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Teoretisk bakgrunn

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Eu vos escrevi, jovens, porque sois fortes, porque a Palavra de Deus permanece em vós, e porque vencestes o maligno. (1Jo 2,14)

Um mito da Polinésia, citado por Mircea Eliade171, fala de um jovem chamado Hutu, cuja lança arremessada o conduzira a Pare, jovem nobre cujo coração havia sido conquistado pela habilidade e pelo porte do moço Hutu, revelando a ele sua admiração e seu amor, o convidou a entrar em sua casa, mas ele recusou e foi embora. Acabrunhada pela vergonha,

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“ordenou aos criados que arranjassem tudo na casa e a colocassem em ordem. Depois ficou sozinha, sentou-se, chorou, pôs-se em pé e enforcou-se.” Cheio de remorsos e temeroso da ira do povo, Hutu decidiu salvar a alma dela no mundo inferior. Primeiramente sentou-se e entoou as palavras mágicas dos sacerdotes relativamente à morte e à morada dos mortos. Depois levantou-se e pôs-se a caminho. Encontrou a Grande-senhora-da-noite, que preside a Terra das Sombras. Quando Hutu perguntou-lhe qual o caminho, ela, mal-humorada como sempre, indicou o atalho que o espírito dos cães tomam para ir ter com às regiões inferiores. Mas suas boas graças foram conquistadas quando o moço ofereceu-lhe a sua preciosa clava manual feita de diorita. Acalmada pelo presente, a deusa indicou o caminho verdadeiro, cozinhou raízes de samambaia para ele e colocou-as num cesto, ao mesmo tempo em que o aconselhava a comer do alimento com parcimônia, pois seria a única comida durante a viagem inteira. Se ele comesse o alimento do mundo inferior, não conseguiria trazer de volta o espírito de Pare, e sua própria alma seria condenada a permanecer naquelas regiões para sempre. A deusa deu-lhe ainda outro conselho: “quando estiveres descendo ao mundo das sombras, inclina tua cabeça, pois quando estiveres próximo dele um vento lá de baixo soprará em ti e levantará novamente a tua cabeça e estarás em posição correta para te apoiares em teus pés ao tocar o solo.[...]” Hutu chegou em segurança ao mundo inferior e quando perguntou por Pare foi informado de que ela estava “na aldeia”. Embora soubesse que Hutu chegara e que a procurava, Pare, envergonhada, ocultou-se. Na esperança de atraí-la para fora de casa, Hutu organizou competições de arremesso de bola giratória e lançamento de dardo, às quais ele sabia que ela gostava de assistir, mas ela não apareceu. Por fim, desgostoso, Hutu disse aos outros participantes: “trazei uma arvore bem comprida e lhe cortemos os galhos”. Feito isso, trançaram-se cordas que foram amarradas ao topo da arvore. Puxando as cordas, as pessoas fizeram a arvore vergar até a copa tocar o solo. Hutu pôs-se sobre a copa e o outro homem sentou-se sobre seus ombros. Hutu gritou “solta”, e a arvore arremessou os dois bem alto. Encantados com a exibição todos gritaram com alegria. Isso foi demais para a curiosidade de Pare e ela se aproximou para assistir ao novo jogo. Finalmente ela disse: “Deixa-me participar também, mas quero eu sentar-me nos teus ombros”. Entusiasmado, Hutu respondeu: “segura-te em meu pescoço, Pare!” O topo da árvore foi novamente puxado para baixo, e largaram-se as cordas ao sinal convencionado. A árvore subiu com tal ímpeto que arremessou as cordas contra a parte inferior do mundo de cima aonde elas se enredaram no capim que existe na entrada do reino das sombras. Subindo pelas cordas trazendo Pare às costas, Hutu emergiu no mundo da luz. Foi diretamente para o local onde jazia o corpo de Pare. O espírito da jovem nobre entrou novamente em seu corpo e reviveu.

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Talvez Pare pudesse ser comparada ao Contestado, ou seja, aos membros da irmandade que lutaram na Guerra do Contestado contra as forças militares e civis que os envergonhavam e os massacravam e hoje pregam que aquele evento foi algo do passado sem relevância para a realidade atual, e Hutu poderia ser comparado àqueles jovens descendentes do Contestado que, apesar de serem julgados culpados pela morte de Pare, na verdade, o que eles procuram é ser protagonistas no resgate do Contestado e na defesa da vida, na construção de uma sociedade melhor, atuando em movimentos sociais e estudantis, em organizações populares e juvenis, em pastorais sociais e da juventude. O Contestado, ressuscitado por Hutu, passa a exercer uma influência positiva, animadora e de encorajamento às novas gerações que lutam por um mundo melhor.

Atualmente são inúmeras as expressões juvenis de resgate da memória do Contestado. Dentre as organizações juvenis que valorizam e debatem o Contestado, em diversas de suas atividades, destacam-se as que trabalham artes e jogos semelhantes àqueles organizados por Hutu. Apenas para citar três exemplos: estudantes da Universidade do Contestado constituíram o grupo teatral de nome “Temporá” e apresentam, desde o ano de 1992 uma peça teatral sobre o Contestado em diversos municípios da região; diversos grupos das Pastorais da Juventude promovem encontros e festivais, tal como o Festicontestado, contemplando diversas modalidades artísticas, inclusive músicas e poesias inéditas sobre o Contestado; grupos ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, como o “Tampa de Panela”, também estão apresentando uma peça teatral, de autoria própria, sobre o Contestado. Diferentemente das outras construções teóricas que preferem deixar Pare no “mundo inferior”, jovens descendentes do Contestado procuram ver nele, não uma coisa do passado sem relação com a realidade atual tal como o fazem os donos dos meios de produção: das terras e águas, das indústrias e empreendimentos capitalistas diversos, nem como objeto de negócios, de finalidades lucrativas como o fazem agentes de turismo, dirigentes de certas universidades e donos de meios de comunicação de massa que ressignificam o Contestado, tornando-o mercadoria; mas, sim, como uma referência utópica, como uma herança cultural e religiosa prenhe de sabedoria que se atualiza e se faz presente nas diferentes organizações populares e juvenis, nas suas formas de resistência diante da opressão e na busca de alternativas, diante das violências e sofrimentos que lhes são impostos, e em vista de um outro mundo possível.

Os jovens, descendentes do Contestado, por um lado, têm sido vítimas de um sistema opressor e geralmente sobrevivem em realidades “inferiores” à média geral, por outro,

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procuram ser sujeitos da história, em iniciativas que refletem diferentes expressões juvenis, uma realidade múltipla, fundada em representações coletivas e individuais diversas. Geralmente, em suas iniciativas, eles fazem memória do Contestado, dando, com isso, sentido à realidade presente e à luta por uma outra sociedade possível.

Pesquisas atuais172 demonstram que muitos jovens, filhos e herdeiros do Contestado, continuam padecendo praticamente os mesmos sofrimentos e também lutando e sonhando de forma semelhante ao que fizeram jovens de outrora. O Contestado deixou grandes marcas no corpo e na alma de nossos avós, de nossa gente. Ele foi um dos maiores conflitos armados da história do Brasil, acontecido num momento em que o imperialismo estadunidense, juntamente com as empresas de colonização e os coronéis, apoiados pelo governo republicano da época, aqui se instalaram para devastar a região, saquear as riquezas e engordar seus lucros. Para isso, inventaram essa guerra no intuito de acabar com as culturas locais nativas e com o povo caboclo, indígena e negro que habitava este chão, pois este povo era visto como ignorante, supersticioso, preguiçoso, pré-moderno e incapaz de desenvolver o País e, por isso, deveria desaparecer, ser liquidado, a região deveria ficar desabitada, a fim de que pudessem aí habitar os colonos euro-descendentes que em breve viriam do Rio Grande do Sul e, também, da Europa e dos Estados Unidos, porém esse povo não aceitou tal projeto e, reunindo-se em redutos, normalmente liderados por jovens, resistiu até a morte na busca de direitos, reconhecimento, terra e dignidade. Essa guerra continua ainda hoje a influenciar a vida, a cultura e a religiosidade do povo da região e especialmente dos jovens que continuam sendo as principais vítimas do atual sistema que, como outrora, é excludente, opressor e violento.

Atualmente, grande parte dos descendentes do Contestado vive numa situação de miséria, violência, desemprego e analfabetismo, porém, mesmo vivendo nesta situação e sendo herdeiros de uma luta inglória, há algo que os move, que faz com que continuem confiando na vida, que oferece um sentido à sua história e não os deixa desesperar. E isso pode ser chamado de mística. Por meio dela, há todo um empenho dos jovens, dos “sem poder”, dos “sem-terra” e dos “sem-direitos” para explicar, justificar e, de algum modo, controlar e enfrentar a atual realidade social que lhes é inaceitável.

172 Esta pesquisa aconteceu nos anos de 2008 e 2009 e realizou 14 entrevistas com jovens ou assessores de organizações, pastorais e movimentos sociais que trabalham com jovens em Santa Catarina. Todos os entrevistados destacam a importância do resgate da história do Contestado como referência importante ou fundamental para uma atuação mais séria e responsável junto à juventude catarinense.

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Partindo do princípio que existem diversas heranças religiosas, culturais e políticas do Contestado, tentar-se-á, a seguir, discorrer não sobre o papel das religiões, suas funções ou seu campo específico de atuação, mas, sim, sobre como alguns jovens, lideranças, descendentes ou atuantes junto a descendentes do Contestado, avaliam a sua religiosidade e a sua atuação social e política, bem como as aproximações que estabelecem entre a sua práxis e o Contestado.

A entrevista supracitada foi realizada com 14 jovens e adultos, líderes ou assessores de grupos, pastorais, movimentos, ONGs e outras organizações de jovens catarinenses cujos propósitos estatutários e práticas visam a construir alternativas, propor ou defender direitos e políticas públicas, resistir ao atual processo de globalização neoliberal, construir uma sociedade democrática, igualitária, com respeito à diversidade cultural, entre outras definições semelhantes que poderiam ser sintetizadas no slogan dos Fóruns Sociais Mundiais: “por um outro mundo possível”.

Vale lembrar que também há algumas dessas organizações juvenis, cujos jovens (entrevistados) a elas associados, entendem-se agentes da construção do Reino de Deus, que passa pela construção de um outro mundo possível, mas que se dão o direito de reservar uma margem de mistério e de religiosidade às suas lutas e propósitos, esta que estaria situada no horizonte utópico, cuja história humana não dá conta de contemplá-lo em toda sua amplitude e abrangência. Estes sonham em construir o impossível, ou seja, o sentido de sua práxis está projetado para além da história do concretamente possível.

A metodologia usada para a pesquisa é a “participante”173, seguida de envio de

questionário. Todas as pessoas que responderam ao questionário conhecem o pesquisador devido aos processos ou eventos de formação, mobilização e organização juvenis que ele tem acompanhado ou assessorado. Ao analisar os resultados dessa pesquisa de campo, que se encontra na íntegra nos anexos, pode-se perceber, nos parágrafos a seguir, a atualidade e a importância do Contestado para jovens.

A maioria dos atuais jovens que melhor se identificam com o Contestado, no seu espírito de resistência e busca de alternativas por um mundo melhor, vivem mais na zona rural

173 Entre os anos de 2007 a 2010, período da realização desta tese, o autor participou e assessorou diversos eventos de juventude em Santa Catarina: festivais, fóruns, encontros, assembleias, escolas de formação, seminários, cursos, reuniões, palestras, mobilizações, missões, celebrações, romarias e outros eventos, cujas constatações, sistematizações, relatórios e análises se encontram nos arquivos pessoais do autor e não serão anexados à tese; todavia serão considerados “du passage” no decorrer dela.

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ou nos bairros das cidades, possuem em média 28 anos, afirmam-se de etnia cabocla, são cristãos católicos, estão cursando ou já concluíram o ensino superior, são educadores (professores) ou agentes de pastoral, atuam em Movimentos Sociais, estudantis, ONGs e nas Pastorais da Juventude. Sua visão político-ideológica incorpora os elementos: democrático, libertário e socialista ou socialista cristão. Destaca-se a crença no protagonismo juvenil na transformação social e na importância estratégica da juventude, na construção de movimentos sociais. Fala-se também da importância de se estar, ensinar e aprender com os jovens para encontrar ou dar um sentido para a vida e da necessidade de se defender e propor políticas públicas para a juventude. O horizonte do Reino de Deus também aparece, com menor insistência, entre os motivos da atuação, dos entrevistados, junto à juventude.

Ao perguntar sobre a importância da entidade, movimento ou organização em que esses jovens líderes/assessores atuam, as respostas colhidas foram agrupadas de maneira semelhante à sugestão de Jacques Delors.174 Em geral as entidades que representam ou assessoram trabalhos com juventude, numa perspectiva de transformação social, colocam-se como sujeitos de um processo de aprendizagem no qual quatro elementos podem ser considerados fundamentais e interconectados dentro de uma mesma perspectiva e unidade. As respostas apontaram, primeiro, para a importância de aprender a “conviver, crer e esperar”, procurando priorizar a coletividade e as redes de esperança, fraternidade e solidariedade;175 segundo, a importância de “aprender a ser e a conhecer”, ganhando destaque aqui as diferentes formas de organização da juventude e a necessidade de um processo educativo e evangelizador, que procure contemplar a integralidade do ser humano em suas relações com o meio ambiente, na perspectiva da transformação da realidade; terceiro, aparece a importância de “aprender a fazer” e a defender alternativas de vida para os jovens.

Hegel já advertia que a primazia pertence não ao mundo dos indivíduos ou das instituições e sim das relações.176 Nos grupos privilegia-se o afetivo, o vivencial, o espontâneo. Especialmente nas grandes metrópoles o indivíduo se sente forçado a se recolher

174 Cf. DELORS, J. (Org.). Educação, um tesouro a descobrir, pp. 89ss. Esta temática também pode ser aprofundada através de vídeo-documentários: Os quatro pilares. Rubem Alves, 2008. Ver também SOUZA, R. Magalhães de. O discurso do protagonismo juvenil, pp.191s.

175 Segundo G. Lutte, citado por Libanio (2004, p.32), o grupo de amigos propicia ao jovem um estatuto autônomo, simbólico, no qual ele é alguém e no grupo lhe é permitido experimentar o que na família e na sociedade em geral não o fazem. Na casa ele é tratado como criança dependente e na sociedade como um menor de idade, sem direitos civis. Isso o leva a preferir passar mais tempo nos grupos de amigos, onde também ele melhor consegue se liberar das angústias e das inseguranças.

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no interior de algum grupo e a aprofundar as relações no interior desse mesmo grupo, não mais como outrora em que se privilegiava aos indivíduos a participação em associações contratuais e racionais. Agora, mesmo acentuando-se a dimensão afetiva e sensível,percebe- se um desabrochar da consciência da vida grupal e uma descoberta da necessidade de organização e participação da vida política. Esta sociabilidade se fundamenta no estar-junto, e, em muitos casos em simples relações tácteis.177 A permanência do grupo, que é algo mais do que uma reunião de indivíduos, é uma comunidade de ideias, preocupações pessoais, estabilidade de estrutura que supera as particularidades dos indivíduos, cujas características de muitos grupos se fundamentam, antes de tudo, no sentimento partilhado.178 Segundo Maffesoli é uma nova ordem: a lógica da fusão. Acredita que a repetida afirmação a respeito do narcisismo, do desenvolvimento do individualismo, que muitos sociólogos se ocupam, não passa de pensamentos de figurino.179 Estamos no âmbito da sociabilidade. Por mais forte que seja a influência da tecnologia na vida dos jovens, como afirma Hilário Dick180 “é muito sintomático que na era da internet, do chat, do orkut e tantas outras invenções de informática, dar-nos conta que nunca na história humana, houve tanta procura juvenil de vivencias grupais.”

A dimensão religiosa ou mística é “fundamental” ou “muito importante” para a maioria das entidades, movimentos ou organização em que os jovens entrevistados atuam. É insignificante o número daqueles que dizem “não ser importante ou ser relativa” essa dimensão. Neste aspecto a relação entre Contestado e mística é muito próxima. Há uma herança mística do Contestado que anima e fortalece as organizações juvenis e populares hoje. Geralmente essa mística não se apresenta como ruptura em relação à tradição católica e cristã mas como uma de suas formas e dimensões. A mística tem um papel fundamental de continuar alimentando a esperança da transformação social; é o eixo aglutinador da juventude, numa época em que esta dimensão é desvalorizada, os jovens buscam matar sua sede do Transcendente. A mística é um motor fundamental de motivação das pessoas, o que contém um potencial importante na mobilização, unificação e ação destas pessoas.

A temática do Contestado tem sido geralmente contemplada e é considerada importante pelos jovens e pelas entidades nas quais atuam. O Contestado aparece enquanto memória histórica e resgate da identidade, cultura e religiosidade popular, importantes na

177 Apud. MAFFESOLI, M. O tempo das tribos, pp.127; 128; 153. 178 MAFFESOLI, M. O tempo das tribos, p.138.

179 LEVI, G. e SCHIMIDT, J-C. História dos jovens (v.2), p.127. 180 DICK, H. Divino no jovem, p.54.

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dinamização da esperança e no encorajamento para a busca de alternativas de vida, e, como referência das causas populares e religiosas, da resistência popular e como referência da crença no Deus dos empobrecidos. Também aparece como referência e lição na luta de classes, por cidadania, pela terra, por libertação e por um outro mundo possível. Sua memória aparece como subversiva, geradora de movimentos sociais e no compromisso com a transformação social.

Dentre as lideranças do Contestado consideradas referências para a práxis e para a vida dos jovens e suas respectivas organizações, aparece, por um lado, um questionamento em relação à “personalização” de líderes como sendo contra os processos de construção coletiva, por outro, destacam-se a presença de João Maria, José Maria, Maria Rosa, Chica Pelega e Adeodato. Vale destacar que João Maria, sequer participou fisicamente em algum momento da guerra, pois não se tem notícias de sua presença na região depois do ano de 1897, e, de Chica Pelega não se tem documentos históricos, ela aparece mais como a mulher guerreira do Contestado. Em relação a Adeodato, liderança principal dos dois últimos anos da Guerra, há certo silêncio, por parte dos entrevistados. Os idosos o demonizam e os jovens silenciam a seu respeito. João Maria ou João Maria D‟Agostini é lembrando como monge, profeta, santo e referência das referências, houve uma positivação crescente a seu respeito. Maria Rosa é lembrada como uma jovem que encarou com coragem a liderança dos caboclos, sem perder de vista a mística. Foi uma jovem guerreira, combatente e persistente na defesa dos direitos do seu povo. José Maria é lembrado como monge e como quem dá o sentido da liderança e da estratégia. Sua morte no primeiro combate da Guerra não é lembrada como sinônimo de martírio, isso se deve, talvez, ao fato de ele ter sido recebido, no pós-Contestado, como um falso profeta, responsável por conduzir o povo à derrota, ao massacre.

Para os entrevistados, o Contestado é sinônimo de luta e resistência, ele incorpora a dimensão da mística e da organização popular, é considerado um movimento camponês, religioso e popular, aparece um corte de classes, um enfrentamento contra o imperialismo e o neoliberalismo e destaca-se a atuação cabocla e a de lideranças jovens, ganha relevância as dimensões profética, messiânica e utópica. Eles consideram como infundadas, incoerentes ou falsas explicações do Contestado, uma que o vê como coisa do passado e sem relação com a realidade atual, como uma luta de lunáticos, fanáticos e ignorantes, uma guerra suicida e alienada baseada em ideias mágicas e superstições.

Em relação à comemoração dos 100 anos do Contestado, percebe-se que os jovens entrevistados questionam a dimensão festiva inerente à palavra comemoração e sugerem um processo valorização e resgate da memória popular e da resistência dos antepassados, com

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celebrações visando o fortalecimento e a articulação dos movimentos populares e organizações juvenis, tratando do Contestado como um marco histórico para a construção de uma vida igualitária, solidária e ecologicamente sustentável e saudável, resgatando dívidas sociais e combatendo a ideologia triunfalista neoliberal, mercadológica e turística que vem se

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