Pereira (1945) explicita, no prólogo da sua Gramática Expositiva, a ruptura entre conhecimentos gramaticais herdados do passado e aqueles mais recentes registrados na gramática de Júlio Ribeiro:
(...) romperam-se os velhos modelos e estabeleceu-se largo conflito entre a escola tradicional e a nova corrente (...) A certeza das teorias pede meças á novidade desorientadora do método expositivo e á exuberância da tecnologia obstrusa e cansativa (PEREIRA, 1945. p.9).
Nesse contexto, considera a necessidade de o professor de língua materna buscar construir caminhos próprios, de modo a fazer compreender que a sua gramática é produto do esforço do professor. Logo, foi esse modelo situacional que levou à elaboração da NGB: “(...) na incerteza e deficiência de nossa legislação gramatical, sentimos necessidade de nos pôr em contato com a língua viva de pessoas cultas”. (p. 13).
Nessa acepção, a língua é concebida como fato social, não dissociada da fala, cujas normas não podem ser dadas a priori, como afirma o autor, aquelas produzidas em gabinetes, ao sabor dos gramáticos. Entretanto, não se deixa ressaltar a necessidade de “um conhecimento perfeito da língua materna”. Assim, os numerosos fatos gramaticais devem ser expostos por meio de um corpo harmônico e simétrico de teorias convergentes, capazes de alargar a compreensão da língua na sua dimensão da fala.
Afirma que o método expositivo de que fará uso tem por fundamento o princípio da multiplicidade (variedade de usos) e o da mobilidade dos fatos gramaticais e, para tanto, propõe “não partir a gramática em pequeninos”, ou seja, dividir e subdividir as partes dos seus elementos constitutivos, pois tal procedimento
impede a clareza da compreensão. Para tanto, os fatos gramaticais devem ser expostos de modo a não se perder a unidade do todo ao qual eles se integram.
A gramática de Pereira toma a palavra como matriz dos fatos da linguagem e a situa por dois pontos de vista: isolada e combinada umas às outras, quando se fazem elementos constitutivos da frase. Seus estudos gramaticais se organizam em duas partes: a Lexeologia e a Sintaxe. A Lexeologia abarca a expressão dos fatos fonéticos e fonológicos, ortográficos e morfológicos. Afirma ser a morfologia a “parte da Lexeologia que estuda a palavra em seu elemento imaterial”, isto é, em sua idéia e significado e ela abarca duas outras dimensões: a) Taxeonomia – estudo das diversas classes de palavras e as suas propriedades em relação à idéia que expressam; b) Etimologia – estuda a origem e a formação do léxico, do vocábulo da língua. (PEREIRA, 1945. p. 81 e 183).
Os pronomes, ao lado das demais classes de palavras, estão inseridos no domínio da Taxeonomia e são classificados como pronomes pessoais – quando funcionam como substitutos de nomes – ou como adjetivos determinativos: aqueles que modificam a extensão dos substantivos, opondo-se aos adjetivos qualificativos que modificam a compreensão dos substantivos, visto que “o substantivo só pode ser modificado quanto à sua compreensão e quanto à sua extensão”. (PEREIRA, 1945. p.308). Como determinantes, os demonstrativos, os relativos, os interrogativos e os possessivos estão ao lado dos artigos, também classificados como adjetivos determinantes. Já os pronomes indefinidos situam-se ao lado dos numerais.
Essa classificação, orientada por critério sintático semântico se faz bastante minuciosa e seguida de farta exemplificação capaz de facultar ao leitor diferenciar os artigos dos pronomes, na dimensão da frase, quando tais classes entram em funcionamento e apontam para diferentes modos de significar, ou seja, estendem as os significados dos substantivos para produzirem diferentes matizes de sentido. Ressalta-se, por um lado, que os pronomes relativos são designados por “conjuntivos ou relativos” e, assim, o gramático não deixa de apontar a intersecção que tais pronomes mantêm com as conjunções, na medida em que, à semelhança delas, funcionam para estruturar orações constitutivas de unidades frasais. Por outro lado, não deixa de registrar que os conjuntivos ou relativos podem funcionar como:
a) conjunção propriamente dita – Nunca esperes que te faça o teu amigo o que tu
puderes; b) adjetivo interrogativo – Que tesouro tão precioso será esse, meu irmão?;
c) adjetivo indefinido – E que de enigmas que hão de ali solver-se; d) advérbio – Que
(quão) alegre estava o espírito do criador!; e) interjeição – Que! Vós fareis dos defeitos de vosso irmão um objeto de passatempo?; f) pronome interrogativo – Que leva aí consigo?; g) pronome conjuntivo: os relativos que, quem, propriamente ditos;
h) adjetivo qualificativo – Qual o rei, tal a grei; i) pronome possessivo: cujo, cuja; i) conjuntivos interrogativos – Que horas são? Quem és tu? ; i) e possessivos meu, teu, seu, nosso, vosso....
Numa síntese, pode-se afirmar que, para Pereira (1945), os pronomes adjetivos tanto são aqueles empregados no lugar dos substantivos, sempre que se faz uso da terceira pessoa gramatical - caso dos interrogativos, dos indefinidos, por exemplo – ou que acompanham o substantivo para estenderem a sua significação – a mesma função dos determinantes. Logo, os pronomes adjetivos não só podem se remeter à concepção de nome, quando não têm sua significação estendida, mas também reunir, ainda, a função de um adjetivo determinativo: aquilo de que gosto = aquele alimento, ou aquele objeto. O autor afirma serem pronomes todos os adjetivos determinativos que não têm, na estrutura frasal, um substantivo “claro”, como por exemplo: Os que dizem e não fazem....; Muitos vivem, outros morrem; Todos gritam, ninguém tem razão; Ele é tal qual eu esperava. Justifica a classificação da qual faz uso por meio de informações diacrônicas, observando que os pronomes o, isto, isso, aquilo, tudo, algo, nada...- são formas que correspondem
às formas antigas neutras dos adjetivos; contudo, com o desaparecimento do gênero
neutro dos substantivos, em língua portuguesa, esses adjetivos assumiram função pronominal. (p. 119).
Os pronomes pessoais, como substitutos dos substantivos, são explicados como aqueles que carregam consigo resquícios dos casos latinos e, classificados como pronomes do caso reto, porque equivalente ao caso nominativo latino; e do caso oblíquo: os equivalentes aos casos latinos acusativo, dativo, ablativo. Dentre todos esses tipos de pronomes, o autor se detém a expor longamente para o seu leitor o pronome reflexivo “se”. (p.328-338). Ressalta que palavras do tipo fulano,
pronomes pessoais de 3ª. pessoa. Observa-se que tal classificação pronominal não se dissocia daquela proposta por Soares Barbosa.
A definição de pronome pessoal que apresenta ao leitor não se dissocia daquela do substantivo: “palavra que tem por função designar os seres pelas suas relações com a pessoa gramatical” (PEREIRA, 1945. p. 116) e, nesse sentido, esses pronomes são substantivos e não adjetivos como os acima mencionados. Logo, a classificação dos pronomes tem por parâmetro a classe do nome; contudo, eles não podem ser compreendidos apenas como palavras que substituem os nomes substantivos ou que se usam adjuntos a estes, visto que, ao mesmo tempo, os pronomes pessoais indicam a posição, o foco com que o nome é empregado em relação ao ato de fala, ou do uso de tais palavras:
Quando falamos ou escrevemos, as pessoas ou coisas mencionadas no discurso entram em uma das seguintes classes relativas ao ato da palavra: 1ª. pessoa que fala; 2ª. pessoa com quem se fala; 3ª. pessoa de quem se fala. Chamam-se estas classes PESSOAS GRAMATICAIS, e denominam-se PRONOMES PESSOAIS as palavras que as representam. (PEREIRA, 1945. p. 116).
As concepções acima apontam para o leitor que os pronomes pessoais não podem ser compreendidos por uma relação unívoca de equivalência com a pessoa humana, mas sim quanto ao fato de tal pessoa, por ser dotada da competência de linguagem, poder se auto - representar em língua como aquele que fala – locutor ou enunciador – e, ao mesmo tempo, representar o outro, aquele com quem se fala e aquilo ou aquele de que se fala. Para a lingüística contemporânea esse processo de representações se inscreve no produto de enunciações, ou seja, nos enunciados, e é reconstruído pelo leitor como quadro enunciativo, por meio de sinais léxico- gramaticais que ele reconhece, na medida em que tais sinais integram-se ao seu repertório cultural. Assim, as pessoas gramaticais fazem remissão às pessoas que estão envolvidas no quadro enunciativo (interlocutores), mas não equivalem a elas, na medida em que estão ali representadas, em língua.
Para Mangueneau e Charadeaux (2006), tanto o que a tradição gramatical designa por discurso direto, quanto por indireto, nos registros escritos se qualifica sempre como “discursos citados”. Assim, o discurso que se materializa em língua
escrita é aquele em que a pessoa do enunciador toma por objeto de seu ato enunciativo o discurso de outrem e o enuncia a um seu interlocutor: Paulo disse
que... Quando Maria chegou, afirmou..., começou a brigar e disse... Nesse
caso, aquele que fala relata não só o que o outro fez e/ou disse. Também pode ocorrer em relação ao que se denomina por discurso indireto, de o enunciador modalizar a sua enunciação, apresentando-a como uma segunda em relação a outro discurso: Se eu puder acreditar no que ele disse, só posso afirmar que Maria não
veio por estar doente; Como se diz, hoje, estou de pavio curto. Não me aborreça. No
caso do discurso direto, também se tem o mesmo processo: representa-se, em língua escrita, discurso no qual o enunciador pode estar representado como um dos locutores de uma interação face a face, ou não; contudo, trata-se de um discurso citado ou reinterpretado, pois na escrita, o que se registra é o que se viveu, podendo aquele que fala se fazer representar como aquele que enuncia, porque é o senhor, o autor da fala, ou se ocultar sobre a fala de outrem.
O uso, por Pereira, dos termos pessoas gramaticais e pronomes pessoais, em maiúscula, não deixa de chamar a atenção do leitor para tais questões. Desta feita, ele é o único gramático pesquisado que usa o termo “posição”, quando trata dos pronomes pessoais, pois a posição do sujeito gramatical, na dimensão frasal, pode equivaler a diferentes posições assumidas pelo enunciador de um discurso: aquele que fala por sua conta e risco, ou aquele que fala pela voz de outros.
A correlação necessária entre o nome e o pronome não deixa de pressupor que, se por um lado, os pronomes asseguram grau de precisão aos significados dos nomes substantivos, na medida em que os qualifica e os tipifica _ Esse livro é o meu e não o seu: o conceito de livro está modalizado qualitativamente pelo valor de posse, mas também indicia o fato de “aquele com quem se fala” haver se apossado do livro que pertencia àquele que lhe fala, por engano ou por esperteza. O fato de o enunciado ser frasal, não possibilita afirmar por qual razão, mas permite pressupor que, caso eles sejam iguais, trata-se de engano; se iguais, mas um está preservado e o outro não, ou se diferentes, trata-se de esperteza. Por conseguinte, nessa relação entre o nome e o pronome com valor adjetivo e entre o que se fala, aquele que fala e aquele com quem se fala edificam-se posições assumidas no mundo da
vida pelos interlocutores: posição de quem se engana ou de quem é esperto, reconhecida por aquele que fala e que também é possuidor de um livro.
Contudo, o lugar ocupado pelas designações léxico-gramaticais na estrutura oracional da frase enunciada apenas apontam, sinalizam para modelos de organização de informações ou conhecimentos que se busca representar, por exemplo: Chamei Paulo, para lhe dizer que ele pegou o meu livro, pensando que fosse o dele – para afirmar que Paulo se enganou, ou, se ele foi esperto ao proceder de tal forma, tem-se uma frase irônica: dizer X para informar Y. Nesse caso, é preciso saber quem é Paulo e como ele costuma proceder no mundo da vida: o sujeito a enunciação se coloca como sujeito do enunciado: uso do verbo chamar flexionado em primeira pessoa gramatical, mas é aquele que se faz fonte da ação do chamamento que está sendo relatado: sujeito gramatical tem equivalência com o da enunciação representado em língua; o sujeito que participa do quadro da enunciação, na posição de ouvinte do chamamento, Paulo, é aquele sobre o qual incidirá a ação de chamar, ou seja, é o sujeito evocado e invocado para destrocar o livro que pegou por engano ou por esperteza. O uso do pronome “lhe” precedido do para, reitera o sujeito invocado, mas apenas para informar sobre a finalidade do chamamento: trocar os livros.
A substituição de Paulo por “o”, por exemplo, em nada altera essas relações significativas; mas, o seu uso exige que se tenha enunciado antes “Paulo”. São essas posições e esses lugares que facultam tais interpretações; para tanto, não se pode desconsiderar os valores semânticos dessas estruturas em funcionamento, como afirma Bechara (1997), ou seja, as classificações sintáticas não podem apagar aquelas referentes à semântica. Contudo, a semântica da frase, não é a semântica do texto; razão de se ter de pressupor significações decorrentes de porções mais extensivas do saber enciclopédico mais extensivo, que a dimensão frasal não abarca – saber quem é Paulo, como ele procede no mundo – ou aquelas que são indexadas às frases enunciadas como decorrentes do modelo situacional – se Paulo agiu por engano ou por esperteza. Nesse último caso, apenas o texto trará índices capazes de facultar escolher uma ou outra como adequada.
Nessa acepção, Pereira (1945) aponta para a necessidade de estudos gramaticais que levem em consideração a noção de pessoa para além de aspectos meramente estruturais. Tais estudos teriam caráter transfrástico, mas não deixariam de estender a concepção de gramática para a dimensão dos usos que se faz da língua para representar fatos interpretados pelos usuários e, assim procedendo, os conhecimentos gramaticais seriam focalizados como meio e não como um fim em si mesmo. Desse dialogo estabelecido entre Pereira e os estudos contemporâneos, pode-se, ainda, melhor precisar as concepções que são fundamentais para o estudo dos pronomes, na atual contemporaneidade, como: “lugar” e “posição”:
Lugar - espaço ocupado pelo enunciador numa dada enunciação – momento único, calcado no pressuposto da subjetividade – um eu e um tu no aqui agora;
Posição - espaço ocupado pelo enunciador, também na cena enunciativa, mas numa perspectiva que lhe promova uma focalização transitória dada pelo próprio movimento dialógico da enunciação. Assim, o ocupar um lugar é prescrever convenções institucionalizadas, tanto em nível social, quanto econômico, cultural etc. A posição está relacionada ao inserir-se no lugar prescrito por convenções sociais, culturais etc., e por meio dessa inserção, optar por um modelo de focalização que possibilite um novo olhar. Dessa forma, o ficar no lugar de um nome, por exemplo, é assumir a convenção dada por meio desse nome – um direcionamento em termos lingüísticos, gênero, número etc.
Por outro lado, o posicionar-se permite uma visão mais ampla, que abarca tanto o lugar institucionalizado quanto a transição enunciativa que permite, na dinâmica do aqui e agora, uma mudança em níveis subjetivos e intersubjetivos. Nessa acepção, por mais que o outro assuma a posição do Eu, este outro, jamais será o mesmo eu e este eu nada mais será que a projeção de um nome assumido no momento da enunciação.
2.4.2 Os pronomes por Evanildo Bechara – parâmetros Pós - NGB
O professor Evanildo Bechara, gramático de formação filológica, tem incorporado em suas obras gramaticais muitos dos resultados das investigações lingüísticas desenvolvidas em nossa contemporaneidade, para fazê-las chegar até os professores do Ensino Fundamental e Médio. Adere, portanto, aos avanços da modernidade, mas de forma ponderada, por entender que “não se rompe de vez com uma tradição secular: isto explica por que esta Moderna Gramática traz uma disposição da matéria mais ou menos conforme o modelo clássico (1997, p.21). Entende, portanto, ser a gramática tradicional contemporânea produto de fatos culturais, continuamente recontextualizados, mas não abandonados, na medida em que o moderno só se explica em relação ao não moderno, tanto quanto o presente se explica por conjugar passado e futuro. Assim, seu trabalho no campo da gramatologia não pode ser qualificado como avançado e tampouco como tradicional. Por conseguinte, encontra-se nessa sua obra “um tratamento novo para muitos assuntos importantes que não poderiam continuar a ser encarados pelos prismas por que a tradição os apresentava”. (p.21).
Nessa perspectiva, a Moderna Gramática do Português: 1º. e 2º. Graus (1997) é organizada, tanto quanto todas as outras que seguem os preceitos da NGB, em três partes: Fonética e Fonêmica, Morfologia e Sintaxe; entretanto, a elas se seguem noções elementares de Semântica, Estilística e Versificação. Os estudos pronominais situam-se na Morfologia, como uma das classes de palavras da língua portuguesa e, na sintaxe, como função exercida por tais palavras que, articuladas a outras pelo exercício da fala, organizam-se por estruturas oracionais definidas como “a menor unidade de sentido do discurso com propósitos definidos”. (p.194).
Os pronomes são definidos, no âmbito da Morfologia, como unidades de expressão que designam os seres sem dar-lhes nomes e tampouco qualidade, na medida em que apenas indicam as três pessoas do discurso: a que fala = 1ª. pessoa; a com quem se fala = 2ª. pessoa e a pessoa ou coisa de que se fala = 3ª.
pessoa. Tal definição indica uma concepção de palavra como signo que, na dimensão da fala se faz apenas sinal para se remeter a designações de pessoas ou coisas, designadas em língua. Aponta ela para o fato de a classe dos pronomes ser desprovida de conteúdo semântico, visto designar sem nomear ou qualificar, quando tomada isoladamente, na dimensão da palavra fora do uso. Por conseguinte, trata- se de uma classe de palavras do léxico, cujo(s) significado(s) é (são) construído(s) pelos falantes ou usuários da língua, quando empregadas nas atividades de fala, de modo a se remeterem à situação de interlocução: “é uma classe de palavras que se refere a um significado léxico indicado pela situação ou por outras palavras do contexto”. (BECHARA, 2001. p.132).
Observa-se que o autor afirma ser o significado da classe dos pronomes decorrente do modelo de situação ou contexto, fazendo equivaler a situação de interlocução ao contexto e este se explica por modelos de organização de conhecimentos enciclopédicos da memória social de longo prazo que é sócio- histórico-cultural. O contexto, assim concebido, se explica pela concepção de conhecimentos prévios, ao qual as palavras dotadas de significado se remetem como recortes: porções de conhecimentos de mundo, lingüisticamente designadas por palavras; logo, as palavras seriam pedaços de conhecimentos de mundo que facultam falar o mundo, conclui Turazza (2006). É nesse sentido que definidos como palavras que substituem os nomes, os pronomes, aos substituí-los arrastam para si os significados dos nomes substituídos e, por esse movimento, os qualifica como anafóricos, funcionando no discurso como recurso que assegura a progressão semântica do texto, ou da sua referência tematizada, conforme se buscará explicitar no capítulo III. Para Koch (2001), essa função substitutiva dos pronomes assegura a coesão remissiva lexical. Por conseguinte, Bechara deixa de incorporar na sua definição essa função substitutiva dos pronomes tão significativa para os clássicos e estes, por sua vez, ignoravam em suas exposições gramaticais o fato de eles se remeterem à situação de interlocução. Contudo, essas são questões que se explicam apenas na dimensão textual da discursividade e não na dimensão da lingüística frasal, mas o autor as explicita no corpo de sua Gramática Escolar.
Considera que os pronomes, do ponto de vista semântico, exercem função dêitica: “apontam para o modelo de situação ou de contexto”, de sorte que, assim funcionando, eles são verdadeiros “gestos da linguagem”, inscritos nas matrizes da língua. Esses gestos verbais, para o gramático, na medida em que indicam são dêiticos e, na medida em que fazem referência ao contexto, “como é o caso dos pronomes relativos (...) indica um elemento presente ao falante”. (BECHARA, 2001. p.132). Assim, tomando como ancoragem o pronome relativo que tanto responde pela conexão entre orações de estruturas frasais como, por retomadas do já enunciado, para fazer progredir semanticamente o conteúdo do dito, classifica a dêixis em anafórica – aquela que aponta para elemento já enunciado, ou catafórica – aquela que aponta para elemento não enunciado ou não presente na microestrutura do texto-produto.
Também é na sua Gramática Escolar que Bechara recontextualiza a concepção de terceira pessoa do discurso, pelos fundamentos da teoria da enunciação de Émile Benveniste (1976), afirmando ser ela uma pessoa indeterminada que apenas “aponta para outra pessoa ou coisa em relação aos