judiciário (concentrada em São Paulo, Rio e Brasília). A autora trabalha a questão de a reportagem ter se especificado no país como um gênero tipicamente denuncista.
Nascimento (2007) amplia essa perspectiva ao tratar da cobertura de eleições entre 1989 e 2002. O autor percebe o seguinte: o que se julga ser a tipologia de
Jornalismo Investigativo (resultado de investigação feita pelo próprio jornalista) se mostrou ser Jornalismo sobre Investigações: dedicado a divulgar informações de investigações feitas por autoridades oficiais (polícia e ministério público). A análise levava em conta as três maiores revistas semanais de informação do país: Época, IstoÉ e
Veja e a dependência do Jornalismo Investigativo das fontes institucionais, fazendo com que essa tipologia se alimentasse da informação gerada no ambiente organizacional.
Sobre essa aproximação entre o Jornalismo Investigativo e Jornalismo
Institucional, Oliveira (2008) estabeleceu uma categoria de valor-notícia
(Agendamento) e valores-sociais (Contra-Agendamento) no que ele chama de
Agendamento Convergente (Co-Agendamento). Esse diálogo e ponto de contato entre esses dois paradigmas incorre em novas práticas organizacionais que, para o autor, desenvolvem uma técnica de Jornalismo Investigativo que une (converge), numa mesma sugestão de pauta, dois padrões de valor-notícia. Para o autor, os valores-notícia impulsionam os valores-sociais, uma vez que ambos são indivisíveis, já que habitam simultaneamente o mesmo acontecimento, tendo como efeito um novo paradigma do “fazer jornalístico” e “refuncionalização” dos valores-notícia.
Ampliando a visão sobre o ponto de contato entre esses dois paradigmas, Mora (2008) estudou o Concurso Tim Lopes de Investigação Jornalística, prêmio ligado a um novo modelo de valores e procedimentos com intuito de fomentar a reportagem, no sentido da tipologia do Jornalismo Investigativo. Para a autora, a premiação inverte a
lógica do reconhecimento por produto77, característica dos prêmios de jornalismo78, e passa a investir no processo, por meio do apoio técnico e financeiro aos vencedores, para que desenvolvam a investigação proposta. Neste sentido, trabalha com o compromisso de que as matérias decorrentes dessas pautas sejam publicadas, por meio de uma ampliação dos atores capazes de influenciar na produção da notícia (compartilhando a prática da reportagem investigativa para além das redações). Deste contexto, surgem os desafios e possibilidades de hibridização entre tendências as
Agenda-Setting (valores-notícia) e Social-Setting (valores-serviço), relativas aos paradigmas de Jornalismo Investigativo e Jornalismo Institucional.
Essa perspectiva entre os pontos de contato do Jornalismo Investigativo e
Jornalismo Institucional é trabalhada em Silva (2003, 2006, 2007), orientador desta pesquisa, que propõe a criação de um território comum entre organizações e imprensa. É uma visão da qual o autor da pesquisa compartilha, mas com uma diferença específica para este trabalho: sinalizamos os pontos de contato a partir dos prêmios e onde eles tocam estes modelos. Trabalha-se na esteira da linha de produção da notícia, mas com base na prescrição de valores e práticas que emergem dos prêmios.
Silva (2003, 2006, 2007), Magno (2006), Nascimento (2007), Oliveira (2008) e Mora (2008) trabalharam a questão dos modelos dentro de paradigmas, Jornalismo
Investigativo e Jornalismo Informativo, andando dentro deles. A organização dessa pesquisa em epistemes é exatamente pra se ter mais liberdade (Foucault, filosofia analítica) e olhar para atores contidos no processo de produção da notícia, mas ainda não vistos: os premiadores, premiados e prêmios. Em decorrência da pesquisa empírica, sinalizamos o lugar dos News Honors, com ampliação dos atores neste contexto ao influenciar normativamente o trabalho dos jornalistas, a partir dos prêmios, no que Traquina chama de “limites cognitivos” 79e Jorge Pedro de “rotinas cognitivas”80.
Ao posicionar este ponto de contato entre os paradigmas Jornalismo
Investigativo e Jornalismo Informativo, nos autores citados, revelamos que os gêneros jornalísticos desenvolvidos nessas tipologias não são tão importantes para serem
77 Podemos inferir como a perspectiva inicial do Prêmio Esso ainda no advento do Jornalismo Investigativo e Jornalismo Informativo no Brasil.
78 Sai da perspectiva de se premiar as redações e as matérias pós-veiculação e passa a premiar as pautas em pré-produção e jornalistas que podem estar nas redações (ou não). O interessante é que são pautas com valor social no sentido de informar e formar, não apenas de denunciar. O que pode ser entendido como o Jornalismo Institucional financiando um tipo de reportagem que não tem mais espaço e recursos no Jornalismo Investigativo.
79 (SOLOSKI 1989 in TRAQUINA 1993, p. 93)
tratados como a normatividade de cada modelo. O que está em estudo é o ponto de contato entre esses modelos, a partir das premiações. O Prêmio Esso, em 2012, não é o mesmo de sua origem, a julgar pelo rigor do que se entende por Jornalismo Informativo e Jornalismo Investigativo. Tanto que ele criou categorias de premiação que versam sobre valores-sociais (MAGNO, 2006; CASTILHO, 2010). Sem falar em prêmios que não premiam apenas jornalistas, nem mesmo somente os das redações, pois existem atores nas universidades que participam desses prêmios em categorias específicas e veiculam seu trabalho mesmo estando fora do mercado noticioso. Assim como, as instituições têm se prestado a tornar cada vez mais informativos os seus produtos (MORA, 2008; OLIVEIRA, 2008).
A pesquisa tem como tensão, podendo ser item também contabilizado na questão dos “ismos”, além do hibridismo, o famoso debate entre o jornalista Walter Lippmann (Opinião Pública)81 e o filósofo John Dewey (O Público e seus problemas)82, nos anos 1920, sobre o papel do Jornalismo nas democracias modernas. Debate, compilado e revitalizado no fim do século passado, em Schudson83. Na visão de Lippmann, a sociedade moderna se tornou complexa demais, a ponto de não existir um “público” articulado, o que o leva a considerar a ideia de “público” como fantasiosa. Neste sentido, os cidadãos não conseguiriam mais acompanhar a evolução da sociedade em todos os seus aspectos. E, posicionado como intermediador entre as instituições democráticas e os cidadãos estaria a imprensa. Já Dewey, apesar de concordar com o fato de que a sociedade se tornou complexa demais, tem como base que este mesmo público não é uma entidade ficcional ou conceitual, pois se configura pelo cidadão e não pelo mero consumidor de notícias e tiragens. Para o autor, o público confere poder às autoridades instituídas e institucionalizadas no Estado e, em vista disso, precisa de informações que tenham utilidade pública: notícias capazes de formar, informar e resolver problemas sociais com base no processo deliberativo. Em suma, as duas perspectivas se relacionam com a democracia ou perspectivas dela: democracia
representativa (Jornalismo como 4º poder, polícia e cão de guarda da democracia) e
democracia participativa (Jornalismo como instrumento de exercício da cidadania e da
81 LIPPMANN, Walter. Opinião Pública. Petrópolis: Vozes, 2008.
82 DEWEY, John. The Public and its Problems. New York. Swallow Press, 1927.
83SCHUDSON, Michael (2008). The “Lippmann-Dewey Debate” and the invention of Walter Lippmann as an anti-democrat 1986-1996, International Journal of Communication, 2, 1-20
vida pública). O contexto histórico desta discussão leva em conta a liberdade de imprensa e responsabilidade social84.
Em 1947, a Comissão Hutchins, presidida por Robert Hutchins (reitor da
Universidade de Chicago), a pedido do editor das revistas Time e Life, Henry Luce, emitiram um relatório sobre as atividades jornalísticas e a Liberdade de Imprensa no território norte-americano. O objetivo era o de investigar o papel das mídias na democracia do pós-Guerra. Sendo que, suas conclusões apontam para a responsabilidade social como contrapartida à liberdade assegurada. O Relatório
Hutchins faz exigências para que os meios de comunicação cumpram cinco princípios
jornalísticos básicos: relatos fiéis (1), distinção entre informação e opinião (2), servir de fórum para comentários e críticas (3), cobrir diferentes pontos de vista e retratar a imagem de vários grupos ao apresentar fatos à sociedade (4) e cumprir papel educativo distribuir amplamente o maior número de informações possível contexto histórico (5). Este é o fato que gera o ideal de responsabilidade social do Jornalismo, tido como um dos princípios do Jornalismo Público, por exemplo.
Resumidamente, a polêmica entre Walter Lippmann e John Dewey reside no fato de que: Lippmann defendia a ideia de um governo de peritos85, enquanto Dewey defendia a ideia de um governo com a participação da comunidade, instrumentalizada pelo debate, debate esse fruto da participação de uma imprensa livre e comprometida com os desafios das comunidades, a Grande Comunidade86. A teoria política e social de Dewey baseia-se na sua teoria do conhecimento. O problema da modernidade, segundo o autor, é o fato de que os meios de comunicação conseguiram superar a distância entre as pessoas, mas, em contrapartida, ocorreu uma desintegração das pequenas comunidades, o que minou a integração dessas comunidades em uma nova Grande
Comunidade. Em suma, a modernidade criou grandes massas, não grandes
comunidades. Sendo o desafio deste tempo: resgatar o contato com o público.
84 Em 1919, Max Weber já reconhecia que o Jornalismo era um capítulo à parte em relação à política e a Sociologia, tendo em vista a influência da atividade em relação ao processo eleitoral e às tomadas de decisão políticas. O autor focava no ponto de contato entre jornalismo e, em vez de centrar no Jornalismo em si. Aliás, sobre a importância da atividade jornalística, Alexis de Tocqueville já tinha versado sobre o estudo da imprensa na opinião pública.
85 Ibidem 86 Ibidem