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Teoretisk kunnskapsgrunnlag

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Vários pontos do realismo experimental revisitado por Suárez já foram antecipados nos capítulos anteriores e nas seções antecedentes deste capítulo. Cumpre, neste momento, sumarizar as intuições que o filósofo espanhol reuniu de modo a tornar o realismo experimental um candidato atraente à superação das querelas entre realistas e antirrealistas. O texto base para essa apresentação é o Experimental realism reconsidered:

170 how inferece to the most likely cause might be sound (2008). O artigo é também uma resposta à própria Cartwright (1999) que chegou a recuar de seu posicionamento expresso em How the laws of physics lie.

Suárez procurou se distanciar e corrigir certos equívocos que os textos de 1983 de Hacking e Cartwright cometeram. De acordo com o filósofo espanhol foram esses desentendimentos que tornaram possíveis algumas das críticas a que já aludimos. E, pensa ele, foram provavelmente essas críticas que levaram Cartwright a admitir um realismo “anômalo” de The dappled world (1999).

O primeiro equívoco a ser desfeito é quanto às pretensões metafísicas do realismo experimental. De acordo com Suárez, ainda que Hacking (1983) tenha feito de seu realismo uma tarefa metafisicamente relevante (preocupações sobre o que existe na realidade e o slogan da manipulabilidade), ele também considera a questão epistemológica em termos de “melhor evidência” ou “evidência mais forte”. Assim, é possível depreender duas formulações para realismo experimental da filosofia de Hacking: o realismo experimental metafísico e o realismo experimental epistêmico. A definição de realismo experimental metafísico não é exatamente uma definição conceitual, já que não trata das condições suficientes e necessárias para a existência, mas uma espécie de “marca” de realidade: Se x pode ser manipulado, então x existe. Para Suárez, o realismo experimental metafísico enuncia a manipulabilidade como condição suficiente (mas não necessária) para a existência:

Manipulação é então entendida senão como uma condição suficiente para a realidade. Hacking não está defendendo a equivalência conceitual entre o que é real e o que pode ser manipulado, mas antes, ao que parece, que a manipulação é um importante marco de realidade. (SUÁREZ, 2008, p. 140)

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De acordo com o autor, essa versão metafísica do realismo experimental está sujeita à crítica de incoerência, já exposta anteriormente. Entender a manipulabilidade como uma condição suficiente para a realidade não favorece o realista de entidades a especificar que tipo de entidade ele está manipulando sem recorrer às teorias sobre tal entidade.

Suárez entende, entretanto, que tal crítica, embora ameace o realismo experimental metafísico, não constitui qualquer perigo para a versão epistêmica que, de acordo com ele, pode ser derivada tanto de Hacking quanto de Cartwright e que se define do seguinte modo:

Def. Realismo experimental epistêmico: Manipulação é condição necessária e suficiente para a garantia causal: Nossa crença de que x existe adquire esse tipo especial de garantia se e só se acreditamos que manipulamos x. (SUÁREZ, 2008, p. 141)

A principal ideia em diferenciar uma versão epistêmica de uma versão metafísica do realismo experimental é mostrar que, enquanto garantia de crença, o realismo experimental epistêmico é um critério falível e, ainda que continue consistindo um “sintoma” de realidade, a mera crença de que x foi manipulado(a) não torna necessário que x exista. Isto é, o realismo experimental epistêmico que Suárez propõe não implica o realismo experimental metafísico. Assim, o texto de Suárez é uma tentativa de mostrar que o realismo experimental não está comprometido metafisicamente e nem oferece fundamentação para a sua versão metafísica e, assim, é possível sustentar apenas sua versão epistêmica:

Em outras palavras, eu quero superar a presumida primazia do realismo experimental metafísico em seus termos, para defender o realismo experimental somente como epistemologia. Nossa crença na existência de x adquire uma sorte especial de garantia quanto nos convencemos de que manipulamos x; e é precisamente esse fato sobre nossa prática epistêmica que fundamenta a afirmação secundária de que a manipulação é uma boa indicadora de realidade; um bom guia – não um guia infalível. (SUÁREZ, 2008, pp. 141-142 grifos do autor)

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O filósofo argumentou para defesa do realismo experimental epistêmico a partir de pistas deixadas por Cartwright no livro de 1983, especialmente no que tange a validade da inferência pela causa mais provável. Mas a versão desse tipo de inferência proposto por Cartwright e melhorada por Suárez depende de três teses compactas:

(i) A explicação teórica duhemiana não é um termo de sucesso – no sentido de que uma falsa teoria T pode providenciar uma explicação satisfatória de um fenômeno. Mas explicação causal é um termo de sucesso – se a causa não for real não há explicação genuína.

(ii) Do fato de que a teoria T explica um fenômeno y, não podemos inferir que T é verdadeira. Mas do fato de que x (provavelmente) explica causalmente y podemos inferir que x é (provavelmente) a causa real de y.

(iii) Podemos aceitar uma explicação teórica, qua explicação, mesmo se não acreditamos que a teoria é verdadeira. Mas não podemos aceitar uma explicação causal, qua explicação, a menos que acreditemos que a causa é real. (SUÁREZ, 2008, p. 145)

A interpretação epistêmico-falibilista do realismo experimental permite superar algumas das críticas de inadequação, incoerência e implausibilidade supramencionadas. No caso da primeira crítica, Suárez considera inaplicável quer à versão metafísica, quer à versão epistêmica do realismo experimental, o que a torna inofensiva para seu projeto realista. Sobre a segunda crítica, já nos pronunciamos mostrando como a versão modesta do realismo experimental de Suárez não exclui teorias, mas apenas fornece fundamento mais garantido para as crenças adquiridas via interação causal. Ficamos devendo, entretanto, a nova defesa da inferência pela causa mais provável pelo espanhol discípulo de Cartwright, o que faremos agora.

Suárez direciona sua resposta a Hitchcock (1992), mas sem muitas dificuldades poderíamos adaptar sua resposta a Reiner e Pierson (2008) e a Psillos (2008). Hitchcock estabelece dois desafios ao realismo experimental de Cartwright. O primeiro questiona se explicação causal é realmente um termo de sucesso, fazendo com que a aceitação de uma explicação causal comprometa realmente alguém com entidades teóricas. O segundo é

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uma acusação de circularidade: não é preciso pressupor p para afirmar “p explica causalmente o fenômeno f”?

O primeiro questionamento, que fora colocado por Arthur Fine (1991) um ano antes do artigo de Hitchcock, é apresentado com dois supostos relatos causais de modo a problematizar a afirmação, via inferência pela causa mais provável, da existência de entidades/causas irreais. O contraexemplo mais relevante é a experiência da dupla-fenda, que mostra a natureza dual do elétron (onda e partícula), contrariando as expectativas da mecânica clássica. A experiência feita por Young é bem conhecida: um feixe de elétrons é projetado de modo a atravessar uma tela opaca com duas fendas e alcançar uma tela sem fendas. Quando apenas uma das fendas está aberta, obtemos imagens similares e a expectativa é a de que ao fazermos o feixe passar por duas fendas simultaneamente, as imagens seriam apenas superpostas. Mas o caso é que os feixes apresentam o comportamento de uma interferência. Hitchcock ressalta que o choque entre o fóton e o elétron que ocorre na tentativa de determinar por qual fenda tal elétron passa acabaria por destruir a interferência. Assim, quando o elétron é detectado passando pela primeira fenda ou pela segunda, não há interferência resultante. A explicação causal aqui seria a de que o fóton impõe momentum ao elétron, alterando sua trajetória e destruindo o padrão de interferência. Trata-se, sugere Hitchcock, de uma explicação que contradiz tanto a mecânica quântica ortodoxa quanto a maioria das suas formulações “heréticas”, já que a as teorias envolvidas (exceção feita aos que insistem na teoria das variáveis ocultas) pressupõem a impossibilidade de possuirmos os valores do momentum e da posição simultaneamente. Como o elétron, de acordo com a mecânica quântica, não pode ter uma trajetória contínua clássica e a interferência seria causalmente explicada pela trajetória do

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elétron, Hitchcock pensa ter um caso de explicação causal que não demanda crença, mas apenas aceitação48:

Essas explicações causais, portanto, oferecem boas candidatas a contraexemplo para a afirmação de que a aceitação de uma explicação causal envolve comprometimento com a crença na verdade da narrativa causal. As explicações causais das relações de incerteza pareceriam ser aceitas, mas não acreditadas. (HITCHCOCK, 1992, p.172) Suárez recusa que o relato de Hitchcock seja propriamente o relato de uma explicação causal. Para o espanhol, não só não há garantia causal na descrição do padrão de interferência, como há garantia causal contra tal relato:

Estamos invocando a interação fóton-elétron para explicar não o padrão de interferência, mas antes seu desaparecimento quando detectamos o elétron na primeira tela. Então, a estória causal pressupõe que se não detectamos a passagem do elétron na primeira tela, a trajetória do elétron seria causalmente responsável pelo padrão de interferência. Em outras palavras, estamos pressupondo que o padrão de interferência num experimento de dupla fenda é causalmente explicado por trajetórias dos elétrons. E essa “explicação” do padrão de interferência não é causal – se é que é mesmo uma explicação – uma vez que “não seria acreditada como verdadeira por ninguém exceto o mais teimoso crente em variáveis ocultas”. E isso não é simplesmente sobre fundamento teórico ou interpretativo, mas sobre o fundamento da evidência experimental contra a existência de trajetórias clássicas na mecânica quântica, na forma como todos os tipos de experimentos de interferometria. (SUÁREZ, 2008, pp. 151-152 grifos do autor)

Para Suárez, uma vez que a explicação causal é um termo de sucesso, um relato só pode ser considerado causal quando se acredita que a causa é verdadeira (iii). Quando não se acredita na realidade da causa, se houver aí alguma explicação, é por tratar-se de uma explicação teórica e não causal. A garantia epistêmica da interação fóton-elétron é a mesma de qualquer explicação teórica: dada uma lei teórica, pode-se pensar o fenômeno como deduzido dela. Mas, como já ressaltado, uma explicação teórica não requer verdade.

48 Apesar de Hitchcock ressoar aqui a ideia de van Fraassen segundo a qual crer e aceitar uma teoria

são passos diferentes, Matthias Egg tece um comentário relevante sobre a alegação de Hitchcock: seu

explanans não é empiricamente adequado, condição necessária para que uma teoria seja aceitável ao

empirismo construtivo. Nas palavras de Egg: “Agora, o explanans no exemplo de Hitchcock é

empiricamente adequado? Ele certamente “salva os fenômenos” para este experimento particular, mas não temos que procurar muito longe por fenômenos que são incompatíveis com essa pintura clássica; o padrão de interferência no experimento original de dupla fenda (sem detecção de qual é a fenda por meio da qual cada elétron passa) não pode ser explicado por trajetórias clássicas e interações locais. Portanto, a estória de Hitchcock só serve como um contraexemplo à validade da inferência pela causa mais provável se não requerermos que explicações causais sejam empiricamente adequadas”. (EGG, 2012, p. 272)

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Nisso, para Suárez, pouco importa se o vocabulário é tipicamente causal. A ideia de que um fenômeno é subsumido por uma explicação teórica com vocabulário causal é bastante diferente da explicação que recorre a causas reais dos fenômenos. Sem muitas modificações, a recusa de Suárez em reconhecer uma explicação causal no experimento da dupla fenda pode ser aplicada ao relato das quase-partículas de Gelfert (2003): os físicos de partículas não acreditam estar manipulando uma nova entidade, de modo que o relato de buracos ou de quase-partículas que causam fenômenos não é mais do que um “modo de falar”.

É o segundo desafio de Hitchcock, entretanto, que demanda uma revitalização da inferência pela causa mais provável por Suárez, tornando seu realismo experimental particularmente interessante. Assumir que a explicação causal é um termo de sucesso já não requer a crença na existência da causa? Para clarificar a crítica, podemos recordar o esquema da inferência pela causa mais provável: q; p explica causalmente q; logo p. Que tipo de garantia adicional, questiona Hitchcock, há em inferir p por uma inferência pela causa mais provável que já não existe na afirmação “p explica causalmente q”? Suárez primeiramente precisa diferenciar seu realismo experimental epistêmico de numa interpretação internalista (pois acreditar que se manipula x não é condição suficiente para ter manipulado x.). Depois disso, ainda resta uma interessante discussão baseada em estudos sobre a perda de garantia em argumentos dedutivamente válidos que pode ser sumarizada com as seguintes palavras de Suárez:

Se a conclusão de um argumento é um pressuposto necessário para a evidência que realmente temos à mão para suas premissas, então o argumento não é capaz (para nós) de transmitir garantia das premissas para a conclusão (mesmo se tanto conclusão quanto as premissas forem verdadeiras – e mesmo se corretamente acreditarmos que elas todas são verdadeiras!). Um argumento dedutivo válido com premissas verdadeiras não garante sua conclusão se a única evidência que possuímos a favor das premissas não fosse evidência caso a conclusão do argumento fosse falsa. (SUÁREZ, 2008, p. 154)

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Aplicando a discussão acima à inferência pela causa mais provável, não estaríamos diante de um argumento que falha em transmitir garantia? Suárez pensa que não. E sua afirmação se sustenta em duas propriedades da explicação causal que o autor considera ausente na maioria das explicações teóricas: a já bastante comentada ausência de redundância e a pouco mencionada propriedade de ser um modo material de inferência. Ambas as características da inferência pela causa mais provável forneceriam, de acordo com Suárez, uma boa evidência para “p explica causalmente q” independente de p ser real.

3.3.1. Não redundância

O princípio da não redundância em Suárez é basicamente o mesmo de Cartwright, resguardado o fato de que o primeiro está interessado num recuo epistemológico- falibilista. Comparando a garantia epistêmica da explicação teórica, sujeita à subdeterminação e possuindo múltiplos critérios de aceitação (no mínimo aqueles já mencionados no nosso primeiro capítulo), a explicação causal apresenta bem menos possibilidade de redundância. O que interessa especificamente para uma resposta a Hitchcock é se a falta de redundância implica a realidade da causa provável, o que daria razão à crítica de circularidade. O realismo experimental epistêmico de Suárez tem como consequência uma maior estabilidade da explicação causal, pois só outra explicação causal forçaria ao abandono da garantia causal atribuída à explicação abandonada. Se contrastarmos isso com a revisão das explicações teóricas, veremos uma assimetria: explicações teóricas podem ser abandonadas por outras explicações teóricas e por explicações causais. As últimas só em função de outras explicações causais. Para Suárez, uma revisão na explicação causal é bem exemplificada na transição do flogisto para o oxigênio. O caso do éter, embora suas teorias tivessem lhe conferido propriedades causais, é diferente por nunca ter sido possível oferecer garantia melhor do que a

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adequação empírica das teorias. As supostas propriedades causais do éter nunca foram experimentalmente garantidas via interação causal. Sendo um critério falível, a interação causal não redundante não implica a existência, tal como mostra o caso do flogisto. Implica, isso sim, uma garantia mais robusta que a mera capacidade teórico-explicativa e teórico-preditiva. Assumindo, portanto, o realismo experimental epistêmico, não há uma exigência de que a não redundância conjuntamente com a crença de estar manipulando p implique que p seja real. Quando muito, pensa Suárez, o desafio de Hitchcock demole uma versão internalista rival ao realismo experimental de Hacking (1983) e Cartwright (1983) e que nunca fora defendida por ambos. Mas mesmo que o realismo experimental original tivesse esse compromisso internalista, o desafio supramencionado derrotaria apenas a versão metafísica, deixando a versão de epistêmica de Suárez ainda defensável.

3.3.2. Inferência material

Um ponto pouco explorado da inferência pela causa mais provável e que constitui uma novidade no pensamento de Suárez é que enquanto a garantia teórica precisa ser inteiramente construída como uma inferência formal, a garantia causal pode ser construída como uma inferência material. Suárez ressalta a afirmação de Carnap (1935) segundo a qual, embora as estruturas de cada uma das inferências sejam traduzíveis entre si, a força da garantia que é transmitida à conclusão difere entre elas. Uma mesma conclusão pode ser obtida, portanto, numa inferência formal e numa inferência material como mostra o exemplo relativo à explicação da dilatação dos metais dado por Suárez para ambos os tipos de inferência:

1. Formular a lei fenomenológica correspondente e estabelecê-la numa “sentença protocolar”.

2. Estabelecer formalmente o tratamento teórico da física dos estados sólidos para metais, incluindo a hipótese formal de que o calor faz as moléculas vibrarem com energia mais alta e assim força-as a se moverem para mais longe uma das outras. 3. Deduzir dessa teoria juntamente com as condições iniciais e de fronteira, a

178 4. Inferir, por inferência pela melhor explicação, a verdade da teoria incluindo a

suposição molecular.

5. Inferir por uma inclinação semântica a realidade de moléculas altamente energéticas em um sólido.

Ou, alternativamente, podemos:

1. Formular a lei fenomenológica a ser explicada.

2. Supor que moléculas vibram com energias mais altas no calor, e assim, movem- se para mais longe uma das outras.

3. Causalmente explicar a lei por apelo à suposição (i.e., descrever os experimentos que mostram que nenhuma outra causa da expansão é tão provável ao manipular as moléculas de diferentes amostras de modo a variar sua energia e, assim, checar se o calor do sólido também varia de acordo.).

4. Inferir diretamente, por inferência pela causa mais provável, a realidade de moléculas altamente energéticas em um sólido. (SUÁREZ, 2008, p. 158)

O argumento de Suárez parte do princípio de que o segundo modo de inferência possui menos passos e, assim, menos chance de conduzir ao erro do que o primeiro. Ele ainda visa mostrar que, embora uma explicação causal possa, como no exemplo citado, ser apresentada como uma inferência formal, seria impossível que uma explicação teórica fosse representada numa inferência material. O importante então não seria como um relato é apresentado, mas a diferença entre um relato teórico que soa como causal e um apelo direto a causas, que é, de acordo com Suárez, uma inferência material. O passo 3 seria impossível se o experimentador não supor estar manipulando algo real e controlando os resultados por tal manipulação. Nisso consiste a resposta de Suárez ao primeiro desafio de Hitchcock. Além do mais, o espanhol pode exibir seu segundo “sintoma” de uma explicação causal: o modo de inferência material. Assim como a não redundância, o modo de inferência material também é um critério falível de que foi tentada uma inferência pela causa mais provável:

Em outras palavras, o modo material de discurso é outra marca da explicação causal, já que só explicações causais podem ser totalmente lançadas neste modo. O fato de que uma tentativa de explicação é dada inteiramente no modo material – que as manipulações relevantes da causa são apresentadas ou apontadas e não meramente descritas teoricamente – é uma evidência falível de que a tentativa de explicação é causal. (SUÁREZ, 2008, p. 159)

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As duas marcas da inferência pela causa mais provável, a saber, não redundância e modo

material de inferência, dão duas garantias falíveis à crença de que p foi manipulado(a) e essa crença, por sua vez, não implica que p é real. Dessa forma, o segundo desafio de Hitchcock também não é uma ameaça ao realismo experimental epistêmico de Suárez e a inferência pela causa mais provável não perde garantia causal a ser transmitida das premissas à conclusão.

A negligência de Cartwright em tocar no aspecto material da explicação causal tornou possível a acusação de convencionalismo dada por Hitchcock (1992), Reiner e Pieson (2008) e Psillos (2008). Mas o tratamento de Suárez pode ter recolocado o realismo experimental como alternativa às formas de realismo baseadas no sucesso teórico.

O realismo experimental epistêmico, como pensa o espanhol, é uma proposta modesta a ponto de reconciliar-se com a epistemologia do dia a dia: a inferência material para a causa mais provável é a norma das abduções cotidianas quando trocamos um fusível que pensamos estar provocando o mau funcionamento de um aparelho, ou testamos se falta gasolina no motor do carro que não liga. Suárez entende que sua versão epistêmica do realismo experimental é modesta o suficiente para permitir dúvidas céticas:

Entretanto, este é um realismo muito limitado e modesto (...). O realismo experimental epistêmico diz que temos um tipo de razão mais forte para acreditar em pistões de motores de carros, filtros de máquinas de lavar e elétrons num microscópio eletrônico do que temos para acreditar em quarks e quasares. Mas não nos diz que não possuímos qualquer razão para acreditar em quarks e quasares, nem diz que a existência de pistões, filtros e elétrons está além de qualquer dúvida possível. (SUÁREZ, 2008, p. 160)

Uma vez que o comprometimento exigido pelo realismo experimental epistêmico

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