A tarefa de ensinar está intimamente associada à avaliação. A tarefa de avaliar, tão necessária como complexa, requer um pacto entre o objeto e os objetivos da avaliação. Hadji (2001) em “Avaliação Desmistificada” descreve os obstáculos à emergência de uma avaliação formativa. A institucionalização da avaliação formativa deve superar a resistência da comunidade acadêmica à substituição das representações inibitórias, como notas e conceitos, que
demonstrariam medidas reais do conhecimento adquirido. Existe uma necessidade de modelos teóricos atrelados à pesquisa didática e psicológica para, como descreve Daniel Bain, contornar o duplo domínio necessário na metodologia de avaliação que contemple uma melhor compreensão do estudante envolvido e do objeto a ensinar. Para ajudar o estudante a determinar, analisar e compreender seus erros e acertos é necessário basear-se em modelos teóricos que esclareçam o funcionamento cognitivo (BAIN, 1988).
A formação sequencial do aluno, para a obtenção das competências previstas pelos projetos pedagógicos, deve basear-se na junção de duas correntes teóricas, o cognitivismo e o construcionismo. Em cada estudante, as estratégias individuais de construção gradual do conhecimento dependem da maneira como ele se apropria dos elementos afetivos, cognitivos e metacognitivos, exercitando a observação e reflexão crítica sobre sua aprendizagem (TARDIF, 1992). A estratégia construtivista se apoia na maneira como o estudante adquire novos conhecimentos, relacionando- os progressivamente com conhecimentos adquiridos anteriormente. A interação do estudante com os ambientes de aprendizagem, com os docentes, tutores e outros estudantes na busca da resolução dos problemas deve contribuir para a construção de seu conhecimento, no saber ser e no saber fazer.
Em outro momento, a adaptação das atividades de ensino e de aprendizagem em função da interpretação que terá sido feita das informações coletadas pelo estudante, ou seja, no feedback a uma avaliação formativa, poderia ser interpretado como o primeiro passo de uma nova sequência didática onde o professor deve ter a capacidade de imaginar e executar ‘remediações’ (HADJI, 2001) .
Neste processo, o professor deve identificar fragilidades e fortalezas das estratégias cognitivas e meta-cognitivas apropriadas daquele momento avaliativo e facilitar ao estudante outra abordagem que permita a integração de conhecimentos. A avaliação, por levantar a questão do sentido, consiste em produzir, construir, criar um referente. Ela não passa de uma “construção permanente e continuamente inacabada do referente, portanto, do sentido” (ARDOINO; BERGER, 1986 apud MENDONZA, 2001).
Ao se acreditar na importância da avaliação formativa nas escolas médicas, vale lembrar novamente a leitura de Hadji (2001), que analisa a pertinência do princípio segundo o qual uma prática, avaliar, deve tornar-se auxiliar de outra, aprender. A avaliação, no contexto do ensino deve contribuir para o seu êxito e para a construção de saberes e competências dos estudantes.
À tarefa de avaliar deve ser somado o monitoramento das ações como parte do processo de avaliação, envolvendo coleta, processamento e análise sistemática de informações e indicadores, com a finalidade de observar a obtenção dos resultados. Por esta razão, para esses autores, a avaliação distingue-se radicalmente da prova. Fazer prova é verificar a conformidade a um modelo de referência, estabelecer um controle. Jean Cardinet argumenta que o ensino seria uma relação de ajuda, e toda relação de ajuda exclui o julgamento (CARDINET, 1989). Portanto, a escola deve avaliar o estudante sem julgá-lo, “sem estimar o valor”.
Assim, do ponto de vista ético e pedagógico, a avaliação escolar deve estabelecer uma relação de acompanhamento cujo objetivo é o desenvolvimento do educando, contribuindo para tornar o estudante cada vez mais autor de suas aprendizagens. A evolução das ideias e práticas, analisadas por Jean Cardinet, levam a evidências da necessidade de uma avaliação informativa e à pertinência do que ele denomina “paradigma da informação”. Philippe Perrenoud prefere utilizar a expressão “observação formativa” que não associaria a avaliação à contabilização dos conhecimentos adquiridos ou das lacunas, e sim ampliaria a observação, nos aspectos cognitivos, afetivos, relacionais e materiais (PERRENOUD, 1991).
Depende do professor avaliador o comportamento de formador em oposição ao de árbitro. A expressão ‘avaliação com intenção formativa’, no âmbito da avaliação curricular, cunhada por Scriven (1967), foi bem conceitualizada por Georgette Nunziati (NUNZIATI, 1990, 1992 apud HADJI, 2001). Nunziati baseou-se nos estudos dos psicólogos russos Glaperine e Leontiev sobre o papel da antecipação na aprendizagem e nas pesquisas sobre a regulamentação da ação de Aix-Marseille (BONNIOL, 1976 apud HADJI, 2001). Esta conceitualização considera o estudante como a melhor pessoa para regular seu processo de aprendizagem e consequentemente, leva ao extremo a lógica da passagem da avaliação de uma
problemática estática (avaliar = apreender um nível de desempenho verdadeiro) a uma problemática dinâmica (avaliar = acompanhar e facilitar a aprendizagem). Por essa definição, o estudante, pela análise de produtos que correspondem às tarefas cardinais do ensino, deve apropriar-se dos critérios de realização dessas tarefas.
Como um mapa de estudo listando objetivos e critérios de realização, a avaliação formadora reordena-se em torno da atividade do estudante. A regulação externa cede lugar à auto regulação. E a autoavaliação torna-se a chave do sistema, “a peça mestra de todo o dispositivo pedagógico” (NUNZIATI, 1990). A força da autoavaliação é ser pedagógica, com a preocupação de facilitar a aprendizagem, auxiliando o estudante a construir para si um “sistema interno de orientação”, integrando-o a uma prática pedagógica em que ele não se anule. Georgete Nunziati escreve que seria como se o estudante constantemente se olhasse ao agir, de forma contínua, frequentemente de maneira implícita e por vezes até de forma inconsciente. Seria “um olhar crítico sobre o que se faz enquanto se faz”, um olhar através do qual se expressa o sistema interno de orientação próprio de cada indivíduo, e uma mobilização pode levar a modificações deste sistema.
Para a avaliação formadora, as prioridades são claras: a ação e o sujeito que age. Assim, o professor só deve intervir “quando os mecanismos de auto regulação estão bloqueados” (NUNZIATI, 1990).
Entretanto, Hadji (2001) observa que a avaliação formadora permite à autoavaliação a possibilidade de desenvolver atividades de meta-cognição. Por meta-cognição entende-se um processo mental interno pelo qual um indivíduo toma consciência dos diferentes aspectos e momentos de sua atividade cognitiva e, por meio desse processo, pode distanciar-se dos conteúdos das atividades cognitivas em andamento. Meta-cognição, portanto, é sinônimo de atividade de autocontrole refletido das ações e condutas do indivíduo que aprende. A autoavaliação visa o desenvolvimento das atividades do tipo cognitivo, como forma de melhorar a aprendizagem por meio do autocontrole e da diminuição da regulação externa do professor.
A autoavaliação, como processo de autocontrole, é uma “habilidade a
ação definirá o núcleo do sistema interno de orientação e de avaliação mais justa. Tem como finalidade, permitir que o estudante progressivamente reflita, analise e construa um modelo de tarefa adequado para o exame crítico de sua produção, para progredir na sua formação.
Françoise Campanale (1994-1995, 2002) aprofundou essa concepção da autoavaliação, estabelecendo duas características que possibilitam reconhecê-la como reflexão meta-cognitiva. A primeira é de que a auto regulação é “uma dimensão fundamental dos processos cognitivos”, “forçosamente presente em todo momento em cada estudante” (ALLAL; BAIN; PERRENOUD, 1993 apud HADJI, 2001). As operações de regulação meta-cognitivas constituem uma espécie de interface entre a rede das representações de que o individuo dispõe para organizar cada tarefa e os processos de produção que ele mobiliza para atingir o objetivo.
A segunda característica apontada por Campanale (1994-1995) é que a autoavaliação se opera em um diálogo interno alimentado pelo parâmetro externo, a linguagem dos outros (dos pares, dos professores) e todo o trabalho de tomada de consciência, de distanciamento e de apreciação opera-se internamente. O domínio dos instrumentos de autoavaliação é muito vasto, podendo variar de simples questionários sobre as representações dos estudantes em matérias de avaliação até questionários interativos ou relatos da pesquisa, sendo essencial apenas que o estudante possa se apropriar do instrumento e, se possível, construí-lo.